Louquética
Incontinência verbal
quinta-feira, 11 de junho de 2015
Triângulos
Honestamente, as minhas amigas estão muito preocupadas. Uma, preocupada em fazer o teatro do Dia dos Namorados dar certo, quando ela já não está a fim da companhia de agora e arrasta o cadáver do relacionamento visando não ficar sozinha; retribuindo, com gratidão, ao tanto de carinho que recebe...A outra, assim como eu, querendo passar dignamente pela data. No caso dela, agravado pelas recentes feridas, causadas pelo homem feio e velho por quem ela se encantou, numa inversão de proporcionalidades afetivas e qualificativos que me deixa pasma. Mas, aceito que amor não é script, escolha deliberada... E finalmente eu, o terceiro ângulo da figura, a me encher o saco pela paixão inacabada, com ares patológicos, que também se arrasta em mim, por uma pessoa que eu não vejo há onze meses, com a qual eu falo com certa e superficial frequência...
Sou a pior das três: em julho meu relacionamento não assumido vai mudar tudo, pois ele vem para cá e vem para ficar. Ele, que para mim é pouco mais que ninguém afetivamente enquanto homem, mas que a distância revelou que me faz falta, que tem aí uma cumplicidade... Não sei o que é esse relacionamento pela metade, porque ele não sabe que eu não sou namorada dele, nem a família dele sabe e eu nem sabia que estava fingindo e mentindo...Simplesmente ele não existe em minha contabilidade...Não foi a malícia da mentira, foi que ele esteve fora, em tratamento de saúde...e eu vi naquela saída mais um alívio que uma saudade. Esquisito isso, mas bastante sincero também.
Também respeito contextos: assim como esperei passar o aniversário de FJ para então terminar, vu dar o tempo da readaptação do Outro para entregar o bilhete azul.
Coisa mais esquisita é isso de sentir a gaiola perto das minhas asas: me acostumei demais a viver sem ele - e como a vida boa.
Mas se ele está, morro de ciúme e posse, como nem deveria. E foi isso que sempre me amarrou ao que eu não queria:uma boa dose de posse, que inferniza meu espirito.
A segunda amiga citada, assim como eu, quer passar o Dia dos Namorados dignamente, quieta em casa, sem o falso glamour de quem está comemorando.
Da pessoa que eu realmente gosto, quero é esquecer. São onze meses sem ver e deveria ser, pelo menos, cinco meses sem gostar dele...Coisa platônica chata.
Tem uma coisa comigo que parece que a vida, no que tem que mudar e no que tem para acontecer, só acontece depois de maio...Então, daqui para frente, só rolarão as pedras.
Não quero compensar o relacionamento que eu não tenho, me auto-presenteando na data comemorativa: não tenho namorado, mesmo tendo quem pense ser meu namorado...Tudo tão confuso quanto coração de adolescente...E é assim: o menino lá tem 31 anos...A gente, cá, todo mundo com o pé na quarta década...assim como o dono da gaiola já citado, avança na direção da quarta década...
Tenho vergonha do pouco respeito que eu tenho por alguns homens. Não dá, não repeito, nem considero plenamente gente, seja porque são meros serial fuckers, seja porque são vazios, mesmo, tipo G.
A qualquer bom dia recebido, ele me pergunta se ando com saudade daquele 'corpinho'. Ora, a educação me impede de dizer que não tenho saudades, que o corpinho é bonitinho, mas que ele medisse bem a dimensão do pau dele antes de se julgar grande e inesquecível. Ah, a educação!A educação nos priva de dizer que tamanho é documento, mas quando uma mulher busca não ser indelicada, ela também aposta no bom senso do cara. Como pode?Será que o cara não tem mesmo noção do tamanho? Não sabe a diferença entre um 'quase-nada' e um respeitável pau (não, gigantesco, não: respeitável!)...
E esse aí, então, que adora clichê? Tantas mulheres já passaram pela vida dele e o quantitativo era para gerar algum feedback, algum conhecimento...Não, ele não sabe nada sobre mulheres - ou nós somos exímias em nossas mentiras bem educadas o bastante para ele achar que sabe tudo...Aeróbico, sem toque e sem talento...Um corpinho tão bonitinho, uma carinha tão razoável...um cérebro vazio, com suas poucas ideias clichê...E daí que o que nele nos atrai, na verdade não no segura. Mas estou mal educada, agora...É o que dá: as mulheres comentam, as mulheres detonam entre si, embora o papel de santa seja tão confortável...
Nada de mais: gosto de um, com o qual nunca tive nada além de flerte; tenho um namoro que não formalizei o término devido ao internamento do boy, para tratamento de saúde (e não sou um monstro para comunicar o término na hora errada); e andei de rolo com G., de quem agora falo as verdades indelicadas...Fácil de entender: sou solteira e sozinha, com pequenas controvérsias.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Mais do que palavras
O Ex-Grande Amor da Minha Vida sempre me dizia que eu escrevia com verdade. Era assim: eu escrevia de uma maneira crível, espontânea e não havia nada de mais naquela escrita, a não ser a sinceridade mesmo.
Claro que as palavras traem, claro que se pode manuseá-las artesanalmente, de modo a transmitir verdade ao que é apenas figuração. Mas acho que ele sentia que a verdade vinha da força de fazer o possível para me presentificar naquilo que eu dizia, já que eu não estava ali cara a cara com ele, e a escrita é sempre risco: a gente pode ser mal interpretado sem ter a chance de esmiuçar e esclarecer o que, de fato, quis dizer.
Não havia nada de mais em minhas palavras: só sinceridade.
A pessoa que eu ainda gosto há um bom tempo, outra pessoa que não a acima referida, não tem palavras. Fico boba com isso: antes ele falava, oralmente mesmo, porque precisava chamar minha atenção, se mostrar diferente, mostrar conteúdo, se destacar dos outros, das outras carinhas bonitinhas...Hoje, ele nem é sequer monossilábico.
Passei a pensar no que a minha analista me dizia, há anos: que eu costumava encurralar os homens através das palavras.
Logicamente eu sei a diferença entre um cara que me deixa no vácuo, falando sozinha; e outro, que não encontra a palavra certa, que acha que eu traço um raciocínio denso muito difícil de ser adequadamente rebatido. Não, não é a dificuldade de construir o argumento: é o risco de ser observado em suas preferências ou lapsos gramaticais, é o meu antecedente de professora que o faz se sentir vulnerável às correções típicas de um texto...E nisso nós diferimos muito: gosto a espontaneidade. Não sacrifico a naturalidade da comunicação de um texto porque tenho que ser atenta aos pronomes, às ordens, às palavras certas. Deixo isso para os textos científicos, onde bem cabe.
No fundo, dá uma certa tristeza por meu interlocutor se intimidar: tantas palavras e ele não escolhe nenhuma.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Ser igual aos outros
As mulheres ainda querem a forma mágica de agradar sexualmente os homens. Os tão falados 50 tons de cinza, em livro ou filme, pelo estardalhaço e público maciços, são provas disso.
A presença lacerante das mulheres em sexshop, a recorrente presença do tema nas revistas femininas e o crescente interesse por cursos de strip-tease e estripulias sexuais em geral, ratificam a afirmação.
Minha amiga se deixou seduzir por um velhinho a pretexto do perfil do homem-experimente sexualmente - como se não houvessem mulherengos e cafajestes de todas as idades. Ela acha que ele é o máximo e que sendo uns 15 anos mais velho que ela (ele, mais para sessenta do que para os alegados cinquenta), ela é coroa e ele, um homem experiente e nada mais. E a verdade é que ela é uma moça na idade e na aparência.
Pulando o caso clássico de que o velhinho gosta de auto-afirmação e tem a cama mais frequentada que a estátua do Cristo Redentor, para o que se vale do charme irresistível que só o dinheiro dá a quem não tem cara atraente, corpo atraente, bagagem cultural ou bens simbólicos como intelectualidade, sensualidade ou sei lá mais o quê, ele entende tudo de mulher, segundo a minha amiga.
Essa declaração genérica, por fim, foi decantada no seguinte: ele fala. Ela odeia homem calado. Ele fala. Ele fala palavrões chulos, baixos e clássicos como nos filmes pornográficos. Ela disse amar se sentir vulgar, tomar o papel atribuído à puta.
Paro e penso no nível de repressão de nossa sagrada sociedade brasileira: para gozar, só sendo puta. Para gozar, só se sentindo puta. Para sexo, é preciso que a mulher se fantasie imaginariamente de puta, que o homem a chame de puta, que proceda ao clichê: tapa na bunda, puxar o cabelo, se fazer de super comedor, serial fucker, que é melhor para os dois.
Isso seria liberdade, se fosse escolha. Porém é imposição de um modelo de comportamento. Até o sexo é enlatado, é cultura de massa, entretenimento adulto padronizado. E só pode ser assim.
Todos têm que gostar do mesmo. Aberração é sexo com carinho: uma caretice. Qualquer coisa que não siga esse script, poderá parecer romance, normalidade, mesmice, papai-mamãe, repressão...Tem que ser assim. Só pode ser assim.
Recentemente desencanei de dois relacionamentos, um por começar e outro que poderia ser retomado: em ambos os casos, os caras lindos, educados e inteligentes tinham fixação pelo universo virtual. de uma forma voyeur, de uma forma também platônica...E eu comecei a achar tudo doentio e apesar de gostar de fotos, não tenho saco para entrar nessa coisas paranoica de troca de imagens, gravação de áudio, telefonemas eróticos...Eu queria alguém de carne, osso e ectoplasma, tipo gente de verdade, que age, respira, beija, reclama...E não esses neuróticos da longa espera, que adiam o prazer e que pensam que imaginar é melhor que viver presencialmente.
Fantasia é ótimo.
Imaginação, quem não tem, está lascado.
Mas e a concreticidade das coisas? pele, carne, contato?
E então é isso: o sexo bom para a minha amiga é o do palavrão padrão; para os meus pretendentes, é o imaginativo, virtual...Não faço parte desse mundo...
Se o cara quer dizer palavrão, que fique à vontade; se quiser ouvir, sou mais de dizer no trânsito e na intimidade nunca soa natural...Entro no jogo, faço, se assim ele quer, porque sou uma mulher igual às outras que apesar de não ler livro clichê, não ver e não me interessar por 50 tons de cinza, também quer agradar sexualmente ao parceiro...Mas não em detrimento da minha vontade, nem por achar que sendo quem eu sou, eu não possa usufruir dos prazeres, que precise me refugiar no palavrão e na máscara das putas.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Quando um não quer, sobreviva!
Ouse dizer meia dúzia de verdades a uma pessoa apaixonada e iludida e ela vai te odiar para o resto da vida. Contudo, um dos gestos de compaixão e solidariedade aos mal-correspondidos na vida amorosa, se estes são nossos amigos, é fazê-los passar por esse confronto e aguentarmos o fardo.
Como já tomei desse veneno, pelo menos não costumo odiar aos que me abrem os olhos. Mas ainda me surpreendo pelo sucesso que tópicos (filmes, reportagens, conselhos, opiniões especializadas) a esse respeito fazem. É o velho 'ele não está tão a fim de você". E lá vou eu repetir as verdades mais clichês do planeta.
Ainda assim, admito que se uma pessoa nos aborda, nos procura, se insinua, procura despertar a possibilidade de relacionamento e na hora de tudo se concretizar, nada acontece, há alguma coisa aí. E essa coisa quase sempre é ego mesmo. Pura necessidade de auto-afirmação.
Mas vamos ao sinais claros:
1) A pessoa marca o encontro e nunca aparece.
Nesse caso, a primeira vez pode ser mesmo o caso de ter havido imprevistos.
A segunda vez, pode ter sido falta de sorte. Parou por aí. A partir de uma provável terceira vez, fica caracterizado o jogo besta do gato e do rato, o jogo do coelho que nunca vai sair da toca, da capivara que nunca vai deixar a moita.
Quem quer a gente, vem ao nosso encontro. Não tem desculpa esfarrapada que justifique três bolos.
Mulheres super apaixonadas acham que o cara foi abduzido por alienígenas; o pneu furou; abriu-se uma cratera no asfalto e engoliu o carro dele; que ele foi acometido de perda conveniente da memória e da coordenação motora...ora, pois...se engana quem quer.
2) A pessoa jamais toma a iniciativa de falar com você.
Na primeira vez, pode ser timidez e insegurança.
Na segunda vez, cautela.
Na terceira vez, é porque você não tem a menor importância, está disponível, vai correr atrás e o sujeito vai lhe deixar no vácuo e ponto final.
Não dá bom dia, não manda mensagem, não procura você? recolha-se ao seu cargo de adereço do ego alheio, reforço de auto-afirmação de novo.
3) Diante dos questionamentos mais elementares a pessoa sai pela tangente, faz cara de paisagem e só te procura quando você some? então o diagnóstico é dos mais sombrios: ele está procurando criar um porto-seguro, um amparo para o caso de outro relacionamento dele dar errado e ele ter para onde correr e, antes de tudo, não lhe tem o menor respeito. Das piores coisas que se pode fazer a um ser humano em geral e a uma mulher, em particular, está esta forma de coisificar a pessoa, tornando-a mero suporte nas crises.
4) Ele mantém um contato esporádico e frio.
Já está na cara que não há o menor interesse e o sujeito apenas tem fairplay. Ponha na conta da sociabilidade e da educação.
5) Nas ocasiões importantes, você não faz parte dos planos
Aqui tudo se torna óbvio: além de não corresponder de forma alguma, ele não quer compartilhar nada, não quer amizade, não quer contato e se muito quiser é uma diversão sexual secreta.
6) Só você fala em sentimentos
Se só você ama ou diz que gosta, o negócio está feio. Aliás, nem tem negócio: ele não apenas não gosta como deve se sentir enfadado por ouvir ou ler declarações sobre sentimentos a que ele não corresponde. Por outro lado, ele pode adorar ouvir e ler estas coisas, a fim de provar a si a capacidade de seduzir, para exibir para outrem o quanto é amado e, seja num caso ou no outro, a desvantagem é toda sua.
7) Ele passou a ignorar as suas datas importantes ou as datas socialmente importantes em geral,
Nada de parabenização em seu aniversário? Nada de felicitações por suas conquistas? Nada de Feliz natal? Quanto mais será necessário fazer para provar que você não existe para ele?
8) Se o telefone nunca te atende ou se ele nunca ligou
Nem precisa ser dito nada. Não é problema na rede de telefonia, nem operadoras conspirando contra os que se amam: é que ele não quer papo.
9) Muitos silêncios
Se as coisas silenciaram do lado de lá, nem pense em quebrar o gelo. Sigamos a velha máxima: "Quem tem sede vai ao pote"...Se ele quer, ele procura.
O silêncio pode ser derivado da falta de coragem de dar o bilhetinho azul e naufragar as velhas desculpas de que 'você merece alguém melhor que eu'; 'eu estou numa fase difícil', 'não quero nada sério agora', enfim.
10) A friendzone
Ser considerada amiga não é ofensa. Às vezes é respeito mesmo: o cara te achou bonita, inteligente e interessante, mas sabe que vai te dar uns pegas e te largar. Por consideração, prefere deixar na amizade mesmo a ter que complicar as coisas.
Não é fácil. Muitas vezes a pessoa fica com a impressão de que há algo de errado com ela, já que nem mesmo para sexo o cara quis.
A principal diferença entre um CAFAJESTE e um MAU CARÁTER é que o cafajeste é sedutor e quantificador, a cama dele é mais visitada que a estátua do Cristo Redentor, mas o jogo é claro: ele é um serial fucker e você é mais uma. Ele não promete nada.
O mau-caráter, todavia, é escroto, se finge de namorado, faz o jogo, sabe tudo que as mulheres gostam, matam a fome de sexo, amor, carinho e constroem dependências emocionais e, no final, você descobre que é tão especial quanto as outras seis namoradas que ele tem. Portanto, mil vezes um cafajeste a um mau caráter.
11) Ignorando os sinais
Nenhum homem vai mudar, deixando de ser quantificador e galinha porque tecnicamente encontrou a pessoa certa que, no caso, é você. Não, baby, não é assim: ele será mais vigilante, mais cuidadoso, terá chip secreto para os contatos dele; bloqueará todos os contatos de what's app durante o fim de semana com você, terá bons álibis, mas se você já conheceu este cara com um histórico prévio constituído, não se julgue a redentora ( a traição está rolando...é procurar e achar).
Se o cara dá claro sinais de que você significa pouco ou nada, se não gasta 30 segundos para escrever uma linha de mensagem, nem para acionar um emoticon apenas como forma de te dar um 'oi', ai é esperar o pé na bunda veemente porque maior rejeição nem tem como rolar a menos que seja em palavras ditas na cara.
12) Os gestos de educação
Se o contato é formal, na base daqueles 'tudo bem?' vazios e mecânicos, isso significa :"não estou interessado!"
Se todos os indícios e provas conclusivas apontam para um amor não correspondido, deixe a pessoa em paz.
É muito bom ser amado. Naturalmente. Forçar a barra não traz a amor. Prender-se a um amor parcial e unilateral é insuficiente.
Dói, mas é preciso ir se desvencilhando.
Um dia você procura menos e até chora muito; aos poucos procura ainda menos e também chora menos...até que nem procura nem chora e, com alguma sorte, até acha o que lhe falta sem ter que procurar. Sábia Rita Lee, que repito: "Sexo é escolha; amor é sorte!"
domingo, 26 de abril de 2015
Mentiras sem remédio
Eu nunca entendi direito a compulsão que elas têm por contar mentiras.
Numa, o caso é patológico e ao mesmo tempo gratuito: constrói narrativas dramáticas e chorosas a respeito da própria vida, de modo a garantir afagos caridosos na conta bancária e algum carinho correlato.
Já a outra é fantasiosa: distorce, exagera, acrescenta...É quase um talento literário para recompor a realidade a seu modo, a pintar um verossímil moralmente torto, sempre com acréscimo e acréscimo vantajoso, cheio de glamour, paisagens, brilhos, status.
Minto para me salvar. Geralmente é um recurso defensivo e na maior parte das vezes, são meras omissões, para evitar que o povo do trabalho migre para minha vida pessoal; para evitar que minha vida familiar invada minha vida pública; para evitar bisbilhotices de alunos e de colegas de departamento; para evitar que namorados e candidatos a namorados adentrem ao que eu penso de verdade ou o que eu andei fazendo. Da mesma forma que não gosto de gente socada em minha casa, vendo, medindo, avaliando, testemunhando, presumindo.
A gente escolhe o recorte a ser dado na nossa vida social. Nesse processo de edição, nem tudo vai ao ar. Para mim, isso é diferente dessa compulsão pela mentira.
Mentir para quê?
Em meu caso, não venço sempre, não sou feliz todos os dias, tenho angústias, decepções, derrotas, passo por rejeição, por amores não correspondidos ou inadequados...E também há coisas dignas de orgulho, mas que a gente omite, como os parentes socialmente importantes, os ganhos, os elogios na área de nossa atuação, o brilho profissional, os convencimentos internalizados que temos sobre a capacidade intelectual, caridade e generosidade, dentre outras tantas coisas boas que por educação, prudência e tudo o mais, não precisa ser dito.
Segredo eu tenho, aos monte, nunca neguei que os tenho. E são segredos. Não quero que caiam no ventilador e se espalhem. Tenho segredos de todos os tipos: graves, leves, engraçados, incompreensíveis, traumáticos... E são meus.
A compulsão pela mentira que tem a minha amiga 02 já a deixou em enrascada e me puxou junto: um amigo em comum me perguntou de um assunto. Pluft! falei a verdade. Ele sabia que era verdade e confessou ter ouvido uma versão vantajosa, vencedora e toda glamourosa da minha amiga 02. Descoberta a mentira, ele apenas me pediu para que eu não tocasse no assunto, de modo a que ela jamais soubesse que a mentira houvera sido descoberta. Traduzindo: ele teve pena dela.
Certos mentirosos são dignos de pena.
Os fantasiosos gostariam que a vida fosse aquele filme perfeito que eles descrevem. Não, " a vida não é filme,/ você não entendeu!"
sábado, 11 de abril de 2015
Mulheres ao volante
Viver é teimar contra as tristezas e também ousar. Não sou fã de quem curte o sol grudado na borda da piscina, com seu eterno medo de se afogar. Tenho enfrentado medos que se mostraram realmente imaginários, como o de usar embarcações, tal me foi forçoso fazer quando fui a Morro de São Paulo em janeiro deste ano. Confortável não é, mas não tenho pânico. Avião, também, é inseguro e desconfortável, mas a gente vai e acredita nas estatísticas.
Depois que eu destruí a última pedra do meu muro, tudo mudou. Acabar com certos sentimentos opressores, certos medos, certos complexos ou querelas psíquicas realmente muda nossa vida. Demora, mas muda.
Minha amiga tirou Carteira Nacional de Habilitação. Aguardou os três meses até à vinda de seu carro e, até então, enfrenta as inseguranças comuns ao caso, agravadas pela consciência de que a discriminação por gênero intensifica as dificuldades das mulheres no trânsito.
Não dá para negar: o reforço negativo de culturalmente (na rua, na família, nos espaços virtuais e, simplificando, em toda parte) ouvir depreciações, leva a gente a incorporar e acreditar no que ouve. É assim que se geram os complexos: todo dia a pessoa ouve que é incapaz, ou que nunca será apta a dirigir, que 'mulher no voltante, perigo constate; com outra do lado, perigo dobrado; com outra no fundo, perigo profundo"; que não temos habilidade para estacionar e etc., como não acreditar, mesmo inconscientemente? Em contrapartida, menino brinca com carrinho; o pai procura ensiná-lo desde cedo a dirigir; ele incorpora que o veículo é um acessório para a conquista das mulheres e um meio adicional de incrementar a vida sexual...Logo, tem um machismo que lhe favorece e condições subjetivas que auxiliam seu sucesso.
Falo aqui de linhas gerais, da regra, da maioria. A exceção sempre há, mas como é pequena, não cabe em minha pauta e não estou falando em exceção mesmo!
Leva a sério quem quer, mas é com humor e ironia que vou dar os conselhos abaixo relacionados para as iniciantes no trânsito. O grau de seriedade a que devem estar sujeitas as afirmações variará de acordo com a sagacidade e inteligência de quem se predispuser a interpretar.
1) Uma vez de posse da Permissão para Dirigir, siga os aprendizados da auto-escola, a fim de evitar multas. Logo, não vá com os demais motoristas, achando que o sinal amarelo significa "corra muito antes que fique vermelho".
2) Se o carro estancar, faça o possível para manter a calma. Caso contrário, nunca irá ligar de novo e ainda vai ocorrer de o veículo ficar num estado de convulsão, pois isso se dá por ansiedade, medo de errar e vergonha de ser insultada pelos demais motoristas, sempre prontos a dizer"só podia ser mulher".
3) Para o carro não estancar, lembre-se: a primeira marcha é marcha de saída, de partida. Procure equilibrar a embreagem e o acelerador, condicionando não somente a sincronia dos seus pés nos pedais respectivos, como ouvindo o seu carro. Os barulhos indicam a hora de ir trocando de marcha.
4) Não se desespere se entrar a marcha errada. Muito comum é entrar a quinta por terceira marchas e vice-versa. Truque simples: na maioria dos modelos, a terceira vai estar na posição do seu dedo anular; a quinta vai encaixar se você direcionar para um imaginário 'joelho' do seu carona.
5) Não quer passar aperto em ladeira íngreme? Suba humildemente na primeira ou na segunda marcha. São marchas de força que lhe protegem de infortúnios, inclusive de paradas e estancamentos no meio da ladeira. Agora, se parou, lembre-se: há um freio e há um freio de mão. Dominados, nunca permitirão que você desça ladeira abaixo.
6) Se meteu em encrenca? calma! não leve a sério os insultos. O maior truque de um motorista é a capacidade de xingar. Tenha vidros fumê e xingue mesmo!use seu repertório de palavrões e adquira novos sintagmas;
7) Use a faixa da direita. Quem quiser ultrapassar que se mate e pegue a faixa da esquerda.
8) Com antecedência, trace a sua rota: não deixe para decidir em cima da hora e seja atenta com os piscas sinalizadores de direção.
9) Se meteu e mais confusão e está encrencada ainda mais ou com medo de ultrapassar? Ligue seu pisca-alerta e finja problemas mecânicos com isso. Desta maneira a sua insegurança passará a salvo dos maus e a pessoa atribuirá ao carro o que quer que esteja havendo e não à motorista.
10) Saiba: retrovisores mentem. Há uma discrepância absurda entre a distância provável indicada pelo retrovisor interno e pelos externos. O longe parece perto e vice-versa: aprenda a calcular distâncias. Se estiver difícil, gire o pescoço e vá verificando, até ter certeza da distância e ir se familiarizando com as manhas do carro;
11) Saiba que pneus precisam de reposicionamento periódico, no geral, a cada seis meses; e cambagem, ambos para equacionar o desgaste deles, pois às vezes, a parte do pneu que fica voltada para a parte interna, tende a se desgastar e ficar vulnerável.
12) Calibrar pneus no posto é coisa a ser feita a cada 10 a 20 dias e dá muita diferença no desempenho do carro e no consumo de gasolina;
13) Use reforço psicológico quando tiver com medo de dirigir sozinha: um bichinho de pelúcia, uma oração, um amuleto ou músicas preferidas ajudam; além disso, escolha um 'cheiro' para seu carro e vá aos poucos construindo sua segurança. Dirija por curtas distâncias e vá aumentando gradativamente.
14) O congestionamento te favorece: perde-se tempo e, às vezes, paciência num engarrafamento. Porém, todos estarão dirigindo na primeira e na segunda marcha, o que torna tudo lento e, contraditoriamente, favorável ao aprendiz.
15) Não tenha vergonha de pedir ajuda para estacionar. Na garagem de casa, idem: geralmente têm muitos obstáculos e a noção da dimensão, do tamanho do carro a gente só ganha aos poucos. Ela pode nos enganar. Estacionar demora e, na vida real, nada do que se faz numa prova de DETRAN será aplicado. Cada caso é um caso.
16) Trânsito requer atenção: não caia na tentação do celular, mesmo em Bluetooth. Se está tensa, melhor olhar para frente, que se ganha mais.
17) Vaga boa para estacionar é a que primeiro lhe aparecer, especialmente num shopping. Perder tempo circulando à procura da vaga ideal só vai lhe cansar e detonar sua gasolina. O resto, é apostar na sorte e nem sempre a vaga do sonho estará à sua espera.
18) Não tenha mão de vaca por uns ml a mais de gasolina: está chegando em casa? dê a volta com seu carro no quarteirão, de modo a ir observando se tem gente suspeita na tocaia das ruas. Se houver, não entre em casa, caia fora e dê um tempo ate se sentir segura para voltar.
19) Construa agilidade para sair e para entrar no carro, justamente para não se expor aos riscos.
20) Choveu? a pista está branca? pare humildemente e espere passar. Quem quiser seguir, que se dane. Cuide de si. Anoiteceu?não se iluda: a visibilidade piora muito, particularmente nas BR. Quer evitar problemas? saia muito cedo, tipo seis da manhã. Menos carros na rua, menos gente para azucrinar.
No mais, conseguimos conduzir vidas e carreiras e carro é apenas uma máquina: é preciso dominar sua linguagem, técnica e artimanhas.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
O tempo e seus dramas
Acho um abuso, um desperdício, uma alienação das mais idiotas, o sem-número de pessoas a encetar campanhas contra a novela das nove. Não assisto, porque sempre trabalho à noite; quando não trabalho à noite, prefiro ver outros programas na TV por assinatura, ler e etc. O que me causa espanto é ver o quanto temem à ficção. E mais ainda, quando a ficção reproduz a realidade, o quanto as pessoas se incomodam por verem publicadas as coisas que já acontecem no cotidiano.
Até onde me consta, é na vida real que há traição, amor, doença, imoralidades, homossexualidade, heterossexualidade, assexualidade, disputa, angústia, felicidade, assassinato, nascimento, casamento, intriga, benevolência, caridade, malandragem e etc., concernentes ao ser humano. Se a ficção se apropria de caracteres, situações, comportamentos e etc, recria, exagera, atenua e mais etc., está na sua função e no seu campo de atuação, que é ficcionalizar.
Notei as recorrências entre os amigos dele, disso, de protesto contra a novela, de muito salmo e pouca virtude, só para citar de onde vem minha inspiração. Qual será a religião daquele rebanho de revoltados contra a realidade e inconformados com a ficção?
Hoje, naqueles acasos de ocasião ociosa, voltei da rua e...pluft, liguei a TV. Deixei onde estava: era a Carolina Dieckman narrando parte da novela "Laços de Família", à qual eu não assisti na época.
Não é esse o caso: é o Gianecchini, novo, lindo, contracenando com a Vera Fischer e com a Carolina ( diga-se de passagem: a Vera Fischer igualmente linda).
O tempo passou para ele: envelheceu, continua bonito, mas já foi mais. Como mulheres, somos benevolentes com os homens, aceitamos a idade e as diferenças físicas advindas com ela. Homem, ao contrário, acha que uma mulher de 27 anos já está por demais velha, aos 30, mais que balzaqueana, é coroa; aos 40 é uma quarentona; e se chegar aos 50, velha.
Mesmo assim, as mulheres parecem concordar com esse prazo de validade estipulado para elas. Continuam enchendo a bola dos velhinhos, achando barriga um charme, achando cabeças carecas algo sensual, aceitando pelos pubianos embranquecidos e nada de considerar um homem velho. E assim é com muitas amigas.
Uma delas me perguntou a idade de meu pai. Eu disse: "63". E ela atribuiu a isso de eu ter um pai jovem, na concepção feminina, pois que o dela tinha 85 anos e é por isso que eu (segundo ela) não vejo graça nos senhores de idade avançada, pois que confundo com meu pai. Sim, acho que todos são réplicas do meu pai. Meu Complexo de Édipo não me leva a tanto.
Já disse e repito: acho o corpo do homem uma instância interessante. Gosto da pele, gosto dos cabelos, dos olhos, do contorno da boca e da textura das mãos. Prefiro os da minha idade. Eles, por sua vez, preferem as que têm pouco mais da metade de minha idade.
O Ex-Grande Amor da Minha Vida tem a minha idade, com poucos meses a mais. Foi mesmo minha melhor e maior experiência amorosa.
Os mais novos são ótimos, por serem impetuosos. E eu, particularmente, prefiro e preciso dos homens que têm iniciativa.
Excedendo ao plano físico, devo dizer que sou conquistada pela explicitude de um bom cérebro. Pior: tenho preconceito linguístico. Não digo aqui, nos espaços virtuais, em que a gente flexibiliza a gramática, abusa de neologismos, constrói textos informais, enfim...mas na vida real, encarar um 'concerteza', não dá.
Acima de tudo, sou apaixonada por bom gosto musical. Num mundo de tanto gosto questionável, eu me amarro em quem curte rock, MPB, bons cantores e boas bandas que passam longe dos lamentos chorosos da playlist da maioria. Foi assim que me encantei por muitos...
Mas, voltemos ao Gianecchini: lindo, com jeito de bom moço, meigo, educado...e um pouco velho. Que o tempo seja generoso com a fisionomia dele porque está difícil fabricar galãs. Acho o Marcos Palmeira sem graça, o Eduardo Moskovis igualmente sem graça, o Paulo Vilhena, feio de doer; e se for listar todos os galãs fabricados pela TV hegemônica, olhando de perto, não são nada bonitos, exceto os dois ou três teenagers de novelinhas para adolescente. Resumindo: os homens exigem uma beleza-padrão das mulheres, beleza de deusas ou, no mínimo, gostosura física. Exigem e a gente sofre por não corresponder, se esforça por chegar perto, faz o que pode...Como se o homem estivesse acima de qualquer padrão... Deve ser por que faltam homens heterossexuais e isso gera a supervalorização dos remanescentes. Pouco, com Deus, é muito!
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