Vamos abrindo as páginas de um ano novo.
A vida própria depende pouco de ritos de passagem. Todavia, precisamos de
calendários para administrar o tempo, para marcar a passagem do tempo. No fundo,
o calendário real é aquele que a gente internaliza, com nosso tempo psicológico
das coisas que são passíveis de lembrança do tipo ‘lembro como se fosse hoje’,
mostrando a intensidade do que foi vivido ou o significado que as
circunstâncias têm para aquele que recorda.
Todos nós temos certa
inquietação por não controlar o tempo: gostaríamos de esquecer aquele amor
rapidamente; gostaríamos de dormir sem pensar nos traumas do dia e de acordar
sem guardar os efeitos do mal-estar vivido, da palavra dura que foi ouvida, das
dores que compõem situações desagradáveis. E como queríamos prolongar prazeres,
fazer durar aquela sensação boa, aquele sabor gostoso, aquele dia em que tudo
deu certo e a vida pareceu ser tão nossa amiga, que a gente agradeceu por
existir. Somos mais das dores do que dos prazeres. A memória guarda mais as
vivências desagradáveis porque é um modo de se prevenir, de usar a experiência
ruim para nunca mais repeti-la. No amor, entretanto, costuma acontecer de a
gente se permitir ficar perto de quem nos machuca porque aquela dor se torna conhecida.
Portanto, você já a conhece e pensa que a domina, pois antevê até onde ela vai.
Isso explica nossa pouca capacidade de esquecer alguém, mesmo quando racional e
conscientemente queremos esquecê-lo. Temos medo do vazio. E, de fato, o vazio
nos transtorna. Uma dor ocupa a gente, por meio de uma busca por resolvê-la. No
fundo, a gente não quer esquecer coisa nenhuma, para não enfrentar a fera do vazio.
Se a pessoa ficar
amiga do tempo, aí, sim, ele ajudará a esquecer, forçando a desistência. Sim, é
preciso desistir, renunciar, largar a pessoa amada. Largar é não querer mais
saber. O princípio básico da psicologia para sair dos vícios vale aqui também:
Hábitos (mudar), Pessoas (estar com outras pessoas) e Lugares (buscar frequentar
outros) precisam ser modificados!
Uma festa ou uma
viagem não farão mudar nada. São um recurso pontual. Mas, a longo prazo, mudar
hábitos, pessoas e lugares lhe tira de contextos que favorecem a permanência
naquele afeto – qualquer que seja ele.
Há pessoas e
situações que não podemos mudar. Neste caso, quem muda (ou se muda) é a gente.
Fico pasma com o
número de pessoas que esperam o ano novo para planejar fazer um curso, um
concurso, uma academia. Desde que se tenha condições de fazê-los, o tempo é seu,
a decisão é sua e não cabe esperar.
Exceto por questões
de planejamento e organização, isto é, umas férias, um ‘juntar dinheiro para’,
um período após um curso, isto é, coisas alheias à nossa vontade, todo o resto
só depende da ação. Com isso, se não somos donos do tempo, somos donos de
nossas vontades e, quanto mais fortes e sinceras elas são, tanto mais agimos
por elas. Palavra não é força coisa nenhuma. Palavra é só palavra. Quantas vezes você deu a sua palavra? Quantas vezes você se banhou em palavras bonitas, sagradas e positivas? Não deu certo, não foi? É que não existe palavra mágica, não há abracadaba a abrir portas, não. Quem tem força é o desejo, é a vontade.
Palavra é força na psicanálise, no texto literário, por motivos óbvios e específicos. O resto é convenção cultural e não deveria cruzar a fronteira das crenças pessoais, nem arrancar as pessoas da realidade material e objetiva. Palavra sem ação, seu político favorito já lhe ensinou quanto vale. Aprenda com ele!