Louquética

Incontinência verbal

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A quem serve conservar?

 


Aqui estamos nós, enquanto pessoas que vivem o mesmo tempo e a mesma era, a conviver com recuos de humanidade, de pensamento, de percepção e de comportamentos.

À charmosa palavra retrô, sucedeu o retrocesso. Sim, andamos para trás.

Encolheram-se os direitos trabalhistas, diminuiu-se a habilidade de enxergar o mundo em sua multiplicidade de aspectos, sumiu o diálogo, a presencialidade e a capacidade de chorar perdas e viver lutos.

Hoje, estamos preocupados em validar laudos que justifiquem nossas angústias, nossas individualidades e, até, que justifiquem o fato de que os outros são diferentes de nós.

Rasgaram os escritos de Freud e Lacan, a favor de diagnósticos de internet. Qualquer mané ou manuela chamará de narcisista àquele sujeito canalha e àquela mãe negligente – não sabendo, ao que parece, que gente assim já existia desde o princípio da vida na Terra. E, claro, narcisista é o Outro. Freud, coitado, foi mal apropriado, vulgarizado e distorcido em seus conceitos. Mas, ele tem experiência nisso, já que no Brasil, recalque foi outro termo distorcido e virou até letra de funk.

Andar para trás e ser conservador: dois movimentos sincrônicos para que nada se mova e nada saia do lugar. Obviamente, para conservar alguma coisa (desconfio que quem quis conservar já apodreceu a mente em alguma medida, para esticar a validade do que expirou), deve ser prioridade o que me traga benefícios. Porém, conservar o Meio Ambiente, ninguém quer, não é? Conservar a proteção aos direitos básicos das pessoas menos favorecidas, ninguém quer também. Antes de tudo, deveríamos nos perguntar o que há de bom a ser conservado e, se há, é bom para quem?

Lembrei de umas pessoas bem idiotas que, para se fazerem de sublimes, diziam que a morte do cachorro Orelha chocou mais do que a morte diária de segmentos excluídos da nossa sociedade. O comentarista, querendo dar lição de moral, induzia à interpretação de que deveríamos ser sensíveis ao humano. Velha conversa, do tipo: “Troque seu cachorro por uma criança pobre” (ressalvando que o Eduardo Dusek é genial, irônico e divertido). Conversinha que cai quando a gente indaga ao defensor/detentor da moral e dos bons costumes sobre quantas crianças ele tem ajudado. Já sabem a respota, né? Nenhuma. E nenhum cachorro também.

Fico feliz pela mobilização social em favor dos direitos dos animais, pela indignação geral pela morte do cachorro Orelha! Ainda temos humanidade em nós!

Amar e defender os bichos não exclui amar e defender outros seres humanos. Porém, os animais são mais indefesos.

É preciso aturar à outra parte que também dirá que não se pode lamentar a tortura, espancamento e morte de um cachorro, porque a sociedade mata em abatedouros e todos aceitamos. Nessas lógicas, perdemos o direito a termos sensibilidade, exceto por aquilo a que formos autorizados.

Então, esperamos a autorização necessária para podermos expressar sentimentos.

Eu, que prossigo achando que o maior amigo do homem é o cavalo (Apanha, sustenta famílias que o espancam e lhe privam de água e comida e, ainda, esteve em guerras ao longo do tempo), sonho com leis que o libertem de carroças e maus tratos. Todavia, o conservador se adianta e diz que acha lindo, bucólico e romântico ver carroças, que lhe ‘lembram tanto os livros do século XVII, XVIII, XIX”... Pessoas assim que deveriam ser privadas de energia elétrica (e de anestesia), para poderem se sentir como em tempos passados...Ah, para esses tipos, como é bom conservar...Conservar a mulher no seu lugar (submissa, no lar); os negros em seus lugares (na escravidão, na subalternidade); os indígenas, não: não precisa conservar, porque eles eram muitos e o Brasil era cheio deles...blablablá. Era muita terra para indígena, então, melhor é trazê-los para a vida civilizada, de dizimação mesmo, porque “os mansos herdarão a terra” (pausa dramática: escrevi com ironia, mas juro a vocês que ouvi exatamente isso de uma mulher do Centro espírita que eu frequento). E foi assim que a lei retroagiu, sob o nome de Marco Temporal, que, de modo geral, quer dizer que o indígena cuja terra não lhe foi outorgada antes de 1988, não tem direito a ela. Alguém aí se lembra de que antes da invasão de Portugal, antes de 1500, os indígenas viviam aqui? A terra seria de quem? E nós aceitamos passivamente que os donos da terra precisem se submeter a demarcações. Não faltará nunca quem repita que “bom era antigamente!” – bom para quem? 

Fica a dica: conserve o respeito. Isso basta!