Louquética

Incontinência verbal

terça-feira, 17 de março de 2026

NÃO ACONTECEU NADA!


 

"Não foi nada"; "Não aconteceu nada"; "Ainda bem que não aconteceu nada."

Dizemos isso. Ouvimos isso e até acreditamos.

Uma amiga me contou sobre o dia em que um paquera de escola a convidou para ficarem a sós, na casa dele, numa tarde do ano em que eles tinham 14 anos.

Ela foi, toda feliz. Ele era um cara gente boa. Mas, os caras gente boa da escola andam sempre com outros caras e a pertença a um grupo pede mensalidades sob forma de missões e desafios.

Minha amiga percebeu movimentos do lado de fora da casa. Sim, o cara gente boa tinha permitido que outros meninos espreitassem as intimidades do casal, deixando minha amiga vulnerável a futuras chantagens. NÃO ACONTECEU NADA. Ela saiu de lá. Não aconteceu nada porque ela saiu de lá.

Ao voltar para casa, tão perto dessa outra onde ela estivera, ouviu pedras estalando no telhado.

Isso se repetiu várias vezes, por um longo tempo. Minha amiga estava triste e não tinha a quem contar tudo isso – os pais, rígidos, passavam o dia no trabalho e não saberiam nunca nada sobre isso.

Na mesma semana, o pai dela ofereceu a carona de sempre ao cara legal. Lá se foram os três, como se nada houvesse acontecido e, assim ficou consolidado como verdade que NÃO ACONTECEU NADA.

Devo dizer, porém, que aconteceu muita coisa: trauma, risco, perda de confiança, desilusão e uma violência brutal e continuada, pois a turma dele apedrejou a casa dela.

Falávamos disso há uns cinco dias, por conta de discutirmos o estupro coletivo recentemente noticiado, de que foi vítima uma adolescente de 17 anos, neste ano, no Rio de Janeiro.

Ali, houve a consumação física da violência sexual – quebrar costelas, dar murros e tapas e lacerar o tecido genital foram atos que também compuseram o crime.

Minha amiga, então, se comparou. Teve o senso de que viveu coisa análoga no risco que correu, mas achava que NÃO ACONTECEU NADA, uma vez que saiu fisicamente ilesa, íntegra.

Também passei por tentativas de estupro, por parte de um adulto de 33 anos, namorado de minha tia, quando eu tinha 11 anos.

Já adulta, ao falar  sobre isso com uma especialista, ela também me disse que ‘ainda bem que NÃO ACONTECEU NADA’.

Registro o meu sincero PUTA QUE O PARIU! Que subestima às nossas dores! Que menosprezo pelas meninas, pelas mulheres, por nossa infelicidade.

Há uma menos-valia, uma invalidação das nossas dores. No meu caso, então, ainda há o gerenciamento emocional dos adultos porque me disseram: “se o seu pai souber de uma coisa dessas, é capaz até de ter morte”. E minha tia se limitou a me dizer que 'Homem é bicho" e prosseguiu com o relacionamento dela. Então, como somos ensinadas que NÃO ACONTECEU NADA, convém calar e evitar mortes e contendas.

Mas, a história não cala em nós.

Não há silêncio real na alma e na mente, porque além de sofrer, é preciso calar a boca.

Um certo namorado meu defendia tudo isso, de silêncio, como forma de driblar o trauma, pois, para ele, admitir a violência sofrida é apego ao sofrimento. Para ele, o reconhecimento da violência sofrida causa trauma. O que é interessante é que a vítima de violência também demora a identificar, reconhecer e admitir o que é estupro, o que é abuso, o que é importunação, pois há desinformação em convívio com a normalização de comportamentos abusivos masculinos.

Já contei de minha amiga Sheila, que, quando tinha 11 ANOS, ‘casou’ com um homem de 40. Na cabeça dela, o ‘marido’ a salvou da fome, da família pobre, violenta e ignorante. Ela vivia num povoado do interior do Ceará. Ele apareceu, os pais deram o aval.

Sheila e eu nos conhecemos quando ela veio à cidade em que moro, acompanhar o já muito velho marido, que estava em tratamento de saúde. Ele morreu pouco tempo depois. E também a ela foi recomendado considerar que NÃO ACONTECEU NADA no fato de que ela era uma criança que foi viver maritalmente com um explorador.

Parece muito com histórias que saíram recentemente nos jornais e portais, não é? Não é ficção. Todas as pessoas até aqui referidas existem mesmo. É que, no caso nosso, não gerou desdobramento jurídico-punitivo para as partes adversárias. É que os tempos eram outros. É esquisito dizer isso quando constatamos que, na realidade, eram tempos muito parecidos com hoje em dia, porque a violência contra meninas e mulheres nunca foi menor, não: hoje se tem leis e divulgação e essa é a diferença.

Ainda temos quem julgue moralmente as meninas, as mulheres; ainda temos homens que se julgam proprietários dos corpos femininos. Ainda temos uma sociedade permissiva com os homens e que incentivam as mulheres a ignorarem a violência moral e a violência sexual, em especial, quando se trata de sexo não genital, de abusos e importunação. Ensinam que está tudo bem, pois NÃO ACONTECEU NADA!



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A quem serve conservar?

 


Aqui estamos nós, enquanto pessoas que vivem o mesmo tempo e a mesma era, a conviver com recuos de humanidade, de pensamento, de percepção e de comportamentos.

À charmosa palavra retrô, sucedeu o retrocesso. Sim, andamos para trás.

Encolheram-se os direitos trabalhistas, diminuiu-se a habilidade de enxergar o mundo em sua multiplicidade de aspectos, sumiu o diálogo, a presencialidade e a capacidade de chorar perdas e viver lutos.

Hoje, estamos preocupados em validar laudos que justifiquem nossas angústias, nossas individualidades e, até, que justifiquem o fato de que os outros são diferentes de nós.

Rasgaram os escritos de Freud e Lacan, a favor de diagnósticos de internet. Qualquer mané ou manuela chamará de narcisista àquele sujeito canalha e àquela mãe negligente – não sabendo, ao que parece, que gente assim já existia desde o princípio da vida na Terra. E, claro, narcisista é o Outro. Freud, coitado, foi mal apropriado, vulgarizado e distorcido em seus conceitos. Mas, ele tem experiência nisso, já que no Brasil, recalque foi outro termo distorcido e virou até letra de funk.

Andar para trás e ser conservador: dois movimentos sincrônicos para que nada se mova e nada saia do lugar. Obviamente, para conservar alguma coisa (desconfio que quem quis conservar já apodreceu a mente em alguma medida, para esticar a validade do que expirou), deve ser prioridade o que me traga benefícios. Porém, conservar o Meio Ambiente, ninguém quer, não é? Conservar a proteção aos direitos básicos das pessoas menos favorecidas, ninguém quer também. Antes de tudo, deveríamos nos perguntar o que há de bom a ser conservado e, se há, é bom para quem?

Lembrei de umas pessoas bem idiotas que, para se fazerem de sublimes, diziam que a morte do cachorro Orelha chocou mais do que a morte diária de segmentos excluídos da nossa sociedade. O comentarista, querendo dar lição de moral, induzia à interpretação de que deveríamos ser sensíveis ao humano. Velha conversa, do tipo: “Troque seu cachorro por uma criança pobre” (ressalvando que o Eduardo Dusek é genial, irônico e divertido). Conversinha que cai quando a gente indaga ao defensor/detentor da moral e dos bons costumes sobre quantas crianças ele tem ajudado. Já sabem a respota, né? Nenhuma. E nenhum cachorro também.

Fico feliz pela mobilização social em favor dos direitos dos animais, pela indignação geral pela morte do cachorro Orelha! Ainda temos humanidade em nós!

Amar e defender os bichos não exclui amar e defender outros seres humanos. Porém, os animais são mais indefesos.

É preciso aturar à outra parte que também dirá que não se pode lamentar a tortura, espancamento e morte de um cachorro, porque a sociedade mata em abatedouros e todos aceitamos. Nessas lógicas, perdemos o direito a termos sensibilidade, exceto por aquilo a que formos autorizados.

Então, esperamos a autorização necessária para podermos expressar sentimentos.

Eu, que prossigo achando que o maior amigo do homem é o cavalo (Apanha, sustenta famílias que o espancam e lhe privam de água e comida e, ainda, esteve em guerras ao longo do tempo), sonho com leis que o libertem de carroças e maus tratos. Todavia, o conservador se adianta e diz que acha lindo, bucólico e romântico ver carroças, que lhe ‘lembram tanto os livros do século XVII, XVIII, XIX”... Pessoas assim que deveriam ser privadas de energia elétrica (e de anestesia), para poderem se sentir como em tempos passados...Ah, para esses tipos, como é bom conservar...Conservar a mulher no seu lugar (submissa, no lar); os negros em seus lugares (na escravidão, na subalternidade); os indígenas, não: não precisa conservar, porque eles eram muitos e o Brasil era cheio deles...blablablá. Era muita terra para indígena, então, melhor é trazê-los para a vida civilizada, de dizimação mesmo, porque “os mansos herdarão a terra” (pausa dramática: escrevi com ironia, mas juro a vocês que ouvi exatamente isso de uma mulher do Centro espírita que eu frequento). E foi assim que a lei retroagiu, sob o nome de Marco Temporal, que, de modo geral, quer dizer que o indígena cuja terra não lhe foi outorgada antes de 1988, não tem direito a ela. Alguém aí se lembra de que antes da invasão de Portugal, antes de 1500, os indígenas viviam aqui? A terra seria de quem? E nós aceitamos passivamente que os donos da terra precisem se submeter a demarcações. Não faltará nunca quem repita que “bom era antigamente!” – bom para quem? 

Fica a dica: conserve o respeito. Isso basta!


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O tempo e as palavras

 


Vamos abrindo as páginas de um ano novo.

A vida própria depende pouco de ritos de passagem. Todavia, precisamos de calendários para administrar o tempo, para marcar a passagem do tempo. No fundo, o calendário real é aquele que a gente internaliza, com nosso tempo psicológico das coisas que são passíveis de lembrança do tipo ‘lembro como se fosse hoje’, mostrando a intensidade do que foi vivido ou o significado que as circunstâncias têm para aquele que recorda.

Todos nós temos certa inquietação por não controlar o tempo: gostaríamos de esquecer aquele amor rapidamente; gostaríamos de dormir sem pensar nos traumas do dia e de acordar sem guardar os efeitos do mal-estar vivido, da palavra dura que foi ouvida, das dores que compõem situações desagradáveis. E como queríamos prolongar prazeres, fazer durar aquela sensação boa, aquele sabor gostoso, aquele dia em que tudo deu certo e a vida pareceu ser tão nossa amiga, que a gente agradeceu por existir. Somos mais das dores do que dos prazeres. A memória guarda mais as vivências desagradáveis porque é um modo de se prevenir, de usar a experiência ruim para nunca mais repeti-la. No amor, entretanto, costuma acontecer de a gente se permitir ficar perto de quem nos machuca porque aquela dor se torna conhecida. Portanto, você já a conhece e pensa que a domina, pois antevê até onde ela vai. Isso explica nossa pouca capacidade de esquecer alguém, mesmo quando racional e conscientemente queremos esquecê-lo. Temos medo do vazio. E, de fato, o vazio nos transtorna. Uma dor ocupa a gente, por meio de uma busca por resolvê-la. No fundo, a gente não quer esquecer coisa nenhuma, para não enfrentar a fera do vazio.

Se a pessoa ficar amiga do tempo, aí, sim, ele ajudará a esquecer, forçando a desistência. Sim, é preciso desistir, renunciar, largar a pessoa amada. Largar é não querer mais saber. O princípio básico da psicologia para sair dos vícios vale aqui também: Hábitos (mudar), Pessoas (estar com outras pessoas) e Lugares (buscar frequentar outros) precisam ser modificados!

Uma festa ou uma viagem não farão mudar nada. São um recurso pontual. Mas, a longo prazo, mudar hábitos, pessoas e lugares lhe tira de contextos que favorecem a permanência naquele afeto – qualquer que seja ele.

Há pessoas e situações que não podemos mudar. Neste caso, quem muda (ou se muda) é a gente.

Fico pasma com o número de pessoas que esperam o ano novo para planejar fazer um curso, um concurso, uma academia. Desde que se tenha condições de fazê-los, o tempo é seu, a decisão é sua e não cabe esperar.

Exceto por questões de planejamento e organização, isto é, umas férias, um ‘juntar dinheiro para’, um período após um curso, isto é, coisas alheias à nossa vontade, todo o resto só depende da ação. Com isso, se não somos donos do tempo, somos donos de nossas vontades e, quanto mais fortes e sinceras elas são, tanto mais agimos por elas. Palavra não é força coisa nenhuma. Palavra é só palavra. Quantas vezes você deu a sua palavra? Quantas vezes você se banhou em palavras bonitas, sagradas e positivas? Não deu certo, não foi? É que não existe palavra mágica, não há abracadaba a abrir portas, não. Quem tem força é o desejo, é a vontade.

Palavra é força na psicanálise, no texto literário, por motivos óbvios e específicos. O resto é convenção cultural e não deveria cruzar a fronteira das crenças pessoais, nem arrancar as pessoas da realidade material e objetiva. Palavra sem ação, seu político favorito já lhe ensinou quanto vale. Aprenda com ele!