Louquética

Incontinência verbal

quarta-feira, 27 de março de 2019

Os lados do muro


Os limites do respeito podem ser estabelecidos por cada pessoa...Mas, ainda que não possamos enxergar as margens entre as coisas, não é difícil de perceber quando eles são ultrapassados. Nesse processo, a gente decide o que suporta, o que perdoa e o que é impossível passar em branco. 
Não são novidades as brigas político-partidárias no Brasil, as tendências, os extremismos...A novidade é o estado geral da ditadura interior, de um endurecimento moral, que todos nós sabemos ser o louvor da hipocrisia. Por outro lado, não deixa de ser interessante ver gente, na horizontalidade das relações, isto é, entre aqueles de nosso próprio convívio relacional, decepcionado e boquiaberto por ter descoberto que o Brasil é conservador e moralista. 
A nata da intelectualidade achava que bastava um “bom dia para todos e para todas”, para mostrar que tínhamos avançado em questões de igualdade. Ora, a troca semântica sempre foi vista como avanço, progresso, evolução. Então, se a pessoa deixa de ser chamada de ‘empregada doméstica” e passa a ser chamada de ‘secretária do lar’, ganha muito simbolicamente, porque se desvincula da carga pejorativa que acompanha o termo ‘doméstica’. O que rege o politicamente correto é o verniz do respeito. Isto assim era, até cair a máscara de nossa sociedade que, aliás, nunca largou suas posturas senhoriais, patriarcais, coloniais, 
Também se revelaram as vinculações ideológicas: seja para um lado, seja para um outro, as pessoas escolhem seus espelhos partidários, os candidatos e políticos mais alinhados com aquilo que elas pensam e que melhor reflete quem elas são. 
Meu caso singular de ficar embasbacada foi com uma amiga que não sabe que é negra (eu que não vou contar a ela isso) e com um parente que não sabe que é pobre ( também não vou contar, porque ele acha que é empresário, mesmo sem ter empresa alguma, mas por prestar serviços a uma empresa que o faz se sentir 'autônomo') e se sentem a elite da sociedade, agindo em defesa da elite. 
Mas, coitada da elite. Coitada da classe média. Sempre foram responsabilizadas por tudo nesse país... O problema é que não temos elite numericamente que justifique os panoramas políticos. A elite é percentualmente insignificante e, por maior que seja a sua influência e seus poderes, não conseguiria dar conta de todos os males que se atribui a ela. É a nossa defesa sociológica dos mais pobres, que colocamos como vítimas. Equívoco maluco: tantos nutrem simpatia pelo opressor – lugar que sonham ocupar, como aquelas vítimas vingativas, como o operário humilhado, que sonha em ser patrão para poder humilhar também... 
Aqui no Brasil, classe é um problema: a pessoinha financia um imóvel em 30 anos, num condominiozinho afastado, e se sente o tal; constroem um puxadinho a que chamam área gourmet e já se acham donos de mansões - pura ostentação! Aqui, se o vigilante da empresa de valores ganha 20 mil e o advogado da empresa estatal ganha 15 mil, instaura-se um caos, porque as pessoas confundem dinheiro, capital e capital simbólico - e só não cito aquelas duas categorias clássicas da Economia, porque não quero mimimi de gente tosca, que quer vir para a conversa para a qual não foi convidada. Não me isento de rir, mas dar minha opinião sincera me faria perder amigos caros, daqueles que acham que a pobreza se faz por quem não tem condições mínimas de sobrevivência. Não vou explicar a tais pessoas que somos pobres também - a pobreza não é homogênea. Que fique entre nós tais segredos. 
No Brasil nunca faltou quem dilapidasse os cofres públicos - Maluf existe há décadas, Sarney também, só para a gente citar e exemplificar. Logo, temos experiência histórica com esse assuntos correlatos ao tema.
Da mesma forma que poucos de nós podem afirmar que conhece alguém que resolveu se tornar médico para ajudar a melhorar a saúde no país, nem um jovem que queira ser soldado da polícia a fim de contribuir para um justiça eficaz e uma segurança humanizada ( se vocês foram sortudos em conhecer tais pessoas, hosana a Deus e muita glória!), um político não quer o cargo público para defender interesses do povo. 
Isso não quer dizer que não haja político digno. Muito menos quer dizer que articulação política é formação de quadrilha. É jogo de interesses, os mais variados. 
Mas, de repente, a paixão do brasileiro saltou do futebol para a política, com a mesma cegueira e com a mesma paixão. Nada pode ser discutido. Seja como for, o silêncio é o lugar mais seguro para todos – e se a gente reconhece erros de um lado e acertos de outros, vem alguém para dizer que estamos em cima do muro.  E pode ser, sim: de cima do muro se pode observar, concluir... E descer com segurança e equilíbrio, para não machucar o pé.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Um assunto cabeludo!



Vamos falar de cabelos?
Crescimento de cabelo é determinado biologicamente.
No caso dos homens, a queda, calvície ou carequice dependem de fatores genéticos.
E tem jeito? Tem. Se não resolver, pelo menos melhora, atenua, ou evita que piore (aqui vão relatos que excluem os procedimentos cirúrgicos – existem, muitos funcionam, custam caríssimo).
Pois, bem, para começo, advirto que não sou dermatologista com especialização em Tricotologia. Decerto, tenho doutorado, mas é em Letras/Literatura, de modo que os comentários a seguir advém de minha vida de pessoa comum, filha de Deus, que adora os próprios cabelos e luta pelo bem-estar deles.
Para os homens, vos digo: Minoxidil. E só peguem produtos de uso tópico, local. Os demais, de uso oral, combinam hormônios que podem repercutir na vida sexual, inclusive sobre a ereção.
Existem, ainda, Biofillix e Finaxidil, mas nada sei sobre eles na vida real.
Citei o Minoxidil porque acompanhei um primo, que fez uso e deu certo: conteve a calvície e ainda fez um ‘reflorestamento’ capilar, ou seja, fez nascer penugem, cabelos.
Sejamos claros: cabelos crescem pela raiz.
A gente corta ponta dupla, acerta o corte, se ilude, mas o crescimento vem da raiz e isso exige cuidados com o couro cabeludo. ´
Hormônios alteram os cabelos: há mulheres que, na gravidez, desenvolvem os fios; e há outras que enfrentam quedas de cabelo.
Assim, também os hormônios de menopausa interferem – embora muita gente diga o contrário, as mulheres de minha família ficam com os cabelos longos, talvez ligeiramente mais finos.
Cabelo curto ou longo, tanto faz: se houver pontas duplas, ressecamento, caspa, tintura mal feita, tudo fica feio.
Eu sempre quis ter cabelos longos. Tinha usado tudo que era possível, tomado Pantogar e usado produtos caríssimos...sem efeito real.
Tudo mudou quando eu larguei os relaxamentos com guanidina ou com hidróxido. E olha que eu era daquelas que só alisava a raiz do cabelo.
Então, lição número 01: você pode chamar escovas progressivas por qualquer nome elegante que quiser (selagem, botóx, realinhamento, por exemplo), mas processos que alisam são escovas progressivas, mudando apenas o agente químico principal (cistina, carbocisteína e substâncias similares).
Existem escovas naturais? Não. Para alisar, defrisar, reduzir volume, são necessários elementos químicos. Não há planta ou substância natural que altere a forma natural dos cabelos.
O que ocorre é a adição de elementos naturais, óleos, por exemplo, mas a interação entre calor (secador, chapinha) e o produto, mesmo se você usa um produto que seja enxaguado antes de usar calor, deve saber que esta é a dupla que faz o cabelo modificar.
Segundo: quer a prova? Observe o cheiro de seu cabelo, na primeira lavagem após uma escova progressiva (selagem, botox...): sentirão cheiro de açúcar queimado com ferrugem; cheiro de coisa queimada, qualquer cheiro estranho. Na verdade, é cheiro de enxofre – do próprio cabelo, interagindo com a química. Geralmente, esse cheiro aparece em reação com meio líquido (água, suór)...
E sai? Sai. Com muitas lavagens.
Tomem aqui por conselho: se você fez escova num salão, lave ao chegar em casa - é uma pena, é ver dinheiro escorrendo pelo ralo, dói, mas é melhor. Nenhum lavatório tem a qualidade de enxágue que o seu chuveiro. Salão nenhum no planeta lava e enxágua como você.
Se puder esperar um dia, lave em casa e depois faça escova normal no salão. Esse enxaguar vai te poupar de ter casquinhas no couro cabeludo, daquelas que as pessoas pensam ser caspas – não são, são reações do couro cabeludo aos resíduos químicos das escovas, são descamações.
Tratamento caseiro dá certo? Se estivermos falando de óleo de coco e outros, sim. Caso contrário, confie em hidratações de boas marcas, ampolas, etc.
Dá para diminuir o cheiro ruim (diminuir não é eliminar) das escovas, usando duas colheres de Leite de magnésia dissolvido em uma xícara de chá de água. Antes de lavar os cabelos, molha o couro cabeludo com isso e deixa por uns dez minutos. Repito: diminuir. Eliminar, nenhum produto, por mais promessa que faça, consegue.
Pode pintar quando faz escova? Não. Mas é por segurança. Porém, como abre tons, uma máscara de cor pega e dura muito. Jeans Color, da Alfaparf ou Crazy colors da Alta Moda, Magic Color 3D, são máscaras colorantes que tingem o cabelo e só contém pigmentos – nada de oxigenada e congêneres.
Xampu deixa de dar certo? Não exatamente. Antes de tudo, shampoo é palavra em inglês. Em português, é com Xis mesmo.
O que ocorre é que o xampu que dá certo é aquele que contém os nutrientes e substâncias que faltam ao seu cabelo.
Xampu não apenas lava. Essa é a função principal, mas, ao limpar os cabelos, ele preserva, sobe ou desce o PH dos fios – desta forma, não podemos lavar o cabelo com detergente de lavar pratos.
Depois de meses usando o mesmo xampu, parece que não funciona mais? Pois é, significa que seu cabelo já está saturado daqueles princípios ativos. É como se o cabelo comesse a mesma refeição e enjoasse quando precisasse se fortificar com outros itens do cardápio.
Condicionador bom é aquele que desembaraça. Nada mais se diz quanto a isso.
Cabelo que nunca cresce, tem jeito? Só posso responder por meu caso: tem jeito. O jeito pode ser simples e barato. No meu caso, o jeito foi usar Bepantol líquido. Vitamina B5. Juro: cresceu mesmo. Eu já tive megahair, tive uma frente de cabelo toda detonada, ressecada, quebrada, uns ‘toquinhos’ de cabelo. Depois de três meses, vi as mudanças.
Mudei o meio de alisamento e mudei isso aí, passei a usar Bepantol.
Tintura, só uma vez ao mês: passei a usar tonalizante e essas máscaras de cor, que citei acima.
Hidratação, três vezes na semana.
Cortar o cabelo ajuda no crescimento? Não. Lógico que não. Mas, muda a aparência, o aspecto do cabelo.
Mesmo sem química, meu cabelo pode ficar detonado? Sim, infelizmente. A carência de vitaminas é o primeiro inimigo – precisamos de vitamina B5, C, A, E, D, ácido fólico, só para marcar os mais urgentes dos urgentes. Tem alguns complexos vitamínicos que suprem esses elementos, mas o certo e o melhor é fazê-los presentes na alimentação.
Prender o cabelo com elásticos ou viver abafando o couro cabeludo também detonam seu cabelo.
Stress, preocupação, alteração hormonal, tudo pode afetar seu cabelo.
Falando no meu caso particular, também o fato de eu passar a cuidar e arrumar meu cabelo em casa ajudou bastante no crescimento: a dinâmica do salão é terminar logo o trabalho em seu cabelo. Assim, para fazer rapidamente o que é complexo, as trabalhadoras e trabalhadores usam muito calor do secador, fazem trações fortes e ríspidas nos fios, favorecendo a quebra e o ressecamento. Fora a já citada lavagem, que além de ruim e rápida, nunca lava fronte, nuca e outras extremidades a contento, deixando resíduos no couro cabeludo. Em casa, cansa, mas é o melhor lugar para cuidar do cabelo.
Quanto à quantidade de lavagens por semana, sejamos francos: cabelo mal- cheiroso é horrível. No mínimo, duas lavagens na semana. Mínimo. Não queira economizar ficando cinco a sete dias sem lavar os cabelos: além do mau cheiro, seu couro cabeludo ficará gorduroso e propenso a caspas, os bulbos capilares ficarão entupidos, prejudicando o crescimento e, fora tudo isso, fica um aspecto pesado e feio, a cara da sujeira – xampu a seco, só na emergência.
Lavar todo dia prejudica? Não. Desde que não se retire a oleosidade natural dos cabelos – por isso, a importância dos xampus. Tem xampu bom e barato? Tem – desde Johnson, tradicional amarelinho ou outros da linha – até os populares sem sal (no meu, até Palmolive resolve, mas uso Match, de O Boticário e Aussie).
Esses são meus relatos, foi o meu caso. Cada um, com sua vida e com suas escolhas.
Ficam aqui meus testemunhos e não uma recomendação médica. Blogs não são consultórios.
Não tenho patrocínios, apenas me reportei a experiências de minha vida real. E cada um leitor que resolva a raiz de seus problemas.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Primeira pessoa do singular



Tem dias em que não vou a lugar algum, mas quero me arrumar, estar bem e estar bonita.
Há quem não se arrume senão para terceiros, ou para compromissos ou rituais... Estes, por seu turno, não usam o perfume de que gostam, nem a roupa que lhes apraz, nem cuidam de si exceto por exigências sociais.
Eu não escolho as formas de amor por mim a partir de terceiros.
Não cabe em mim essa coisa de que ‘a gente se arruma para os outros’. Não, eu me arrumo para ser reconhecida pelos outros a partir do amor que expresso por mim mesma. É bom estar feliz com o espelho e olhar para dentro de si percebendo a correspondência entre a aparência e o bem-estar interior.
Estes mesmos seres que não usam ou fazem o que gostam, a menos que a ocasião social exija, são os mesmos que querem ou buscam ter bens para ostentar, mas não para curtir, usufruir verdadeiramente. Portanto, aplicam o dinheiro num carro luxuoso, que tem um IPVA alto, gera um consumo absurdo de gasolina e desenrolam uma série de despesas, para causar impacto nos outros. Acho, porém, que causam mais angústias do que satisfação, porque se amparam, novamente no que os outros vão dizer.
Consumo saudável é o que traz satisfação, é consciente.
Nossa autoestima se expressa em vários lugares que excedem o ego e os rituais de cuidados pessoais. Quem se ama cuida da cabeça, não acha psicanálise um luxo.
Quem se ama cuida bem do corpo, por saúde e por estética, sim: é preciso gostar do que se tem. O respeito ao próprio corpo significa cuidar bem dele, com alimentos, cosméticos, exercícios, etc., não importa o peso ou a forma. E se uma diferença no nariz (em qualquer parte do corpo) lhe trouxer a sensação de embelezamento, e é o que falta para você se sentir bem, faça o seu possível, respeitando os limites aceitáveis e normais de intervenções.
Em bom português, a autoestima também está no quanto você se propõe a não se ofender, não se irritar, não perder seu dia e seu tempo com coisas e pessoas que podem ser irrelevantes. Deixar para lá, sempre que possível, poupando a mente de desgastes emocionais e desabafo de instintos em discussões grosseiras, por gente que nem vale a pena... E se valer a briga, há formas mais eficazes de se aliviar sem, necessariamente, se deixar afetar.
Em família isso em bem comum: os próximos são sempre os mais propensos a nos ferir, porque têm acesso maior a nós, aos nossos arquivos, vulnerabilidades, históricos... 
Ainda tem quem confunda memória com rancor: é que a gente precisa lembrar o que nos machucou, quem nos magoou, as causas e as circunstâncias, por uma questão de proteção, porque a gente não vai ficar oferecendo a outra face, andando em círculos em relações desgastantes. Decerto, não quer dizer que os sentimentos bons acabaram, porque, eu já disse antes, os maus também precisam de ajuda e de amor, mas se pode ajudar e amar de longe.
Casos há em que, de fato, as relações terminam mal e pronto. Não queremos mais ver a pessoa.
Em meu caso, quando percebo a falsidade e sei até que ponto uma pessoa dissimulada pode ir, como tal pessoa se infiltra na vida da gente, entre amigos, parentes, ambientes sociais, derramando venenos e causando inimizades, nunca mais quero saber sequer do nome do ex-amigo ou amiga.
As amigas que não respondem contatos, não esboçam receptividade a nada, estabelecem todo tipo de distância, eu não procuro mesmo. Ficam no limbo.
A vida continua com ou sem tais pessoas, mas é parte de nossa autoestima procurar nos preservar de sofrimentos, da exposição a gente tóxica...E há uma coisa que eu aprendi durante uma trilha na Chapada Diamantina, em novembro do ano passado, quando ouvi de uma amiga que conheci na ocasião: “esse ‘não’ cabia a você!”.
Então, há nãos que a gente precisa dizer.
Há várias coisas que dependem de nosso posicionamento, de nossa escolha, das opções que assinalamos...ou seja, temos escolha e precisamos ter autonomia para declarar nosso posicionamento.
Amar a si mesmo não é ser egoísta, mas é saber que em nossa vida a gente precisa estar em primeiro lugar. Eu: primeira pessoa.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Toda forma de paz ou a paz de qualquer forma



Tem uma filosofia de para-choque de caminhão, que diz que “amigo não é aquele que enxuga uma lágrima e, sim, aquele que não a deixa cair.
Ora, já declarei minha chateação contra quem persegue nosso direito ao choro. Odeio explicar as razões de minhas tristezas, engolir minhas lágrimas ou ter que adiá-las para evitar testemunhas.
Agora, a perseguição é outra: não posso ficar em paz, quietinha, muda, fora de redes sociais, longe do telefone celular, porque toda hora tenho que explicar meu sumiço.
Gostei de meu réveillon. Gostei ainda mais de não ativar dados móveis e ir para uma área onde o sinal era quase inexistente.
Está tudo bem: sem confusões, sem tristezas, sem desesperos. Acho que as pessoas se acostumaram com ostentação de felicidade. Não: a felicidade pode ser muda, silenciosa, contemplativa.
Não tenho uma vida excitante a ponto de justificar o grude nos aparelhos. Odeio saudar quem eu não gosto e formalizar votos de feliz ano novo a gente cretina ou insignificante.
Claro, tem gente ruim, escrota e cretina que eu gosto, apesar dos péssimos adjetivos. Mas, entre gostar e querer contato, vai uma distância incomensurável.
Fica a mesma dica: se você precisa perdoar uma pessoa escrota, faça o seu possível. Se conseguir, não esqueça que vocês não precisam manter o convívio contínuo.
Hoje em dia eu me sinto uma total imbecil por ter arrastado uns contatos assim, ad eternum.
Nuns casos, por piedade, porque a pessoa já não tinha amigos e poucos eram os próximos que queriam proximidade com ela.
Em outro caso, a pessoa viveu um verdadeiro ostracismo familiar, com todo mundo guardando distância e com justa razão: trata-se de um ser humano péssimo e venenoso que, se não ferir diretamente quem chegar perto, vai articular situações e plantar a discórdia, de modo a fazer ferver a dissensão, as brigas, as calúnias. Para dar um exemplo, essa figura convenceu uma pessoa de que havia outra a tramar ardis e atentados contra a vida do ‘visitante’.
Mas, lá fui eu, atender ao “setenta vezes sete” perdões que devemos dar.
Voltei envenenada, não porque não estivesse imune ao veneno ou desconhecesse onde estava o antídoto, mas por notar que foi, de fato, a última vez em que fui visitá-la. Nunca mais volto lá.
Pareço e sou uma pessoa de “nunca mais”. Nunca mais, em minha vida, é muito verdadeiro e mais constante que “para sempre”. Pouco sei sobre ‘para sempre’.
Não precisamos disso. Ninguém precisa. Decerto, obrigações sociais nos submetem ao contato com quem não queremos. Basta não prolongar. E se pudermos romper o laço, melhor ainda.
Outro ponto é evitar repetir más experiências. Se não foi bom sair com tal pessoa ou realizar qualquer atividade com ela, não é necessário passar por tudo de novo, a menos que se dê o benefício da segunda chance.
Também não vale ir onde não se deseja, comer aquilo de que não gosta, só para não causar desconforto nos outros.
Já entrei nessa: no fim das contas, almocei arroz e alface, para não declinar do almoço oferecido coletivamente (um cardápio horroroso e pesado que me obrigou a me servir apenas do que era possível comer, em meio a tanta porcaria sem sabor). Saí com fome para não sofrer linchamento social e parecer metida a besta. Não faço isso nunca mais.
Quem quiser que venha me obrigar a gostar de açaí, a gostar do Rio de Janeiro, a achar calça sarouel bonita, a usar espadrilles, a querer ter filhos, a ouvir pagode! De igual maneira, nunca obriguei ninguém a ter os mesmos gostos que eu. Contudo, é difícil que me deixem em paz: há sempre alguém querendo me converter.
Bicho com vontade própria é fogo!
Então, não quero atender a ligação apenas porque não quero conversar. O povo faz um alarido, mesmo eu previamente tendo feito a advertência de que quero ficar quieta e sozinha. Não há nada de errado nisso. É a paz do encontro comigo mesma.
O poeta pouco entende disso – ele, pelo menos, subestima. Coloca a etiqueta da frescura ou de algo depreciativo, mas me deixa em paz.
O que há de errado em querer ficar sozinha?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Ele, ela, elos...




Tenho várias amigas, mas duas em especial, que adoram dar satisfações a seus respectivos pares. Adoram a cobrança sobre onde estão, com quem estão, o que fizeram, etc., e se comprazem nisso sem a menor vergonha. Assumem adorar o grude – gostam de grudar nos outros e que grudem nelas.
O que me parece um sufoco, para elas, significa um fetiche, atenção, prazer...
Não tenho essa natureza. Por sinal, qualquer coisa me sufoca, me afugenta.
Tem uns malucos, onde se incluem muitas mulheres, que defendem a submissão da mulher.
Não pensem que é a submissão política (e o que não é político nas atitudes humanas, né?), é a submissão padrão mesmo, da ‘mulher sábia que edifica o seu lar’, é subserviente, está a serviço do homem, defende o casamento com unhas e dentes mesmo que ele não valha nem o esmalte com que pintam as unhas...Elas acham que a mulher atual “perdeu a essência” e isso não lhes cheira bem.
Quando traídas, culpam ‘a outra’, como se o homem, pobrezinho, não tivesse escolha, não tivesse saída, fosse indefeso nas garras das sedutoras oferecidas, uns coitados que não podem dizer ‘não’.
Elas se ajoelham para o sexo oral, em sinal de submissão, mas não têm reciprocidade. Casam com esse grande homem que sexualmente não faz nada pela mulher e guarda o melhor do sexo para as amantes.
Mulher sábia engole sapo. Engole outras coisas. Adoece sexualmente e não sabe como isso aconteceu.
Que fique claro que não é por ser mulher que a pessoa defende as mulheres, nem deseja igualdade entre as partes.
Acham que é assim, que na natureza é assim também, que está escrito que é assim que deve ser.
Não é preciso ser feminista, nem ser afetada ou amarga para notar que esse modelo de comportamento machista e patriarcal escraviza as mulheres.
Aquele filme velhíssimo, chamado “Mulheres perfeitas” mostra bem isso: o modelo de mulher perfeita. Perfeita demais para ser normal. O final do filme dá as resposta: o modelo é feito por homens.
Os amigos machistas eu não saberia contar quantos são. O poeta também é e tem ficado pior.
Hão de me perguntar: “mas você está há três anos com um sujeito machista?”. Eu vos direi: ele encobria. Mais ainda: vivo há décadas com os sujeitos machistas de minha família – de minha rua, da escola, da universidade, do planeta. Tenho uma tia especialmente machista e espetacularmente hipócrita, que conta um história ridícula de que saiu virgem do primeiro casamento, porque o marido era doente e mal respirava. Desta tia, lembro que levantei desesperada numa noite, quando eu tinha 11 anos, porque ela gemia e chamava o nome do então namorado e eu, criança, achei que ele estava batendo nela...Até chegar à porta do quarto e perceber que aqueles gritos não eram de dor...
Uma santa que gritava alto, hein?
Esta tia se vangloria da pureza delongada. Machista, defende um modelo de mulher afinado com a vontade dos homens.
Então, meu poeta veio com umas revoltas chatas, a reclamar de minha independência, do meu jeito, de minhas respostas, de minhas atitudes e ainda teve o desplante de sugerir que a mulher domina o homem quando, sexualmente, está por cima dele. Não teria proposição mais ridícula, ainda mais porque eu sou mulher e não tenho como propósito dominar ninguém – no máximo, busco domar meus instintos e dominar meus ímpetos.
Não vejo graça em escravizar, em mandar em alguém.
Outra coisa que me deixou estarrecida foi quando, por duas vezes, O poeta me induziu, pedindo e sugerindo com gestos e posturas, a colocar comida na boca dele – sim, eram sobremesas e era eu quem estava comendo...Mas não sei dizer como isso me espanta.
Duas interpretações possíveis: alimentar alguém é coloca-lo na condição de criança, de filho, a quem se dá a papinha na boca;
Outra interpretação é a de que ele se porta como dependente, como se estivesse inválido, fosse incapaz de se alimentar sozinho. Freud diria do mais óbvio, da fixação na fase oral e seus desdobramentos. Todavia, só em citar isso, me apavoro.
Não gosto de gente que não manda em si mesma. Algo que deveria ser prioridade em nossa cabeça é isso: a vida da gente é nossa.
Você pode ter filho, mãe doente, parentes dependentes, todo tipo de contexto que funcione como meio coercitivo do exercício de sua liberdade e de sua vontade, mas a vida é sua.
Não é por egoísmo mas, por mais que a gente ame alguém, antes de todos, de todo mundo, a gente deve amar à gente. Se declinarmos disso, iremos, depois, culpar os outros por nossos destinos.
Não serei eu a ditar como as pessoas devem ser, mas sei muito bem que modelos eu não vou reproduzir e a que forças não irei ceder.


domingo, 23 de dezembro de 2018



Parece um padrão, de tão repetitivo que é. Predomina mais entre as mulheres que entre os homens e todos nós conhecemos alguns casos bem próximos: as pessoas vivem o máximo possível de luxúrias, se deleitam sem pudores no sexo, se largam no álcool, nas drogas, nas badalações, nas atitudes ilícitas, nas irresponsabilidades desenfreadas e nas mais altas inconsequências e, de repente, um dia, alegam que ouviram um chamado de Deus. Pronto: vão limpar a ficha numa religião qualquer, mas nas protestantes sobretudo. O passo seguinte é condenar nos outros tudo aquilo que elas já fizeram.
A seguir, se tornam fiscais do sexo alheio, controladores da liberdade, das ações e das atitudes e, em boa parte do tempo, vão cometer tudo que cometiam antes, porém escondidas sob o véu da hipocrisia. Só encerram a carreira de mundanidades quando estão velhas, fora de circulação.
Oram como os grandes fariseus: gritando, se exibindo, colocando Deus antes de tudo, em suas palavras mas nunca nas atitudes reais.
Em minha rua tem dessas pessoas.
Em minha família tem dessas pessoas.
Elas estão por toda parte.
As que fazem trânsito religioso são ainda piores: condenam amanhã as atitudes da religião que as abrigavam hoje. Tornam-se detentoras de verdades absolutas, monetarizam seus arrependimentos e as ressacas espirituais que carregam porque, depois de muita peregrinação entre segmentos espirituais e em pecados paralelos (ah, elas acreditam em Pecados), colocam culpa nos outros, são supostamente bastante íntimas de Deus, senão por fé, por medo do Inferno.
Acreditam no jejum, que fazem alardeando, como se fosse uma greve de fome em favor da humanidade - certamente por pensarem que Deus ganha muito se elas declinam da gula, do que ganharia se, ao invés de passar fome para se exibir para os outros, dessem comida a quem realmente tem fome. Desse tipo aí, tem na minha rua, na família, entre os meus amigos...
Estou falando nisso porque estou no meio do período mais hipócrita do ano, onde essas coisas se repetem.
Para alguns, tudo isso é necessário: os rituais fazem com que eles creiam mais em si mesmos. Uma fé ostensiva, para os outros verem, podem convencê-los de que tudo aquilo é verdade: precisam do rito, dos símbolos e das testemunhas.
Mas, também conheço poucas mas verdadeiras pessoas religiosas. É que elas são discretas: não estampam fé em camiseta, nem em adesivos de carro, não esfregam na cara dos outros a oração feita em favor deles, nem fazem caridade para aparecer em coluna social.
Desses não há em minha rua.
Desses não há em minha família. Mas, asseguro que existem.
São respeitáveis, amorosos, caridosos, tudo naturalmente. Acho que Deus deve morar neles, até porque não se tornaram o que são por arrependimento, por hipocrisia, por dor, para limpar a ficha, por medo do Inferno...Por isso são poucos. Mas, é gente em que boto fé!

sábado, 22 de dezembro de 2018

Quem convidas para a tua mesa?



A liberdade é uma casa de muitas portas. Muitas vezes, a gente diz: “Livre-se disso!”, como se fosse apenas um ato de jogar fora, se esquivar de uma situação, deixar uma pessoa, um hábito, um vício, um lugar...
Livrar-se de algo é, realmente, ficar livre daquilo, consolidar a própria liberdade. Por isso, reitero aqui uma afirmação de tempos atrás: exerça sua liberdade de não querer, seja lá o que for.
Exerça a sua liberdade plenamente, analisando, antes de tudo, que necessidade você tem de manter ou de se manter preso a seja lá o que for.
A gente muda. Muda a nossa percepção. Até o amor muda e muda de forma tão premente, que acaba – em alguns casos, acaba mal. Mas, na maioria dos casos, vale a pena.
Se o amor se tornou algo pesado e chato, é que já não é amor. Bem assim a amizade e o contato com certos parentes.
Uma coisa é o cerimonial, o ritual, a burocracia dos contatos...outra coisa é você ter que suportar o convívio. Este último é sempre alternativo. Mesmo que a pessoa more perto de você ou trabalhe em sua repartição – desgastante, eu sei, ignorar a pessoa ou não dar bola à presença dela, mas não é necessário prolongar esse convívio. Não leve quem te desagrada para a sua casa, para o seu dia...
Há amizades unilaterais: você gosta do amigo. Ele pensa que gosta de você e, entretanto, tem posturas autoritárias, nunca é concessivo ou, simplesmente, é uma pessoa chata e egoísta, que adora ser servida e que se acostumou a decidir tudo por todo mundo. Às vezes, esses tiranos são bem enturmados, por situações prévias, de infância, de outras coisas – e é claro que mesmo os amigos mais malas têm qualidades que nos atraem para o rol das amizades e que a gente põe na balança...Outros, não: a gente gosta deles apesar das falhas. Mas, por ser amizade unilateral, uma hora a gente se pergunta se precisa mesmo se submeter àquilo, aturar aquela pessoa chata, ruim...Há os egoístas máster, que colocam a gente na lista dos programas, mas o comando é deles, só se ouve no carro o que eles determinam, só se faz o roteiro de lazer e viagens que ele quer...Não é uma coisa suportável. Pergunte-se se você precisa disso.
Agora é período natalino. Época de eclosão da hipocrisia. Alguns sapos, a gente engole, por conta da boa educação  - programas ruins, trocas de presentes com gente odiável, contenção de mágoas em eventos sociais, correspondência aos falsos votos de gente que, sabidamente, torce pelo nosso mal e pelo nosso insucesso...Eis-no abraçando gente escrota. E o que eu digo? Relaxa, que isso passa. São sapos que a gente engole, às vezes, para favorecer as aparências, a harmonia social, para agradar nossa tia boazinha. Lembre-se sempre de manter distância, não se expor ao veneno...
Outra dica valiosa: não caia na tentação de ostentar sucessos, ganhos, conquistas... Não vale a pena esfregar na cara dos outros. Uma hora a notícia chega sozinha aos ouvidos que precisam saber.
É a coisa mais clichê que se pode dizer ou esperar, mas “O tempo é o senhor das verdades”. O tempo é um grande mestre que sabe mexer as peças do tabuleiro, revirar lugares, confirmar suspeitas, desfazer equívocos e ilusões...
Ter fair play ajuda também. O ajuste de contas pode ser nosso, conosco, introspectivamente...Ou pode ser externo, mas, se você não está tão bem quanto gostaria, assuma sua parte nas causas da situação atual. Perdeu a a partida, mude a estratégia ou saia do jogo.
Não adianta sonhar: para algo mudar, você precisa contribuir.
Antes de qualquer coisa, livre-se do que não lhe serve mais ou de quem você não quer mais ser serviçal.
A gente sempre deve saber a hora de deixar a mesa, seja por estar satisfeito ou por perceber a insatisfação. Cuida, também, de escolher direito quem convidas para a tua mesa: não é preciso partilhar presenças incômodas, que tornam o momento indigesto.