Louquética

Incontinência verbal

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Livre arbítrio?


 

De alguma forma eu sempre concebi a parcialidade do conceito e da ideia de livre arbítrio.

Pule a parte filosófica das proposições de Santo Agostinho. Pule os dogmas religiosos. Vamos tratar com o substrato vivo e cru da vida nossa de cada dia!

Eu considerava que, por exemplo, quando somos crianças, não temos livre arbítrio verdadeiro ou consistente, não decidimos, não escolhemos, não optamos, porque quem decide por nós são os nossos pais ou responsáveis.

Crescemos e, até que completemos nossa maioridade legal ou que busquemos meios de emancipação (trabalhar, prover a si mesmo, etc.), continuamos com livre arbítrio parcial.

Finalmente, quando adultos e plenos intelectualmente para exercer nosso livre arbítrio, ele continua falho, pois, como posso fazer escolhas se não vejo as alternativas? Portanto, há muitas situações em que ficamos com a impressão de que ‘não tivemos escolha’, pois enxergamos o que estava à frente do nosso nariz; e não vimos outros ângulos, outras camadas.

Escolher e tomar decisões são ações difíceis. Nada muda isso. A gente analisa riscos, pesa, avalia consequências, desdobramentos, faz cálculos morais e opta.

Ouvi Humberto Matos, no You Tube,  citando algo que, definitivamente, abalou ainda mais minha (des)crença no exercício do livre arbítrio. Ele explicava, tomando o cenário capitalista como referência, que não há livre arbítrio quando, por exemplo, um trabalhador não pode escolher entre ser explorado em um emprego ou morrer de fome; entre romper com muitas estruturas e engrenagens de exploração, de um modo geral, que põem na berlinda a sobrevivência.

Se não disponho de recursos materiais, formativos, intelectuais, não posso determinar ou fazer escolhas reais em muitos setores da vida.

Portanto, situações extremas, ou situações em que não ocupamos posição de comando ou de livre-escolha, (isto é, quero ou não quero) destoam da idealização de livre arbítrio. Eu acrescentaria outras parcelas nessa equação: como construir maturidade para escolher? Como aceitar as consequências das más escolhas? Haverá má/boa escolha? E quando a maioria decide por nós (em questões eletivas, votos, leis, determinações, plebiscitos, etc.), presumivelmente, fizemos um pacto de aceitação, tornando o livre arbítrio coletivo. Neste caso, qual o limite de nossas responsabilidades?

Acredito cada vez menos em livre arbítrio, o que não implica dizer que eu ache que não tenhamos escolhas ou que sejamos deterministas. Quando Pierre Bourdieu movimenta o conceito de capital cultural, por exemplo, ele aponta para a formação do gosto. Podemos aplicar a mesma linha de raciocínio para as influências culturais e sociais que se introjetam em nós e, obviamente, moldam escolhas – vez por outra, algum elo dessa corrente se torna mais independente (embora ainda influenciado pela cultura e pelo tempo) e rompe a repetição das escolhas, tal como as mulheres que já podem admitir que não querem  ser mães e se apropriam do livre arbítrio para não serem. Neste caso, a dimensão política aparece também, ao lado de imperativos religiosos e há, ainda, o braço repressivo e conservador da cultura e da agenda moral, de modo que todos esses elementos formam cercas para limitar o que seria de foro íntimo, particular e individual.

Excedida a fronteira entre o individual e o coletivo, quanto há de liberdade no suposto livre arbítrio?

 

sábado, 2 de maio de 2026

Amor muda mundos?

 


Para amar qualquer pessoa é necessário ter uma boa dose de fantasia. Há quem condense tudo sob o termo ‘idealização’, mas não acredito muito nisso.

Não acho que amor seja cego: acho que ele enxerga tudo, apenas tem miopia e diminui o que vê de defeitos, ou turva a visão sob alguns aspectos, joga sombras. Sem fantasia não há amor possível, porque um amor sem sonhos é desilusão pura.

Decerto, tem as criaturas extremamente bobas a ponto de esperar mudanças no ser amado. Mudanças no que se refere a melhoras, ao abandono de um vício, a algum sacrifício de conduta que se processe em favor da relação a dois. Não, ninguém muda ninguém. Quem muda, o faz em proveito próprio, por razões particulares e motivos subjetivos e individuais.

Isso indica que certos aspectos da personalidade são rígidos. Tantos os bons, quanto os maus. Portanto, se houver mudança devido a fatores externos (para não magoar alguém, para não correr o risco da relação acabar, para não decepcionar alguém), nunca será verdadeira: ali há uma casca, um verniz bem pintado, de novas posturas, porque é uma mudança para o outro – e a mudança também pode advir de ameaças ou de coação. Então, as vontades não passam, o caráter não melhora e a pessoa só não pratica o que quer e o que deseja porque não tem condições de fazê-lo.

O autocontrole pode funcionar na contenção, apenas. A mudança verdadeira não aconteceu. Deste modo, é como trancar a fera no porão. Ela está lá – pode não rugir, não fugir e não se mexer, mas está ali.

A fera pode ser a nossa própria, defrontada com as necessidades de ser contida ante a ameaça de perda. Costumam chamar isso de inteligência emocional. E quem entender direito vai saber que essa conversa oca sobre inteligência emocional significa dominar vontades e instintos estrategicamente. Para quem não é um robô, não tem tantos ganhos quanto parece.

Dominar o nervosismo ante uma plateia ou em situação de tensão e disputa por cargos ou afins, faz parte do viver. Ainda mais se claramente há alguém querendo nos desestabilizar. Mas, isso não pode ocorrer sempre: é preciso dar vazão àquela parte instintiva que nos preserva e que nos torna gente. Não despreze seus instintos. Em vez de querer ir a outro continente procurar suas supostas ancestralidades, desça um pouco ao seu ancestral primitivo, àquele que lhe/nos fez chegar a ser homo sapiens sapiens. Sim, precisamos daquele ancestral primitivo que legou à humanidade o instinto de sobrevivência, que modulou o instinto de caça, de fuga, de estratégias de resistência em contextos inóspitos. Não precisa se tornar um brucutu por isso!

Aprendemos muito mal até aqui. E estamos piorando à medida que adotamos o mal conselho de não poder ser ‘emocionado’. Aconselho: xingue, assuma seus ódios, suas perdas. Não precisa declarar em um outdoor, mas reconheça o que lhe toca. As coisas que são de foro íntimo não precisam ser gritadas da sacada do prédio, mas ninguém está privado de ser, ter, sentir, seja lá o que for.

A gente às vezes se nota decepcionado com alguém e somente aí está algo bastante compreensível na seara do amor: não tem como sabermos certos fatores ou vermos certos defeitos das pessoas (quiçá os nossos), mesmo com certo tempo de contato. Explico: muitas vezes, não houve oportunidade, não aconteceu nenhuma ocasião que fizesse vir à tona um defeito.  É em uma situação nova que um novo ângulo de uma pessoa pode se apresentar – seja uma briga de trânsito, uma perda de dinheiro, um confronto entre parentes, uma partilha de bens, uma situação de doença, dentre tantos cenários e ocorrências possíveis na vida de um ser humano. Nessas horas, a gente fala o clássico ‘eu nunca imaginei que ele/ela fosse assim’.

Eu não vou deixar de amar alguém por causa de defeitos. Se alguém deixar de me amar por causa dos meus defeitos, estou frita! Somos o conteúdo inteiro: embalagem, conteúdo e ingredientes. A gente pode apresentar nova fórmula, nova embalagem ou uma versão plus, mas mudamos por um processo íntimo e particular. Mudar, por causa dos outros, nunca será uma mudança de verdade.