De alguma forma eu sempre concebi a parcialidade do conceito e da ideia de livre arbítrio.
Pule a parte filosófica das proposições de Santo Agostinho. Pule os dogmas religiosos. Vamos tratar com o substrato vivo e cru da vida nossa de cada dia!
Eu considerava que,
por exemplo, quando somos crianças, não temos livre arbítrio verdadeiro ou consistente, não decidimos, não escolhemos, não optamos, porque quem decide por
nós são os nossos pais ou responsáveis.
Crescemos e, até que
completemos nossa maioridade legal ou que busquemos meios de emancipação (trabalhar,
prover a si mesmo, etc.), continuamos com livre arbítrio parcial.
Finalmente, quando
adultos e plenos intelectualmente para exercer nosso livre arbítrio, ele
continua falho, pois, como posso fazer escolhas se não vejo as alternativas?
Portanto, há muitas situações em que ficamos com a impressão de que ‘não
tivemos escolha’, pois enxergamos o que estava à frente do nosso nariz; e não
vimos outros ângulos, outras camadas.
Escolher e tomar
decisões são ações difíceis. Nada muda isso. A gente analisa riscos, pesa, avalia
consequências, desdobramentos, faz cálculos morais e opta.
Ouvi Humberto Matos, no You Tube, citando
algo que, definitivamente, abalou ainda mais minha (des)crença no exercício do livre
arbítrio. Ele explicava, tomando o cenário capitalista como referência, que não
há livre arbítrio quando, por exemplo, um trabalhador não pode escolher entre
ser explorado em um emprego ou morrer de fome; entre romper com muitas
estruturas e engrenagens de exploração, de um modo geral, que põem na berlinda
a sobrevivência.
Se não disponho de
recursos materiais, formativos, intelectuais, não posso determinar ou fazer
escolhas reais em muitos setores da vida.
Portanto, situações
extremas, ou situações em que não ocupamos posição de comando ou de
livre-escolha, (isto é, quero ou não quero) destoam da idealização de livre
arbítrio. Eu acrescentaria outras parcelas nessa equação: como construir maturidade
para escolher? Como aceitar as consequências das más escolhas? Haverá má/boa
escolha? E quando a maioria decide por nós (em questões eletivas, votos, leis,
determinações, plebiscitos, etc.), presumivelmente, fizemos um pacto de
aceitação, tornando o livre arbítrio coletivo. Neste caso, qual o limite de
nossas responsabilidades?
Acredito cada vez menos
em livre arbítrio, o que não implica dizer que eu ache que não tenhamos
escolhas ou que sejamos deterministas. Quando Pierre Bourdieu movimenta o
conceito de capital cultural, por exemplo, ele aponta para a formação do gosto.
Podemos aplicar a mesma linha de raciocínio para as influências culturais e
sociais que se introjetam em nós e, obviamente, moldam escolhas – vez por
outra, algum elo dessa corrente se torna mais independente (embora ainda
influenciado pela cultura e pelo tempo) e rompe a repetição das escolhas, tal
como as mulheres que já podem admitir que não querem ser mães e se apropriam do livre arbítrio para
não serem. Neste caso, a dimensão política aparece também, ao lado de imperativos
religiosos e há, ainda, o braço repressivo e conservador da cultura e da agenda
moral, de modo que todos esses elementos formam cercas para limitar o que seria de
foro íntimo, particular e individual.
Excedida a fronteira entre o individual e o coletivo, quanto há de liberdade no suposto livre arbítrio?
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