Louquética

Incontinência verbal

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O tempo e as palavras

 


Vamos abrindo as páginas de um ano novo.

A vida própria depende pouco de ritos de passagem. Todavia, precisamos de calendários para administrar o tempo, para marcar a passagem do tempo. No fundo, o calendário real é aquele que a gente internaliza, com nosso tempo psicológico das coisas que são passíveis de lembrança do tipo ‘lembro como se fosse hoje’, mostrando a intensidade do que foi vivido ou o significado que as circunstâncias têm para aquele que recorda.

Todos nós temos certa inquietação por não controlar o tempo: gostaríamos de esquecer aquele amor rapidamente; gostaríamos de dormir sem pensar nos traumas do dia e de acordar sem guardar os efeitos do mal-estar vivido, da palavra dura que foi ouvida, das dores que compõem situações desagradáveis. E como queríamos prolongar prazeres, fazer durar aquela sensação boa, aquele sabor gostoso, aquele dia em que tudo deu certo e a vida pareceu ser tão nossa amiga, que a gente agradeceu por existir. Somos mais das dores do que dos prazeres. A memória guarda mais as vivências desagradáveis porque é um modo de se prevenir, de usar a experiência ruim para nunca mais repeti-la. No amor, entretanto, costuma acontecer de a gente se permitir ficar perto de quem nos machuca porque aquela dor se torna conhecida. Portanto, você já a conhece e pensa que a domina, pois antevê até onde ela vai. Isso explica nossa pouca capacidade de esquecer alguém, mesmo quando racional e conscientemente queremos esquecê-lo. Temos medo do vazio. E, de fato, o vazio nos transtorna. Uma dor ocupa a gente, por meio de uma busca por resolvê-la. No fundo, a gente não quer esquecer coisa nenhuma, para não enfrentar a fera do vazio.

Se a pessoa ficar amiga do tempo, aí, sim, ele ajudará a esquecer, forçando a desistência. Sim, é preciso desistir, renunciar, largar a pessoa amada. Largar é não querer mais saber. O princípio básico da psicologia para sair dos vícios vale aqui também: Hábitos (mudar), Pessoas (estar com outras pessoas) e Lugares (buscar frequentar outros) precisam ser modificados!

Uma festa ou uma viagem não farão mudar nada. São um recurso pontual. Mas, a longo prazo, mudar hábitos, pessoas e lugares lhe tira de contextos que favorecem a permanência naquele afeto – qualquer que seja ele.

Há pessoas e situações que não podemos mudar. Neste caso, quem muda (ou se muda) é a gente.

Fico pasma com o número de pessoas que esperam o ano novo para planejar fazer um curso, um concurso, uma academia. Desde que se tenha condições de fazê-los, o tempo é seu, a decisão é sua e não cabe esperar.

Exceto por questões de planejamento e organização, isto é, umas férias, um ‘juntar dinheiro para’, um período após um curso, isto é, coisas alheias à nossa vontade, todo o resto só depende da ação. Com isso, se não somos donos do tempo, somos donos de nossas vontades e, quanto mais fortes e sinceras elas são, tanto mais agimos por elas. Palavra não é força coisa nenhuma. Palavra é só palavra. Quantas vezes você deu a sua palavra? Quantas vezes você se banhou em palavras bonitas, sagradas e positivas? Não deu certo, não foi? É que não existe palavra mágica, não há abracadaba a abrir portas, não. Quem tem força é o desejo, é a vontade.

Palavra é força na psicanálise, no texto literário, por motivos óbvios e específicos. O resto é convenção cultural e não deveria cruzar a fronteira das crenças pessoais, nem arrancar as pessoas da realidade material e objetiva. Palavra sem ação, seu político favorito já lhe ensinou quanto vale. Aprenda com ele!