Louquética

Incontinência verbal

terça-feira, 17 de março de 2026

NÃO ACONTECEU NADA!


 

"Não foi nada"; "Não aconteceu nada"; "Ainda bem que não aconteceu nada."

Dizemos isso. Ouvimos isso e até acreditamos.

Uma amiga me contou sobre o dia em que um paquera de escola a convidou para ficarem a sós, na casa dele, numa tarde do ano em que eles tinham 14 anos.

Ela foi, toda feliz. Ele era um cara gente boa. Mas, os caras gente boa da escola andam sempre com outros caras e a pertença a um grupo pede mensalidades sob forma de missões e desafios.

Minha amiga percebeu movimentos do lado de fora da casa. Sim, o cara gente boa tinha permitido que outros meninos espreitassem as intimidades do casal, deixando minha amiga vulnerável a futuras chantagens. NÃO ACONTECEU NADA. Ela saiu de lá. Não aconteceu nada porque ela saiu de lá.

Ao voltar para casa, tão perto dessa outra onde ela estivera, ouviu pedras estalando no telhado.

Isso se repetiu várias vezes, por um longo tempo. Minha amiga estava triste e não tinha a quem contar tudo isso – os pais, rígidos, passavam o dia no trabalho e não saberiam nunca nada sobre isso.

Na mesma semana, o pai dela ofereceu a carona de sempre ao cara legal. Lá se foram os três, como se nada houvesse acontecido e, assim ficou consolidado como verdade que NÃO ACONTECEU NADA.

Devo dizer, porém, que aconteceu muita coisa: trauma, risco, perda de confiança, desilusão e uma violência brutal e continuada, pois a turma dele apedrejou a casa dela.

Falávamos disso há uns cinco dias, por conta de discutirmos o estupro coletivo recentemente noticiado, de que foi vítima uma adolescente de 17 anos, neste ano, no Rio de Janeiro.

Ali, houve a consumação física da violência sexual – quebrar costelas, dar murros e tapas e lacerar o tecido genital foram atos que também compuseram o crime.

Minha amiga, então, se comparou. Teve o senso de que viveu coisa análoga no risco que correu, mas achava que NÃO ACONTECEU NADA, uma vez que saiu fisicamente ilesa, íntegra.

Também passei por tentativas de estupro, por parte de um adulto de 33 anos, namorado de minha tia, quando eu tinha 11 anos.

Já adulta, ao falar  sobre isso com uma especialista, ela também me disse que ‘ainda bem que NÃO ACONTECEU NADA’.

Registro o meu sincero PUTA QUE O PARIU! Que subestima às nossas dores! Que menosprezo pelas meninas, pelas mulheres, por nossa infelicidade.

Há uma menos-valia, uma invalidação das nossas dores. No meu caso, então, ainda há o gerenciamento emocional dos adultos porque me disseram: “se o seu pai souber de uma coisa dessas, é capaz até de ter morte”. E minha tia se limitou a me dizer que 'Homem é bicho" e prosseguiu com o relacionamento dela. Então, como somos ensinadas que NÃO ACONTECEU NADA, convém calar e evitar mortes e contendas.

Mas, a história não cala em nós.

Não há silêncio real na alma e na mente, porque além de sofrer, é preciso calar a boca.

Um certo namorado meu defendia tudo isso, de silêncio, como forma de driblar o trauma, pois, para ele, admitir a violência sofrida é apego ao sofrimento. Para ele, o reconhecimento da violência sofrida causa trauma. O que é interessante é que a vítima de violência também demora a identificar, reconhecer e admitir o que é estupro, o que é abuso, o que é importunação, pois há desinformação em convívio com a normalização de comportamentos abusivos masculinos.

Já contei de minha amiga Sheila, que, quando tinha 11 ANOS, ‘casou’ com um homem de 40. Na cabeça dela, o ‘marido’ a salvou da fome, da família pobre, violenta e ignorante. Ela vivia num povoado do interior do Ceará. Ele apareceu, os pais deram o aval.

Sheila e eu nos conhecemos quando ela veio à cidade em que moro, acompanhar o já muito velho marido, que estava em tratamento de saúde. Ele morreu pouco tempo depois. E também a ela foi recomendado considerar que NÃO ACONTECEU NADA no fato de que ela era uma criança que foi viver maritalmente com um explorador.

Parece muito com histórias que saíram recentemente nos jornais e portais, não é? Não é ficção. Todas as pessoas até aqui referidas existem mesmo. É que, no caso nosso, não gerou desdobramento jurídico-punitivo para as partes adversárias. É que os tempos eram outros. É esquisito dizer isso quando constatamos que, na realidade, eram tempos muito parecidos com hoje em dia, porque a violência contra meninas e mulheres nunca foi menor, não: hoje se tem leis e divulgação e essa é a diferença.

Ainda temos quem julgue moralmente as meninas, as mulheres; ainda temos homens que se julgam proprietários dos corpos femininos. Ainda temos uma sociedade permissiva com os homens e que incentivam as mulheres a ignorarem a violência moral e a violência sexual, em especial, quando se trata de sexo não genital, de abusos e importunação. Ensinam que está tudo bem, pois NÃO ACONTECEU NADA!



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A quem serve conservar?

 


Aqui estamos nós, enquanto pessoas que vivem o mesmo tempo e a mesma era, a conviver com recuos de humanidade, de pensamento, de percepção e de comportamentos.

À charmosa palavra retrô, sucedeu o retrocesso. Sim, andamos para trás.

Encolheram-se os direitos trabalhistas, diminuiu-se a habilidade de enxergar o mundo em sua multiplicidade de aspectos, sumiu o diálogo, a presencialidade e a capacidade de chorar perdas e viver lutos.

Hoje, estamos preocupados em validar laudos que justifiquem nossas angústias, nossas individualidades e, até, que justifiquem o fato de que os outros são diferentes de nós.

Rasgaram os escritos de Freud e Lacan, a favor de diagnósticos de internet. Qualquer mané ou manuela chamará de narcisista àquele sujeito canalha e àquela mãe negligente – não sabendo, ao que parece, que gente assim já existia desde o princípio da vida na Terra. E, claro, narcisista é o Outro. Freud, coitado, foi mal apropriado, vulgarizado e distorcido em seus conceitos. Mas, ele tem experiência nisso, já que no Brasil, recalque foi outro termo distorcido e virou até letra de funk.

Andar para trás e ser conservador: dois movimentos sincrônicos para que nada se mova e nada saia do lugar. Obviamente, para conservar alguma coisa (desconfio que quem quis conservar já apodreceu a mente em alguma medida, para esticar a validade do que expirou), deve ser prioridade o que me traga benefícios. Porém, conservar o Meio Ambiente, ninguém quer, não é? Conservar a proteção aos direitos básicos das pessoas menos favorecidas, ninguém quer também. Antes de tudo, deveríamos nos perguntar o que há de bom a ser conservado e, se há, é bom para quem?

Lembrei de umas pessoas bem idiotas que, para se fazerem de sublimes, diziam que a morte do cachorro Orelha chocou mais do que a morte diária de segmentos excluídos da nossa sociedade. O comentarista, querendo dar lição de moral, induzia à interpretação de que deveríamos ser sensíveis ao humano. Velha conversa, do tipo: “Troque seu cachorro por uma criança pobre” (ressalvando que o Eduardo Dusek é genial, irônico e divertido). Conversinha que cai quando a gente indaga ao defensor/detentor da moral e dos bons costumes sobre quantas crianças ele tem ajudado. Já sabem a respota, né? Nenhuma. E nenhum cachorro também.

Fico feliz pela mobilização social em favor dos direitos dos animais, pela indignação geral pela morte do cachorro Orelha! Ainda temos humanidade em nós!

Amar e defender os bichos não exclui amar e defender outros seres humanos. Porém, os animais são mais indefesos.

É preciso aturar à outra parte que também dirá que não se pode lamentar a tortura, espancamento e morte de um cachorro, porque a sociedade mata em abatedouros e todos aceitamos. Nessas lógicas, perdemos o direito a termos sensibilidade, exceto por aquilo a que formos autorizados.

Então, esperamos a autorização necessária para podermos expressar sentimentos.

Eu, que prossigo achando que o maior amigo do homem é o cavalo (Apanha, sustenta famílias que o espancam e lhe privam de água e comida e, ainda, esteve em guerras ao longo do tempo), sonho com leis que o libertem de carroças e maus tratos. Todavia, o conservador se adianta e diz que acha lindo, bucólico e romântico ver carroças, que lhe ‘lembram tanto os livros do século XVII, XVIII, XIX”... Pessoas assim que deveriam ser privadas de energia elétrica (e de anestesia), para poderem se sentir como em tempos passados...Ah, para esses tipos, como é bom conservar...Conservar a mulher no seu lugar (submissa, no lar); os negros em seus lugares (na escravidão, na subalternidade); os indígenas, não: não precisa conservar, porque eles eram muitos e o Brasil era cheio deles...blablablá. Era muita terra para indígena, então, melhor é trazê-los para a vida civilizada, de dizimação mesmo, porque “os mansos herdarão a terra” (pausa dramática: escrevi com ironia, mas juro a vocês que ouvi exatamente isso de uma mulher do Centro espírita que eu frequento). E foi assim que a lei retroagiu, sob o nome de Marco Temporal, que, de modo geral, quer dizer que o indígena cuja terra não lhe foi outorgada antes de 1988, não tem direito a ela. Alguém aí se lembra de que antes da invasão de Portugal, antes de 1500, os indígenas viviam aqui? A terra seria de quem? E nós aceitamos passivamente que os donos da terra precisem se submeter a demarcações. Não faltará nunca quem repita que “bom era antigamente!” – bom para quem? 

Fica a dica: conserve o respeito. Isso basta!


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O tempo e as palavras

 


Vamos abrindo as páginas de um ano novo.

A vida própria depende pouco de ritos de passagem. Todavia, precisamos de calendários para administrar o tempo, para marcar a passagem do tempo. No fundo, o calendário real é aquele que a gente internaliza, com nosso tempo psicológico das coisas que são passíveis de lembrança do tipo ‘lembro como se fosse hoje’, mostrando a intensidade do que foi vivido ou o significado que as circunstâncias têm para aquele que recorda.

Todos nós temos certa inquietação por não controlar o tempo: gostaríamos de esquecer aquele amor rapidamente; gostaríamos de dormir sem pensar nos traumas do dia e de acordar sem guardar os efeitos do mal-estar vivido, da palavra dura que foi ouvida, das dores que compõem situações desagradáveis. E como queríamos prolongar prazeres, fazer durar aquela sensação boa, aquele sabor gostoso, aquele dia em que tudo deu certo e a vida pareceu ser tão nossa amiga, que a gente agradeceu por existir. Somos mais das dores do que dos prazeres. A memória guarda mais as vivências desagradáveis porque é um modo de se prevenir, de usar a experiência ruim para nunca mais repeti-la. No amor, entretanto, costuma acontecer de a gente se permitir ficar perto de quem nos machuca porque aquela dor se torna conhecida. Portanto, você já a conhece e pensa que a domina, pois antevê até onde ela vai. Isso explica nossa pouca capacidade de esquecer alguém, mesmo quando racional e conscientemente queremos esquecê-lo. Temos medo do vazio. E, de fato, o vazio nos transtorna. Uma dor ocupa a gente, por meio de uma busca por resolvê-la. No fundo, a gente não quer esquecer coisa nenhuma, para não enfrentar a fera do vazio.

Se a pessoa ficar amiga do tempo, aí, sim, ele ajudará a esquecer, forçando a desistência. Sim, é preciso desistir, renunciar, largar a pessoa amada. Largar é não querer mais saber. O princípio básico da psicologia para sair dos vícios vale aqui também: Hábitos (mudar), Pessoas (estar com outras pessoas) e Lugares (buscar frequentar outros) precisam ser modificados!

Uma festa ou uma viagem não farão mudar nada. São um recurso pontual. Mas, a longo prazo, mudar hábitos, pessoas e lugares lhe tira de contextos que favorecem a permanência naquele afeto – qualquer que seja ele.

Há pessoas e situações que não podemos mudar. Neste caso, quem muda (ou se muda) é a gente.

Fico pasma com o número de pessoas que esperam o ano novo para planejar fazer um curso, um concurso, uma academia. Desde que se tenha condições de fazê-los, o tempo é seu, a decisão é sua e não cabe esperar.

Exceto por questões de planejamento e organização, isto é, umas férias, um ‘juntar dinheiro para’, um período após um curso, isto é, coisas alheias à nossa vontade, todo o resto só depende da ação. Com isso, se não somos donos do tempo, somos donos de nossas vontades e, quanto mais fortes e sinceras elas são, tanto mais agimos por elas. Palavra não é força coisa nenhuma. Palavra é só palavra. Quantas vezes você deu a sua palavra? Quantas vezes você se banhou em palavras bonitas, sagradas e positivas? Não deu certo, não foi? É que não existe palavra mágica, não há abracadaba a abrir portas, não. Quem tem força é o desejo, é a vontade.

Palavra é força na psicanálise, no texto literário, por motivos óbvios e específicos. O resto é convenção cultural e não deveria cruzar a fronteira das crenças pessoais, nem arrancar as pessoas da realidade material e objetiva. Palavra sem ação, seu político favorito já lhe ensinou quanto vale. Aprenda com ele!

 

 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O futebol e (é) a vida


 


Dizem que a vida é um jogo. Eu acho que é um jogo de futebol. Talvez, porque eu acho que futebol explica a vida.

No futebol, os times se preparam, treinam, ensaiam, mas, nem sempre o favorito vence. Surpreendentemente, o time pequeno leva a vitória em algumas partidas.

No duplo sentido do termo “partidas”, a vida nos faz enfrentar muitas: tanto as de sentido de competição, quanto no sentido de ir embora (partir é, ainda, sinônimo de cortar, dividir, tipo o que ocorre com o coração da gente em certas circunstâncias).

Na vida e no futebol, temos adversários e dependemos sobremaneira da honestidade dos árbitros. A disputa precisa ser honesta. Uma boa torcida também pode favorecer e fortalecer o jogador.

Há os que  são os donos da bola, os que dão bola, os que ‘correm atrás’, há o banco de reservas.

De fato, é uma pena quando um time claramente jogou melhor, mas perdeu para um adversário inferior, mas sagaz. O futebol nos ensina que aproveitar as oportunidades define resultados.

Naquele piscar de olhos, no desvio de uma bola, na velocidade empreendida em um contra-ataque, faz-se o gol. A falha do adversário vale tanto quanto o nosso preparo numa partida.

As barreiras, assim na vida como no futebol, são constantes. É preciso não chutar contra elas, mas superá-las. E se estivermos na barreira, convém proteger-se das pancadas, de ser atingido.

Constatamos que o jogo não é fácil. Corre-se para lá, para cá, muda-se de lado, desespera-se com o tempo, questiona-se a prorrogação...Por vezes, o empate é o melhor resultado possível...

Na vida e no futebol, é preciso ter boa defesa. Nem tudo é ataque e nem sempre convém ficar na defensiva. O bom jogador sabe definir sua hora. Ele sabe, também as posições que o favorecem.

Na vida e no futebol há regras. Elas são necessárias para regular a partida.

Na vida e no futebol, há faltas. Faltas graves, para cartão – expulsão, suspensão. Há faltas que nos imobilizam. Há quem cave as faltas...a vida tem mais faltas que o futebol, se repararmos bem.

Às vezes, no futebol e na vida, estamos na zona de rebaixamento.

Ganhando ou perdendo, cada ano traz novos campeonatos e é preciso recomeçar: bola para a frente!

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Litígios e liberdade

 


Estou no auge de meu cansaço, mas estou muito satisfeita. Acredito que a melhor metáfora para representar este meu momento é imaginar que sou uma daquelas pessoas que se divorciou e que não levou nada do que construiu, nada do que se originou de seus esforços e de seus trabalhos: apenas, deu tudo o que tinha para se livrar do outro. Ficou sem nada e ainda se sentiu no lucro, porque não há maior riqueza do que se livrar daquilo e daqueles que nos atormentam. Assim estou eu.

Já afirmei milhões de vezes: ao contrário desse povo que escreve se a vida estiver ruim, eu, se estiver na bad, desapareço. Não saem palavras nem sinais de vida criativa alguma. E foi assim que eu enxerguei há quanto tempo eu não escrevia aqui no blog.

Ao todo, foram seis meses em um trabalho opressor, com micro violências acumuladas, com um desprestígio social que me deixava com a alma cabisbaixa. Pedi minha exoneração. Pedir exoneração é como pedir divórcio litigioso: é a vontade expressa por parte de um, por uma das partes! Hoje eu saí com a mala cheia de orgulho, cheia de liberdade...Já tão feliz por não ter que transitar por duas BR, por não ter que diariamente enfrentar motoristas violentos, machistas, imprudentes; e os engarrafamentos de ida e de volta, que consumiam minha vida (tempo é vida). E as manhãs, que encurtavam meu sono já tão picotado e o devolvia nos começos das tardes, ficaram para trás, como marcas traumáticas de um ano tão difícil, como foi este.

Em meu outro emprego também tenho um capataz. Burro como uma porta, ele me obriga a refazer coisas óbvias, porque não gosta de admitir que eu estou certa. Daí que quem manda nele faz o que deve e, assim, lá vem ele dizer que “ah, mudaram de opinião, pode fazer como você vinha fazendo” – e este foi um outro emprego que eu quase larguei. Mantive por questões de sobrevivência e porque é temporário e em um mês acabará.

Nem sei dizer o quanto estou feliz por estar com a fantástica sensação de ‘nunca mais’. Que coisa boa! Que coisa gostosa! Nunca mais eu voltarei lá, nunca mais!

 


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Dá trabalho?

 

                                                

Já pensou se você tivesse a beleza daquela linda jovem atriz ou do ator de novela das nove? E se você tivesse a fortuna de Neymar Jr? E se você tivesse o talento artístico dos grandes gênios? E se você tivesse uma inteligência acima do comum? E se você fosse um grande atleta de qualquer esporte? E se você tivesse reconhecimento social por suas obras e por sua profissão? E se você fosse plenamente saudável?

E se quem você ama te amasse? E se em sua vida não houvesse nenhum trauma? E se sua família fosse amorosa, incrível e acolhedora? E se, no meio da vida você conseguisse se orgulhar de cada decisão tomada ao longo do tempo? E se tudo isso se reunisse de uma só vez em sua vida?

A condição de ser humano nos faz olhar a grama do vizinho e se colocar positivamente no lugar dele, dizendo mentalmente em silencioso diálogo interior que se tivesse o que ele tem, seria mais feliz.

Acreditamos muito nisso, de olho em nosso primo rico, que nossa felicidade estará naquilo que nos falta.

A atriz jovem, rica, inteligente, talentosa, amada e linda é feliz? Não lhe faltará nada?

O que será que falta a quem já tem tudo? Eu posso lhe responder: falta o mesmo que a você ou a mim, isto é, sempre há uma falta e a esta falta a gente dará um nome: fortuna, filho, casa própria, beleza, amor, equilíbrio psíquico, título, poder, fama, talento... Tanto faz o nome: a conquista de um desejo nunca será o bastante para fechar o vazio da falta.

Todo mundo tem angústia, todo mundo tem faltas.

Em certos momentos isso se torna agudo e evidente e, em outros, passamos a vida em paz sem olhar para o abismo permanente que ocupa uma grande porção de quem nós somos.

Vamos ao outro lado das causas mortas, agora falo biográfica e particularmente: Estou num trabalho horrível, num lugar terrível, com gente realmente repugnante do ponto de vista do convívio e do ponto de vista moral.

Para mais somar: estou num trabalho desses porque, antes de tudo, preciso do dinheiro para prover materialmente a minha vida. E paga-se pouco.

Vendo o meu sono, acordando cedo e dormindo pouco.

Vendo o meu tempo – e tempo é vida – a verdadeiros capitães do mato que, ganhando melhor que eu, não desconfiam que também são escravos.

Não quero mais voltar lá.

“Todo dia eu só penso em poder parar

Meio-dia eu só penso em dizer não

Depois, penso na vida para levar

E me calo com a boca de feijão.”

Tristemente, me vejo refém.

Por outro lado, preciso temporariamente desta angústia, porque ela me desvia de outras angústias, talvez da angústia maior que cerca a existência.

Talvez, agora possamos coletivamente cogitar uma resposta para certas situações ruins de onde não saímos, como passarinhos que ignoram a porta da gaiola aberta. Há um condicionamento que nos prende, de modo que alimentar a situação vigente produz uma sensação de que não está ao nosso alcance resolver a nossa vida; ou o contrário: isso aqui eu posso resolver, eu controlo, basta mudar de emprego ( de casamento, de cidade, do que quer que seja). Teremos boas desculpas pra delongar situações ruins.

As angústias mudas, sim, com a idade. Elas só não acabam.

Experimento felicidades construídas com o sonho de sair do tal emprego. Pequenas fugas para fazer freelancer na função que gosto, isto é, na literatura. Meu Deus, como eu gosto de literatura! Como o ensino superior é um campo de trabalho incrível, fascinante, diferente!

Por enquanto, minha felicidade virá quando eu puder deixar o emprego atual. Depois, ela vai embora. E, finalmente, estarei de novo com minhas faltas, as eternas faltas que sempre irão deslocar o que me falta.

 


domingo, 22 de junho de 2025

Problema seu!

 


Em uma conversa vaga, falei com o meu ex-ente-amado justamente sobre amor. Perguntei a ele sobre a consciência de que “o amor que sentimos é problema nosso” lhe veio desde quando, ao que ele respondeu que desde muito cedo.

Achei incrível isso.

O que sentimos é nosso, está em nós e o outro ser ao qual vertemos nossos sentimentos é só um outro ser, tal como nós. Ele não tem responsabilidade sobre o que a gente sente, ainda que invista nisso, que tente despertar interesse ou atue para a sedução. O sentimento da gente é da gente. O que você sente é problema seu!

A gente, de fato, não escolhe conscientemente a quem amar. Não amamos as pessoas de qualidades admiráveis, nem as mais bonitas ou as mais inteligentes...nem sequer as que nos fazem bem, que fazem de tudo por nós ou àquelas que, de fato, mereceriam um amor intenso, imenso e sublime.

A outra parte que me surpreendeu foi que ele me disse que as pessoas (obviamente, falava de si) comunicam um ‘eu te amo’ achando que estão oferecendo a oitava maravilha do mundo, entregando um tesouro nas mãos do outro. E aí eu discordo.

Acredito que, sim, se a pessoa ama, sabe o tamanho do que sente e tenta articular a aceitação do ser amado. É como dizer: “Eu te amo. Eis aqui a minha vida. Gostaria que você fizesse parte dela e me permitisse amar você bem de perto. Por favor, aceite, pois é verdadeiro e eu te darei o melhor de mim”.

A experiência de ser amado é enriquecedora, mesmo quando a gente não corresponde a quem nos ama – na aritmética da vida real, é bem improvável haver correspondência.

Até quando somos crianças e lemos o amor com que nos cuidam, crescemos seguros. O fato de nos sabermos amados nos ensina muito e, principalmente, nos ajuda a identificar e reconhecer o que é o amor, apesar de traços particulares da forma de cada um amar.

Muitas vezes amamos e não sabemos. Um dia a gente descobre. O oposto também: a gente acha que ama, até descobrir que aquilo era outra coisa.

Ser amado é uma dádiva, isto é, desde que quem nos ame não nos faça cobranças, nem chantagens emocionais, nem jogos idiotas de responsabilidades e culpas.

A persistência cansativa não resolve um amor não-correspondido. Dói em quem ama ser rejeitado. Fazemos cálculos morais e gritamos para nós que o outro ‘não sabe o que perdeu” ou que ‘quem perdeu foi ele (ou ela).

Forçar a barra, procurar receitas para chamar a atenção não converte indiferença em amor. Mas, há quem queira o outro a qualquer preço. Isso indica covardia. É a incapacidade de lidar com  a rejeição e com a autonomia do outro, que pode querer ou não, do mesmo modo que a gente já declinou de boas propostas de amor e já distribuiu ‘nãos’ ao longo da vida.

Em situações em que o outro ignora, não responde nem corresponde, quão baixo se pode descer ao se colocar à eterna espera e à disposição deste ser? É por isso que é preciso coragem, para sobreviver à dor da falta. E é preciso deixar a pessoa em paz e, pacientemente, esperar o amor passar – nessas fragilidades, quem ama pode ser manipulado, humilhado, explorado, abusado, a depender do que construiu ao redor daquilo que sente por alguém (não somente o ser amado pode se converter em um tirano, como cartomantes e trabalhadores das artes supostamente mágicas podem levar seu dinheiro embora em três dias).

À parte as mazelas, amor é isso mesmo: ambiguidades.

Ser amado é um aprendizado, se a gente tem respeito por quem nos ama.

Nesta altura de minha vida, a cota dos amores já se esgotou. Não procuro, não quero e se aparecer eu digo que não estou. Brincadeiras minhas, porque gosto da leveza de não amar ninguém, exceto os amores ágape de base amistosa.

Aprendi quando amei, aprendi quando fui amada. Já atravessei meu vale de sombras e, com uma vela na mão, senti medo, solidão, tristeza, mas cheguei ao outro lado sem tropeçar e sem me deixar tomar pela escuridão. Aliás, agora que estou aqui, vou aproveitar a paisagem.