Louquética

Incontinência verbal

domingo, 28 de junho de 2020

Dos hábitos em meu mundo




Não fiz nada do que eu dizia que faria se tivesse tempo.
Não mudei, entretanto, minhas rotinas de cuidados: curto mais meus banhos, me arrumo, compro roupas online e produtos pessoais, cuido do cabelo e continuo sendo vigilante, porque estar em casa nunca me faria prescindir da higiene e da arrumação, porque não são coisas que faço por obrigação. Gosto do meu cabelo cheiroso e arrumado, dos lábios hidratados, do cabelo com cor definida, do corpo com disposição e, sabendo a idade que tenho, sinto muita falta da academia e não deixo de me mexer em casa, com exercícios.
A academia me faz uma falta que eu nem sei dizer o quanto.
Muito sinceramente, nesta quarentena aprendi uma coisa sobre os produtos que movem nossas vaidades: primeiro no tocante aos dermocosméticos. Vamos lá:
1) O hidratante baratinho, vendido no supermercado (seja o Nívea da latinha azul, sejam os medianos da L’óreal ou os básicos da Avon (Accolade, por exemplo), funcionam, desde que sua intenção seja obter hidratação e umectação. Então, até uma pele ressecada vai aparentar estar lubrificada e hidratada. Não se pode exigir mais do que isso.
)  2)    O dermocosmético de marca altamente qualificada (Eucerin, Vichy, La Roche, Roc, etc.) funciona muito bem, tem poder de penetração na pele acima dos demais, mas nenhum anti-idade reverte rugas ou marcas de expressão e, também, não preenche sulcos. Nenhum. Para estes casos, só procedimentos cirúrgicos mesmo (ácido hialurônico, por exemplo). Se me perguntarem se os dermocosméticos funcionam, direi que sim. Todavia, não acreditem nas embalagens: resultados só são notados com 90 dias de extrema disciplina de uso, funcionam na limitação pertinente a um creme ou sérum.
) 3)     Cosméticos medicamentosos, ou seja, ácidos em geral (vitamina C é ácido ascórbico, por exemplo; Tretinoína e outras formas – ou seja variações do ácido retinóico) funcionam a contento, sim. Fazem as manchas desaparecerem, fazem rejuvenescer, a tal ponto que a pele descama para dar lugar a outra. Aqui eu estou citando. Isto não é uma receita, mas um comentário. Portanto, dermatologistas e farmacêuticos que saibam prescrever doses, usos isolados ou combinados, se contarem com a colaboração do paciente, realmente vão entregar uma pele linda à pessoa. Mas, aí vem o de sempre: a pessoa precisa colaborar, cumprir os ritos, usar filtro solar, sair da preguiça. Ah, o tempo, sempre o tempo: antes de 45 a 60 dias, nada aparece de significativo. Os processos biológicos são lentos. E se a pessoa parar o uso nos primeiros instantes de melhora, nada feito!
4)      Massagens corporais funcionam, mas não fazem perder peso. Cremes e géis de pimenta negra, cafeína ou qualquer blend que você escolher, vai ajudar a definir sua silhueta. Quem souber fazer massagem em si mesmo (a), no abdômen, por exemplo, mantendo a disciplina, vai ver a barriga diminuir e até o trato intestinal agradecerá, pois facilita a digestão de fora para dentro, a partir do momento em que contribui para a ativação do local e da vascularização na área.
Drenagem linfática ou qualquer outra massagem bem feita ajudará a desinchar, a liberar líquidos retidos, como se fosse uma ajuda às veias. E por aqui acaba o milagre. Liberar líquidos e toxinas retidas passa a sensação de perda de peso, porque, afinal, têm peso.
O que uma massagem modeladora faz? Arruma a gordura. É como se a gente passasse a se achar mais alto não porque cresceu, mas porque reeducou a postura, arrumou a posição do corpo. Assim, as medidas perdidas são, na verdade, uma organização de tecidos. É por isso que as cintas funcionam, os espartilhos e suas variações funcionam, porque têm efeito “ortopédico”.
No lado ruim, também: quem carrega bolsas num lado do corpo, tende a ter aquele lado, principalmente o ombro, mais caídos que o outro; se você usar calcinha de lateral fina, que marca gorduras do quadril ou usar calça baixa que divida adiposidades laterais, com o tempo o seu corpo exibirá as marcas do molde.

5)      O uso tópico de medicamentos e suplementos por via oral, funcionam? Se forem suplementos isolados ou combinados com vistas ao ganho de massa muscular e queima de gordura, funcionam, levam tempo e variam conforme a pessoa. Para algumas, não altera nada. Sozinhas, sem exercícios e sem moderação na alimentação, muito menos.
6)      Falando do mesmo item, porém com foco em produtos específicos para a celulite, tratando de um que eu experimentei (Equaliv Cell Firm), funciona de forma limitada e após 90 dias de uso. As celulites não vão embora, mas são atenuadas e possivelmente não vão se multiplicar além das já existentes. O produto citado é uma combinação de vitaminas, com óleo de cártamo e óleo de uva, composição suave, sem princípios agressivos que resulte em efeitos colaterais danosos, exceto para quem tem alergia a alguma coisa da fórmula. Em mim, atenuou as celulites, ajudou a regular o ciclo menstrual e melhorou meu cabelo.
7)      Também experimente o Svelim. Adorei. Com 45 dias eliminei um quilo e meio, que era mesmo excedente. O produto é à base de café verde, cromo e óleo de cártamo. Em mim não deu insônia, ajudou na digestão e me deu mais disposição para manter a rotina de exercícios em casa. Eu uso apenas uma cápsula ao dia justamente para não emagrecer além do desejável. Como não sou apaixonada por doces, refrigerantes e frituras, não respondo quanto a controle do apetite. Então, digamos que o Svelim é um combustível e a gente, o veículo. Um ajuda a por o outro em movimento. Porém, sem movimentos, não se sai do lugar.
8)      Exercícios em casa funcionam. A dica fundamental é criar rotina – a parte mais difícil, eu sei – a intensidade deve ser compensada pela duração. Ninguém precisa se agredir, se submetendo a movimentos dolorosos ou desconfortáveis. Basta a boa execução.
Aparelhos farão falta, claro, mas a isometria dá conta de muito. Parar é pior. Minha dica pessoal: faça seus aeróbicos antes de deixar rodar o filme do exercício a ser seguido. 10 minutos com polichinelos, corda, saltos, o que você decidir; mais os 25 minutos ou mais do vídeo que você acompanhar. Use o cabo da vassoura para dar correção de postura na hora de fazer agachamentos; faça abdominais infra e veja que, depois de pouco tempo o resultado aparece.
Depois comento sobre outros aspectos, mas não posso deixar de frisar: o espaço deste blog não é de prescrição e obrigatoriedades: conto minhas experiências, minhas opiniões e tudo tem contexto. Portanto, refiro-me à minha vida. O que cada um faz da sua, não me compete. Tem profissionais da área dermatológica, da fisioterapia, da nutrição, da educação física, que podem responder profissionalmente sobre as coisas específicas.
Igualmente, aqui é um blog. Vem que quer. A internet dá outras opções, portanto, ninguém é obrigado a estar lendo o que não gosta, não é? A liberdade é linda, não desperdice a sua!

Do mundo onde habito



Eu não sei como as outras pessoas estão, porque vejo muita gente feliz, aparentando estar num mundo que não é exatamente o que eu habito.
Cada um cria suas estratégias de preservação da saúde mental e do bem-estar e nem todos têm a mesma recepção para um mesmo fenômeno, mas é muito difícil encarar uma pandemia e um péssimo momento na economia e na política brasileiras e seguir sendo feliz.
Hoje em dia, até que invento coisas, pois não falta o que fazer: limpo, lavo, planto...pouco leio e pouco escrevo. Durmo e divago.
Há dias de maior necessidade de cuidados, por impressão particular, pois o quadro externo só piora e minha cidade, agora, é a segunda do estado com casos ativos de COVID-19, a tal ponto que meus próximos já contraíram, sendo em maioria assintomáticos. Assim, faço meu próprio pão e me arvoro em outras invenções culinárias. Entro em paranoia, cogitando se meu computador voltou do técnico com vírus além dos virtuais...
Dou graças a Deus por não ser tempo e visitas pois, confessadamente, não gosto de fazer nem de receber.
Mas, gosto de sair, de viajar, das praias, dos shoppings, das festas e dos shows.
Criei, paradoxalmente, aversão e cansaço com lives e cursos online. Não consigo nem mais parabenizar amigos por suas iniciativas no show business da exibição na rede.
Acho o mundo estranho.
Precisei ir à farmácia há cerca de 15 dias. Decidi ir a pé. Era domingo. A farmácia fica a 800 metros de minha casa, mas preferi fazer o percurso em 3 km, em trilha entrecortada pelo bairro, só para poder andar. Eu só queria andar. Andei em paz, até que após dois quilômetros, encontrei dois amigos meus mascarados e nos espantamos por nos reconhecermos. Falei do que eu estava fazendo. Mais engraçado foi ele, na mesma que eu: indo ao supermercado a pé, o que dá uns 3km também... e essas eram nossas aventuras.
Hoje falei tristemente sobre o réveillon. Não irei a lugar algum. A normalidade não pode vir por um decreto de governo. Somente quando eu me sentir segura, porei os pés na rua, na praia, na festa...
Los Hermanos cantavam: “Sair de casa já é se aventurar” e hoje mais ainda.


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Espelhos do caos



Um dia, após uma pessoa amada e querida ter sido induzida a acreditar numa fofoca construída em meu prejuízo e, finalmente, me perdoar pelo que eu não disse, aprendi com ela, que afirmou: “Mara, eu amo a minha filha e a gente briga. Pessoas que se amam, brigam!” e ali eu entendi que amores de qualquer espécie não são linha retas, que amor tem crise; que a gente pode cometer hipocrisia sem ser hipócrita, assim como pode cometer burrices sem ser burro: é evento, contexto, ocasião. O que determinaria ser isto ou aquilo seria a frequência e a predominância.
Nunca consegui perdoar a mulher, colega de trabalho, que semeou o veneno gratuitamente, apenas para ver secar o fruto de uma amizade também dividida com ela. Não perdoo, não esqueço, mas não tenho nenhum interesse em ver tal pessoa mal. Juro: as sementes do ódio não fazem ramos em meu coração.
Dos poucos e eventuais sentimentos maus que tenho, todos são atrelados a motivos concretos e se resumem a revoltas por injustiças sofridas. Odiar alguém que nunca me fez mal ou armar maldades para quem nunca me fez nada, jamais. Acho isso criminoso.
Puxei o assunto porque o momento em que vivemos é de puro ódio. Estive vendo umas distorções sobre a liberdade individual e o direito de ir e vir, neste país que se não sabe o que é democracia, jamais poderia saber o que é ditadura; assim como não sabe o que é comunismo e muito menos capitalismo, apesar de viver nele.
Qualquer juízo simplório sabe: você tem a liberdade individual, por exemplo, de não querer tomar vacinas. Ora, se você não quer, não comparece, a escolha é sua, o problema é seu.
Contudo, se a vacina se torna obrigatória por lei, você não perde seu direito individual: simplesmente, são postos na balança o seu direito de não querer tomar vacina versus o direito de uma maioria de não se contaminar por sua causa.
E, neste caso, dir-se-á, quem garante que você necessariamente está doente? E quem garante que não está ou não estará? Assim, o direito individual cede espaço ao direito da maioria, como aquela máxima expressa em para-choques de caminhão, que assinala: “seu direito termina onde começa o direito do outro”. E assim é para viver em sociedade (em clubes, condomínios, templos, bancos, escolas, instituições e até em família).
Uns doidos distorcem isso. Em uns casos, é ignorância; em outros, mau caráter mesmo.
Onde essas coisas todas até aqui tratadas se casam? Na ideia idiota de que uns amam o Brasil e outros torcem contra. Como se torcida determinasse resultado de jogo!
Talvez digam isso para desviar a responsabilidade de quem realmente determina os rumos da partida. Eu considero todo e qualquer governo presidencial como um técnico de futebol, em gestão passageira. Cada mandato, um campeonato.
Mas, cá estamos, perdendo de lavada e vendendo loucuras. Tudo é aprendizado e sei que um dia aprenderemos.
O Rio de Janeiro não aprendeu ainda. Eternos maus governadores, todos com o pé na cela. O Brasil todo é frágil, vota mal mesmo, mas o Rio é um caso escandaloso em que já se vão quatro, cinco ou seis governadores que firmam ficha na polícia. Não acho que a corrupção seja um problema de políticos corruptos. Quem os coloca lá? Por que sempre voltam? Aí, de novo, a população precisa fazer conta para constatar que a elite não forma nem dez por cento da demografia nacional; que a classe média, se muito for, dará uns vinte e cinco por cento...dirão, também dos supostos poderes destas classes sobre os pobres...nunca acreditei nisso. Dificilmente um pobre sabe que é pobre, porque a consciência de classe se turva, seja pelas religiões, seja pelo poder de consumo, o que faz com que os que se julgam ‘ricos pela graça de Deus’ não se reconheçam como pobres; assim como qualquer outro brasileiro que tenha uns poucos bens ignore sua condição econômica, o que se prolonga aos que não detém meios de produção, mas ganham salários bons – e salários bons segundo o padrão brasileiro é muito questionável.
Análises sociológicas dão pouca massa para esse bolo.
Sei é que o povo não se vê agraciado pelo distanciamento social, por exemplo, e viaja na ideologia do patronato,
Também crio minhas aporias: se as pessoas não estão em confinamento domiciliar, cujos baixos índices são alardeados no país inteiro e se estas pessoas reclamam do fechamento do comércio, para onde elas vão, se está tudo fechado? E se não está fechado, porque reclamam do fechamento?
Coisas do Brasil, meu país perdidinho.
Vamos ver daqui a dois anos e meio, que escolha tirânica faremos para a presidência. Depois da quarentena instalada, o que tenho aprendido é a esperar.
Prognósticos nós não temos, porque não dá para saber sobre o que até os especialistas no ramo desconhecem. Sei, porém, que está sendo muito difícil o período atual e que a vida não voltará a ser a mesma.
Na bola de cristal das ilusões de meu coração, em setembro haverá um bom sol de primavera, com o país acordando em rotina adaptada à pandemia...ainda tristes, iremos retomar a vida ou o que sobrar dela.
Nunca imaginei um 2020 tão pesado. Nunca imaginei que assistiria a uma pandemia e à barbárie da extrema da política, nem o esboço revelador de que a política é a face direita do povo, espelho em ângulo parcial.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Estes que nós somos




Não sei de onde saem os absurdos de meu tempo, mas me sinto como se estivesse em transe, num pesadelo. Nunca pensei que o pensamento político e histórico do brasileiro chegasse a este ponto atual de bestialidade.
Hoje, por exemplo, foi vetado o reconhecimento do ofício de historiador enquanto profissão.
Gostaria de saber qual foi o presidente comunista que o Brasil já teve, como isso aconteceu, se ele foi eleito pelo povo ou se deu um golpe de Estado e assaltou o poder.
Gostaria de saber de onde as pessoas tiram uma coisa dessas e o que há com a cabeça das pessoas para sustentarem tantos delírios.
Acho válido que o povo faça suas apostas naquilo que eles julgam novo – o Estado Novo não tinha nada de novo; Fernando Collor já foi o novo e a cada vez que os mesmo políticos, cujos sobrenomes conhecemos desde a infância, são eternamente eleitos e reeleitos pelo povo, passo a desacreditar da maioria numérica.
Se aquele povo iludido com Educação, uns coitados sonhadores, que acham que Educação é tudo, viu a ascensão de indivíduos provenientes da periferia, das minorias, das camadas pobres, à universidade (pública e privada) nos últimos 12 ou 10 anos, cadê esses frutos? Não estão em lugar algum. Sou professora, defendo a Educação e sei os limites dela.
Cito isso porque as escolhas políticas não são frutos da ignorância, da falta de educação formal.
Sem educação, pior ainda. Mas, educação, sozinha, não dá tudo. Há processos mais sérios e mais profundos, de ordem psicológica, por exemplo, que faz com que a massa se identifique com um perfil e com um discurso, especialmente no nosso país, que se preocupa mais em criminalizar os atos de preconceito do que em erradicar preconceitos, por meio justamente de recursos de educação extraescolar; há a falta de auto-reconhecimento, porque nem sempre o negro sabe que é negro, nem o pobre sabe que é pobre, nem o gay sabe que é gay, então, costumam fechar questão aderindo às causas alheias, muitas vezes favorecendo seu próprio opressor, como ocorre às mulheres que defendem posturas machistas. Acho tudo compreensível. Acho que o brasileiro sonha tanto, que delira.
O que é assustador é que os sonhos atuais, coletivos, não incluam o bem-estar coletivo. Não vejo mais o povo brasileiro querer que o seu compatriota não passe fome; nem se importar em diminuir a violência, nem torcer para que o analfabetismo acabe.
Não querem dividir o pão, não querem que existam índios (logo eles, os donos da terra; os que habitavam o país antes disso aqui ser invadido pelos portugueses e gerar os monstro que somos). Somos, cada vez mais, seres do ódio. Seres impiedosos.
Achamos que o pobre tem culpa por ser pobre; que o desempregado é apenas um preguiçoso, que o diferente é o inimigo e que há uma maneira padronizada e reta de ser cidadão, como se a vida fosse uma conta exata e como se as pessoas pudessem ser seres programados.
Para arrematar, uns que se pensam nacionalistas pregam a submissão e a subserviência total aos Estados Unidos, acham que tudo que pertence à nação deve ser vendido – as companhias estatais que geram lucros foram todas torradas, vendidas a poucos centavos.
Há um parcela de pessoas que para justificar suas escolhas equivocadas toda hora chama o passado. Pior era o governo anterior; ah, ele também roubou; ele acabou com o Brasil – e cá para nós, nas eleições de ultimamente, tudo é equívoco, apenas varia em maior ou em menor grau. E quem, está no poder está detonando e destruindo o que pode, proporcionalmente ao seu tempo de poder- mas, este ser iludido é muito preocupado em ter razão, seja porque meios for. E ainda culpa as forças etéreas de quem ‘torce contra’, como se torcer contra mudasse algo. Se mudasse, o eleito nem seria quem ocupa o cargo hoje em dia, O cidadão que vota errado, que segue a onda sem medir a corrente e sem se ver enquanto nadador, se afoga e vai feliz.
Sendo objetivos, vamos lá: com esta onda de COVID-19, a vida só se normalizará em agosto ou setembro, quando tudo que puder acontecer já tiver acontecido.
Eu, por exemplo, caso o shopping abrisse amanhã e a academia também, não iria nem por decreto. Aliás, não é por causa do decreto de ninguém que eu iria, mas por meu bom senso. Acredito que prefeitos e governadores não têm o poder de fazer o vírus obedecer às suas ordens, ou seja, não me sinto segura. E a cidade em que moro nem sequer tem 50 casos confirmados ou, se passou disso, foi na estatística de hoje, que eu não acompanhei.
Acontece que entre assintomáticos e portadores com sintomas, há a distância dos testes, que não são feitos.
Não vou na roleta russa.
Provavelmente, se eu tivesse que dar aulas em maio, eu não iria de forma alguma.
Não é que a reclusão me proteja, uma vez que furo a quarentena para receber delivery, abastecer o carro, comprar comida, ainda que o faça raramente e no momento crítico.
Junta, aqui no Brasil, uma crise de saúde e uma crise política, comandada por um presidente que se acha o rei absolutista e uns eleitores que se sentem súditos e têm postura de verdadeira adoração e submissão a ele, pelo qual, renunciam a qualquer exercício de criticidade,  porque se é para pensar em discordância com as afirmações do grande ídolo, melhor nem pensar.
Todo pensamento contrário é severamente punido, projetam redes de ódio, ataques morais, mas isso não vale uma pauta. Na verdade, acho que ele nem é o problema. O problema é o povo brasileiro mesmo. Se somos nós quem fazemos escolhas, quem elegemos...
Certamente que a insegurança chegará ao festejos natalinos, mas aposto que a partir de setembro, com a primavera e o sol, tudo será feito para apagar a memória dos dias atuais, com vistas a alimentar o consumo, o turismo e à própria política  - ponto fraco do brasileiro. 
Devo, porém, acrescentar um atenuante para nossas culpas: em certos pleitos, as opções horríveis de políticos também fizeram com que nosso cálculo moral ficasse na berlinda. Era isso: o ruim e o pior, lado a lado...Para evitar mal maior, fomos para determinado lado... 
Continuamos um povo crédulo, acreditando em político limpo, de boa intenção; acreditamos em futuro - o tempo passa e ficamos para trás e somos passados para trás, sempre e ad eternum.


domingo, 5 de abril de 2020

De volta à caverna doméstica



Não escrevi antes por total falta de tempo.
Se me aparecia um pequeno intervalo, eu o dedicava a urgências acumuladas.
Como todas as outras pessoas, estranho os dias de confinamento. Gosto deles, decerto, seja porque não me sinto sozinha, seja porque não vejo problemas em me manter isolada. Solidão é um fato normal, comum, que nunca me assustou de verdade. Talvez, também por ainda não ter experimentado o ócio – nossa quarentena começou em torno do dia 20 – e exercer minha função de professora nas burocracias dos preenchimentos infinitos dos diários e atividades incorporadas anteriormente, como os cadernos de campo que trago para corrigir em casa, os trabalhos de conclusão de curso – não senti o peso real das coisas da vida urbana.
Tanta gente vive sem shopping, sem cinema, sem praia, em cidades minúsculas, em muitas das quais até já estive...não seria eu a sofrer exatamente por isso. Sofro e não nego, pela falta da academia. Por alguns poucos produtos de franquia de chocolates ou do lugar que vende meu queijo favorito e que não abrem agora, sim, sinto falta.
A atividade física já ultrapassou, em minha vida, a questão estética. Incorporei ao meu viver. Gosto de gastar energia e se não me apetece muito puxar ferro e levantar peso, me adaptei e gosto como hábito.
Tenho mais medo dos momentos furtivos em que saio de carro na rua deserta para ir ver o poeta – pouco, bem pouco, porque matamos a saudade em conversas virtuais ao longo da semana – porque se algo ocorrer, ficarei em reais apuros na cidade deserta. A cidade deserta nunca é esvaziada de perigos. Os maus não tiram férias nem respeitam quarentena.
Tenho livros e filmes para ver. Tenho declaração de imposto de renda para fazer. Serviço doméstico não falta.
Tenho muito livro espírita para ler, um jardim para cuidar, bichos para cuidar e brincar e no somatório das coisas, o que me deixou perplexa foi pensar que sexta era quinta-feira.
Também acho esquisito o povo sem noção, que quer desafiar verdadeiramente o perigo do vírus, mesmo com todos os exemplos, testemunhos e comprovações.
Será que pensam que os mortos não estão mortos?
Será que acham que há um complô mundial para uma ilusão coletiva?
Ultimamente o Brasil se mostrou um país de seres delirantes, no geral, incapazes de reconhecer a incoerência em suas próprias posições.
Brasil é um país de maus.
Inventam epítetos, hinos, louvores de enaltecimento, mas somos gente de pouca sensibilidade e nossos governantes refletem o que somos. Falo aqui da coletividade, da identidade coletiva, não dos indivíduos isoladamente, porque eles são mistos. Porém, a predominância é do perfil monstruoso, preconceituoso, hipócrita, corrupto... nossa pátria-mãe é aquela mãe hipócrita que diz ‘meu filho não mente’, enquanto sabe que o filho é dissimulado, mentiroso, desonesto.
Não creio que o isolamento vá durar. Mas, tem sido uma grande lição. Não achei ruim, achei disciplinador. Falo como passado, talvez porque no domingo da semana que vem seja meu aniversário e eu esteja a ver a vida passar, os anos correndo...no fundo, minha casa me diverte. Cada livro é como se eu tivesse um amigo inteligente para me contar uma história ou me ensinar alguma coisa – estou em boa companhia e ainda escolho a trilha sonora.
Durmo e durmo feliz – adoro dormir. Só meu relógio biológico está em modo preguiça.
Raramente como errado, mas hoje, que resolvi fazer uma receita de pão enviada por uma amiga, ah, exagerei.
Vou ver se pulo corda. Não quero que meus músculos diminuam...
No momento, o exercício é outro: parar em casa.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Carnaval: currículo vitae



Tenho muitos carnavais no currículo.
Sempre gostei de festa.
Quando criança, minha tia colocava sonífero no meu suco, para que eu não inventasse de ir às festas com ela e a outra tia. Aos 4 anos eu chorava e esperneava para ir às festas que começavam nove da noite do sábado.
Aos 11, minha tia me levava às festas infantis dos domingos à tarde nos clubes. A vizinha dizia que eu parecia estar me afogando, porque me metia no meio da galera, pulava, dançava...E sabia dançar.
Aos 13, eu fugia com as filhas de minha madrasta para uma discoteca suburbana, recheada de maconheiros e gente de conduta questionável. Deixavam a gente entrar, a gente entrava. E não entendíamos nada sobre drogas, prostituição ou álcool: cada um com seu refrigerante ou sua água, em companhia de uma pseudo-irmã maior de idade...Até que minha madrasta aparecia na porta do estabelecimento e catava a gente a tapa, jogando todas dentro do carro, já às 23 horas e nós não entendíamos que mal poderia fazer sair para dançar...afinal, era o que fazíamos.
Apesar das proibições, sempre houve festa e dança em minha vida. Vi os shows dos ícones de minha adolescência e da fase adulta, brinquei micaretas e carnavais até 2016. Encerrei ali. Saí satisfeita: foi o melhor carnaval da década, para mim.
Eu havia conhecido o poeta em dezembro e o primeiro carnaval depois dele foi também o último, seja coincidência ou não. Não vou ao carnaval porque não quero mais ir.
Neste ano, acompanhei o carnaval pela TVE Bahia. Adorei. Se tem duas coisas que são melhores à distância que ao vivo, são o carnaval e a Cachoeira do Sossego, na Chapada Diamantina. O carnaval é melhor em casa, sem calor, sem cansaço, sem importunação, sem fome e sem desesperos para voltar para casa. E quanto à Cachoeira do Sossego, é linda pelo Google fotos. Ao vivo, são quatro horas de caminhada pela mata, com muitos penhascos e vegetação inóspita para, enfim, você encontrar um lugar besta cheio de pedras com uma água gelada cor de Coca-cola. Sob meu ponto de vista, não vale a pena.
Meu ponto de vista, viu? Meu! Respondo por mim, falei de mim.
Aprendi isso e só desobedeço no réveillon: datas festivas, com estradas cheias, ruas cheias, alvoroço e desassossego, é melhor ficar em casa. Claro que tem monotonia, que a cidade fica vazia...Mas, prefiro isso. Fica fácil preferir porque eu já curti muito, muito mesmo.
Não sou dessas pessoas hipócritas que se fartam de tudo e prescrevem dietas para os outros. Eu, não. Carnaval é bom – tem diversidade de festas, lugares e atrações, bastando que a pessoa escolha e vá – rua, camarote, bloco, etc; Festa também é algo ótimo.
Carnaval: Já pulei, hoje pulo fora.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O feitiço da bondade



De vez em quando, a vida fica mais pitoresca que narrativas de filme adolescente ou ficção pouco elaborada. Vamos a uma: Mais engraçado do que o momento em que “o feitiço vira contra o feiticeiro”, é quando o feiticeiro fica enfeitiçado e magnetizado a tal ponto que não quer mais ser feiticeiro.
Resumindo essa história, uma Amiga-Fura-Olho intermediou o encontro de um cara meio mala com outra amiga nossa em comum.
Não gostei da ideia, porque a Amiga-vítima é chata, mas não merece um mentiroso e mala como o tal que lhe foi arremessado nos braços.
Em cinco dias um já eram o grande amor da vida do outro. Fez-se a intimidade sexual e ele, mala que é, disse à mediadora que a Amiga-vítima era fria e que ele gostava das novinhas.
Aos dez dias do caso, ele mudou completamente de ideia: confessou que a Amiga-vítima era muito legal, pessoa direita, de coração bom, presente, companheira, que deu a ele os melhores dias dos últimos tempo, porque trazia paz gratuitamente e que, fazendo as contas, valia mais a pena ficar com ela do que descartá-la.
Dali a dois dias, estava ele, o mala, a cercar a Amiga-vítima em precauções para livrá-la de perdas e golpes.
A Amiga Fura Olho ficou enfurecida: ninguém mudou por ela – eles já tiveram um caso e conhecem bastante um ao outro, a ponto de saber que reciprocamente não valem nada. Inveja, ela teve.
E eu, que estava inquieta, pensando em como dizer à Amiga-vítima que aquele homem tem 12 anos a mais do que declara, não tem aquela profissão, nem aqueles bens...que é um estelionatário afetivo, cheio de mentiras no bolso...
Feio ele é, mas um feio elegante não chega a incomodar e isso ela já havia visto. Fiquei feliz pelos dois: por ela não quebrar a cara e por ele ter se convertido, passando para  lado positivo da situação.
Enfeitiçado ficou ele, especialmente pela bondade dela - que tem o coração tão bom que, numa viagem comigo, catou um copinho e foi regar as plantas da recepção de onde a gente se hospedou...com ele, ela deve ter regado tão bons exemplos, que os frutos apareceram logo.
Pequenas narrativas da vida que nos fazem crer que pode ser possível ser diferente, que os finais podem tomar outros rumos – e eu, do que sei, nada direi. E passemos aos próximos capítulos.