Louquética

Incontinência verbal

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Pobres e vagabundos



Vamos falar de pobreza e vagabundagem? Para muitos, os termos são homônimos. Há aqueles para os quais a pobreza é o resultado da preguiça. Estes últimos acham que os pobres preferem ser pobres a terem que trabalhar; acham que as pessoas preferem viver de Bolsa Família e que quem tem força de vontade prospera.
Podemos responder a tais absurdos começando de baixo: ainda que uma pessoa pobre seja dotada de aptidões profissionais e intelectuais, se não houver oportunidade os talentos que ela possui serão nulos.
O desempregado precisa de dinheiro para poder procurar emprego: precisa de higiene pessoal, de transporte, de alimentação e, em muitos casos, de investir em novas áreas da própria formação. Para tanto, precisa ter dinheiro. Assim, a gente nota que para ganhar dinheiro é preciso ter dinheiro – e isso é paradoxal tanto quanto é verdadeiro.
Seguindo na questão, é preciso criar condições de empregabilidade. As pessoas fora do mercado formal de trabalho ‘se viram’. Isso significa improvisos, bicos, informalidade (trabalho sem emprego); significa se meter a fazer coisas que aparentemente qualquer um faria (uma faxina, cuidar de idosos, guardar carros, vender coisas em sinaleiras) e uma infinidade de atividades.
Passemos aos vagabundos. Devo dizer que assim como nem todo pobre é vagabundo, a maioria dos vagabundos não são pobres – destaco, ainda, que assaltantes geralmente não são assaltantes por serem pobres, mas por desejarem consumir como ricos; e a regra se aplica a estelionatários e demais ladrões, de todos os tipos e escalas sociais.
Raro será encontrar um de nós que não conhece um vagabundo. Eles estão bem próximos: é aquele sobrinho que nunca termina o curso superior porque achou interessante ser estudante e contar com o dinheiro dos parentes, se amparando na suposta condição de estudante; é aquele nosso amigo irresponsável, que vive às custas da mãe ou de outro aposentado da casa e da família, sob a desculpa de que fica em casa para tomar conta dos mais velhos, de quem não quer se afastar; é a outra pessoa, eternamente jogada em concursos impossíveis, que também encontra alguém que financie sua internet e suas taxas de inscrição, sob a promessa de que será classificado algum dia; são as pessoas que, sendo inteligentes, nunca terminam nada do que começam – seja a autoescola, a universidade, o curso de qualquer coisa – porque se acham acima dos professores e instrutores; são os maridos bem casados com mulheres esforçadas, que acreditam que eles sejam autônomos que num dia têm dinheiro e, no outro, têm pouco e, por isso, não precisam pagar despesas de casas e, além de tipos variados e múltiplos, o vagabundo realmente inocente: o que foi convencido pelos parentes (geralmente os pais) de que não é apto para nada, que nunca passará em nada e que introjetou essas ilações como se fossem verdades absolutas, de modo que desenvolveu um complexo de inferioridade que o fez ter medo de tentar e, desta maneira, fica em casa contando com o pão de cada dia dos familiares, ainda que isso tenha o preço da humilhação.
Acho feio e continuarei achando condenável quem quer humilhar os outros por serem pobres.
A pobreza retira o acesso a bens materiais. Significa não ter. Às vezes significa não ter o que comer ou onde morar, mas não dá o direito de ninguém humilhar a pessoa ou acusá-la de ser responsável pela condição em que ela se encontra.
Se pensamento positivo resolvesse, seria ótimo, mas a pobreza é multifatorial – e nestes fatores múltiplos, há diversos que são responsabilidade de políticas governamentais mesmo; da Economia; da família; de situações anômalas (doença, falência, desequilíbrios e desajustes psicológicos, etc).
Às vezes falam que há ‘pobres metidos a besta’, porque esperam que todos os pobres tenham postura subserviente; que as necessidades fazem as pessoas dobrarem os joelhos junto com a dignidade perante quem tem mais...
Uma vez eu contei esse fato aqui no blog, sobre quando eu tinha 11 anos e veio um pedinte à casa de minha madrasta, querendo almoço. Ele advertiu: “não gosto de macarrão”. Eu achei um absurdo, mas a filha de minha madrasta, para a minha surpresa, foi anuente com o mendigo e me disse que era isso mesmo, que tem gente que não gosta de macarrão.
Na minha cabeça, naquela época, quem tem fome não faz escolhas – um absurdo que aprendi socialmente mas, ainda bem, modifiquei.
Interessante é que há os pobres que não sabem que são pobres – a pobreza tem muitas faces e níveis, mas o engraçado é ver um povo que compra uma casa que será quitada em 35 anos; vive do limite do banco; atrasa contas; conta os centavos, vive no aperto, tem um salário que não dura cinco dias, se achar classe média.
Isso significa que a consciência de classe anda em baixa, o que faz com que os pobres venham a aderir a modelos de exploração, de economia, de governo e de sociedade que prejudicam a eles mesmos, pois que não se reconhecem como pobres e acham que as decisões que afetam os pobres que estão abaixo da linha da pobreza(miseráveis) não os atingirão; e que o interesse dos ricos traduzem suas próprias necessidades.
A classe média existe, mas não pense que ‘média’ queira dizer ‘meio termo’, ou seja, nem exatamente pobre, nem exatamente rico – esse é o pensamento do pobre ignorante de si mesmo, acima citado; o pobrezinho que teme a chegada da fatura do cartão de crédito; que anseia por um troco a mais num restaurante, para seu benefício.
Classe média é economicamente abastada, não conta centavos, tem heranças, tem rendas (e não apenas salário) tem capital simbólico (educação formal; prestígio; influência; acesso a cultura imaterial, etc.) – sabe que não é exatamente rica porque trabalha mais que administra seus bens, mas não passa nem perto da pobreza, enquanto pode transitar por instâncias superiores.
Como não somos estúpidos, sabemos que classe ultrapassa questões financeiras – vai bem além.
Ah, sim, há ricos vagabundos? Muitos: pegam carona na fama alheia; fazem conchavos, participam da corrupção da esfera política, articulam, barganham, negociam, especulam...
Não vivemos em uma sociedade igualitária e ponto final.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

A cada um segundo suas escolhas




Eu não sei a partir de que momento da história os homens passaram a achar que a intenção de toda mulher é ter um relacionamento socialmente assumido, isso a que os desavisados chamam de relacionamento sério; que toda mulher sonhe em casar e ter sua própria família, a qualquer custo. Eles acreditam nisso e odeiam ser contrariados. Esbravejam quando encontram a exceção, atribuem a liberdade de escolha ao feminismo.
O feminismo saudável trouxe mesmo a liberdade de escolha. De fato, se não fossem as feministas, as mulheres que odeiam o feminismo não poderiam votar em quem adora as mulheres...adora as mulheres submissas, de postura conservadora, fúteis e idiotizadas... Mas, dizem que a mulher sábia edifica o lar – e edifica como um pedreiro, carregando os pesos, acordando cedo, se sacrificando de todo modo, apesar de saber seu trabalho não será reconhecido. Grande coisa um lar padronizado, mantido por sofrimentos abafados, por hipocrisia, traições, violências! Este é o lar da maioria: feliz na fotografia, pesado no dia-a-dia.
Entretanto, não condeno às escolhas dos outros e sei que há exceções – só não as conheço, mas do fato de eu não conhecer, não se pode concluir que não existam.
Não costumam respeitar minhas escolhas quanto a isso de não querer casar, nem ter filhos, nem família padronizada. Esquecem, sempre, que eu tenho liberdade de escolha e, se eu achasse que a escolha da maioria fosse boa para mim, iria com as outras, tranquilamente, como uma boa Maria deve ir com as outras.
Fomos perdendo o direito à opinião. Mas, ter opinião contrária à opinião padronizada ofende a muitos que querem me obrigar a querer o que eu não quero.
Já falei disso aqui no blog: se você é livre, você tem escolhas. Logo, se no blog não tem coisas que te agradem, não precisa vir aqui – garanto que não haverá punição alguma por isso. Se você gosta de mulheres brancas, não se obrigue a namorar as negras; se gosta das esguias, não se envolva com as obesas; se gosta de homens negros, não precisa namorar os brancos; se gosta de musculosos, não se obrigue a namorar os magros. E dizendo isso estou ironizando a violência velada que boa parte dos casais pratica: jogar na cara do outro, na hora da briga, que preferem um tipo apesar de estarem com quem não corresponde ao seu modelo idealizado.
Será que alguém foi coagido a namorar o oposto de seu próprio gosto?
Tenho presenciado coisas assim.
Até comigo ocorreu coisa semelhante, quando um homem veio, recentemente, questionar e tentar me dissuadir de minhas escolhas. Paralelamente, eu mostrei e disse: “há tipos de mulheres mais adequados ao seu gosto, sabia? Veja melhor suas opções. Eu, por exemplo, tenho escolha, fiz as minhas escolhas e, para mim, uma pessoa como você não seria uma opção para mim. Além disso, não estou à procura, não estou disponível emocionalmente e as coisas fluem melhor quando duas vontades se encontram, você não acha?”
O sujeito ficou de mal de mim, me disse uns monossílabos de canto de boca e adorei repelir com sinceridade quem não me interessava. E este, então, foi muito engraçado: fez propostas e promessas, se apresentou como ‘um bom partido’ – ora, não estamos em eleição – julgando, ele, que toda mulher é interesseira, que quer casar seja como for...
Não sou grossa, mas ou sincera.
Má sorte de quem, tendo opção, anula a própria escolha.

sábado, 15 de junho de 2019

Tudo beleza!





Um ser humano qualquer disse, certa vez, que metade da beleza feminina sai com água e sabão. Ele teria dificuldade em viver em um mundo cujas fotografias são cheias de filtros e efeitos; e morreria ao perceber que há técnicas, jogos de luz e ângulos que favorecem as pessoas nas fotografias. Fotografia é simulacro. Não é você quem está ali. Não sou. Não somos nós. Todas as fotografias são passado.
Mas, à parte a citada frase mal humorada, sou a favor da maquiagem. Acho que se a maquiagem nos favorece e trai a realidade, está cumprindo sua função artística.
Na música, confundem-se a maquiagem e a pintura: “Marina, morena, Marina, você se pintou...” e segue o conhecido protesto porque “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”. Ora, Deus deu também a vontade de melhorar, de criar, de revigorar a fisionomia.
Quando a gente nota maquiagem nos homens, põe a sexualidade deles sob suspeita. Pura ignorância: apresentadores de telejornais (sim, Mr. Bonner e outros), atores, governadores, todos precisam de base, pó facial, gloss ou hidratante labial, um retoque de sobrancelha...Porque televisão lida com iluminação – e na imagem, iluminação é muito.
Acho terrível é homem sem perfume. Antes andasse nu. Um homem sem cheiro não tem existência própria – e que nenhum engraçadinho me venha com a conversa do cheiro natural. Não estamos em estado de natureza. Até gato e cachorro têm colônia, talco, perfumes...Um homem precisa ter cheiro para ser (Ah, o cheirinho de Armani no corpo de Thales – um cheiro singular, não era o Armani tradicional, era um tipo presente, de um intenso que não era forte...E eu lembrando da amiga que disse que Malbec é o aroma dos canalhas...Imagine!).
Maquiagem com leveza em qualquer pessoa e para todas as pessoas. Eu, por exemplo, não fico bem com blush de nenhum tom.
Minha maquiagem de sempre e de todo dia: base, batom, lápis de olhos que uso na sobrancelha (sim, lápis de sobrancelha não serve para sobrancelha, porque é ressecado e de cor errada, quase grafite, artificial, horrível, de qualquer marca).
Batom é o melhor vício. Também acho uma mulher sem batom algo lamentável. Para mim, é um símbolo de afirmação do ser – eu, sem batom e sem brincos não sou, não existo.
Fico feliz por haver certa popularização de alguns itens de maquiagem, vendidos em lojas de baixo custo. Muitos deles são ótimos - Ruby Rose tem excelentes batons, corretivos e lápis; a Playboy tem o melhor delineador em gel que eu já usei em minha vida. E a máscara de cílios Maybelline Colossal Volume Express à prova d'água não se tornou um clássico à toa: altamente qualificada, a melhor que já usei, desbanca importadas que também já tive (sim, aquelas cujo preço ultrapassa 200 reais) e onde eu não economizo é em bases e batons...Então Make B de O Boticário é minha linha favorita e sombras, as da Quem disse, Berenice.
Nossas tias, mães e avós viveram de Avon (que continua tendo ótimos produtos de beleza e de cuidados pessoais) e acho que me espelho muito no espelho delas: adoro cuidar de mim.
Nunca fiz nenhum procedimento cirúrgico para fins estéticos. Nunca. Nada. O máximo que fiz foi tirar verrugas por eletrocoagulação na dermatologista. Mas sei que meu dia vai chegar. Não quero temer. Enquanto eu puder, não quero conta com botóx.
Também não quero enloirecer, como convém mediante o avanço dos cabelos brancos. Há tons e procedimentos que eu sei que não se harmonizam com quem eu sou. Porém, sou a favor de que cada um cuide de si como queira.
Não acho também que o avançar das idades deva significar desleixo: é bom consultar o espelho sem medos, aceitar o que vê, lembrar que já tivemos 20 anos, depois 30, depois 40...depois o que tiver que ser. E a juventude passa, só quem não sabe é quem ainda é jovem.
Quando jovem, geralmente só temos a juventude: não temos independência, temos espinhas e conflitos com o corpo, com partes pequenas demais, partes grandes demais, peso a mais, peso a menos, cabelo em dissonância com nosso gosto (ou não crescem, ou são lisos, ou são crespos, ou são frágeis...). Então, vivemos muito cedo esses conflitos. Depois, quando velhos, temos saudades da juventude – esquecemos que passamos a juventude insatisfeitos com o corpo e com a aparência. Mas, a essa altura, já temos dinheiro e independência (pelo menos) e podemos modificar as coisas que outrora nos afligiam. Seja como for, é muito bom poder passar a limpo o que nos incomoda.

domingo, 9 de junho de 2019

Amor em cena



Estamos na semana do Dia dos Namorados (12/06) e não é novidade para ninguém a enxurrada de gente a trocar o status dos relacionamentos no Facebook, assim como já é por todos conhecida a estratégia de muitas mulheres ao mandarem flores para si mesmas e as já óbvias filas nos motéis e restaurantes.

Ao lado deste povo de comportamento óbvio, as amigas que têm medo de dar presentes e sofrer a decepção do não retorno ou da declaração de que aquilo ali não é namoro, por parte do homem.
Acho isso incrível: ainda cabe ao homem o poder na relação amorosa. É ele quem declara o estado civil do casal. Mulheres não são Juán Guaidó (que se autoproclamou presidente interino da Venezuela) para se autoproclamarem coisa nenhuma de ninguém.
Se o homem não assumir o relacionamento, não há relacionamento.
As pessoas moram juntas, fazem sexo, desenvolvem afetos, criam filhos, compartilham um lar, fazem compras juntas, são dependentes no cartão de crédito e no plano de saúde um do outro, mas somente ao homem cabe declarar o namoro ou o status do relacionamento, pelo menos aqui no Brasil.

Isso a gente constata: não é por machismo ou por concordar com o fato, não. É que é assim.
O oposto dá muito trabalho: se a mulher resolver se autodeclarar solteira, que não se espere o resto da tríade, o tal ‘livre e desimpedida’. Não é somente a família e os próximos a vigiar a conduta da solteira, como a possibilidade de engrossar a nossa alta e conhecida estatística dos homens que “não aceitavam o fim do relacionamento” – e aí, prepare o vaso da vingança, que pode estar cheio de cólera, ira e frustração, descambando para violências fatais.
Aqui no Brasil, em que impera a máscara da liberalidade, todo poder é do homem. Só ele pode. E pode tudo!
Decerto, muitos são os que se aproveitam dos precedentes abertos por comportamentos femininos lamentáveis, porque eles existem, sim: desde a leviandade dos recursos para tirar dinheiro do homem, até gravidez estratégica para prender um homem num relacionamento ou obter garantias de rendas futuras. É preciso observar isso: há muitos homens. A recorrência de comportamentos faz a regra, mas não significa que dá conta da totalidade deles. Logo, há os que fogem ao padrão comum.
Há muitas mulheres. O condicionantes sociais e culturais, assim como a personalidade, individualizam umas e homogeneízam outras. Porém, o que fica como regra? O comportamento da maioria.
Por esta mesma via de análise, tem um rebanho de idiotas que se apegam àquela pergunta: “Se todos os homens são iguais, por que as mulheres escolhem tanto?”.  A resposta é bem clara: boas escolhas dependem de se conhecer as opções disponíveis. Algumas vezes, dentre as opções que se tem, opta-se por “NRA”, ou seja, “Nenhuma Resposta Anterior”. Isso é discernimento. Há quem escolha errado? Sim. Há quem chute? Claro que sim. A gente é que deve ter em mente que é possível fazer o rascunho antes de dar a resposta definitiva.
Para uns, mais amor, por favor!
Para outros, mais humor, por favor!

sexta-feira, 31 de maio de 2019

No caminho



Ainda sobre o pobre candidato que se apresentou a mim, tenho que frisar que é um daqueles intelectuais de bagagem, que sabem o que estão a dizer, que correram mundo até ter pés firmes no universo da ciência. Mas, não somente pelo meu namoro com O poeta prosseguir, como pelo fato de que o candidato é apressado, eu nunca o namoraria.
Essas pessoas que só são felizes casadas me assustam.
Desde sempre eu disse: ‘eu gosto de namoros’.
Mas, eu também não ficaria com ele por causa daquela deselegância que desmente o lugar acadêmico que ele ocupa; por um jeito Jeca, caricato de tão sem modos, sem a menor etiqueta...Isso enfeiece qualquer um.
Ele veio sem que eu o chamasse: me achou, veio no faro de minhas ideias expressas em alguns escritos...Encantamento reforçado por minha aparência, que ele conferiu em todos os lugares possíveis – do Lattes aos perfis de redes sociais.
 Já comigo, o percurso inverso: o encarar frente a frente foi de um desencanto pavoroso, que só minha boa educação pôde amortizar.
Juro que lembrei de “A bela e a fera” – ora, quem vê cara, não vê coração”, mas eu preciso mais do que um coração de um cara para encetar algum interesse.
Lembrei de outra situação mega esquisita em que o meu par, tendo esperado por mais de uma década para ficarmos juntos, ao ficar comigo, me chamava de “amor”, num enojamento chato e artificial, que me deixava sem jeito.
Sei que retomei esta pauta porque o candidato citado primeiro construiu um amor por mim, totalmente patológico. Não há amor em 15 dias, nem à primeira vista, nem esses troços malucos que as pessoas carentes inventam.
Fui cuidadosa, porque o quadro dele foi sério.
Até o presente momento, mesmo com todos os meus argumentos e impeditivos, o cara continua na batalha. Delirante como Dom Quixote atrás de Dulcineia, lutando contra gigantes inexistentes, quando a donzela não tem nenhum interesse na causa.
Eu fico igualmente sem jeito quando alguma situação social me faz confrontar com alguma pessoa que já não está entre meus afetos. Nesta semana, isso ocorreu duas vezes.
Num primeiro caso, não houve ruptura na amizade, mas distância. A moça aprontou muitas comigo, foi extremamente falsa, ingrata e arrogante...Um dia ela me viu por cima da situação. Catou meios de se aproximar. Fiz um favor. Daí em diante, é uma perseguição por retomar a amizade comigo...
E, de repente, olha a situação social nos colocando em meio a pessoas que não fazem ideia da história dos bastidores e que incentivam nosso contato! Saia justa, driblada pela boa educação e as pressas da vida moderna.
Eu não conseguiria ser amiga dela. Não conseguiria lhe fazer uma visita ou aceitar uma visita dela. Ali, o abraço me custa caro, a saudação é um martírio. Não há ódio, mas há um repúdio interior que eu não sei barrar, é involuntário.
No segundo caso, um ser humano que me detesta, que fez o que pôde para desmanchar minhas amizades, cruzou meu caminho por meios virtuais.
A personalidade de víbora, na aparência é a cara da paz e da simplicidade. O veneno ela distribui por critérios de falta de simpatia, como ocorreu comigo.  Mas, em todas as desavenças coletivas, lá estava o dedo dela. Obviamente, poucas pessoas viram. Quem viu, me alertou, porque uma amiga ficou de mal de mim, sem me dizer o motivo, sem me oferecer chance de defesa porque, afinal, quem fez a discórdia tinha crédito.
Isso sobreviveu até que o tempo foi dando pistas da verdade.
No meu coração ficou aquela decepção de mágoa: como é que a pessoa perde seu tempo apenas para tirar de mim meus amigos?
Não falo mal dela para ninguém: cada um precisa tirar suas próprias conclusões. Além disso, ela sabe se fingir de vítima, capitaliza muito bem suas poucas dores (todas advinda de invejas injustas, porque ela só olha a grama dos vizinhos, ao invés de molhar a dela, já verdejante), faz dramas com estados de saúde pretensamente fragilizados. Ela sabe que eu sei. E sei muito bem quem ela é.
Enfim, ela fez outra armação para me atingir, para dar a entender que eu era a causadora da retirada dela daquele ambiente virtual. Deus me livre de cruzar com esta pessoa novamente. Fico completamente sem jeito, sem saber corresponder à falsidade adequadamente.
É o que eu também acho válido para qualquer situação, sejam páginas, blogs, sites ou casa dos outros: se você não gosta, não vá.
Se for convidado e não gostar, não vá.
O mundo funciona melhor quando deixamos os outros em paz.


domingo, 12 de maio de 2019

Alianças




Se Hoje me perguntassem o que eu acho que deva ser um amor próspero ou feliz, eu diria que um bom amor tem que sobrevive a ele.
Amor leva tempo e, em alguns casos, leva à ideia da perda de tempo. Corrigi isso numa amiga, hoje. Ela se declarou curada de recaídas por um homem por quem ela literalmente enlouqueceu (sim, Rivotril, clínica e demais tratamentos). Até gravidez ela forjou (um clássico do desespero) e lançou mão de todos os recursos disponíveis para prendê-lo a si. A julgar pelos recursos, já era a sanidade indo embora (e não critico por mal: ao meu tempo também fiz meus esforços para manter um relacionamento. Por sorte, percebi que aquilo não poderia ser amor, de forma alguma).
Disse eu à amiga, que não haveria porque se arrepender, pois que naquele momento ela estava como estava. Parabéns pela superação saudável.
Todos os dias há quem faça isso. De ambos os lados. Aquele que não quer manter a relação torna-se refém das armadilhas para adiar o fim. Do contrário, por que razão cartomantes, magos e similares  perderiam tempo com o clássico: “Trago a pessoa amada em três dias”?
O que eu digo é o contrário: pense em você, na sua agonia, na angústia e no seu desprazer em ser forçada ou forçado a permanecer com que você não quer estar!
Temos ego, sim. Ele, diante de uma ameaça de término, se ofende. 
Classicamente, nosso ego diz ao ser amado: “Quem você pensa que é, para poder viver sem mim? Como você pode não querer viver com uma pessoa maravilhosa como eu?”. Em alguns casos, o ego vira violência – se não dá em morte, dá em difamação, perseguição, mágoa e pragas.
Então, um amor próspero é também aquele que acaba bem. Não é indolor: separações doem, mesmo quando a iniciativa é nossa – é um outro caminho e os perigos normais junto aos imprevisíveis.
Geralmente, quem ama tem pressa e isso não é nada bom.
Para amar e para desamar, tudo é processual.
Particularmente, crio um certo enfado quando o amor acaba. Fujo um pouco, invento compromisso, viagens imaginárias...procuro criar o processamento para o bom entendedor. Antes, bastava pedir um tempo e o outro sacava que era o tiro de advertência. É como dar notícia ruim com eufemismo, aos poucos...
Até que o outro nos diga: ‘você mudou’ e entenda que você mudou para  muito longe, já anda emocionalmente distante.
Tem quem deixe para ser feliz nos intervalos – mantém casamento, namoro e é bastante feliz sempre que está sozinho ou sozinha... até tiram a aliança, em sinal de alforria. Há quem tire ao dormir, para ter a liberdade enquanto sonham.
Parâmetro bom: se essa ausência causou saudades...ou se deu alívio.
Muitas amigas minhas cataram na internet seus respectivos maridos. Por que queriam ter maridos a qualquer preço...Depois de obtido o troféu matrimonial, declararam o quanto era bom ser solteira.
Isso não ocorre por mal: querem companheiros, alguém com que contar, um esteio...mas, às vezes só conseguem o marido.
Hoje se apresentou a mim um candidato. Bastante apressado, deixou bem claro que ama estar casado, tanto que casou por duas vezes e que me achou bonita e inteligente, bem adequada aos sonhos dele.
Desesperou-se sobremaneira quando apresentei meus impeditivos, não somente porque namoro O poeta, como por meu pavor por casamento. E ainda disse isso tal a personagem de Chicó, no Auto da compadecida:
“- Casamento? Casamento é muito bom. Já fui a muitos. Adoro festas!”. Eu disse mesmo.
E eu sou a favor do casamento dos outros. Muito a favor.
A minha amiga louca para casar pela segunda vez oficialmente; e pela terceira, extraoficialmente, diz que não quer morrer sozinha. Penso em avisar que quem cuida da gente na velhice são enfermeiros e cuidadores profissionais e, ao morrer, estaremos sós, mesmo que morramos acompanhados. Não há essa garantia. Está aí algo que o amor não dá: garantias. Se acabar, só outro.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

Cuide da sua vida!



Tomei um susto dolorido com a morte de Júlio Ávila, do blog Eu existo – eu estou vivo.
Ocorreu em 14 de outubro do ano passado. Graças a Deus, eu soube há poucos dias – isso por que estranhei o tempo de ausência da escrita dele no blog.
Como ele atravessasse uma depressão verdadeira, até dei por respondida a ausência que, nem por isso, deixava de me incomodar. Sei que por intuição ou por bom anjo guardião protetor, só fui ver a vida dele no Facebook na semana passada.
Faço aniversário em 12 de abril. Ele era do dia 11 de abril. Éramos arianos, críticos, fãs de Fernando Pessoa, de Bukowski e do Radiohead, se é que alguém pode entender a complexidade das coisas que justificam isso.
Foi por causa de Creep que ele me encontrou. Ou por causa da epígrafe aqui do blog, quem sabe... Sei que aprendi muito com ele, especialmente pela generosidade que ele tinha em entender nossas diferenças culturais.
Um dia, no Messenger, após um argumento mal criado meu, que insinuava o lugar dele de ‘colonizador’, mui sabiamente ele me esfregou elegantemente à cara: “Mara, não estamos no tempo da colonização”. Ele era português, morador da Ilha Terceira (Biscoitos)...
 Em 2010, eu ia a Portugal, por conta de meu doutorado, que sendo aqui na UFBA (segundo o atual ministro da Educação, Universidade Federal da Balbúrdia), tinha convênio para bolsa-sanduíche no Porto. Era a oportunidade de ver meu amigo presencialmente. Depois, pelas perseguições internas que sofri na UFBA, acima de tudo, injustas, encurtei meu doutorado e acabei a tese três meses antes do previsto.
Acho que a gente se conhecia há pelo menos nove anos. E se fez diferença dividir um café ou partilhar um abraço, amizade e companheirismo foram uma constante. Ele era uma pessoa de verdade.
Li as últimas postagens dele, falando da depressão e vi o vídeo postado por ele, com um narrador mostrando modos de se fazer um nó de carrasco, próprio para suicídio, para enforcamentos.
Vi as mensagens de despedida dos familiares no Facebook e, confesso, fiquei tão mal, que senti asfixia, Por vários dias fiquei como que asmática, reaprendendo a respirar.
Hoje, finalmente, voltei à página dele no Facebook. Li tudo quanto eu pude para poder entender, saber e aceitar.
Fiquei surpresa com o carinho e presença da família dele. Não imaginava serem tantos os irmãos, nem tão presentes e amorosos os pais. Vê-se que a solidão é, também, uma ilha interna.
Nunca fui de julgamentos sobre o viver ou querer deixar de viver de ninguém. Viver nunca foi fácil: é desafio; é o que nos diz a Odisseia, ao nos mostrar a vida como jornada e como batalha. Mas, reitero, devemos ser teimosos – se a felicidade não é deste mundo, a gente a traz para cá, pelo menos para dentro de nós.
Alguns amigos meus driblaram seus impulsos suicidas casando e tendo filhos, de modo a se desviarem de suas próprias existências e focalizar outras. Acho um bom recurso.
Outros preferem um vício, qualquer desvio do peso de existir está valendo. Há os raros que são mais nobres e vivem para os outros, em trabalhos voluntários, em causas coletivas... E sempre me perguntam sobre isso de encarar a vida sem umas doses de nada, quanto e como acho coragem.
Como espírita sei da transitoriedade de tudo, mas isso não diminui a dor - entre quem crê e quem não crê; entre reencarnacionistas ou materialistas; entre católicos e protestantes; ateus ou budistas, tanto faz: dor é dor. Mudam apenas o escudo e a máscara.
Também aprendi com um amigo meu, Osmando, que a Terra tem muita coisa boa. Ele me mostrou que os espíritos têm saudades das coisas daqui. Assim também nós apreciamos coisas que há aqui – sim, mais próximos estamos de um estereótipo de Inferno que de um Paraíso (dois extremos, aliás, que não existem para o espírita – e se é difícil viver sem Deus, para muitos é bem pior viver sem a crença punitiva em um Demônio que lhes bote freio aos impulsos mais primitivos e baixos).
Bom, mas, enfim, escrevo isto aqui como se pudesse ser lido por Júlio, como despedida para ele – decerto, sei que minhas orações chegarão.
Acho que nunca eu declarei aqui com tamanha seriedade aquilo que vou repetir agora: cuide de sua vida!