Louquética

Incontinência verbal

sábado, 2 de maio de 2026

Amor muda mundos?

 


Para amar qualquer pessoa é necessário ter uma boa dose de fantasia. Há quem condense tudo sob o termo ‘idealização’, mas não acredito muito nisso.

Não acho que amor seja cego: acho que ele enxerga tudo, apenas tem miopia e diminui o que vê de defeitos, ou turva a visão sob alguns aspectos, joga sombras. Sem fantasia não há amor possível, porque um amor sem sonhos é desilusão pura.

Decerto, tem as criaturas extremamente bobas a ponto de esperar mudanças no ser amado. Mudanças no que se refere a melhoras, ao abandono de um vício, a algum sacrifício de conduta que se processe em favor da relação a dois. Não, ninguém muda ninguém. Quem muda, o faz em proveito próprio, por razões particulares e motivos subjetivos e individuais.

Isso indica que certos aspectos da personalidade são rígidos. Tantos os bons, quanto os maus. Portanto, se houver mudança devido a fatores externos (para não magoar alguém, para não correr o risco da relação acabar, para não decepcionar alguém), nunca será verdadeira: ali há uma casca, um verniz bem pintado, de novas posturas, porque é uma mudança para o outro – e a mudança também pode advir de ameaças ou de coação. Então, as vontades não passam, o caráter não melhora e a pessoa só não pratica o que quer e o que deseja porque não tem condições de fazê-lo.

O autocontrole pode funcionar na contenção, apenas. A mudança verdadeira não aconteceu. Deste modo, é como trancar a fera no porão. Ela está lá – pode não rugir, não fugir e não se mexer, mas está ali.

A fera pode ser a nossa própria, defrontada com as necessidades de ser contida ante a ameaça de perda. Costumam chamar isso de inteligência emocional. E quem entender direito vai saber que essa conversa oca sobre inteligência emocional significa dominar vontades e instintos estrategicamente. Para quem não é um robô, não tem tantos ganhos quanto parece.

Dominar o nervosismo ante uma plateia ou em situação de tensão e disputa por cargos ou afins, faz parte do viver. Ainda mais se claramente há alguém querendo nos desestabilizar. Mas, isso não pode ocorrer sempre: é preciso dar vazão àquela parte instintiva que nos preserva e que nos torna gente. Não despreze seus instintos. Em vez de querer ir a outro continente procurar suas supostas ancestralidades, desça um pouco ao seu ancestral primitivo, àquele que lhe/nos fez chegar a ser homo sapiens sapiens. Sim, precisamos daquele ancestral primitivo que legou à humanidade o instinto de sobrevivência, que modulou o instinto de caça, de fuga, de estratégias de resistência em contextos inóspitos. Não precisa se tornar um brucutu por isso!

Aprendemos muito mal até aqui. E estamos piorando à medida que adotamos o mal conselho de não poder ser ‘emocionado’. Aconselho: xingue, assuma seus ódios, suas perdas. Não precisa declarar em um outdoor, mas reconheça o que lhe toca. As coisas que são de foro íntimo não precisam ser gritadas da sacada do prédio, mas ninguém está privado de ser, ter, sentir, seja lá o que for.

A gente às vezes se nota decepcionado com alguém e somente aí está algo bastante compreensível na seara do amor: não tem como sabermos certos fatores ou vermos certos defeitos das pessoas (quiçá os nossos), mesmo com certo tempo de contato. Explico: muitas vezes, não houve oportunidade, não aconteceu nenhuma ocasião que fizesse vir à tona um defeito.  É em uma situação nova que um novo ângulo de uma pessoa pode se apresentar – seja uma briga de trânsito, uma perda de dinheiro, um confronto entre parentes, uma partilha de bens, uma situação de doença, dentre tantos cenários e ocorrências possíveis na vida de um ser humano. Nessas horas, a gente fala o clássico ‘eu nunca imaginei que ele/ela fosse assim’.

Eu não vou deixar de amar alguém por causa de defeitos. Se alguém deixar de me amar por causa dos meus defeitos, estou frita! Somos o conteúdo inteiro: embalagem, conteúdo e ingredientes. A gente pode apresentar nova fórmula, nova embalagem ou uma versão plus, mas mudamos por um processo íntimo e particular. Mudar, por causa dos outros, nunca será uma mudança de verdade.  


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