Adoro os meus bichos, mas percebo que odeio latidos, miados, cacarejos...ai! que horror! Fui uma criança carinhosa, que adorava bichos e também gostava de abraços. Até hoje esses traços são notáveis em mim. Também pintava estrelinhas na testa e sonhava em ser a Mulher Maravilha - Linda (Carter), aventureira, justa!quem vai ficar pensando em ideologias norte-americanas aos 4 anos de idade? eu adorava a mulher maravilha! Desde esta época, meus quatro anos de idade, não sei se por ver o perfil dos heróis dos seriados, mas eu já gostava dos rapazes branquinhos. Quando eu estava em São Paulo, semana passada,me deslumbrei ao ver os paulistanos urbanos: lindos, altos, branquinhos, com um cabelinho escuro macio!!! são os meus preferidos. Isso ninguem entende, mas é o preferencial. E preferencial não é exclusivo. Gosto mais da sensualidade do que da beleza. Porém não nego que a beleza me suborna...poxa, há quanto tempo eu não via homens realmente lindos?! nem sei ao certo! Os homens de São Paulo são lindos, em sua maioria. O que não se pode dizer de outras localidades do interior paulista...ah,se eu fosse a Mulher Maravilha, pegaria meu laço mágico e me amarrava a eles - o rapaz da padaria perto do hotel, lindo! o recepcionista do hotel, lindo!os transeuntes da Consolação, lindos!dos paulistanos urbanos o que se há de dizer? Lindos!!! "E novos baianos passeiam na tua garoa/ e novos baianos te podem curtir numa boa!"
Ter organização financeira e acabar com as dependências emocionais são os meus maiores sonhos. Ai, como eu me sinto incapaz de cumprir estas metas... É verdade, não estou mal: alcancei tantas coisas que desejei. Por outro lado, não assumi alguns desejos e me vejo incapaz ou impotente diante de outros. Há pessoas que não são aptas à felicidade. Sério: aqueles seres apagados, com umas caras de morte, com umas caras de velório, incapazes de um sorriso, que parecem que já nasceram dependentes de psicofármacos...é, gente tarja preta mesmo...ai, Jesus!Como é que esse povo pensa que está vivo? será porque faz xixi e bebe água? êta, distanásia! Mas existe mesmo gente incapaz de ser feliz - procurando pretextos para ser infeliz, mumificada, sem iniciativa, sem se mover na direção de coisa alguma, apegada a um presente contínuo ou fixada no passado...tenho sérias conversas com o passado, tenho ódio de minha família, vou à terapia para matar simbolicamente o meu pai, preciso de um esteio, de um protetor, vivo minhas castrações...entendo perfeitamente as angústias que compõem a existência. Contudo, esse negócio de se faer super sensível, eternamente de mal humor, esperando que alguém resolva nossa vida por nós, ou, simplesmente, querendo resolver os conflitos interiores com bromodiazepínicos, fala sério, não dá para suportar! De repente a gente acha que a Ciência resolve tudo, dá todas as respostas...e aí, mano, comprar felicidade em vidrinhos parece um ótimo recurso...só não entendo qual a diferença real entre esta prática e a daqueles que consomem as drogas ilícitas. Para encarar a existência, só com Paraísos artificiais? Apesar das tempestades, a gente aproveita o tempo de estio para rever os estragos e o que sobrou de nós. Sartrianamente, pensemos o que fazer com o que fizeram de nós, já que nossa existência não é passiva - sim, umas coisas ocorrem por nossa permissão! eis a vida! Não quero ter esse perfil que eu critico. Quero que minha vida seja minha e seiq eu isso me fará perder muitos candidatos. Inacreditável, mas os homens sempre querem mandar em mim. Odeio ser comandada, reajo. Não incorporo a feminista pós-moderna que busca o poder parelelo, o poder velado, as formas negociadas: vou para o front, digo "não"! Há um tempo eu não sabia dizer "não", admito!mas aprendi que devo fazer a minha vontade sem, necessariamente, ser obtusa, teimosa. Eu ouço o argumento e se ele faz sentido, sou aquiescente. Não sou gueixa. Recentemente, vi aquele rapaz que correu atrás de mim na UNICAMP por causa do meu salto alto. Decerto, mantivemos contato por um bom tempo até este encontro da semana passada. Ele gosta de saltos; eu não estava aos pés dele. Por minhas atitudes de independência, ouvi uns resmungos e uns queixumes. Acabou aí! A felicidade não é um processo contínuo, mas sem a colaboração do interessado, ou seja, de nós mesmos, ela é impossível.
Almeida Garret em seu enfadonho clássico da Literatura Portuguesa, Viagens na minha terra, realiza um tour imaginativo que, por sua notabilidade narrativa, o fez figurar no cânone literário - não sem muitos resmungos das vítimas acadêmicas da obrigatoriedade de tal leitura. Bem, a sorte dele é que a viagem é imaginativa. Outrossim, também duvido que ele enfrentasse as dificuldades de transporte e de manutenção das estradas que ligam Xique-Xique às demais cidades baianas, das quais, Feira de Santana. Em termos práticos, não há diferença qualitativa entre as condições de viagem dos idos de Viagens na minha terra (1800 e sei lá quanto, talvez 1846) e a precariedade da estrada do Feijão. E não vai ter nenhum Dinis que nos salve, ora pois! O caso é que nestes meus dois anos de substituta ( com rima pobre totalmente aplicável), neste trajeto, eu já vi foi coisa! nem ligo para o que vi, mas para o que eu continuo a ver. E nem deveria ligar mais para o que vejo do que para o que eu ouço. Personagens da vida real muito mais interessantes que os de Garret frequentam o ônibus da Àguia Branca, especialmente o de volta. Vejam: O anônimo psicótico: Com um perfil que nos faz suscitar uma possível paternidade hippie, uma vez que, com certeza, a mãe deste sujeito ( e o pai) injetou, cheirou e fumou muitas coisas inapropriadas, ele adora conversar durante a viagem. Conversa muito. E o pior: consigo mesmo! Ele conversa sozinho e, pelo tanto, parece que ele não se vê há muito tempo. Jesus! Nunca vi ninguém com tanto assunto... e deve ter um bando de fofocas a respeito de si mesmo porque, de vez em quando a conversa assume tons de sussurros ou de gargalhadas. Ele não me engana: deve saber misérias da vida íntima dele mesmo e compartilhar naqueles momentos de confidência. Ah, velhinho falador! O caboclo peidorrento: Figura constante no horário noturno, este tem problemas de gases. E, pelo jeito, de querosene. Aliás, isso não é problema, é solução: bastaria que numa crise de gases a gente pudesse jogar querosene naquele miserável e atear fogo. Mas que sujeito miserável!sabendo que está todo mundo abafado no ar condicionado, não contém o proprio esfíncter, não tranca a válvula do monossílabo átono.Este eu odeio! e o pior, povo, é que a fedentina parece enxofre. É literalmente infernal! E o peste é gorducho - deve fazer a maior mistura de comidas e quem sofre é a gente. O caboclo roncador: Tá bom: quem aí já não ouviu o ronco barulhento de uma motocicleta velha ou a zoada de uma carro dos anos 80 com a descarga furada? Então, o ronco barulhento do caboclo roncador é assim. E quando ele acorda assustado com o barulho do próprio ronco ainda dá susto na gente. Como pode um monstro destes dormir com a consciência tranquila? É barulho o tempo inteiro. Gordo e espaçoso, ele dorme com a barriga para cima, todo feliz...se aquela boca abrisse mais um pouquinho eu juro que jogaria um insetão bem escroto nela. O sujeito incomoda as 4 poltronas à frente e atrás. A cobra fumante: Concretizando as profecias do fantástico cumpadi Washington (eta, se é de axé , deve ser é Uóxitun), cuja premonição dizia que "o bicho vai pegar/ a cobra vai fumar", a cobra fumante existe e já está entre nós. A cobra é do sexo masculino e, como todo animal irracional, não tem noção: se tranca no banheiro e fuma - cigarro também, de natureza questionável, mas se fosse Tetrahidrocanibinol, vulgo baseado, o cheiro de cocô queimado até faria sentido com os aromas repulsivos do banheiro do ônibus. Este pensa que a fumaça fica no banheiro mesmo, não percebe que comete um atentado contra os demais passageiros. Para mim, que sou cristâ católica, deve-se seguir o princípio bíblico e fazer com que ele volte às cinzas: deveríamos queimá-lo. Fora da brincadeira (palavra de ex-bombeiro), os automóveis são altamente comburentes. Se um incêndio é iniciado em qualquer tipo de veículo, logo se propaga o fogo, é questão de segundos, não é efeito especial de filme não, gente: quem tem seguro de carro, se toque e nunca deixe o ítem contra o incêndio, de fora. além de incomodar, este filho da puta fumante põe em risco a vida da gente. Mãe e crianças choronas:a maternidade é linda e sagrada. Então, convém que a deixem bem longe das aglomerações, não e? Puta que o pariu! que irritante é o choro das crianças e as chatices das mães. E os meninos choram porque está tudo bem, choram porque dói, choram porque têm sono, choram porque o carro anda, choram porque existem...vixe!!! Caboclo acotovelador: Olha só, é cada entidade!!! este é aquele sujeito que não cabe em sua poltrona. Ele acha que o braço da poltrona é só dele, ele acha que a poltrona ao lado, aquela em que é a gente quem está, é uma concessão dele. Logo, ele vai dar cotoveladas a noite inteira, ele vai te empurrar, ele vai se jogar em cima do seu ombro, ele vai fazer você ter pesadelos até acordado...matemos essa miséra!!! Míster Call: E Deus criou o mundo...logo depois, o homem criou o call center, para as reclamações e elogios. Beleza!!! O caso é que tem uns miseráveis que parecem nunca terem visto um celular na vida. Isso não seria nada desde que tal sujeito não achasse que você também nunca viu um e, por isso, ele fala bem alto, para você perceber a tecnologia. Ele exibe os barulhinos, o despertador e etc. Toda hora é um alô. Nem pense em dormir porque o serviço é 24 horas. NUM SEI: Quem aí gostar da cultura oriental, aprenda que além de sansei e nissei existe o Num Sei, mas ele é bem brasileiro, viu? Ele não sabe a poltrona dele; ele não sabe ler a passagem dele e ele vai te irritar, seja para não sair da poltrona reservada para você, alegando que "o ônibus vai vazio", seja segurando sua poltrona, se esta for janela; seja querendo que você saia da poltrona pretensamente dele. Num sei o que se faz para combater esta praga, mas tenho uma vaga idéia de que bons argumentos e certeiras cacetadas são capazes de dissolver qualquer tipo de conflito. Mr. Jump: Míster Jumpe pula toda hora, toda hora levanta, toda hora incomoda...aliás, ele veio ao mundo só para isso. Pula por cima de você, pula para ir ao banheiro, pula no corredor e haja Deus para aguentar tudo isso. Caren T.: A Caren pode ser homem ou mulher. Sempre CARENTE, quer puxar conversa. Não tem jeito, mil serão os pretextos para encontrar um fio para conversa...ache um fio e enforque esta misera. Bem, vejam o que Almeida Garret perdeu frente ao fato de nao fazer um trajeto tão pitoresco - as aventuras, os buracos, os despenhadeiros sob a neblina, os assaltos e outras maravilhosas ciladas que cercam a viagem nossa de toda semana. Ação, aventura, tendinite, insônia, suspense: breve, numa viagem próxima de você. Vou vender este roteiro. A Rota 66 fez sucesso porque o povo ainda não conhece o trajeto para Xique-Xique!
** esta é uma obra de ficção - qualquer semelhança com nomes, histórias, lugares ou acontecimentos, terá sido mera coincidência...ou não!
Que me perdoem os feios, mas beleza é fundamental; Que me perdoem os belos, mas sensualidade é indispensável; Que me perdoem os sensuais, mas cavalheirismo é fundamental; Que me perdoem os cavalheiros, mas inteligência é indispensável; Que me perdoem os inteligentes, mas sensibilidade é fundamental; Que me perdoem os sensíveis, mas criatividade é indispensável; Que me perdoem os criativos, mas ter iniciativa é fundamental; Que me perdeom os que têm iniciativa, mas percepção é indispensável; Que me perdoem os perceptivos, mas intuição é fundamental; Que me perdoem os intuitivos, mas a confiabilidade é fundamental; Que me perdoem os confiáveis, pois que são inviáveis, impossíveis, inexistentes...e mesmo não encontrando todos esses adjetivos num só homem, não deixo de desejar os homens; Mesmo reclamando de todos os homens, eles me dão felicidade e tornam minha vida bem melhor(despertam desejos, ofertam amparos, iludem, mas ajudam a sonhar; dinamizam o cotidiano e ainda rendem material subjetivo para textos e fofocas com as amigas...) Hey, man!
Ah, que bom que de vez em quando as coisas mudam ou o que muda é nossa maneira de lidar com a vida!Hoje, especialmente, estou feliz. Quando critico essa gente que tenta nos influenciar com a idéia de Destino, de pensamento positivo, de que "palavra é força" e das baboseiras espiritualistas que esculpem culpas e servem para coagir e controlar a realidade de nossos desejos, não é à toa. Sabe porque eu estou feliz? porque dei passos, realizei ações que me conduziram a alcançar o que eu desejava. Por conta do sucesso obtido, dei outros passos muito bem planejados para que eu chegue noutro lugar que também desejo, ao contrário de quem credita ao plano metafísico a responsabilidade e a providência para a resolução de seus problemas. Sou uma pessoa de fé, sabe? "Acho que gosto de São Paulo, gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião" e, se sei que, ao contrário do Renato Russo, gosto apenas de meninos. Mas, respeitando a ambiguidade e pluralidade de sentidos que a música traz, pois que neste caso tanto podem ser os santos quanto as cidades, gosto de São Jorge e de Santo Antônio, além de eu ser marianista convicta e admirar, simpatizar e defender os orixás, dos quais, Oxalá e Yansã. Mas é só isso: gosto do reforço psicológico de me saber auxiliada. Auxiliada. O resto, é por minha conta. Acredito no acaso e na Sorte. Acredito e adoro o acaso: não acho que haja nada marcado em lugar nenhum, vejo o ser humano como responsável direto por suas escolhas. É, não me sinto na Grécia Antiga, consultando oráculos ou errando como Édipo, cujas escolhas nunca serão livres: é ele escravo do Destino. Lembrei-vos, irmãos, das Môiras: três irmãs velhas, mau humoradas, cegas...olha na mão de quem o ser o humano quer deixar o rumo de sua vida!!! Ainda mais numa era como a nossa, em que os determinismos cairam por terra! Mas, tudo bem, é confortável demais. O caso é que sou intolerante com algumas coisas que têm a ver com a conversão do outro. Ora, pois: quem não está comigo estará contra mim? é tanto radicalismo, meu Deus!!! Há dias em que a gente acredita mais na vida, refaz o sol do nosso humor, reedita o futuro e segue em frente. Enquanto eu achei que não tinha escolha par algumas coisas, me vi refém do Destino, amarrada a uma coisa parada, a uma vida sem devir, julguei não ter como manter decisões e esse é um laço depressivo perigoso, porque todos os dias parecem iguais e a gente fica paradinho, esperando que algum deus nos recompense pela parcimônia. No aspecto pessoal, até me resolvi interiormente com minha amiga: entendi que ela carrega a culpa, ela sabe o que fez e talvez pense que eu não sei, mas o caso é que percebi que o preço da culpa é muito baixo diante da felicidade. Feliz ela não está, presumo, mas está bem melhor agora. Esse é o passo dela na contramão do Destino: reconhecer que é legítimo não querer estar com quem a gente não quer compartilhar o convívio. Por mim, digo: "Aqui jaz. Descanse em paz!" Assunto encerrado. Também desejo a distância dela, mas isso não é por um "mal-querer". Gilberto Gil, em sua santa sabedoria, já dizia que o eterno deus Mu dança. E que ritmo variável! Mas, eis-me aqui agradecendo a colaboração de Deus e de São Jorge na graça alcançada com meus esforços e os auxílios deles. Obrigada, Senhor, por me fazeres apta a cuidar do que quero.
Falo demais. Falo muito mesmo. Às vezes, não tenho a menor papa na língua, como se diz por aí. Mas não falo dos outros: dos amigos reciprocamente alfinetados, não me meto; das amigas, amigos e conhecidas que flagro sofrendo traições, nada digo, não diria nem se visse o par em pleno ato sexual. Ah, não falo mesmo!
Contudo, ter conhecimento das coisas e silenciar, nos torna, em certa medida, cúmplices.
O silêncio é mais seguro.
Desconfio dos meus raciocínios, das minhas conclusões. Penso duas vezes, acho que não deve ser exatamente aquilo que os indícios me levam a crer; penso que sou maldosa, penso que estou enganada... Mas o tempo me mostra o contrário.
Para pensar ou concluir sobre o outro, sou extremamente cautelosa.
Muitas pessoas não assumem seus sentimentos, não assumem como eu assumo a necessidade de estar sozinha; não assumem seus aborrecimentos, não assumem aquela misantropia que nos assalta e pede que a gente não atenda ao telefone, nem queira compartilhar convívios.
Geralmente ocorre que tiram conclusões sobre mim, baseadas, muitas vezes, em fontes duvidosas. Aceito. Não faço questão de amizades inconsistentes, daquelas que qualquer coisa torna o amigo um suspeito. Se perco uma amizade assim, sinceramente, não me importo. Não me importar não quer dizer que eu não me indigne.
Recentemente, desconfiei de algo assim: estava na cara que uma amiga tinha encontrado um pretexto bem vago para que a gente não mantivesse o laço do convívio. Ora, eu entenderia perfeitamente a situação.
Há convívios que são inevitáveis (e nem preciso recorrer às idéias de Durkheim para falar da solidariedade orgânica e mecânica) e outros que dependem de nossa opção ou, especificamente, de nossa sinceridade.
Nas minhas circunstâncias, o fato das coisas, do corte ter sido precipitado me mostrou que o convívio era insuportável. Tamanhamente insuportável que não houve prévia, não houve preparo algum, certamente para parecer natural.
Presumo o conflito ou o sentimento de incômodo interior ou moral da pessoa em questão e isso é o problema: eu entenderia perfeitamente se isso me fosse dito de forma clara. Não gosto de especular o que teria causado a vontade de ruptura, de quebra do laço de convívio.
Acho deveras perturbador fazer conjecturas, edificar inimigos imaginários a influenciar coisas, atos que inconscientemente tenham coagido a pessoa a me querer bem longe... Mas, de meu lado, eu já lia esta mensagem. Engraçado como as pessoas dão sinais, deixam pequenas pistas... Ignorei por achar que talvez os amigos mais chegados que julgam que eu vejo coisas que não existem estivessem com razão.
Deve ser um saco aturar alguém que, como eu, prova que houve uma perseguição, que houve um engano, que houve lapso e erro num raciocínio de outro amigo em comum em relação a qualquer coisa. Se fosse eu a estar no outro extremo, diria de mim que tenho mania de perseguição ou que me faço de vítima. O que o tempo mostra é que não era um engano meu. Foi assim agora que confirmei uma suspeita.
Tenho noção. Percebo se sou preterida, se não depositam confiança em mim, se conspiram conclusões, se tomam partido.
Por que será que não dá para ser sincero? Não dói bem mais chegar ao veredicto posteriormente?
Pensei nisso no caminho de volta para casa.
Pensei na aflição da outra pessoa em questão, no seu sufoco para se livrar de mim, para tecer um repertório de pretextos, a cada dia me dizendo em entrelinhas, sem que ela própria percebesse: “Se afaste de mim. Não suporto mais nosso convívio, nosso contato”.
Sinceramente, me coloco mesmo no lugar do outro. Imagino todo esse sufocamento de quem não consegue assumir um sentimento de repulsa, uma vontade de afastamento e que, de modo cristão, às vezes se culpa até que conclui que não há uma razão explícita além da sua própria vontade de não manter mais o laço. Sei que dói e entendo: como dizer ao outro, sem motivo palpável: “Quero ficar só!”, sem parecer cruel, egoísta, mau... Eu sei.
Como boa neurótica, não é qualquer coisa desperta em mim o senso de rejeição.
Não acredito em certas coisas, nesses lugares comuns que dizem que determinadas coisas acontecem em todo lugar (“Todo lugar é assim”), que é isso mesmo e etc. Já vivi a diferença e sei que essa generalização serve apenas para tentar atenuar as brasas do inferno.
Família e trabalho são dois pólos de convívio altamente perigosos.
Odeio “Amigas secretas”, “Confraternizações” e reuniões afins: é muito difícil suportar a hipocrisia e a artificialidade próprias desses eventos.
Das coisas que aprendo, me surpreendo com aquelas que não têm nada a ver com o que deveria ser. Vou falar do que aprendi com Stuart Hall, em Da diáspora: Identidades e Mediações Culturais: além do óbvio que se pode depreender do título e dos modismo teóricos que assomam as universidades e o pensamento contemporâneo, digo que o que este autor fala na parte final do livro (A formação de um intelectual diaspórico – uma entrevista com Stuart Hall, de Kuan-Hsing-Chen) foi minha grande lição. Um desses momentos é a passagem em que Hall diz do seu convívio familiar, do exílio em família, de uma falta de articulação ideológica, de incompatibilidades de várias ordens e finalmente afirma que ele teve a necessidade de realizar um afastamento afetivo;
“Por causa disso, fui sempre identificado em minha família como alguém de fora, aquele que não se adequava, o que era mais negro que os outros, o pequeno coolie etc.” (p. 386);
“Minha própria formação e identidade foram construídas a partir de uma espécie de recusa dos modelos dominantes de construção pessoal e cultural aos quais fui exposto” (p. 387)
“Havia uma grande distância entre o que eles queriam para mim e como eu me identificava” (p. 387)
“Estou contando esse fato porque ele foi muito importante para meu desenvolvimento pessoal. Isso acabou para sempre com a distinção entre o ser público e o ser privado, para mim. Aprendi, em primeiro lugar, que a cultura era algo profundamente subjetivo e pessoal e, ao mesmo tempo, uma estrutura em que a gente vive (...) Desde então, nunca mais pude entender porque as pessoas achavam que essas questões estruturais não estavam ligadas ao psíquico – com emoções, identificações e sentimentos, pois para mim, essas estruturas são coisas que a gente vive. Não quero dizer apenas que elas são pessoais; elas são, mas também são institucionais e têm propriedades estruturais reais, elas te derrubam, te destroem.” (P.390)
Essa humanidade em Hall me conquista. Vislumbro elos de identificação nesses posicionamentos, seja na questão institucional, seja na familiar.
Família e amigos se confundem para mim. Repito: família é aquela que o coração escolhe.
Não sou tão tonta quanto eu penso, não vejo chifres em testa de cavalos, mas até que preferia, pois os licornes, os unicórnio são lindos, embora fantasiosos. Eu sei o que vi, eu sei o que ouvi, eu concluí com exatidão – não tenho que me sentir leviana por ter visto ou concluído, seja a paquera lá da esposa do meu colega para cima do meu ficante ou o desejo de distanciamento da pessoa a quem me referi. Ainda bem: não é efeito colateral dos fármacos que não uso, nem da bebida que não bebo...Louquética, sim, pois de perto, ninguém é normal; mas alucinada ou paranóica, jamais!
Eu adoro abraços! Adoro os carinhos, de todos os tipos, de todas as ordens! Tenho piedade de quem encarna a armadura e é incapaz de expressar carinhos, de assumir um sentimento, de assumir uma dor, uma falta, uma saudade. Sou megalomaníaca com os afetos: digo com a maior ênfase, com a verdade estrambótica do que sinto: Adoro você, meu amigo Álisson; te amo, Neto; te adoro, Jaulla Rodrigues. Eles são só meus amigos, embora não no termo amplo, porque não os vejo, não tenho práticas de troca de segredos e idéias com eles... há várias distâncias separam a gente, mas no meu coração é grandioso e real o sentimento que tenho. O outro abraço, mais desejado, é aquele de quem eu desejo. Sexualmente, as posições que permitem abraçar são as que eu mais gosto. Chego a poetizar esse encontro entre os corpos. E é tão boa a sensação de pertencimento, de troca, a grandeza do contato... Lembro de um certo amigo meu, da UEFS, Vladmir, em seus versos: Não se morre de amorSe morre de frioO abraço é o agasalho da alma. Ah, minha alma está morrendo de frio agora!