"Não foi nada"; "Não aconteceu nada"; "Ainda bem que não aconteceu nada."
Dizemos isso. Ouvimos
isso e até acreditamos.
Uma amiga me contou
sobre o dia em que um paquera de escola a convidou para ficarem a sós, na casa
dele, numa tarde do ano em que eles tinham 14 anos.
Ela foi, toda feliz.
Ele era um cara gente boa. Mas, os caras gente boa da escola andam sempre com
outros caras e a pertença a um grupo pede mensalidades sob forma de missões e
desafios.
Minha amiga percebeu
movimentos do lado de fora da casa. Sim, o cara gente boa tinha permitido que
outros meninos espreitassem as intimidades do casal, deixando minha amiga vulnerável
a futuras chantagens. NÃO ACONTECEU NADA. Ela saiu de lá. Não aconteceu nada porque ela saiu de lá.
Ao voltar para casa,
tão perto dessa outra onde ela estivera, ouviu pedras estalando no telhado.
Isso se repetiu
várias vezes, por um longo tempo. Minha amiga estava triste e não tinha a quem
contar tudo isso – os pais, rígidos, passavam o dia no trabalho e não saberiam
nunca nada sobre isso.
Na mesma semana, o pai dela ofereceu
a carona de sempre ao cara legal. Lá se foram os três, como se nada houvesse
acontecido e, assim ficou consolidado como verdade que NÃO ACONTECEU NADA.
Devo dizer, porém,
que aconteceu muita coisa: trauma, risco, perda de confiança, desilusão e uma
violência brutal e continuada, pois a turma dele apedrejou a casa dela.
Falávamos disso há
uns cinco dias, por conta de discutirmos o estupro coletivo recentemente noticiado,
de que foi vítima uma adolescente de 17 anos, neste ano, no Rio de Janeiro.
Ali, houve a
consumação física da violência sexual – quebrar costelas, dar murros e tapas e lacerar o tecido genital foram atos que também compuseram o crime.
Minha amiga, então,
se comparou. Teve o senso de que viveu coisa análoga no risco que correu, mas achava
que NÃO ACONTECEU NADA, uma vez que saiu fisicamente ilesa, íntegra.
Também passei por tentativas de estupro, por parte de um adulto de 33 anos, namorado de minha tia, quando eu tinha 11 anos.
Já adulta, ao falar sobre isso com uma especialista,
ela também me disse que ‘ainda bem que NÃO ACONTECEU NADA’.
Registro o meu
sincero PUTA QUE O PARIU! Que subestima às nossas dores! Que menosprezo pelas meninas,
pelas mulheres, por nossa infelicidade.
Há uma menos-valia,
uma invalidação das nossas dores. No meu caso, então, ainda há o gerenciamento
emocional dos adultos porque me disseram: “se o seu pai souber de uma coisa
dessas, é capaz até de ter morte”. E minha tia se limitou a me dizer que 'Homem é bicho" e prosseguiu com o relacionamento dela. Então, como somos ensinadas que NÃO ACONTECEU
NADA, convém calar e evitar mortes e contendas.
Mas, a história não
cala em nós.
Não há silêncio real
na alma e na mente, porque além de sofrer, é preciso calar a boca.
Um certo namorado
meu defendia tudo isso, de silêncio, como forma de driblar o trauma, pois, para
ele, admitir a violência sofrida é apego ao sofrimento. Para ele, o reconhecimento da violência sofrida causa trauma. O que é interessante é que a vítima de violência também demora a identificar, reconhecer e admitir o que é estupro, o que é abuso, o que é importunação, pois há desinformação em convívio com a normalização de comportamentos abusivos masculinos.
Já contei de minha
amiga Sheila, que, quando tinha 11 ANOS, ‘casou’ com um homem de 40. Na cabeça
dela, o ‘marido’ a salvou da fome, da família pobre, violenta e ignorante. Ela
vivia num povoado do interior do Ceará. Ele apareceu, os pais deram o aval.
Sheila e eu nos
conhecemos quando ela veio à cidade em que moro, acompanhar o já muito velho
marido, que estava em tratamento de saúde. Ele morreu pouco tempo depois. E
também a ela foi recomendado considerar que NÃO ACONTECEU NADA no fato de que
ela era uma criança que foi viver maritalmente com um explorador.
Parece muito com
histórias que saíram recentemente nos jornais e portais, não é? Não é ficção.
Todas as pessoas até aqui referidas existem mesmo. É que, no caso nosso, não
gerou desdobramento jurídico-punitivo para as partes adversárias. É que os
tempos eram outros. É esquisito dizer isso quando constatamos que, na realidade, eram tempos muito parecidos com hoje em dia, porque a violência contra
meninas e mulheres nunca foi menor, não: hoje se tem leis e divulgação e essa é
a diferença.
Ainda temos quem julgue moralmente as meninas, as mulheres; ainda temos homens que se julgam proprietários dos
corpos femininos. Ainda temos uma sociedade permissiva com os homens e que incentivam
as mulheres a ignorarem a violência moral e a violência sexual, em especial,
quando se trata de sexo não genital, de abusos e importunação. Ensinam que está
tudo bem, pois NÃO ACONTECEU NADA!



