Louquética

Incontinência verbal

sábado, 20 de junho de 2026

E aí, I.A.?

 


Não tenho posições radicalmente contra tecnologias. Admiro a capacidade humana de criar, seja polindo ou lascando uma pedra para forjar instrumentos úteis, como o fizemos na Idade da Pedra Polida e na Idade da Pedra Lascada, seja na invenção de microscópios e aparelhos de ressonância magnética.

Vivi o suficiente para assistir ao filme de Spielberg, I.A; e ao de Spike Jonze, Her. Antes deles, assisti a desenhos animados como Os Flintstones e os Jetsons. Portanto, a imaginação humana sempre deu conta de pensar o futuro e a tecnologia.

Inteligência Artificial não é uma abstração: há humanos sob ela. Há o recolhimento de informações pensadas, elaboradas e disponibilizadas por seres humanos, que são agrupadas e reprocessadas. As Inteligências Artificiais estão sujeitas às falhas de dados e de interpretações e, por conseguinte, errar não é somente humano.

Vivi a era do Photoshop, dos filtros e dos aplicativos de melhoramento de imagens. Agora, todavia, acompanho, assustada, a doentia relação das pessoas com a I.A. Estou me referindo às pessoas próximas.

Querer “sair bem na foto” é algo normal e nem sempre o espelho devolve imagem pior do que uma câmera. O patológico está na composição de narrativas visuais de si, totalmente avessa à realidade etária e física das pessoas. Meus próximos acham mesmo que têm 20 a 30 anos a menos do que lhes aponta a realidade da Certidão de Nascimento. Com imagem tratada por I.A., lançam-se atrás de companhias, inventam pares idealizados (gente de mentira, pura ficção de I.A.) e acreditam no que ajudaram a criar.

Sim, precisamos de fantasias e de termos capacidade de sonhar. Mas, os adultos acima dos 50 já não têm a mesma liberdade de criar amigos imaginários como tinham as crianças até os sete ou oito anos.

Há um eu-ideal. Precisamos também idealizar a nós mesmos e isso faz parte do jogo da vida – a vida como jogo é uma partida em que tentamos trapaças para vencer, variando a área e o adversário específico.

Olhemos a anterioridade disso tudo lá em O retrato de Dorian Gray, na célebre discussão sobre envelhecimento: “Não! Não era possível! Hora após hora, de semana a semana, a efígie na tela iria envelhecendo. Poderia escapar à deformidade do pecado mas não escaparia à da idade. As faces tornar-se-iam encovadas ou flácidas. As horríveis rugas orlariam os olhos baços, fazendo-os ficar mais desagradáveis. Os cabelos perderiam o brilho e a boca teria lábios reentrantes ou descaídos e a expressão atoleimada, ou brutal, das bocas dos velhos. E rugas no pescoço, mãos frias, sulcadas de veias salientes, corpo encurvado, como o avô que o tratara com tanta severidade na infância...Não havia remédio. Era preciso esconder o retrato.” (WILDE, p. 107).

Três pessoas próximas a mim estão bem nesse ponto. Aos poucos, perdem o contato com a realidade.  Poderiam ajudar a si mesmas recorrendo aos artifícios da vida real, como ácido hialurônico, botox, exercícios físicos. Mas, preferem o simulacro de si mesmos. Que coisa estranha é usar esta expressão anterior! Seria simples se fosse apenas alteração em fotos, em composição de vídeos. Porém, excedeu ao patológico.

Imagino a vida de quem substitui uma sessão de psicanálise por uma conversa com I.A. E os tantos que devem acreditar que a “Alexa” é uma pessoa de verdade, nós não saberíamos mensurar.

Dentre as pessoas citadas está alguém com quem eu tive um relacionamento. Ele foi envelhecendo e se tornando delirante. Tinha um ego grande e frágil, com ideais de ser (e pensa que é) o homem mais inteligente do Brasil. Sonha com reconhecimentos na área intelectual e artística – julga ser excelente poeta e compositor. À parte, está em processo de adoecimento psíquico, assim como a outra pessoa conhecida, que segue esses mesmos passos e criou um homem namorado, perfeito e bonito como só os recursos da tecnologia poderiam proporcionar.

Lamentavelmente, numa gincana, ano passado, em uma escola onde eu trabalhava, assisti à líder de equipe recorrendo à I.A. para criar um simples grito de guerra que quaisquer quatro versos bobos contemplariam. Mas, entre a incapacidade, a preguiça e a suposta perfeição, a máquina venceu e deu o que ela queria, ainda que carecendo de sentido. Cada geração se deixa vencer por emulações de perfeição, por comodidades perigosamente traiçoeiras.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Livre arbítrio?


 

De alguma forma eu sempre concebi a parcialidade do conceito e da ideia de livre arbítrio.

Pule a parte filosófica das proposições de Santo Agostinho. Pule os dogmas religiosos. Vamos tratar com o substrato vivo e cru da vida nossa de cada dia!

Eu considerava que, por exemplo, quando somos crianças, não temos livre arbítrio verdadeiro ou consistente, não decidimos, não escolhemos, não optamos, porque quem decide por nós são os nossos pais ou responsáveis.

Crescemos e, até que completemos nossa maioridade legal ou que busquemos meios de emancipação (trabalhar, prover a si mesmo, etc.), continuamos com livre arbítrio parcial.

Finalmente, quando adultos e plenos intelectualmente para exercer nosso livre arbítrio, ele continua falho, pois, como posso fazer escolhas se não vejo as alternativas? Portanto, há muitas situações em que ficamos com a impressão de que ‘não tivemos escolha’, pois enxergamos o que estava à frente do nosso nariz; e não vimos outros ângulos, outras camadas.

Escolher e tomar decisões são ações difíceis. Nada muda isso. A gente analisa riscos, pesa, avalia consequências, desdobramentos, faz cálculos morais e opta.

Ouvi Humberto Matos, no You Tube,  citando algo que, definitivamente, abalou ainda mais minha (des)crença no exercício do livre arbítrio. Ele explicava, tomando o cenário capitalista como referência, que não há livre arbítrio quando, por exemplo, um trabalhador não pode escolher entre ser explorado em um emprego ou morrer de fome; entre romper com muitas estruturas e engrenagens de exploração, de um modo geral, que põem na berlinda a sobrevivência.

Se não disponho de recursos materiais, formativos, intelectuais, não posso determinar ou fazer escolhas reais em muitos setores da vida.

Portanto, situações extremas, ou situações em que não ocupamos posição de comando ou de livre-escolha, (isto é, quero ou não quero) destoam da idealização de livre arbítrio. Eu acrescentaria outras parcelas nessa equação: como construir maturidade para escolher? Como aceitar as consequências das más escolhas? Haverá má/boa escolha? E quando a maioria decide por nós (em questões eletivas, votos, leis, determinações, plebiscitos, etc.), presumivelmente, fizemos um pacto de aceitação, tornando o livre arbítrio coletivo. Neste caso, qual o limite de nossas responsabilidades?

Acredito cada vez menos em livre arbítrio, o que não implica dizer que eu ache que não tenhamos escolhas ou que sejamos deterministas. Quando Pierre Bourdieu movimenta o conceito de capital cultural, por exemplo, ele aponta para a formação do gosto. Podemos aplicar a mesma linha de raciocínio para as influências culturais e sociais que se introjetam em nós e, obviamente, moldam escolhas – vez por outra, algum elo dessa corrente se torna mais independente (embora ainda influenciado pela cultura e pelo tempo) e rompe a repetição das escolhas, tal como as mulheres que já podem admitir que não querem  ser mães e se apropriam do livre arbítrio para não serem. Neste caso, a dimensão política aparece também, ao lado de imperativos religiosos e há, ainda, o braço repressivo e conservador da cultura e da agenda moral, de modo que todos esses elementos formam cercas para limitar o que seria de foro íntimo, particular e individual.

Excedida a fronteira entre o individual e o coletivo, quanto há de liberdade no suposto livre arbítrio?

 

sábado, 2 de maio de 2026

Amor muda mundos?

 


Para amar qualquer pessoa é necessário ter uma boa dose de fantasia. Há quem condense tudo sob o termo ‘idealização’, mas não acredito muito nisso.

Não acho que amor seja cego: acho que ele enxerga tudo, apenas tem miopia e diminui o que vê de defeitos, ou turva a visão sob alguns aspectos, joga sombras. Sem fantasia não há amor possível, porque um amor sem sonhos é desilusão pura.

Decerto, tem as criaturas extremamente bobas a ponto de esperar mudanças no ser amado. Mudanças no que se refere a melhoras, ao abandono de um vício, a algum sacrifício de conduta que se processe em favor da relação a dois. Não, ninguém muda ninguém. Quem muda, o faz em proveito próprio, por razões particulares e motivos subjetivos e individuais.

Isso indica que certos aspectos da personalidade são rígidos. Tantos os bons, quanto os maus. Portanto, se houver mudança devido a fatores externos (para não magoar alguém, para não correr o risco da relação acabar, para não decepcionar alguém), nunca será verdadeira: ali há uma casca, um verniz bem pintado, de novas posturas, porque é uma mudança para o outro – e a mudança também pode advir de ameaças ou de coação. Então, as vontades não passam, o caráter não melhora e a pessoa só não pratica o que quer e o que deseja porque não tem condições de fazê-lo.

O autocontrole pode funcionar na contenção, apenas. A mudança verdadeira não aconteceu. Deste modo, é como trancar a fera no porão. Ela está lá – pode não rugir, não fugir e não se mexer, mas está ali.

A fera pode ser a nossa própria, defrontada com as necessidades de ser contida ante a ameaça de perda. Costumam chamar isso de inteligência emocional. E quem entender direito vai saber que essa conversa oca sobre inteligência emocional significa dominar vontades e instintos estrategicamente. Para quem não é um robô, não tem tantos ganhos quanto parece.

Dominar o nervosismo ante uma plateia ou em situação de tensão e disputa por cargos ou afins, faz parte do viver. Ainda mais se claramente há alguém querendo nos desestabilizar. Mas, isso não pode ocorrer sempre: é preciso dar vazão àquela parte instintiva que nos preserva e que nos torna gente. Não despreze seus instintos. Em vez de querer ir a outro continente procurar suas supostas ancestralidades, desça um pouco ao seu ancestral primitivo, àquele que lhe/nos fez chegar a ser homo sapiens sapiens. Sim, precisamos daquele ancestral primitivo que legou à humanidade o instinto de sobrevivência, que modulou o instinto de caça, de fuga, de estratégias de resistência em contextos inóspitos. Não precisa se tornar um brucutu por isso!

Aprendemos muito mal até aqui. E estamos piorando à medida que adotamos o mal conselho de não poder ser ‘emocionado’. Aconselho: xingue, assuma seus ódios, suas perdas. Não precisa declarar em um outdoor, mas reconheça o que lhe toca. As coisas que são de foro íntimo não precisam ser gritadas da sacada do prédio, mas ninguém está privado de ser, ter, sentir, seja lá o que for.

A gente às vezes se nota decepcionado com alguém e somente aí está algo bastante compreensível na seara do amor: não tem como sabermos certos fatores ou vermos certos defeitos das pessoas (quiçá os nossos), mesmo com certo tempo de contato. Explico: muitas vezes, não houve oportunidade, não aconteceu nenhuma ocasião que fizesse vir à tona um defeito.  É em uma situação nova que um novo ângulo de uma pessoa pode se apresentar – seja uma briga de trânsito, uma perda de dinheiro, um confronto entre parentes, uma partilha de bens, uma situação de doença, dentre tantos cenários e ocorrências possíveis na vida de um ser humano. Nessas horas, a gente fala o clássico ‘eu nunca imaginei que ele/ela fosse assim’.

Eu não vou deixar de amar alguém por causa de defeitos. Se alguém deixar de me amar por causa dos meus defeitos, estou frita! Somos o conteúdo inteiro: embalagem, conteúdo e ingredientes. A gente pode apresentar nova fórmula, nova embalagem ou uma versão plus, mas mudamos por um processo íntimo e particular. Mudar, por causa dos outros, nunca será uma mudança de verdade.  


terça-feira, 17 de março de 2026

NÃO ACONTECEU NADA!


 

"Não foi nada"; "Não aconteceu nada"; "Ainda bem que não aconteceu nada."

Dizemos isso. Ouvimos isso e até acreditamos.

Uma amiga me contou sobre o dia em que um paquera de escola a convidou para ficarem a sós, na casa dele, numa tarde do ano em que eles tinham 14 anos.

Ela foi, toda feliz. Ele era um cara gente boa. Mas, os caras gente boa da escola andam sempre com outros caras e a pertença a um grupo pede mensalidades sob forma de missões e desafios.

Minha amiga percebeu movimentos do lado de fora da casa. Sim, o cara gente boa tinha permitido que outros meninos espreitassem as intimidades do casal, deixando minha amiga vulnerável a futuras chantagens. NÃO ACONTECEU NADA. Ela saiu de lá. Não aconteceu nada porque ela saiu de lá.

Ao voltar para casa, tão perto dessa outra onde ela estivera, ouviu pedras estalando no telhado.

Isso se repetiu várias vezes, por um longo tempo. Minha amiga estava triste e não tinha a quem contar tudo isso – os pais, rígidos, passavam o dia no trabalho e não saberiam nunca nada sobre isso.

Na mesma semana, o pai dela ofereceu a carona de sempre ao cara legal. Lá se foram os três, como se nada houvesse acontecido e, assim ficou consolidado como verdade que NÃO ACONTECEU NADA.

Devo dizer, porém, que aconteceu muita coisa: trauma, risco, perda de confiança, desilusão e uma violência brutal e continuada, pois a turma dele apedrejou a casa dela.

Falávamos disso há uns cinco dias, por conta de discutirmos o estupro coletivo recentemente noticiado, de que foi vítima uma adolescente de 17 anos, neste ano, no Rio de Janeiro.

Ali, houve a consumação física da violência sexual – quebrar costelas, dar murros e tapas e lacerar o tecido genital foram atos que também compuseram o crime.

Minha amiga, então, se comparou. Teve o senso de que viveu coisa análoga no risco que correu, mas achava que NÃO ACONTECEU NADA, uma vez que saiu fisicamente ilesa, íntegra.

Também passei por tentativas de estupro, por parte de um adulto de 33 anos, namorado de minha tia, quando eu tinha 11 anos.

Já adulta, ao falar  sobre isso com uma especialista, ela também me disse que ‘ainda bem que NÃO ACONTECEU NADA’.

Registro o meu sincero PUTA QUE O PARIU! Que subestima às nossas dores! Que menosprezo pelas meninas, pelas mulheres, por nossa infelicidade.

Há uma menos-valia, uma invalidação das nossas dores. No meu caso, então, ainda há o gerenciamento emocional dos adultos porque me disseram: “se o seu pai souber de uma coisa dessas, é capaz até de ter morte”. E minha tia se limitou a me dizer que 'Homem é bicho" e prosseguiu com o relacionamento dela. Então, como somos ensinadas que NÃO ACONTECEU NADA, convém calar e evitar mortes e contendas.

Mas, a história não cala em nós.

Não há silêncio real na alma e na mente, porque além de sofrer, é preciso calar a boca.

Um certo namorado meu defendia tudo isso, de silêncio, como forma de driblar o trauma, pois, para ele, admitir a violência sofrida é apego ao sofrimento. Para ele, o reconhecimento da violência sofrida causa trauma. O que é interessante é que a vítima de violência também demora a identificar, reconhecer e admitir o que é estupro, o que é abuso, o que é importunação, pois há desinformação em convívio com a normalização de comportamentos abusivos masculinos.

Já contei de minha amiga Sheila, que, quando tinha 11 ANOS, ‘casou’ com um homem de 40. Na cabeça dela, o ‘marido’ a salvou da fome, da família pobre, violenta e ignorante. Ela vivia num povoado do interior do Ceará. Ele apareceu, os pais deram o aval.

Sheila e eu nos conhecemos quando ela veio à cidade em que moro, acompanhar o já muito velho marido, que estava em tratamento de saúde. Ele morreu pouco tempo depois. E também a ela foi recomendado considerar que NÃO ACONTECEU NADA no fato de que ela era uma criança que foi viver maritalmente com um explorador.

Parece muito com histórias que saíram recentemente nos jornais e portais, não é? Não é ficção. Todas as pessoas até aqui referidas existem mesmo. É que, no caso nosso, não gerou desdobramento jurídico-punitivo para as partes adversárias. É que os tempos eram outros. É esquisito dizer isso quando constatamos que, na realidade, eram tempos muito parecidos com hoje em dia, porque a violência contra meninas e mulheres nunca foi menor, não: hoje se tem leis e divulgação e essa é a diferença.

Ainda temos quem julgue moralmente as meninas, as mulheres; ainda temos homens que se julgam proprietários dos corpos femininos. Ainda temos uma sociedade permissiva com os homens e que incentivam as mulheres a ignorarem a violência moral e a violência sexual, em especial, quando se trata de sexo não genital, de abusos e importunação. Ensinam que está tudo bem, pois NÃO ACONTECEU NADA!



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A quem serve conservar?

 


Aqui estamos nós, enquanto pessoas que vivem o mesmo tempo e a mesma era, a conviver com recuos de humanidade, de pensamento, de percepção e de comportamentos.

À charmosa palavra retrô, sucedeu o retrocesso. Sim, andamos para trás.

Encolheram-se os direitos trabalhistas, diminuiu-se a habilidade de enxergar o mundo em sua multiplicidade de aspectos, sumiu o diálogo, a presencialidade e a capacidade de chorar perdas e viver lutos.

Hoje, estamos preocupados em validar laudos que justifiquem nossas angústias, nossas individualidades e, até, que justifiquem o fato de que os outros são diferentes de nós.

Rasgaram os escritos de Freud e Lacan, a favor de diagnósticos de internet. Qualquer mané ou manuela chamará de narcisista àquele sujeito canalha e àquela mãe negligente – não sabendo, ao que parece, que gente assim já existia desde o princípio da vida na Terra. E, claro, narcisista é o Outro. Freud, coitado, foi mal apropriado, vulgarizado e distorcido em seus conceitos. Mas, ele tem experiência nisso, já que no Brasil, recalque foi outro termo distorcido e virou até letra de funk.

Andar para trás e ser conservador: dois movimentos sincrônicos para que nada se mova e nada saia do lugar. Obviamente, para conservar alguma coisa (desconfio que quem quis conservar já apodreceu a mente em alguma medida, para esticar a validade do que expirou), deve ser prioridade o que me traga benefícios. Porém, conservar o Meio Ambiente, ninguém quer, não é? Conservar a proteção aos direitos básicos das pessoas menos favorecidas, ninguém quer também. Antes de tudo, deveríamos nos perguntar o que há de bom a ser conservado e, se há, é bom para quem?

Lembrei de umas pessoas bem idiotas que, para se fazerem de sublimes, diziam que a morte do cachorro Orelha chocou mais do que a morte diária de segmentos excluídos da nossa sociedade. O comentarista, querendo dar lição de moral, induzia à interpretação de que deveríamos ser sensíveis ao humano. Velha conversa, do tipo: “Troque seu cachorro por uma criança pobre” (ressalvando que o Eduardo Dusek é genial, irônico e divertido). Conversinha que cai quando a gente indaga ao defensor/detentor da moral e dos bons costumes sobre quantas crianças ele tem ajudado. Já sabem a respota, né? Nenhuma. E nenhum cachorro também.

Fico feliz pela mobilização social em favor dos direitos dos animais, pela indignação geral pela morte do cachorro Orelha! Ainda temos humanidade em nós!

Amar e defender os bichos não exclui amar e defender outros seres humanos. Porém, os animais são mais indefesos.

É preciso aturar à outra parte que também dirá que não se pode lamentar a tortura, espancamento e morte de um cachorro, porque a sociedade mata em abatedouros e todos aceitamos. Nessas lógicas, perdemos o direito a termos sensibilidade, exceto por aquilo a que formos autorizados.

Então, esperamos a autorização necessária para podermos expressar sentimentos.

Eu, que prossigo achando que o maior amigo do homem é o cavalo (Apanha, sustenta famílias que o espancam e lhe privam de água e comida e, ainda, esteve em guerras ao longo do tempo), sonho com leis que o libertem de carroças e maus tratos. Todavia, o conservador se adianta e diz que acha lindo, bucólico e romântico ver carroças, que lhe ‘lembram tanto os livros do século XVII, XVIII, XIX”... Pessoas assim que deveriam ser privadas de energia elétrica (e de anestesia), para poderem se sentir como em tempos passados...Ah, para esses tipos, como é bom conservar...Conservar a mulher no seu lugar (submissa, no lar); os negros em seus lugares (na escravidão, na subalternidade); os indígenas, não: não precisa conservar, porque eles eram muitos e o Brasil era cheio deles...blablablá. Era muita terra para indígena, então, melhor é trazê-los para a vida civilizada, de dizimação mesmo, porque “os mansos herdarão a terra” (pausa dramática: escrevi com ironia, mas juro a vocês que ouvi exatamente isso de uma mulher do Centro espírita que eu frequento). E foi assim que a lei retroagiu, sob o nome de Marco Temporal, que, de modo geral, quer dizer que o indígena cuja terra não lhe foi outorgada antes de 1988, não tem direito a ela. Alguém aí se lembra de que antes da invasão de Portugal, antes de 1500, os indígenas viviam aqui? A terra seria de quem? E nós aceitamos passivamente que os donos da terra precisem se submeter a demarcações. Não faltará nunca quem repita que “bom era antigamente!” – bom para quem? 

Fica a dica: conserve o respeito. Isso basta!


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O tempo e as palavras

 


Vamos abrindo as páginas de um ano novo.

A vida própria depende pouco de ritos de passagem. Todavia, precisamos de calendários para administrar o tempo, para marcar a passagem do tempo. No fundo, o calendário real é aquele que a gente internaliza, com nosso tempo psicológico das coisas que são passíveis de lembrança do tipo ‘lembro como se fosse hoje’, mostrando a intensidade do que foi vivido ou o significado que as circunstâncias têm para aquele que recorda.

Todos nós temos certa inquietação por não controlar o tempo: gostaríamos de esquecer aquele amor rapidamente; gostaríamos de dormir sem pensar nos traumas do dia e de acordar sem guardar os efeitos do mal-estar vivido, da palavra dura que foi ouvida, das dores que compõem situações desagradáveis. E como queríamos prolongar prazeres, fazer durar aquela sensação boa, aquele sabor gostoso, aquele dia em que tudo deu certo e a vida pareceu ser tão nossa amiga, que a gente agradeceu por existir. Somos mais das dores do que dos prazeres. A memória guarda mais as vivências desagradáveis porque é um modo de se prevenir, de usar a experiência ruim para nunca mais repeti-la. No amor, entretanto, costuma acontecer de a gente se permitir ficar perto de quem nos machuca porque aquela dor se torna conhecida. Portanto, você já a conhece e pensa que a domina, pois antevê até onde ela vai. Isso explica nossa pouca capacidade de esquecer alguém, mesmo quando racional e conscientemente queremos esquecê-lo. Temos medo do vazio. E, de fato, o vazio nos transtorna. Uma dor ocupa a gente, por meio de uma busca por resolvê-la. No fundo, a gente não quer esquecer coisa nenhuma, para não enfrentar a fera do vazio.

Se a pessoa ficar amiga do tempo, aí, sim, ele ajudará a esquecer, forçando a desistência. Sim, é preciso desistir, renunciar, largar a pessoa amada. Largar é não querer mais saber. O princípio básico da psicologia para sair dos vícios vale aqui também: Hábitos (mudar), Pessoas (estar com outras pessoas) e Lugares (buscar frequentar outros) precisam ser modificados!

Uma festa ou uma viagem não farão mudar nada. São um recurso pontual. Mas, a longo prazo, mudar hábitos, pessoas e lugares lhe tira de contextos que favorecem a permanência naquele afeto – qualquer que seja ele.

Há pessoas e situações que não podemos mudar. Neste caso, quem muda (ou se muda) é a gente.

Fico pasma com o número de pessoas que esperam o ano novo para planejar fazer um curso, um concurso, uma academia. Desde que se tenha condições de fazê-los, o tempo é seu, a decisão é sua e não cabe esperar.

Exceto por questões de planejamento e organização, isto é, umas férias, um ‘juntar dinheiro para’, um período após um curso, isto é, coisas alheias à nossa vontade, todo o resto só depende da ação. Com isso, se não somos donos do tempo, somos donos de nossas vontades e, quanto mais fortes e sinceras elas são, tanto mais agimos por elas. Palavra não é força coisa nenhuma. Palavra é só palavra. Quantas vezes você deu a sua palavra? Quantas vezes você se banhou em palavras bonitas, sagradas e positivas? Não deu certo, não foi? É que não existe palavra mágica, não há abracadaba a abrir portas, não. Quem tem força é o desejo, é a vontade.

Palavra é força na psicanálise, no texto literário, por motivos óbvios e específicos. O resto é convenção cultural e não deveria cruzar a fronteira das crenças pessoais, nem arrancar as pessoas da realidade material e objetiva. Palavra sem ação, seu político favorito já lhe ensinou quanto vale. Aprenda com ele!

 

 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O futebol e (é) a vida


 


Dizem que a vida é um jogo. Eu acho que é um jogo de futebol. Talvez, porque eu acho que futebol explica a vida.

No futebol, os times se preparam, treinam, ensaiam, mas, nem sempre o favorito vence. Surpreendentemente, o time pequeno leva a vitória em algumas partidas.

No duplo sentido do termo “partidas”, a vida nos faz enfrentar muitas: tanto as de sentido de competição, quanto no sentido de ir embora (partir é, ainda, sinônimo de cortar, dividir, tipo o que ocorre com o coração da gente em certas circunstâncias).

Na vida e no futebol, temos adversários e dependemos sobremaneira da honestidade dos árbitros. A disputa precisa ser honesta. Uma boa torcida também pode favorecer e fortalecer o jogador.

Há os que  são os donos da bola, os que dão bola, os que ‘correm atrás’, há o banco de reservas.

De fato, é uma pena quando um time claramente jogou melhor, mas perdeu para um adversário inferior, mas sagaz. O futebol nos ensina que aproveitar as oportunidades define resultados.

Naquele piscar de olhos, no desvio de uma bola, na velocidade empreendida em um contra-ataque, faz-se o gol. A falha do adversário vale tanto quanto o nosso preparo numa partida.

As barreiras, assim na vida como no futebol, são constantes. É preciso não chutar contra elas, mas superá-las. E se estivermos na barreira, convém proteger-se das pancadas, de ser atingido.

Constatamos que o jogo não é fácil. Corre-se para lá, para cá, muda-se de lado, desespera-se com o tempo, questiona-se a prorrogação...Por vezes, o empate é o melhor resultado possível...

Na vida e no futebol, é preciso ter boa defesa. Nem tudo é ataque e nem sempre convém ficar na defensiva. O bom jogador sabe definir sua hora. Ele sabe, também as posições que o favorecem.

Na vida e no futebol há regras. Elas são necessárias para regular a partida.

Na vida e no futebol, há faltas. Faltas graves, para cartão – expulsão, suspensão. Há faltas que nos imobilizam. Há quem cave as faltas...a vida tem mais faltas que o futebol, se repararmos bem.

Às vezes, no futebol e na vida, estamos na zona de rebaixamento.

Ganhando ou perdendo, cada ano traz novos campeonatos e é preciso recomeçar: bola para a frente!

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Litígios e liberdade

 


Estou no auge de meu cansaço, mas estou muito satisfeita. Acredito que a melhor metáfora para representar este meu momento é imaginar que sou uma daquelas pessoas que se divorciou e que não levou nada do que construiu, nada do que se originou de seus esforços e de seus trabalhos: apenas, deu tudo o que tinha para se livrar do outro. Ficou sem nada e ainda se sentiu no lucro, porque não há maior riqueza do que se livrar daquilo e daqueles que nos atormentam. Assim estou eu.

Já afirmei milhões de vezes: ao contrário desse povo que escreve se a vida estiver ruim, eu, se estiver na bad, desapareço. Não saem palavras nem sinais de vida criativa alguma. E foi assim que eu enxerguei há quanto tempo eu não escrevia aqui no blog.

Ao todo, foram seis meses em um trabalho opressor, com micro violências acumuladas, com um desprestígio social que me deixava com a alma cabisbaixa. Pedi minha exoneração. Pedir exoneração é como pedir divórcio litigioso: é a vontade expressa por parte de um, por uma das partes! Hoje eu saí com a mala cheia de orgulho, cheia de liberdade...Já tão feliz por não ter que transitar por duas BR, por não ter que diariamente enfrentar motoristas violentos, machistas, imprudentes; e os engarrafamentos de ida e de volta, que consumiam minha vida (tempo é vida). E as manhãs, que encurtavam meu sono já tão picotado e o devolvia nos começos das tardes, ficaram para trás, como marcas traumáticas de um ano tão difícil, como foi este.

Em meu outro emprego também tenho um capataz. Burro como uma porta, ele me obriga a refazer coisas óbvias, porque não gosta de admitir que eu estou certa. Daí que quem manda nele faz o que deve e, assim, lá vem ele dizer que “ah, mudaram de opinião, pode fazer como você vinha fazendo” – e este foi um outro emprego que eu quase larguei. Mantive por questões de sobrevivência e porque é temporário e em um mês acabará.

Nem sei dizer o quanto estou feliz por estar com a fantástica sensação de ‘nunca mais’. Que coisa boa! Que coisa gostosa! Nunca mais eu voltarei lá, nunca mais!

 


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Dá trabalho?

 

                                                

Já pensou se você tivesse a beleza daquela linda jovem atriz ou do ator de novela das nove? E se você tivesse a fortuna de Neymar Jr? E se você tivesse o talento artístico dos grandes gênios? E se você tivesse uma inteligência acima do comum? E se você fosse um grande atleta de qualquer esporte? E se você tivesse reconhecimento social por suas obras e por sua profissão? E se você fosse plenamente saudável?

E se quem você ama te amasse? E se em sua vida não houvesse nenhum trauma? E se sua família fosse amorosa, incrível e acolhedora? E se, no meio da vida você conseguisse se orgulhar de cada decisão tomada ao longo do tempo? E se tudo isso se reunisse de uma só vez em sua vida?

A condição de ser humano nos faz olhar a grama do vizinho e se colocar positivamente no lugar dele, dizendo mentalmente em silencioso diálogo interior que se tivesse o que ele tem, seria mais feliz.

Acreditamos muito nisso, de olho em nosso primo rico, que nossa felicidade estará naquilo que nos falta.

A atriz jovem, rica, inteligente, talentosa, amada e linda é feliz? Não lhe faltará nada?

O que será que falta a quem já tem tudo? Eu posso lhe responder: falta o mesmo que a você ou a mim, isto é, sempre há uma falta e a esta falta a gente dará um nome: fortuna, filho, casa própria, beleza, amor, equilíbrio psíquico, título, poder, fama, talento... Tanto faz o nome: a conquista de um desejo nunca será o bastante para fechar o vazio da falta.

Todo mundo tem angústia, todo mundo tem faltas.

Em certos momentos isso se torna agudo e evidente e, em outros, passamos a vida em paz sem olhar para o abismo permanente que ocupa uma grande porção de quem nós somos.

Vamos ao outro lado das causas mortas, agora falo biográfica e particularmente: Estou num trabalho horrível, num lugar terrível, com gente realmente repugnante do ponto de vista do convívio e do ponto de vista moral.

Para mais somar: estou num trabalho desses porque, antes de tudo, preciso do dinheiro para prover materialmente a minha vida. E paga-se pouco.

Vendo o meu sono, acordando cedo e dormindo pouco.

Vendo o meu tempo – e tempo é vida – a verdadeiros capitães do mato que, ganhando melhor que eu, não desconfiam que também são escravos.

Não quero mais voltar lá.

“Todo dia eu só penso em poder parar

Meio-dia eu só penso em dizer não

Depois, penso na vida para levar

E me calo com a boca de feijão.”

Tristemente, me vejo refém.

Por outro lado, preciso temporariamente desta angústia, porque ela me desvia de outras angústias, talvez da angústia maior que cerca a existência.

Talvez, agora possamos coletivamente cogitar uma resposta para certas situações ruins de onde não saímos, como passarinhos que ignoram a porta da gaiola aberta. Há um condicionamento que nos prende, de modo que alimentar a situação vigente produz uma sensação de que não está ao nosso alcance resolver a nossa vida; ou o contrário: isso aqui eu posso resolver, eu controlo, basta mudar de emprego ( de casamento, de cidade, do que quer que seja). Teremos boas desculpas pra delongar situações ruins.

As angústias mudas, sim, com a idade. Elas só não acabam.

Experimento felicidades construídas com o sonho de sair do tal emprego. Pequenas fugas para fazer freelancer na função que gosto, isto é, na literatura. Meu Deus, como eu gosto de literatura! Como o ensino superior é um campo de trabalho incrível, fascinante, diferente!

Por enquanto, minha felicidade virá quando eu puder deixar o emprego atual. Depois, ela vai embora. E, finalmente, estarei de novo com minhas faltas, as eternas faltas que sempre irão deslocar o que me falta.

 


domingo, 22 de junho de 2025

Problema seu!

 


Em uma conversa vaga, falei com o meu ex-ente-amado justamente sobre amor. Perguntei a ele sobre a consciência de que “o amor que sentimos é problema nosso” lhe veio desde quando, ao que ele respondeu que desde muito cedo.

Achei incrível isso.

O que sentimos é nosso, está em nós e o outro ser ao qual vertemos nossos sentimentos é só um outro ser, tal como nós. Ele não tem responsabilidade sobre o que a gente sente, ainda que invista nisso, que tente despertar interesse ou atue para a sedução. O sentimento da gente é da gente. O que você sente é problema seu!

A gente, de fato, não escolhe conscientemente a quem amar. Não amamos as pessoas de qualidades admiráveis, nem as mais bonitas ou as mais inteligentes...nem sequer as que nos fazem bem, que fazem de tudo por nós ou àquelas que, de fato, mereceriam um amor intenso, imenso e sublime.

A outra parte que me surpreendeu foi que ele me disse que as pessoas (obviamente, falava de si) comunicam um ‘eu te amo’ achando que estão oferecendo a oitava maravilha do mundo, entregando um tesouro nas mãos do outro. E aí eu discordo.

Acredito que, sim, se a pessoa ama, sabe o tamanho do que sente e tenta articular a aceitação do ser amado. É como dizer: “Eu te amo. Eis aqui a minha vida. Gostaria que você fizesse parte dela e me permitisse amar você bem de perto. Por favor, aceite, pois é verdadeiro e eu te darei o melhor de mim”.

A experiência de ser amado é enriquecedora, mesmo quando a gente não corresponde a quem nos ama – na aritmética da vida real, é bem improvável haver correspondência.

Até quando somos crianças e lemos o amor com que nos cuidam, crescemos seguros. O fato de nos sabermos amados nos ensina muito e, principalmente, nos ajuda a identificar e reconhecer o que é o amor, apesar de traços particulares da forma de cada um amar.

Muitas vezes amamos e não sabemos. Um dia a gente descobre. O oposto também: a gente acha que ama, até descobrir que aquilo era outra coisa.

Ser amado é uma dádiva, isto é, desde que quem nos ame não nos faça cobranças, nem chantagens emocionais, nem jogos idiotas de responsabilidades e culpas.

A persistência cansativa não resolve um amor não-correspondido. Dói em quem ama ser rejeitado. Fazemos cálculos morais e gritamos para nós que o outro ‘não sabe o que perdeu” ou que ‘quem perdeu foi ele (ou ela).

Forçar a barra, procurar receitas para chamar a atenção não converte indiferença em amor. Mas, há quem queira o outro a qualquer preço. Isso indica covardia. É a incapacidade de lidar com  a rejeição e com a autonomia do outro, que pode querer ou não, do mesmo modo que a gente já declinou de boas propostas de amor e já distribuiu ‘nãos’ ao longo da vida.

Em situações em que o outro ignora, não responde nem corresponde, quão baixo se pode descer ao se colocar à eterna espera e à disposição deste ser? É por isso que é preciso coragem, para sobreviver à dor da falta. E é preciso deixar a pessoa em paz e, pacientemente, esperar o amor passar – nessas fragilidades, quem ama pode ser manipulado, humilhado, explorado, abusado, a depender do que construiu ao redor daquilo que sente por alguém (não somente o ser amado pode se converter em um tirano, como cartomantes e trabalhadores das artes supostamente mágicas podem levar seu dinheiro embora em três dias).

À parte as mazelas, amor é isso mesmo: ambiguidades.

Ser amado é um aprendizado, se a gente tem respeito por quem nos ama.

Nesta altura de minha vida, a cota dos amores já se esgotou. Não procuro, não quero e se aparecer eu digo que não estou. Brincadeiras minhas, porque gosto da leveza de não amar ninguém, exceto os amores ágape de base amistosa.

Aprendi quando amei, aprendi quando fui amada. Já atravessei meu vale de sombras e, com uma vela na mão, senti medo, solidão, tristeza, mas cheguei ao outro lado sem tropeçar e sem me deixar tomar pela escuridão. Aliás, agora que estou aqui, vou aproveitar a paisagem.

 


sábado, 17 de maio de 2025

A tristeza dá trabalho e o trabalho dá tristeza


 

Até aqui, vivi muitos lutos recentes e ainda me surpreendo por, constantemente, sonhar que o meu tio está vivo. Não é simplesmente sonhar com alguém que já morreu: é sonhar que, como em um filme de mistérios, ao término do percurso a personagem estava viva e que tudo fazia parte da trama. Sempre assim: no final, meu tio está ali, foi tudo um engano, os médicos se enganaram, o hospital se equivocou, eu tirei conclusões apressadas. Isso indica que esse luto ainda está se processando em mim e, tudo bem, tem um ano e meio que ele morreu.

Por outras razões, das quais, a consciência de que vendo meus dias de vida a preço baixo a um trabalho numa escola horrorosa, de contexto horroroso, com capatazes em lugares de diretores, tenho me sentido triste além da conta.

Assim como qualquer um de vós, acompanhei gente que capitalizava sua suposta depressão. Gente invejosa, mal-amada, condoída, dentre uma tantas supostamente sensíveis, imitadoras de artistas, que gostavam de atenção e de obter indulgências para suas maldades porque, afinal, coitadinhas, sofrem tanto com depressão...especialmente no meio acadêmico, onde pululam esses estelionatários do psiquismo humano. Quem nunca encontrou um, revise a memória.

Ciente disso, não ouso dizer que estou deprimida, mas tive um predomínio pesado de sensação depressiva. Uma tristeza diferente, uma percepção igualmente diferente sobre a vida e seus elementos de sustentação material; dos laços que nos atam à vida e nos fazem levantar da cama e seguir um rumo.

Meus lutos se somaram: a analista, vítima de câncer; as duas amigas, vítimas de câncer; meu tio; meu amor que se acabou e que me trouxe a triste leveza de não amar ninguém, as diferenças físicas que o tempo vai desenhando em meu corpo são outra parte de lutos. Decerto, gosto da minha aparência e da minha vitalidade, mas muita coisa muda, sim, e me predispõe a restrições, a despeito da pressão alta, por exemplo

Não voltarei ao mesmo psicanalista. Acho que foi um percurso encerrado. Fiquei com ele por um ano. Não quero voltar.

Por falar em percurso, não sei o que me dá, que realmente não desejo voltar a certos caminhos. E quando eu puder largar a escola básica, para onde, aliás, eu jamais desejei voltar, vou saborear o ‘nunca mais’ como a mais intensa vitória que eu poderia ter.

Interessante: eu não quero amar mais ninguém. Já deu: tive dois grandes amores. Ponto final!

Quero encerrar minha carreira o mais rápido possível e viver de criatividade vaga, mexendo em plantas, lendo livros, avançando no balé, prosseguindo na academia, vendo o mar de vem quando, com a terna vontade de dançar, sem largar a mão dos meus amigos, sem renunciar ao bom sexo com o homem que eu não amo, mas com quem me entendo muito bem...e conhecer outras estradas.

 

domingo, 16 de março de 2025

Apagou-se? Acabou-se!

 


Eu quis tanto esquecer meu segundo amor – espero que tenha sido o último nesta existência. Quando, muito recentemente, percebi que esqueci, me senti muito estranha. Pior foi passar por isso estando ao lado dele, porque a gente se reaproximou em dezembro.

Realizei sonhos de uma vida toda à espera de que pudessem acontecer, com ele (viagens, réveillon, aniversários, filmes, músicas e livros compartilhados, dentre tantas outras coisas)

Agora, ao perceber que o amor passou (ficou um gostar), observei o vazio deixado. Era como um pedaço de mim, que ali faltasse.

Devo dizer que compreendi que mesmo um amor não-correspondido nos preenche, ocupa um lugar em nós. Um amor sem correspondência é uma falta, mas é uma falta que nos nutre de força para sonhar, esperar, desejar, projetar, ocupar nossa mente, ser uma parte de nossa vida.

A correspondência de que falo não é somente sinônimo de que a outra pessoa não nos ame, mas que não tenha sentimentos minimamente proporcionais aos que a ela dedicamos. Isso, sim, é ser mal-amado.

Depois de outro tempo, percebi que há mesmo várias manifestações do amar, vários modos de amar e, para a minha decepção, há quem nos ame e não tenha cuidado ou carinho por nós.

Amor é só um fator dentre muitos para sustentar uma relação. Um pai amoroso pode ser negligente; uma mãe amorosa pode ser individualista; um marido amoroso pode ser infiel; uma esposa amorosa pode ser egoísta...a gente é que superestima o amor. Amor é muito, mas não é tudo. Faltam afetos coadjuvantes, atitudes auxiliares, fatores complementares.

Quantas idiotices a gente faz por amor! Se você for uma pessoa normal, vai reconhecer que já fez papel de idiota, que fez besteiras e até se comportou como burro, quando amou – e não me venha com as idiotices de separar amor de paixão. Nada mais desanimador que um amor sem empolgação; E a empolgação é a paixão, é o desvario maravilhoso deste estado de amar.

Este luto de defunto vivo, que é deixar de amar e estar com o ser antes amado, é esquisito e doloroso. Eu me sinto como se estivesse voltando para a minha casa. A casa vazia, só minha – sem vozes ou sombras de ninguém.

Ele me disse: ‘você está diferente!’

Eu disse: ‘eu também achei!’

Tive vontade de esfregar este troféu do ‘eu não te amo mais’, na cara dele. Mas, eu não estava feliz com aquela vitória. Decerto, entre amar e não amar, eu opto por não amar. Não quero mais. É cansativo e desgastante.

Porém, não amar é também difícil e desafiador. Não ter um objeto amoroso é não ter em quem pensar antes de dormir; é como um desenho animado em que o protagonista vence o inimigo (E se o Coiote pegasse o Papa-Léguas? E se Tom matasse Jerry?). Daí a humanidade precisar pensar em um duelo final entre o Bem e o Mal, não é? Combustíveis da fé, elemento motivador.

Deixar de amar é voltar para a casa vazia, é voltar para si mesmo e voltar-se para si mesmo. Aquele tempo que eu gastei olhando para o outro, na direção do outro, agora me obriga a olhar para mim – e arrumar essa casa não é fácil. Cada cômodo, uns incômodos, até que tudo se acomode.


O tempo e as idades

 




O lado bom de ser novo é a disposição física e a aparência da pele. Há pessoas, como eu, que se achavam pouco atraentes quando jovem, embora não faltassem pistas em contrário.

Outro aspecto positivo de ser novo, é poder andar de patins e usar as roupas que mais se quer usar, sem passar pelos crivos do etarismo. Vivemos em sociedade, de modo que é sempre desagradável ouvir aquelas pessoas da vida comum e os vídeos no Youtube determinando o que uma pessoa de mais de 40, 50 ou 60 não pode fazer, não pode usar, não pode ter.

Não tenho saudades de minha juventude, excetuados os pontos que levantei.

Aos 17 anos eu era muito infeliz e insegura. Aos 19, tudo era triste, com cara de finitude e imprecisão. Antes dos 17 anos, não preciso sequer declarar a infelicidade de não mandar em mim mesma, de não arbitrar sobre mim mesma, sem sequer poder decidir a escola onde eu queria estudar ou a roupa que eu queria vestir. Talvez por isso eu veja no casamento a repetição dessas mesmas condições, porque é necessário acordo com o cônjuge. Seria preciso alguém ser muito importante para mim, a ponto de me fazer renunciar à minha liberdade. Tem quem goste, porque ter liberdade é arcar com o peso das escolhas, responder por si – nessas horas faz falta uma religião, porque é sempre conveniente colocar a culpa no Demônio e nas tentações.

Só me considerei livre quando tive meu primeiro emprego efetivo. Aí, sim, adulta e livre. Livre do olhar social, nunca estamos.

Por ter medo de cirurgias e pouco dinheiro disponível para elas, jamais fui sedentária, o que me poupa de experimentar tantos dissabores de estar envelhecendo. Acho fundamental conservar um aspecto jovial.

O relógio biológico não gira em sentido anti-horário. Mas, há várias formas de se vivenciar a realidade do cronômetro.

Sou a favor de preenchimento com ácido hialurônico, sou a favor de intervenções superficiais e de jato de plasma (é pouco usado, por ser barato, mas é como um maçarico que, em pontinhos, faz o equivalente uma queimadura leve na pele, forma uma casquinha, um hematoma; e sai, deixando a pele renovada em poucos dias). Acho botox uma péssima opção, de efeito cosmético, doloroso, de curtíssima duração, o que não quer dizer que eu seja contra a opção dos outros. Cada um faça o que bem entender, mas não se iluda.

Eu nunca faria uso, tanto pelo preço quanto pela dor e pelo pífio resultado, de bioestimulador de colágeno. Que negócio ilusório! Porém, parabenizo quem vende esses serviços e convence às pessoas de que vale a pena.

O rosto é fachada da gente, é o que vem primeiro, é o que se mostra primeiro. Num mundo etarista, quando a aparência da gente é jovem, somos bem acolhidos. Todavia, muita gente, ao descobrir que a idade daquela pessoa é bem maior do que o que o rosto indica, desiste do relacionamento. Isso justifica a preocupação em esconder a idade.

O tempo não traz rugas, mas não traz maturidade. Continuamos entre adultos infantilizados, temos medos infantis, somos imaturos com os sentimentos. Mas, não podemos, como crianças, simplesmente, ficarmos 'de mal' com os inimigos. Fazer as pazes consigo mesmo é fundamental.  


domingo, 23 de fevereiro de 2025

Goela abaixo

 


Pessoas apaixonadas são capazes de muitas loucuras. Desejar e ter é mesmo enlouquecedor!

Muitas pessoas entram em disputas ou ouvem e aceitam que “devem lutar por um amor”. Conselho mais inadequado não há. Se um amor precisa de luta, você já perdeu.

Se a promessa de ‘trago a pessoa amada de volta, em três dias” desse certo, que sensação horrorosa não despertaria esse artifício de forçar quem não lhe quer a estar com você. Já pensou no contrário? Imagine você, ao lado de quem não lhe interessa, de quem você não gosta?

Mas, quem ama não quer saber da vontade do ser amado. Quer é que a pessoa lhe corresponda à altura. E se não lhe corresponder, que seja forçada a ficar com quem não quer.

As lutas por amor se justificavam, sim, outrora, quando as famílias eram inimigas, quando um pai se interpunha contra um casamento de filha/filho por conta de castas, status quo, sobrenomes e posses. Era a luta de honra, para se provar a dignidade.

Luta em termos de disputar com outra pessoa o coração de alguém, além de descabido é ridículo. Se a coisa exige esforço, força, luta, não estamos tratando de sentimentos reais e espontâneos.

Para a mulher, a coisa é um tanto pior, devido à cultura e educação patriarcais. Entende-se muito mal o preceito bíblico de que ‘a mulher sábia edifica o seu lar’. Puxo aqui a música de Francisco, el hombre: “Você é seu próprio lar”

Essa suposta mulher sábia não é aquela que engole tudo para sustentar um casamento fracassado, para prender a si um homem que já não a quer; não é aquela que espera o marido cansar da amante. O lar vai além da casa.

Essa coitada é a que ouve e aceita que ‘o que o homem não encontra em casa, vai procurar na rua’, isto é, ela deve se submeter ao que não é o seu próprio gosto e desejo, se não, o maravilhoso marido vai procurar amantes. Coitada: não sabe que os desejos não cabem em um casamento. E vamos, pois, falar sobre isso, embora não se resuma às mulheres em um casamento.

Acredito eu que sexualidade é algo particular, privado e individual no sentido daquilo que agrada a cada um. Preferências, fantasias, fetiches, orientações sexuais, tudo isso é particular e não cabe julgamento, desde que não ponha a vida de ninguém em risco, nem represente violência que não seja ajustada em comum acordo, aqui me referindo àqueles tantos seres humanos chagados em práticas desse tipo. Em resumo, em termos de sexo, o que não é contra a lei, cada um tem plena liberdade de usufruir sem precisar pedir permissão ao vizinho.

Todavia, me causou triste perplexidade quando vi uma moça ensinando a fazer garganta profunda, em postagem replicada nos comentários de um blog que eu gosto e frequento, que, por seu turno, é blog de humor.

A moça ensina que, para a garganta profunda, se deve estar de estômago limpo, vazio, e procurar ficar relaxada (o), introduzindo o pênis lentamente na boca, até preencher a garganta, pois o normal seria ter ânsia de vômito.

Ela explicou minuciosamente o sacrifício incômodo. Eu só pensei que era impossível uma pessoa sentir prazer em estar com algo na garganta, a ponto de vomitar, só para agradar um parceiro.

Se fosse bom para ambos, se fosse uma fantasia compartilhada, com alguma contrapartida positiva, tudo bem.

O mesmo se aplica a qualquer outra prática que as pessoas em geral, mas as mulheres em particular, se permitem, apesar de desprazerosa ou incômoda, só para agradar o parceiro ou por achar que assim se fará amar. Não, são duas casas diferentes: a do amor e a do prazer.

Mulheres ficam com homens que não lhes dão prazer. Homens, ficam com as mulheres que amam e com as que lhes dão prazer. E não misturam as casas. Por isso, raramente eles desfazem o casamento para poderem ficar com as amantes. Não, eles ficam com as duas.

Mulheres renunciam ao prazer com maior facilidade.

Mulheres também traem, claro. O que mudam são contextos e causas.

A pessoa, quando bonita, terá maior facilidade de ser desejada sexualmente. Não têm garantia de amor – olha quanta gente feia você deve conhecer, que é amada, casada?

Aparência ajuda em muita coisa, é capital simbólico que abre portas. Porém, não define que gente bonita será gente amada.

Não me lembro de ter visto ou ouvido falar de homens querendo aperfeiçoar a si mesmo com vistas a agradar uma mulher. Isto indica o quanto somos dependentes deles, o quanto investimos para sermos amadas, preferidas, ou seja, de alguma forma, entramos em disputas não assumidas.

Para não perdemos a leveza do bom humor, repito o que aprendi com um chefe que tive, que costumava dizer que “sapiência é a capacidade de engolir sapos”. Não tenho nada a ver com as decisões de terceiros, mas tenho olhos abertos quanto a tantas coisas que nos querem fazer engolir goela abaixo - em qualquer sentido que vocês queiram entender. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Afinal, a quem dirigir?

 


É preciso muita coragem para saber-se só, mesmo quando temos companhias.

É preciso ainda mais coragem para admitir que há coisas que cabe apenas a nós darmos conta.

É necessário reconhecer o que há em nós, identificarmos sentimentos e sensações, que muitas vezes traduzimos na simplificação do amar ou do odiar. Há outras tonalidades nesse interregno.

Mais uma vez, reiterando meu pavor de positividades tóxicas (não sou daquelas pessoas que se amparam em pensamentos positivos desarticulados com a realidade), não acho que caminhamos para evoluções benéficas, ressaltando que aprendi que nem toda evolução é positiva porque o meu ex-namorado me dizia isso e explicava que se a doença evoluiu, significa que o doente piorou.

Entretanto, não integro o rol dos desolados, aqueles outros tantos que defendem que não devemos criar expectativas, que não devemos sonhar, pois que manda continuará mandando; que tudo está dado e que ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Há outro intervalo aí, que precisa ser reparado e levado em conta.

Nenhuma mudança viria se assim pensássemos coletivamente. O que seria da civilização sem as revoltas dos subalternizados? E se o escravo acreditasse que nada mudaria, haveria quilombo? Haveria fim da escravidão? E se todas as mulheres achassem que não votariam nunca, porque as decisões são tomadas pelos homens e eles sempre serão mais fortes, haveria sufrágio universal?

Para o particular, pessoal, individual, assim como para o coletivo, é preciso ousar sonhar.

O que penso ser inviável é pensar positivo e jogar para o universo resolver o que cabe a cada um ter a ação para decidir e resolver.

Fazer tudo certo não lhe dará a certeza dos bons resultados, mas você irá recrutar meios para a sua vitória. Planejar e se munir de recursos vai lhe dar maiores chances de obter um resultado positivo. Significa que você cumpriu a sua parte num acordo tácito.

Confiar no improviso pode dar certo, mas sua probabilidade diminui a quase zero de alcançar o que deseja.

Há coisas totalmente fora de nosso poder de ação e decisão. Coisas gerais, como leis, por exemplo, ou circunstâncias de saúde, intempéries, acidentes, surpresas de todo tipo. Se somos crianças ou temos impedimentos de outra ordem, estamos sujeitos às decisões alheias, aos pais e responsáveis, ao voto da maioria, a aspectos distintos e múltiplos. Entretanto, na nossa quota de poder sobre nós mesmos, costumo me lembrar do filme Dormindo com o inimigo. Protagonizado por Júlia Roberts, o filme mostra uma dona de casa encarcerada no lar, com um marido abusivo e violento, que a transforma numa pessoa transtornada, subjugada e submissa.

Ele manipula os medos dela, já que moram numa ilha e ela não sabe nadar. Vive, portanto, numa prisão a céu aberto, falsamente paradisíaca.

Um dia, às escondidas, ela aprende a nadar.

Traça um planejamento de fuga, de modo que põe em prática seu plano particular de liberdade. Apaga as luzes da ilha numa noite e atravessa, da ilha ao continente, nadando na escuridão.

A protagonista poderia pensar que não havia saída. Poderia não criar expectativas, nem sonhar com rumos diferentes.

Exemplifica, portanto, o reconhecimento da opressão, da situação, dos sentimentos; e quebra com a situação de vítima passiva. Continua sendo a vítima, mas tendo o poder de reação necessário ara sair de tal condição.

Então, o que podemos concluir é que é preciso enxergar saídas. Se não as temos, é preciso construí-las. Para construí-las, não basta pensar positivo, é preciso trazer à baila elementos que ajudem aos resultados.

Então, se você acha que basta tomar água com limão para emagrecer, ajude o limão a agir e vá correndo ou caminhando comprá-lo todos os dias, em qualquer lugar a 2 km de onde você estiver; se você acha que o pensamento positivo vai fazer você passar no concurso, ajude o pensamento positivo e vá ler o conteúdo de cada disciplina, a fim de pensar melhor.

Até se você tiver uma Ferrari, é preciso saber que ela não vai sair do lugar sozinha: é preciso um motorista para colocá-la em movimento. O pensamento positivo, definitivamente, não dispensará a ação da parte interessada.