Eu quis tanto
esquecer meu segundo amor – espero que tenha sido o último nesta existência.
Quando, muito recentemente, percebi que esqueci, me senti muito estranha. Pior
foi passar por isso estando ao lado dele, porque a gente se reaproximou em dezembro.
Realizei sonhos de uma vida toda à espera de que pudessem acontecer, com ele (viagens, réveillon, aniversários, filmes, músicas e livros compartilhados, dentre tantas outras coisas)
Agora, ao perceber
que o amor passou (ficou um gostar), observei o vazio deixado. Era como um
pedaço de mim, que ali faltasse.
Devo dizer que
compreendi que mesmo um amor não-correspondido nos preenche, ocupa um lugar em
nós. Um amor sem correspondência é uma falta, mas é uma falta que nos nutre de
força para sonhar, esperar, desejar, projetar, ocupar nossa mente, ser uma
parte de nossa vida.
A correspondência de
que falo não é somente sinônimo de que a outra pessoa não nos ame, mas que não tenha
sentimentos minimamente proporcionais aos que a ela dedicamos. Isso, sim, é ser
mal-amado.
Depois de outro tempo,
percebi que há mesmo várias manifestações do amar, vários modos de amar e, para
a minha decepção, há quem nos ame e não tenha cuidado ou carinho por nós.
Amor é só um fator dentre muitos para sustentar uma relação. Um pai amoroso pode ser negligente; uma mãe amorosa pode ser individualista; um marido amoroso pode ser infiel; uma esposa amorosa pode ser egoísta...a gente é que superestima o amor. Amor é muito, mas não é tudo. Faltam afetos coadjuvantes, atitudes auxiliares, fatores complementares.
Quantas idiotices a
gente faz por amor! Se você for uma pessoa normal, vai reconhecer que já fez
papel de idiota, que fez besteiras e até se comportou como burro, quando amou –
e não me venha com as idiotices de separar amor de paixão. Nada mais
desanimador que um amor sem empolgação; E a empolgação é a paixão, é o desvario
maravilhoso deste estado de amar.
Este luto de defunto
vivo, que é deixar de amar e estar com o ser antes amado, é esquisito e
doloroso. Eu me sinto como se estivesse voltando para a minha casa. A casa
vazia, só minha – sem vozes ou sombras de ninguém.
Ele me disse: ‘você
está diferente!’
Eu disse: ‘eu também
achei!’
Tive vontade de
esfregar este troféu do ‘eu não te amo mais’, na cara dele. Mas, eu não estava
feliz com aquela vitória. Decerto, entre amar e não amar, eu opto por não amar.
Não quero mais. É cansativo e desgastante.
Porém, não amar é
também difícil e desafiador. Não ter um objeto amoroso é não ter em quem pensar
antes de dormir; é como um desenho animado em que o protagonista vence o
inimigo (E se o Coiote pegasse o Papa-Léguas? E se Tom matasse Jerry?). Daí a
humanidade precisar pensar em um duelo final entre o Bem e o Mal, não é? Combustíveis
da fé, elemento motivador.
Deixar de amar é
voltar para a casa vazia, é voltar para si mesmo e voltar-se para si mesmo.
Aquele tempo que eu gastei olhando para o outro, na direção do outro, agora me
obriga a olhar para mim – e arrumar essa casa não é fácil. Cada cômodo, uns
incômodos, até que tudo se acomode.