Para amar qualquer pessoa
é necessário ter uma boa dose de fantasia. Há quem condense tudo sob o termo ‘idealização’,
mas não acredito muito nisso.
Não acho que amor seja
cego: acho que ele enxerga tudo, apenas tem miopia e diminui o que vê de
defeitos, ou turva a visão sob alguns aspectos, joga sombras. Sem fantasia não
há amor possível, porque um amor sem sonhos é desilusão pura.
Decerto, tem as
criaturas extremamente bobas a ponto de esperar mudanças no ser amado. Mudanças
no que se refere a melhoras, ao abandono de um vício, a algum sacrifício de
conduta que se processe em favor da relação a dois. Não, ninguém muda ninguém.
Quem muda, o faz em proveito próprio, por razões particulares e motivos
subjetivos e individuais.
Isso indica que
certos aspectos da personalidade são rígidos. Tantos os bons, quanto os maus.
Portanto, se houver mudança devido a fatores externos (para não magoar alguém, para não
correr o risco da relação acabar, para não decepcionar alguém), nunca
será verdadeira: ali há uma casca, um verniz bem pintado, de novas posturas,
porque é uma mudança para o outro – e a mudança também pode advir de ameaças ou
de coação. Então, as vontades não passam, o caráter não melhora e a pessoa só
não pratica o que quer e o que deseja porque não tem condições de fazê-lo.
O autocontrole pode
funcionar na contenção, apenas. A mudança verdadeira não aconteceu. Deste modo,
é como trancar a fera no porão. Ela está lá – pode não rugir, não fugir e não
se mexer, mas está ali.
A fera pode ser a nossa
própria, defrontada com as necessidades de ser contida ante a ameaça de perda.
Costumam chamar isso de inteligência emocional. E quem entender direito vai
saber que essa conversa oca sobre inteligência emocional significa dominar
vontades e instintos estrategicamente. Para quem não é um robô, não tem tantos
ganhos quanto parece.
Dominar o nervosismo
ante uma plateia ou em situação de tensão e disputa por cargos ou afins, faz
parte do viver. Ainda mais se claramente há alguém querendo nos
desestabilizar. Mas, isso não pode ocorrer sempre: é preciso dar vazão àquela parte
instintiva que nos preserva e que nos torna gente. Não despreze seus instintos.
Em vez de querer ir a outro continente procurar suas supostas ancestralidades,
desça um pouco ao seu ancestral primitivo, àquele que lhe/nos fez chegar a ser
homo sapiens sapiens. Sim, precisamos daquele ancestral primitivo que legou à humanidade
o instinto de sobrevivência, que modulou o instinto de caça, de fuga, de
estratégias de resistência em contextos inóspitos. Não precisa se tornar um
brucutu por isso!
Aprendemos muito mal
até aqui. E estamos piorando à medida que adotamos o mal conselho de não poder
ser ‘emocionado’. Aconselho: xingue, assuma seus ódios, suas perdas. Não precisa declarar
em um outdoor, mas reconheça o que lhe toca. As coisas que são de foro íntimo
não precisam ser gritadas da sacada do prédio, mas ninguém está privado de ser,
ter, sentir, seja lá o que for.
A gente às vezes se nota
decepcionado com alguém e somente aí está algo bastante compreensível na seara
do amor: não tem como sabermos certos fatores ou vermos certos defeitos das
pessoas (quiçá os nossos), mesmo com certo tempo de contato. Explico: muitas
vezes, não houve oportunidade, não aconteceu nenhuma ocasião que fizesse vir à
tona um defeito. É em uma situação nova que
um novo ângulo de uma pessoa pode se apresentar – seja uma briga de trânsito, uma
perda de dinheiro, um confronto entre parentes, uma partilha de bens, uma
situação de doença, dentre tantos cenários e ocorrências possíveis na vida de
um ser humano. Nessas horas, a gente fala o clássico ‘eu nunca imaginei que
ele/ela fosse assim’.
Eu não vou deixar de amar alguém por causa de defeitos. Se alguém deixar de me amar por causa dos meus defeitos, estou frita! Somos o conteúdo inteiro: embalagem, conteúdo e ingredientes. A gente pode apresentar nova fórmula, nova embalagem ou uma versão plus, mas mudamos por um processo íntimo e particular. Mudar, por causa dos outros, nunca será uma mudança de verdade.
