Louquética

Incontinência verbal

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Eo tempo levou...


Tantas coisas por dizer, tanta história para contar, mas nenhum tempo para isso!
Aproveito, registro minhas saudades de casa. De lá contarei o que me restar na memória, (embora,para mim, tudo já se perdeu, expirou no calor já arrefecido no passar do tempo)...Mas,tudo bem: aceito o tempo presente - que, aliás,nem me pertence.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Em paz...


Estou mal dormida. Dormir mal equivale, em meu organismo, a uma ressaca profunda, só comparável à sensação de ter bebido cinco doses de vodka, três doses de tequila, duas cerveja, quatro roskas e um vinho de saideira. Bom, para mim, que não bebo, é minha forma de traçar a analogia. Mas apesar disso, tudo bem!
Tenho muito o que fazer amanhã, aliás, até terça-feira, mas abri um pequeno parêntese dentre as obrigações para ver um ser humano de que gosto, para ir a um lugar de que gosto, só para ficar besta, sentada, pensando na vida (dos outros, porque a minha esteve um saco!Mentira: pouco sei da vida alheia e gosto de cuidar da minha mesmo).
Pois é, quero conversar com uma criatura interessante e ouvir o som dos Beatles. Vou ouvir umas mentiras também, mas daquelas bem educadas...Conheço ele: depois virão as narrativas das batalhas vencidas, das terras conquistadas, dos compromissos imaginários...Mas eu já conheço ele há muito tempo, sei o que esperar.
Depois, no dia seguinte, é dia da família e vou fazer uma lasanha para o meu primo e deixar que ele ria das minhas maluquices. 
Estou dando um tempo do venenos dos maus amigos, dos ex-namorados chatos e dos candidatos reprovados em minha vida, que insistem em entrar com um recurso e forçar a contratação.
Aí é simples: sumo do MSN.
Sumo de casa.
Sumo dos meus telefones.
Pronto:voltar a estudar!
Ainda sinto o gosto indescritível de poder devolver as palmadas recebidas: minha memória de mágoa é impressionante!Se o meu ex insistir, jogo tudo de mal que ele já me fez, na cara dele. Ai tudo vira culpa, tudo fica claro e faço o que fiz hoje: "...Mas eu sou sua amiga!Só não tenho saudades dos meus sofrimentos."
E é nessas horas que fico tranquila, calma, em paz, como quem contempla os movimentos da Roda Fortuna.

Folga sem feriado!




Este post, em certo sentido, parece repetir “o encontro e o desencanto”, que escrevi tempos atrás. Não pela história em si, mas pela temática: sei lá, a gente espera e depois conclui que a expectativa é a mãe da decepção. Porém, em dadas ocasiões, também a expectativa foi a mãe da boa surpresa. Mas é aí que está: a surpresa. Nem sempre boa. Às vezes, ambígua. Lembro da música que minha tia cantava “Oh, que surpresa tão rude! Nem sei como pude chegar ao portão”.
Estava eu quietinha em minha casa hoje à noite. Alimentei meus bichinhos, tomei café cedo e desde às 18h30min., tranquei meu portão e minha casa, ficando a sós com meus livros, a fim de pagar a dívida moral de algumas leituras e me dar ao deleite de ler uns livros teóricos que preciso e gosto.
Uma hora depois, chamaram meu nome no portão. Voz masculina. Não dava para antever ou prever quem era. Até pensei que fosse meu Perseguidor Implacável cujo nome começa com a letra I ( o outro idiota do Zé Bonitinho jamais ousaria vir em minha casa). Fiquei pensando: “Como este cara descobriu meu endereço?!”. Mas o fato é que não recebo visitas masculinas senão três bem específicas e conhecidas, que jamais teriam o desplante de aparecer sem um telefonema prévio. Isso eu pensava enquanto me chamavam sem parecer que ouviam minha resposta e pedido de espera. E como eu estava em casa, lendo e trancada, estava em trajes mínimos e íntimos.
Joguei um vestido no corpo e fui atender, já arrependida de ter sido impulsiva para responder ao chamado. Poderia (e deveria) ter ficado calada e quieta. Quem saberia que eu estava aqui?
Mas fui, atendi e quase nem acreditei que era meu ficante de janeiro, em carne, osso e ectoplasma!
Não sou um pedaço de isopor, por isso não ando desleixada. Aprendi direito o ditado: “Quem não se enfeita, por si, se enjeita”. Porém, meu cabelo estava um trapo, eu não estava arrumada como gosto e ainda estava com cara de sono.
Da primeira vez em que ele veio à minha casa, eu disse: “Fique à vontade!”. E ele ficou. Como bom cavalheiro... Ou se nem tão bom, foi exímio em disfarçar e ser.
Desta vez, porém, me senti invadida, escrutinada e estive quase a ponto de ver novamente aquela velha cena em que um antigo affair meu foi me inquirir acerca das tantas escovas no banheiro- e disso concluir que havia outros namorados que dormiam em minha casa.
Foi um reencontro muito chato. O desconforto foi todo meu. Não gosto de homens em minha casa: namorado, ficante, affair, qualquer modalidade dela excluídos os amigos e parentes.
Fiquei pensando que ando implacável com os homens. Se já me queixei de minha pouca paciência, de um modo geral, com a vida, fui deveras paciente com alguns homens, dando chances inúteis, sendo sutil nos foras que queria dar, preservando a polidez das relações... Não sei o que me deu, mas senti todas as situações atuais como sendo um estopim e o ponto de declaração da falta de paciência.
Sei que me senti incomodada com ele em minha casa, catei meu diário e escondi sem esconder dele que o estava fazendo, tentei ser concessiva em alguns pedidos, tentando salvar a noite, mas o fato é que eu perdi a paciência e novamente lancei o decreto e a sentença: “Nunca mais a gente fica juntos!”.
Estou inquieta porque não consegui ser clara na hora e dizer isso com todas as letras. Dei boas indiretas. Se eu não desse, estava visível meu desconforto.
Disse, pelo telefone, hoje de manhã, cobra e lagartos ao meu ex. Creio que Santo Antônio está querendo que eu limpe as gavetas do passado: um sujeito achar que poderia me enrolar com conversas para bois dormir, com um monólogo alucinante que nem o mais besta dos bestas cairia e a velha promessa de que se a gente reatar, tudo será melhor e diferente.
Por estes dois caras, afirmo sem o menor medo de estar sendo injusta: prefiro ficar sozinha.
Não gostei da folga do ficante em minha casa, da investigação em minha vida e, pior que isso, lanço o “Laço da verdade”, conforme a Mulher Maravilha e pego mesmo as mentiras que os homens contam. Peguei as dele nas contradições, nos lapsos, nos esquecimentos, nas narrativas sem sequência, nas histórias mal coladas, nas faltas de coesão como parecer ser a vida dele vista sob microscópio.
Reclamo de estar só. De vez em quando é chato mesmo. E eu sou chata todo dia ultimamente. Prefiro minha solidão: é confortável. E como já estou crescidinha, não acharia mal se pudesse haver envolvimento sexual sem envolvimento afetivo porque minha disposição para amar anda em baixa. Porém, não se tem controle sobre isso. Inventaram isso de ‘vou procurar não me envolver’, mas na vida real, não há como escolher amar ou não amar; se apaixonar hoje ou quinta-feira da semana que vem... Disse Lobão: “A paixão não tem nada a ver com a vontade/quando bate é o alarme de um louco desejo: não dá para controlar, não dá!”.
Não fecho esta porta em minha vida sem lamentar a perda sensorial que isso representa para os meus desejos. Mas não gosto de gente folgada entrando em minha vida sem antes se anunciar e sem pedir licença.
Desde janeiro a gente não se via! Quando ele picou a mula para as terras frias onde nasci, sofri de saudades. Queria ter ficado com esta sensação de falta a ter que conviver com a repulsa. Pronto: mais uma pessoa para me deixar temendo atender ao telefone. Urge colocar identificador de chamada, divulgar que passarei oito meses na Groelândia, cinco meses no Oiapoque e mais uns quarenta dias no deserto do Atacama porque se é para errar num deserto bíblico, me deixa levar meus pecados para um lugar mais perto.
Que chato trocar a saudade por um: “Já vai tarde!”.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Pé na bunda!




Não é por orgulho frio, de vaidade, que a gente comemora quando pode, finalmente, dizer um não redondo na cara de alguém que um dia nos fez sofrer. É o orgulho consigo mesma, é a constatação de que não precisamos mais negociar a relação, é a comemoração interior por não sentir mais amor, dependência, necessidade... As pessoas mudam de significado para nós. Quando um ex é gente fina, vai se tornar amigo.
Quando o ex é uma porcaria, o melhor caminho é isolar a pessoa, apagar, deletar, esquecer, de modo a não querer saber jamais da vida dessa pessoa. Não é só a pessoa que tem que sair da vida da gente: somos nós que devemos também sair da vida dela.
No caso dos namoros longos, é phoda: os amigos em comum ficam sempre associando as pessoas, nos associando a eles, tipo, “Que Nara?”; “Ah, Mara de Fernando!”. E digo que até hoje em dia, quem eu namorei no meu tempo de universidade ficou tão inscrito em um circuito desse tipo, que há quem pense que estamos juntos até hoje – só se eu fosse a amante, né? Porque os dois sujeitos casaram. Como não eram gente ruim, se tornaram meus amigos. Decerto, nos vêem juntos, porque confidenciamos problemas, sonhos, planos, ajudas recíprocas na hora de fazer um artigo ou um projeto qualquer... De vez em quando, ajudo um deles a escolher os presentes de aniversários, dias das mães, essas coisas, para a mãe e a esposa, lógico.
Relacionamento bem resolvido é ótimo!
Já critiquei minhas amigas que ficaram sob os pés dos namorados, as que aceitavam serem objetos da vaidade do outro, viver explorações e humilhações. Também já me submeti a relacionamentos ruins, desse porte. Com o tempo, entendi que elas não caiam fora não somente pela dependência emocional que tinham, mas porque havia alguma espécie de vinculo interno. Assim sendo, se terminassem, sofreriam. Preferiam, portanto, sofrer e ter a pessoa por perto mesmo.
Isso pode durar anos.
Porém, o dia chega em que ‘O copo está cheio e que já não dá mais para engolir” e isso não é uma questão de limite como parece. É uma questão de consciência e de desvencilhamento afetivo. Pronto: Hora do pé na bunda. E como é algo bem resolvido, nunca mais a gente volta para o sujeito que parecia ser eterno e indestrutível no coração da gente.
É uma gostosa sensação desconstruir a paixão quando ela nos fez mal. Aquele que nos parecia um Deus se transforma em menos que o pior dos mortais, os defeitos ignorados são postos a limpo, o valor da pessoa cai porque nossa cotação emocional lida com outros pesos e medidas e acho que é dia, sim, de comemorar. Quando o amor vai embora, você não nota, não vê o lugar nem o momento, mas neste momento você se sente “cheia de si”.
E que quando a gente diz que alguém “se sente”; “se acha”, focaliza o mau orgulho, a empáfia, a metidez... Estar cheio de si é se bastar, sem menosprezar o valor de outras companhias.
Não me referi em nenhum momento deste post ao caso do Insistente desagradável, mas a outro caso, de longa data também, mas não tão longa assim.
Nunca entendi direito porque ser amado presume se valer do sentimento alheio para enaltecer o próprio ego, em demonstrações de vaidade. Bem, me sinto bem por mim e por outra amiga que nestes dias superou um amor ruim. Que seja e esteja ‘cheia de si’ e que no tempo certo possa também se encher de amor, sem ser o amor de quem nos encheu o saco!

sábado, 4 de maio de 2013

O time dos insistentes




É um outro tipo de agonia viver a tentativa de convencer quem não nos interessa de que não há chances conosco.
Quando a gente ama ou deseja alguém que não nos corresponde, é uma angústia do outro mundo. Porém, respondendo por mim e por meia dúzia de gente que tem juízo e vergonha na cara, se o outro se mostra desinteressado, se não quer contato, se não corresponde, a gente deixa a pessoa em paz. Se há alguma insistência inicial, acredito que seja porque a gente não percebeu claramente que o outro ser humano não quer nada conosco. De outro modo, seríamos muito inconvenientes, desagradáveis e de uma insistência demasiado burra.
Aos homens, porém, ensinam que “Não há mulher difícil, mas cantada mal dada”. Eles costumam acreditar nisso, o que incita a insistência, a crença em conquistar pela retórica de uma cantada e que, ‘água mole em pedra dura, tanto bate até que fura’. O que pode acontecer, na verdade, no plano das exceções que motivam a quebra da regra, é algum estado de carência extrema, desespero de causa, cálculo (a saber, a mulher pode se convencer de que, já que está sozinha, vai dar uma chance ao cara), algum desejo de vingança contra outros amantes ou prevalência de álcool simplesmente. De um modo geral, o raciocínio é simples: quem quer a gente, fica com a gente. Se a pessoa quer, porque dizer não? Se os desejos são correspondidos, que sentido faria rejeitar aquilo que se quer?
E esse bolodório todo é para registrar a minha perplexidade sobre um certo tipo descompreendido, um quase-namorado de adolescência que não entende que o tempo passou, que eu não quero ele, não gosto dele, não desejo ele. E mesmo dizendo claramente, não tem jeito: desde que acidentalmente a gente se encontrou num ônibus a caminho de Salvador, é esse porre de aturar a pessoa trás de mim.
Ele não sabe onde eu moro, mas já sondou, procurou, perguntou... Difícil explicar que se um dia namoramos, o contexto era outro. E haja paciência para aturara as tocaias e as coincidências forjadas que fizeram com que eu deixasse de correr pela getúlio Varga snos finais de tarde.
Ele parou no tempo. Casou, mas parou no tempo e não aceita de modo algum que, para mim, ele seja tão apetecível quanto uma folha de isopor.
Acredito que valha a pena ser persistente em busca do que se quer: batalhar por um sonho, tentar todos os recursos possíveis para engravidar, para ter uma família, se isso for o sonho da pessoa; fazer 20 vestibulares para concorrer às vagas mega-concorridas (desde que não se pare em busca disso por 5, 10 ou 20 anos, né? Aí é o atestado de burrice sendo emitido a cada semestre!), envidar esforços em busca de uma conquista é ótimo. Mas aí é uma coisa: insistir, incomodar os outros e não tomar pé da realidade, é outra coisa.
Conquista já se chama conquista por isso: você tenta. Caso obtenha sucesso, conquistou mesmo. Caso contrário, é questão de bom senso entender que aquilo significa um não. Eu me sinto muito irritada com a insistência burra. Não acho que se vença pelo cansaço: não seria vencer, seria abater o outro, dobrá-lo à sua vontade pela força de um evento, pela ausência de força da pessoa (fraquejando por piedade, por autocomiseração, desespero, por dor ou carência afetiva ou financeira).
Dizer ‘não” é tão difícil quanto ouvir ‘não”, mas faz parte da vida de qualquer ser humano. Quem não se prepara para isso, está despreparado para a vida.  
Sabe o que a imagem tem a ver com isso? minha indignação, porque os homens interessantes, desejáveis e legais não são tão numerosos quanto o time dos malas que assolam a vida da gente. Que injustiça!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

"Mais louco é quem me diz..."




Na minha segunda aula, aliás, no meu segundo dia de aula na universidade, minhas alunas me cercaram no corredor do módulo para me advertir sobre a colega: “Professora, não sei se a senhora já percebeu, mas X é bipolar. Ela está no auge da crise hoje, por isso ignore se ela sair do controle, se fugir à normalidade”.
Surpresa: eu não sabia não. “De perto ninguém é normal”. Eu já disse aqui que minha amiga mais que Irmã é esquizofrênica, mas a crise só veio aos 30 anos; que na minha turma de graduação, na UEFS, eu tive duas colegas esquizofrênicas e que já desconfiei de amigos e alunos meus, mas daí a olhar para a cara e acertar no diagnóstico, nem Freud!
A gente faz loucuras e diz besteiras e se acha no direito de chamar louca, louquética, o que for. Mas no caso de minhas colegas de classe, era assim: uma delas, C., era apenas descontrolada e ansiosa, com alguns episódios de hipocondria. No trato das relações humanas, gostava de fazer vergonha moral às pessoas, do tipo que procura esfregar na cara dos outros os favores feitos, as coisas ou quantias emprestadas, desfazer do conhecimento alheio, enfim, um perfil que pode facilmente se confundir com o de qualquer pessoa normal, arrogante e sem noção. Depois de muito tempo, quando forcei que ela fosse ver minha analista, soube do diagnóstico: esquizofrenia.
A outra colega, M., era arredia: não suportava que tocassem na carteira que ela ocupava na sala, era comedida nos modos, mas alterava a voz por qualquer coisa. Passados dois anos desde nossa formatura, ela alegava a perseguição do Presidente da República, atrás dela, pelo campus, no ponto de ônibus e etc.
Minha amiga mais que Irmã desencadeou sua crise por causa de um amor contrariado: ela já delirava, fazendo de um maconheiro, vagabundo (jamais trabalhou, nesses seus 42 anos de vida), que levou 11 anos para se formar, um artista plástico. Ele cursava História, comigo. Ele levou 11 anos para se formar, só para não deixar de ser estudante e ter que provavelmente trabalhar. Para ela, ele é um artista plástico: este é o primeiro delírio. Daí a dizer que implantaram um chip nela, que o Governador a persegue, que os artistas da TV a procuram e a ouvir mais vozes do que se ouve em micaretas, foi um pulo.
Nesta noite passada, porém, meu primo e todo mundo da casa dele não conseguiu dormir. Ele me contou que a mãe dele, que já tem episódios senis, achou que ele fosse mata-la por estrangulamento. Tudo isso porque ele foi acompanhar a mãe da sala até o quarto, sentou-se ao lado dela na cama e começou a conversar coisas amenas, para ativar a memória dela. O gesto de arrumar o travesseiro e pegar nos cabelos da mãe, fez com que ela acendesse o delírio. Neste caso, é coisa mesmo da senilidade, quadro específico que eu não sei dizer o nome, mas que redunda na paranoia.
Ela quis fugir da casa dele, gritou por socorro, falou barbaridades e, assim como eu, o filho do meu primo se pipocou em risos. Contando, a gente ri, porque não faz o menor sentido, é engraçado. Porém, ela não dormiu e fez barulho para que ninguém dormisse, com medo de ser morta pelo filho único – e até disse que os bens dela já eram todos deles, para quê mata-la? Sei é que o que nos fez rir, deixou meu primo exausto e entristecido. Ao perder o juízo, a pessoa que a gente ama já não está mais ali. É só um corpo, sem as memórias, sem o reconhecimento, sem a sanidade...
Minha aluna, porém, me chamou também ao canto, me explicou da bipolaridade, me preveniu do ocorrido, checou o que eu sabia e mostrou que ser bipolar não é viver apenas oscilações de humor e os altos e baixo que decorrem disso: a realidade é distorcida, a vida corre ao contrário, há pesadelos enquanto se está acordado, mil coisas...
Sei lá, acho que nossa época é propensa ao desequilíbrio.
Pode parecer cinismo e ironia, mas acho meio abiloladas, piradas e malucas essas pessoas que distorcem a realidade social, sabe? Porque a humanidade não erra em favor do próximo.
Então fica esse povo noticiando as atrocidades cometidas por bandidos em geral, e por bandidos menores de idade em especial. Mas aí atenuam a situação, querendo pôr sobre a vítima a responsabilidade da violência sofrida: o coitado do bandido não teve oportunidade na vida, é pobre, tem desejos de consumo não saciados, é esquecido pelo Governo, é excluído. Por isso mata, violenta, assalta, queima as pessoas vivas, estupra e etc. E aí eu olho para mim e para meus amigos que não tiveram oportunidades na vida, que somos pobres, que temos desejos de consumo não saciados, somos esquecidos pelo Governo e excluídos, e a gente se vira, estuda em escola pública, trabalha, lê, se vira ainda mais, se sacrifica e não mata ninguém.
Até Tati pensa assim: todo marginal tem razão de ser marginal porque a sociedade cria neles desejos de consumo aquém de suas capacidades aquisitivas.
E os defensores dos menores de idade jamais percebem que eles sabem o certo e o errado e que se têm astúcia para matar, roubar, estuprar, mutilar e torturar devem responder criminalmente pelo que fizeram. No modo de pensar desses aí, a vítima que se lasque, pois vítima maior é o coitadinho infrator, que é vítima do sistema. Responsabilidade, zero.
Tantas vezes o menor infrator monstruoso atinge um menor de idade e o povo fica romantizando, invertendo a lógica para favorecer o assassino!
Estes aí, sim, para mim, perderam o juízo: já não atinam entre a realidade e a fantasia, talvez porque nunca sentiram na pele a mão pesada do assassino, acham que tudo é exagero e responsabilizam o Estado pelo que é ato e responsabilidade pessoal. Todos nós temos escolhas: podemos fazer o bem ou o mal. Quem não tem sanidade mental e se desequilibra, não responde por si. Que pena que as pessoas perderam a noção dessas fronteiras.