Há aprendizados que só a idade traz. Claro que há pessoas adultas, idosas e babacas, mas estou aqui falando de todos nós que temos a decência de cuidar de nossa maturidade intelectual, moral, emocional/psicológica, ainda que sabendo que em alguns aspectos podemos ser infantis ou carregar traumas de infância.
Aqueles que fomos,
às vezes, é somente uma marca no passado. Às vezes temos até vergonha de termos
sido como fomos – e deste ponto, haja maturidade para se perdoar e entender que
aprendemos a ser diferentes. A transformação a que me refiro não é aquela
decorrente de querer agradar ao Outro, a tentar corrigir um defeito e ser como
pai, mãe, namorados, gostariam...trato daquela outra transformação em que é você
mesmo que vai girando o leme e colocando o barco em outra rota, naturalmente.
Quando escrevo aqui
no blog, falo muito de mim mesma até quando estou tratando sobre os outros. Nem
tudo é autobiográfico, mas quem escreve coloca muito de si, inclusive no modo
que escolhe narrar, se expressar. Há uma assinatura invisível no que se conta –
até no que se repudia, na forma como se manifestam indignações.
Já citei o quanto me
entristece quando as pessoas que me são íntimas inventam de colocar em perfis
sociais apenas as imagens de quando elas eram mais novas. Pequeno adendo: Este
blog existe desde 2009. A foto que está aqui no perfil é daquela época e tem
uma razão para isso, que é a minha vontade de deixar a imagem como registro de
nascimento da página, de como eu era naquele tempo. Várias vezes deixei em
postagens fotos mais recentes minhas. O caso não é querer parecer ser novo. O
caso é que o relógio não gira para trás.
A suposta novinha de
hoje, o novinho de hoje, se muito permanecerá novo não excederá uma década. É disso
que eu quero falar: o processo é muito rápido.
Da infância para a adolescência,
o tempo é pouco. Ter 11 anos é confortável. Ter 15 anos é a porta do caos. Ter
19 anos é o ápice das angústias, é o tempo dos ajustamentos e dos desajustamentos
também. Agora, vou falar de mim mesma: eu não seria feliz se tivesse casado e
tido filhos entre os 19 e os 25 anos, conforme a maioria de meus amigos.
Deveria ter um decreto proibindo as pessoas de casarem antes dos 25 anos (estou
brincando, viu, gente?!). Quem disse que você é adulto só porque o calendário
avançou para 24, 25 anos? Adulto na idade, sim; maturidade consolidada, ainda
não. E nisso, a vida segue: universidade, trabalho; mestrado...pluft! 30 anos.
Hora da crise. Hora de quem casou, descasar; de quem é solteiro querer se
enroscar; hora de questionar às próprias decisões; hora de se sentir perdido e
idiota igual foi na adolescência...Hora de trocar de emprego, de ter carro ou
de trocar o que tem. Opa: hora da maturidade sexual verdadeira. É o que
geralmente acontece: o seu corpo finalmente é seu; passou a vergonha e passou
os esforços para agradar aos outros; a pessoa passa a ser seletiva...35 anos,
hora do doutorado (começar ou concluir) e hora de cuidar do corpo – acabou a
brincadeira, chegam os cabelos brancos e as ameaças de barriga e de flacidez...
De repente, 40. Medo
puro. Medo de se sentir velho e medo de estar velho. Começam os piores exames
médicos do resto de nossas vidas e você já começa a reparar se o novembro é
azul e se o dezembro é rosa...hora de consumir colágeno em pó (em cápsula
nunca, pessoal!). Daí em diante, como dizem, é só ladeira a baixo. Sua cara vai
mudar pouco dos 30 para os 40 – se você usar filtro solar, então...
Chegando aos 45-47
aí, sim, a sensação de ser ‘coroa’ – o espelho te fala cada coisa!
Mas, bem: para quem não
morre, o destino é envelhecer.
Não tema, apenas se
cuide.
Procure não ser o
babaca que vive dizendo que a idade está na mente. Isso não é verdade, a idade
está na gente todo. Temos a sorte de não aparentarmos tanto a idade como antes.
Há até uns sites sobre como as pessoas eram velhas nos anos 80 do século
passado – olha, nasci no século passado, no milênio passado...e daí?
A maturidade
psíquica faz você não se ofender à toa. É chato terem tons depreciativos para tratarem
comigo/conosco? Sim. Odeio ser chamada de ‘tia’, mas como professora, acho
conveniente ser chamada de senhora.
Odeio a cultura
machista, que coisifica as mulheres com as velhas piadas de ‘trocar uma de 40
por duas de 20’, como se os homens não envelhecessem; porém, essa implícita
comparação com um carro me leva à outra: entre um carro e outro, o dono não
envelhece?
As mulheres
reciprocamente se depreciam, adotam a mesma lógica dos homens, chamando-se de
velhas, louvando carecas e barrigas masculinas imensas. Mas, não deveria ser
essa a guerra, não deveria haver vergonha em exibir datas de nascimento, (porém, há porque sempre haverá julgamento).
Novamente, lembro de
um episódio da Família Dinossauro, chamado ‘O dia do arremesso”, em que a sogra
de Dino, devido à idade, deveria ser jogada de cima de um penhasco – e dali o
episódio conta várias coisas e traz metáforas fantásticas sobre o
envelhecimento.
Meu medo da velhice
é de ordem social: não poder mais andar de roupa curta e de cabelo comprido (a
sociedade odeia mulher velha com cabelo comprido, não pode usar franja também);
não poder ir às aulas de axé, nem usar patins, nem ir à musculação; nem cantar as músicas
contemporâneas, nem usar batom vermelho-alaranjado; nem ostentar cores fortes
nas roupas...nem ir a festas sozinhas ou sair para dançar...não pode, pelo
menos no Brasil, não pode.
Nenhum comentário:
Postar um comentário