Louquética

Incontinência verbal

sábado, 20 de junho de 2026

E aí, I.A.?

 


Não tenho posições radicalmente contra tecnologias. Admiro a capacidade humana de criar, seja polindo ou lascando uma pedra para forjar instrumentos úteis, como o fizemos na Idade da Pedra Polida e na Idade da Pedra Lascada, seja na invenção de microscópios e aparelhos de ressonância magnética.

Vivi o suficiente para assistir ao filme de Spielberg, I.A; e ao de Spike Jonze, Her. Antes deles, assisti a desenhos animados como Os Flintstones e os Jetsons. Portanto, a imaginação humana sempre deu conta de pensar o futuro e a tecnologia.

Inteligência Artificial não é uma abstração: há humanos sob ela. Há o recolhimento de informações pensadas, elaboradas e disponibilizadas por seres humanos, que são agrupadas e reprocessadas. As Inteligências Artificiais estão sujeitas às falhas de dados e de interpretações e, por conseguinte, errar não é somente humano.

Vivi a era do Photoshop, dos filtros e dos aplicativos de melhoramento de imagens. Agora, todavia, acompanho, assustada, a doentia relação das pessoas com a I.A. Estou me referindo às pessoas próximas.

Querer “sair bem na foto” é algo normal e nem sempre o espelho devolve imagem pior do que uma câmera. O patológico está na composição de narrativas visuais de si, totalmente avessa à realidade etária e física das pessoas. Meus próximos acham mesmo que têm 20 a 30 anos a menos do que lhes aponta a realidade da Certidão de Nascimento. Com imagem tratada por I.A., lançam-se atrás de companhias, inventam pares idealizados (gente de mentira, pura ficção de I.A.) e acreditam no que ajudaram a criar.

Sim, precisamos de fantasias e de termos capacidade de sonhar. Mas, os adultos acima dos 50 já não têm a mesma liberdade de criar amigos imaginários como tinham as crianças até os sete ou oito anos.

Há um eu-ideal. Precisamos também idealizar a nós mesmos e isso faz parte do jogo da vida – a vida como jogo é uma partida em que tentamos trapaças para vencer, variando a área e o adversário específico.

Olhemos a anterioridade disso tudo lá em O retrato de Dorian Gray, na célebre discussão sobre envelhecimento: “Não! Não era possível! Hora após hora, de semana a semana, a efígie na tela iria envelhecendo. Poderia escapar à deformidade do pecado mas não escaparia à da idade. As faces tornar-se-iam encovadas ou flácidas. As horríveis rugas orlariam os olhos baços, fazendo-os ficar mais desagradáveis. Os cabelos perderiam o brilho e a boca teria lábios reentrantes ou descaídos e a expressão atoleimada, ou brutal, das bocas dos velhos. E rugas no pescoço, mãos frias, sulcadas de veias salientes, corpo encurvado, como o avô que o tratara com tanta severidade na infância...Não havia remédio. Era preciso esconder o retrato.” (WILDE, p. 107).

Três pessoas próximas a mim estão bem nesse ponto. Aos poucos, perdem o contato com a realidade.  Poderiam ajudar a si mesmas recorrendo aos artifícios da vida real, como ácido hialurônico, botox, exercícios físicos. Mas, preferem o simulacro de si mesmos. Que coisa estranha é usar esta expressão anterior! Seria simples se fosse apenas alteração em fotos, em composição de vídeos. Porém, excedeu ao patológico.

Imagino a vida de quem substitui uma sessão de psicanálise por uma conversa com I.A. E os tantos que devem acreditar que a “Alexa” é uma pessoa de verdade, nós não saberíamos mensurar.

Dentre as pessoas citadas está alguém com quem eu tive um relacionamento. Ele foi envelhecendo e se tornando delirante. Tinha um ego grande e frágil, com ideais de ser (e pensa que é) o homem mais inteligente do Brasil. Sonha com reconhecimentos na área intelectual e artística – julga ser excelente poeta e compositor. À parte, está em processo de adoecimento psíquico, assim como a outra pessoa conhecida, que segue esses mesmos passos e criou um homem namorado, perfeito e bonito como só os recursos da tecnologia poderiam proporcionar.

Lamentavelmente, numa gincana, ano passado, em uma escola onde eu trabalhava, assisti à líder de equipe recorrendo à I.A. para criar um simples grito de guerra que quaisquer quatro versos bobos contemplariam. Mas, entre a incapacidade, a preguiça e a suposta perfeição, a máquina venceu e deu o que ela queria, ainda que carecendo de sentido. Cada geração se deixa vencer por emulações de perfeição, por comodidades perigosamente traiçoeiras.


Nenhum comentário:

Postar um comentário