Não tenho posições radicalmente
contra tecnologias. Admiro a capacidade humana de criar, seja
polindo ou lascando uma pedra para forjar instrumentos úteis, como o fizemos na
Idade da Pedra Polida e na Idade da Pedra Lascada, seja na invenção de
microscópios e aparelhos de ressonância magnética.
Vivi o suficiente para assistir
ao filme de Spielberg, I.A; e ao de Spike Jonze, Her. Antes deles, assisti a
desenhos animados como Os Flintstones e os Jetsons. Portanto, a imaginação
humana sempre deu conta de pensar o futuro e a tecnologia.
Inteligência Artificial não é uma
abstração: há humanos sob ela. Há o recolhimento de informações pensadas,
elaboradas e disponibilizadas por seres humanos, que são agrupadas e
reprocessadas. As Inteligências Artificiais estão sujeitas às falhas de dados e
de interpretações e, por conseguinte, errar não é somente humano.
Vivi a era do Photoshop, dos
filtros e dos aplicativos de melhoramento de imagens. Agora, todavia, acompanho,
assustada, a doentia relação das pessoas com a I.A. Estou me referindo às
pessoas próximas.
Querer “sair bem na foto” é algo normal e nem sempre o espelho devolve imagem pior do que uma câmera. O patológico está na composição de narrativas visuais de si, totalmente avessa à realidade etária e física das pessoas. Meus próximos acham mesmo que têm 20 a 30 anos a menos do que lhes aponta a realidade da Certidão de Nascimento. Com imagem tratada por I.A., lançam-se atrás de companhias, inventam pares idealizados (gente de mentira, pura ficção de I.A.) e acreditam no que ajudaram a criar.
Sim, precisamos de fantasias e de
termos capacidade de sonhar. Mas, os adultos acima dos 50 já não têm a mesma
liberdade de criar amigos imaginários como tinham as crianças até os sete ou
oito anos.
Há um eu-ideal. Precisamos também
idealizar a nós mesmos e isso faz parte do jogo da vida – a vida como jogo é
uma partida em que tentamos trapaças para vencer, variando a área e o
adversário específico.
Olhemos a anterioridade disso tudo
lá em O retrato de Dorian Gray, na célebre
discussão sobre envelhecimento: “Não! Não era possível! Hora após hora, de
semana a semana, a efígie na tela iria envelhecendo. Poderia escapar à
deformidade do pecado mas não escaparia à da idade. As faces tornar-se-iam encovadas
ou flácidas. As horríveis rugas orlariam os olhos baços, fazendo-os ficar mais
desagradáveis. Os cabelos perderiam o brilho e a boca teria lábios reentrantes
ou descaídos e a expressão atoleimada, ou brutal, das bocas dos velhos. E rugas
no pescoço, mãos frias, sulcadas de veias salientes, corpo encurvado, como o
avô que o tratara com tanta severidade na infância...Não havia remédio. Era
preciso esconder o retrato.” (WILDE, p. 107).
Três pessoas próximas a mim estão
bem nesse ponto. Aos poucos, perdem o contato com a realidade. Poderiam ajudar a si mesmas recorrendo aos
artifícios da vida real, como ácido hialurônico, botox, exercícios físicos.
Mas, preferem o simulacro de si mesmos. Que coisa estranha é usar esta
expressão anterior! Seria simples se fosse apenas alteração em fotos, em composição
de vídeos. Porém, excedeu ao patológico.
Imagino a vida de quem substitui
uma sessão de psicanálise por uma conversa com I.A. E os tantos que devem
acreditar que a “Alexa” é uma pessoa de verdade, nós não saberíamos mensurar.
Dentre as pessoas citadas está
alguém com quem eu tive um relacionamento. Ele foi envelhecendo e se tornando
delirante. Tinha um ego grande e frágil, com ideais de ser (e pensa que é) o
homem mais inteligente do Brasil. Sonha com reconhecimentos na área intelectual
e artística – julga ser excelente poeta e compositor. À parte, está em processo
de adoecimento psíquico, assim como a outra pessoa conhecida, que segue esses mesmos passos
e criou um homem namorado, perfeito e bonito como só os recursos da tecnologia
poderiam proporcionar.
Lamentavelmente, numa gincana,
ano passado, em uma escola onde eu trabalhava, assisti à líder de equipe recorrendo
à I.A. para criar um simples grito de guerra que quaisquer quatro versos bobos
contemplariam. Mas, entre a incapacidade, a preguiça e a suposta perfeição, a
máquina venceu e deu o que ela queria, ainda que carecendo de sentido. Cada geração se deixa vencer por emulações de perfeição, por comodidades perigosamente traiçoeiras.


