Louquética

Incontinência verbal

domingo, 2 de junho de 2013

Visões de um paraíso




Neste feriadão maravilhoso e prolongado, fui para minhas lindas paisagens do Baixo Sul. Como sempre, me deslumbro por passar no meio das águas, águas tão próximas que molham os pneus do carro e permite ficar olhando as embarcações indo e vindo.
Lá fez sol e todas as cidades próximas, em que passei, estavam cheias de turistas. Logicamente, não fui a passeio, mas a trabalho.
A imagem aí de cima é de lá, das terras em que trabalho. Sinto-me recompensada pela paisagem.
E disso muito me orgulho, porque até para abastecer o carro tivemos que ir ao Posto da Praia, que fica numa estrada excelente para rally.
Falando nisso, na volta ainda deu para ver os saltos incríveis, num campo apropriado para Motocross, as manobras e saltos dos motociclistas profissionais. Tivesse eu tempo e dinheiro, de lá não voltaria tão cedo.
Nesses dias, dei risada junto com meu par quando ele disse que eu era a única pessoa neste planeta a ter três empregos e não receber por nenhum. Assim ele concebe, e é verdade. Mas pelo menos lá eu me divirto. Às vezes me sinto indignada com o motorista, por exemplo, que não cumpre horário. Ontem ele se reportou á minha origem, confirmou um estereótipo e ainda quis inverter a ordem do discurso para instalar uma lógica que o beneficiasse. Explico: na sexta-feira ele me deixou esperando por uma hora e meia, para fazer a travessia da cidade em que eu estava até àquela em que dou aulas, a lindíssima – Mas, meu Deus, haverá na Baía de Camamu e Península de Maraú, paisagem que não seja bonita? – e este atraso gera um efeito dominó que compromete todos os demais horários a cumprir e a descansar. Ok. Lá vou eu, tipo Caetano Veloso (em O que será?), “atrasado e aflito”.
Para o dia seguinte eu advirto, peço, rogo, imploro para que se cumpra o horário de saída. Ele teima em estipular um horário de acordo com o que ele quer e não com o que eu necessito. Penso que esta seria uma hora de por a limpo a hierarquia, os acordos e os pactos. Penso duas vezes, porque não sou disso e condeno às amigas e inimigas íntimas que vejo humilhando empregadas domésticas, esfregando poderes, títulos e lugares sociais na cara dos seus teoricamente subordinados. Não obstante, fui militar e acho que isso de se ater à hierarquia é um jogo covarde que serve para ditar quem manda, quem obedece e, lógico, quem se insubordina.
Se insubordinar é se revoltar por estar por baixo, é reverter esta lógica, pois apesar de estar hierarquicamente abaixo, este ser humano de baixo se revolta contra o de cima, passando por cima dele, desafiando suas ordens, suas indicações. Resumindo: engoli o sapo!
Mas, como não poderia deixar de ser, ao saber que eu estava no lugar combinado, no horário combinado, na situação e condições combinadas, à espera que excedia trinta minutos, o motorista veio me confirmar que eu era mesmo paulistana, não havia dúvidas, porque eu era agoniada e o baiano era tranquilo.
Falou de minha ida ao trabalho no meio de um feriado prolongado, do cumprimento à risca de dias e horários e veio com esta de que baiano era conhecido por ser preguiçoso, porque é um povo tranquilo, que cumpre o que cabe nas condições que pode cumprir. Subi nas tamancas: falei claramente que isso era um preconceito absurdo, que tem baiano preguiçoso como tem paulista preguiçoso e ser humano preguiçoso em geral e que ele estava confirmando um estereótipo para se safar de uma responsabilidade.
Para piorar, nada do que ele teria que fazer foi feito, inclusive abastecer o carro e dar andamento em certos papéis. Aí ele apelou para o tal do “palavra é força”. Dos ditados inúteis que eu já ouvi, este é o que eu mais odeio.
Ele explicou que como eu o adverti no dia anterior, ao chegar o sábado foi a força da minha palavra de advertência, sugerindo um novo atraso dele que o fez se atrasar.
Qualquer um que me conheça minimamente sabe que esta balela de palavra é força comigo não cola porque não funciona para as coisas boas. Aquilo que nos favorece, se verbalizado, não acontece; mas o contrário, o que é temível, se verbalizado, se concretiza. Na acepção desse povo que crê nisso.
Esse ditado não é mais que uma camisa de força para barrar comportamentos e filtrar semanticamente as palavras, é mais uma daquelas patrulhas para evitar que se digam nomes e coisas desagradáveis, porque estas palavras temidas, se pronunciadas, se concretizam. Não dão mesmo prestígio às palavras boas, pois você pode morrer gritando por socorro e nem por isso ele vir; e não há quem aposte em loterias que não enseje boas palavras de sorte. Porém, as coisas boas não se concretizam nas palavras.
Então eu disse a ele que minhas palavras não são tão poderosas assim, que “o que é minha palavra ante sua força de vontade?”, ou seja, ele falhou quis compensar o atraso no acelerador do carro e ainda responsabilizava a mim por uma situação provocada por ele.
Como dei carona a uma fala puxa-saco, ela ainda disse que eu não lamentasse atrasos, porque muitas vezes isso era para em salvar de uma tragédia, que por um minuto se salva alguém, se evita algo. E eu rebati dizendo que as obras do acaso funcionam na ordem inversa, também: que por causa de um atraso muita gente morre e se estrepa, que não há mapa que anteveja uma coisa ou outra e que o máximo que a gente poderia fazer era se planejar e cumprir com o que compete a cada um.
Sou metódica, mas nem tanto assim. É que não me sinto confortável deixando os outros me esperando e cobro aquilo que dou.
Acredito que quando a gente erra, no mínimo admite e se desculpa, procurando não reincidir.
O motorista apelou ao além, ao estereótipo, ao preconceito, aos determinismos, para se safar de uma culpa e responsabilidade que era obra e graça dele.
Mas, excetuando isso, que, aliás, em nada diminuiu a felicidade da viagem de ida e de volta, adorei ter ido. Não tenho certas frescuras, não. É certo que desejei ir para a Cachoeira do Tremembé, de dar um giro em Itacaré, em Boipeba e depois, na volta, ficar em Morro de São Paulo até à terça-feira... Mas eu tinha que voltar, até porque os últimos fragmentos do muro que eu tenho a derrubar estão com certo atraso, haja vista as coisas concernentes ao meu mais recente emprego.
Andei pensando na minha ex-amiga, também: pois é, a pessoa até hoje foi incapaz de me parabenizar, desafiou minha lógica pessoal, que aplico porque vivo e acredito nela: Quando a gente ama um amigo, confunde as vitórias dele com as nossas próprias vitórias. Ela não veio comemorar comigo, não se irmanou... E acho que sugeriu que eu tivesse inveja dela, mas penso que só pode ser engano de raciocínio meu, pois eu não teria o que invejar naquela pessoa. Será que ela quer dizer inveja de coisas materiais? Não há nada de material na vida dela que, adquirido em 48 ou 60 prestações, eu também não pudesse ter, caso quisesse... Não deve ser, né? Eu nem tenho vaidades mínimas como usar joias ou investir na aparência externa da casa... Não faria sentido. Tenho vaidades, sim, culturais, estéticas, coisa de querer produtos bons, de qualidade, frequentar lugares bons, ser uma pessoa, como eu digo, Terceiro Piso... Bem, talvez seja o mesmo jogo do motorista: a pessoa não assume sua parcela de culpa e responsabilidade pelo ocorrido e apela para o plano abstrato, revertendo os lugares e desqualificando a vítima em favor do criminoso. Conheço esse jogo!

terça-feira, 28 de maio de 2013

Os meninos de ontem




Passei o domingo indo do sofá para a cama, num sono acumulado desde sexta-feira, quando recebi a visita comemorativa de Marcone e de FJ. Visita forçada, porque desci meu repertório de pretextos para não receber ninguém, porque eu realmente não estava a fim. Aí eles vieram e ficaram aqui até perto das duas da manhã, ouvindo The Police, Smiths e The Cure, conversando amenidades e profundidades existenciais, regado a álcool.
Esquisito e incomum é dar uns amassos com o testemunho do amigo no mesmo sofá. Quase nem há amasso, nem intimidade, nem coisa alguma...
No sábado, teimei e fui ao show da banda local que eu gosto, dançar até os pés doerem, mas no fim das contas ficou apenas o sono, porque deu pouca gente na festa e a motivação da banda é proporcional à bilheteria. Não foi lá muito animada quanto costuma ser.
Mas queria falar de um troço interessante que foi a recepção dos dois amigos ao torpedo SMS que eu enviei a FJ. Depois de muitos pretextos para ficar sozinha e em paz, lá pelas 21 horas eu escrevi que se ele quisesse me ver na tarde do sábado, viesse após as 15 horas, pois antes disso eu estaria ocupada.
Os dois disseram que chegaram a falar ao mesmo tempo o quanto eu era fria e objetiva, que estabelecia horário para os desejos. Segundo Marcone, eu ignorei quando FJ estava dizendo que queria me ver de todo jeito, que estava com saudades, vontades, e etc. Sim, eu não ouvi nada disso. Eu disse apenas que a gente se veria depois porque eu estava cansada.
Para eles, foi um absurdo.
Ocorre que eu tenho o que fazer e respeito minhas vontades. Não gosto de receber visitas quando não quero recebe-las, por coisa interior mesmo, falta de vontade e de astral.
Não vivo a vida sem roteiros: tenho coisas a cumprir, tenho horários a seguir e planejo meus dias de modo a ter horários livres ou turnos mais convenientes para ócios, prazeres, festas e etc. Também gosto de ficar sem preocupações com horários, por isso planejo, para não ter que interromper o que está bom e sair correndo porque no dia seguinte tem horário, no turno seguinte tem compromisso, etc.
Sou metódica. Preciso ser. E não seria feliz com um dia todo cheio de surpresas, com a vida desordenada e tudo fora de lugar. Decerto, às vezes deixo para amanhã o que eu deveria fazer hoje, desde que não haja prejuízos. Coisa rara, mas declino de fazer uma ou outra coisa se assim me parecer conveniente.
Odeio olhar uma mesa cheia de textos para ler, trabalhos a corrigir, coisas a fazer, prazos a me apertar... Não sou do tipo que gosta de trabalhar sob pressão. Por isso terminei minha tese antes do prazo: tenho que fazer, faço. Sei que em escrita a gente trava, se desvia, cansa, acha que já disse tudo, se repete, se confunde... Mas tem que ser feito, vamos fazer!
Aí, nesse intervalo de coisas eu perguntei por que que Marcone largou o mestrado e ele simplesmente me disse: “Drogas!”. Está explicado porque temos perspectivas diferentes demais. A diferença também está aí, na responsabilidade, nas escolhas, no foco... Acho que eu, se fosse viciada em qualquer coisa, ainda assim iria concluir o que comecei porque não conheço angústia maior do que deixar uma missão descumprida.
Deus me livre! Se eu começar, concluo. Se algo diferente disso um dia ocorrer, acreditem que será porque depois de percorrido um caminho eu percebi estar na direção errada e, neste ponto, eu não iria persistir num caminho errado apenas para dizer que terminei a corrida.
Nós três somos de uma mesma geração. Marcone e eu somos de uma mesma geração na UEFS, conhecemos as mesmas pessoas, os mesmos maconheiros, as mesmas bandas, os mesmos professores, os mesmos protestos... E a gente fica anacrônico, para não dizer ridículos, quando passa do tempo de ser irresponsável e inconsequentes e quer entrar na quarta década de vida como se estivesse na segunda. No caso dele, então, 42 anos de puro desajuste, todo trabalhado na irresponsabilidade.
Vejo isso num bando de colegas: descompasso temporal. Querem ser hippies e ter dinheiro tirado dos outros, dos que trabalham, para comprar cervejas, drogas, ingressos para show e passeios pelo shopping. Herdeiros bastardos de um comunismo made in U.S.A., e o que eu posso dizer.
Bom, mas essa gente é divertida e não critico por não gostar deles. Critico porque nos chocamos reciprocamente: eles, por eu estabelecer horários e limites, metas e expectativas; eu, por eles quererem viver sem nenhuma amarra social que presuma disciplina, obrigações e roteiros.
Bem, estou de saída porque vou dar um amparo espiritual a uma pessoa muito amada que sofreu um impacto de rompimento afetivo, o que em termos práticos quer dizer que ela levou um pé na bunda. Em favor do sujeito, digo que ele foi digno, assumiu seu novo relacionamento, eles já estavam separados mesmo, mas a minha chegada nutria esperanças, apesar de tudo indicar o contrário. Quem quer saber de razão num contexto desses, né? Ofereço meu ombro.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Meus passos


Ontem, no fim da tarde, corri de novo. Eis um exercício de que gosto verdadeiramente. Parei de correr pelas avenidas cercadas de carros chatos, de barulhos demais, de poluentes demais... Depois, me deu vontade de correr pela Kalilândia só para ver a casa que era dele; para ver a cafetière que eu tomava café gelado com a amiga que pirou, as ruas por onde eu passava na adolescência, na volta das festas, para a minha casa, porque morei um bom tempo na Getúlio Vargas.
A cafetière era a Bombocado e acabou virando outra Vanille, como a dos Capuchinhos, que eu tanto ia com a minha amiga psiquicamente desequilibrada. Era bom ir lá, conversar.
Lembro dos meus domingos de ressaca de sono. Incrível como desde muito cedo não tive o menor interesse por bebidas, a menor atração pelo álcool... se ao menos fosse gostoso! mas não nego que vinho faz falta na minha geladeira para os períodos de TPM: sonífero potente!
Aí corri e passei em frente à casa que era dele. Ele é aquele, o L., a quem eu pensava ver em janeiro deste ano. Não vi. Nada sei sobre como ele está. E aí aconteceu do FJ ter aparecido exatamente em janeiro deste ano.
O que eu queria mesmo falar é desta paz de estar sozinha. Enfim, só. Não por mal, porque tenho companhia, tenho rolo, mas porque preciso me sentir livre. Entendo Thales muito bem: precisamos ser livres, nunca iremos casar. Nisso somos idênticos.
Reclamamos da solidão chata, de não ter companhia eventualmente, de ir  a uma festa só, essas coisas, tudo circunstancial. Mas amanhã tem uma festa e eu quero ir sozinha. Irei! Acho que o Outro não vai ligar, nem ficar de bem de mim (criancices de ficar de mal) e eu não trocaria uma noite de agitos por uma noite com ele. Ele não iria querer me acompanhar: ficou careta e chato. E se tem uma coisa que eu acho legal são os amassos de fim de festa - de começo, não, porque me empatam de dançar.
Perdi o jeito com namoro: não consigo ser simpática à ideia de dar satisfações, de obedecer e acatar automaticamente. No sábado passado ele me anulou, decidiu por mim, sem consulta prévia e acreditou que eu iria querer ficar em casa fazendo, sei lá, jantarzinho especial, ou nada disso, mas ficar sentada no sofá esperando o sono pegar a gente. Sinto muito!
Daqui a uns anos, poucas décadas, não terei mais vitalidade para sair, para dançar...Tudo passa, inclusive a disposição física. Não sou sedentária, não sou uma múmia que se contente em sentar, beber e conversar: tenho urgência e necessidade de movimentos.
Na outra semana e´capaz de eu ir à praia após o dia de aula, já na quinta-feira, se o sol permitir.
Não sou feliz ao lado de gente mal humorada, não me contento com pouco embora goste do simples...Não sei como podem confundir o pouco e o simples...
Bom, vou escolher meu figurino, traçar minhas rotas, horários e planos porque vou a festa sozinha, só para dançar e curtir a festa. Tenho o pavio curto e os relacionamentos requerem paciência. Que posso dizer? "Tem, mas acabou!".

quinta-feira, 23 de maio de 2013

"Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido"?




Não escrevo coisas extraordinárias, lógico. Escrevo sobre coisas banais que me espantam ou que cercam meu entorno. Às vezes estas coisas são autobiográficas, outras vezes, são imaginativas e, como todo mundo que escreve, escamoteio nomes, fatos e lugares.
De vez em quando, presumo que alguns elementos do Facebook rastreiam minha vida por aqui. Por aqui pode ser, por lá, não: deixo só fragmentos da vida real por lá, acho que aqui tem muito mais verdades – estilhaçadas, descontínuas, verdades pessoais.
Estava pensando na coisa mais óbvia do mundo: o quanto os seres humanos se desviam dos sentimentos desagradáveis. Por isso querem me obrigar a perdoar, por isso não se pode declarar ódios, decepções, antipatias, raivas, desejos inconvenientes...
Desta vez eu tentei me render.
Até faço brincadeiras, afirmando que a sapiência é a capacidade de engolir sapos.
Experimentei engolir, deglutir sapos no Corpo de Bombeiros; nas amizades e na UFBA também. Tudo pela sobrevivência!  Mas o que ocorre é que uma hora ou outra, eu vomito.
Na vida real é assim: se preciso falar e não falo, fico com ânsia de vômito.
Olha quanto eu tentei ser maleável, perdoar: vivi o dia seguinte, esperando a tristeza passar. Decepção com amigo me dá tristeza, sabe? Acho que é por ver que eu não era assim tão importante, que a consideração não era recíproca, que aquilo que eu pensei haver não havia... Aí fico triste. Depois, perco o rebolado quando eu tenho que falar com a pessoa.
Geralmente, se amo o amigo, falo o que tenho para falar. Pago o preço, mas não sou covarde: se eu errei, admito! Se for necessário falar, falo. Entretanto, a pessoa em questão não admitiria jamais a pisada de bola. Ficaríamos no diálogo (monólogo?) da negação.
Eu havia esquecido que esta minha história aconteceu com outra amiga em comum e esta mesma, num cenário igual. E fui eu quem disse que caberia o respeito e a consideração pela outra parte.
Não quero ninguém perto de mim por obrigação, em circunstância nenhuma.
Digo que quando a gente ama o amigo, confunde as vitórias dele com as nossas próprias vitórias. Digo, ainda, sem hipocrisia: só tenho inveja da Carla Bruni. De mais ninguém: tudo que quero está ao meu alcance, já tive 20 anos, viajei, vivi aventuras, já fui aos shows que eu queria ir, já tive dinheiro para gastar inconsequentemente, tive a formação que eu sonhei, amei e fui amada e se inveja há é daquele tipo subjetivo da ordem de ter inveja de quem consegue perdoar facilmente.
Queria ter os cabelos longos, queria ser mais alta, queria ter lido mais livros, queria ter uma turma boa, que gostasse de sair aos sábados à noite e de viajar juntos nas férias e queria a sorte de um amor tranquilo porque meus relacionamentos têm sido conturbados. Não vejo quem tenha o que quero, não vejo a quem invejar e aqui admitindo que a sociedade também repila a inveja, mas a estimula à medida que fomenta as competições do ter e do ser; digo com tranquilidade que não tenho inveja de ninguém.
Contra mim conta esta pouca capacidade de perdoar. Pior ainda se eu não conversar a respeito: sei que só iria ouvir mentiras. Ouvi muitas mentiras e menti ao fingir acreditar e concordar. Assim é que se acaba uma amizade.
E se houvesse conversa, iria ser um tal de fiz isso por você, fiz aquilo por você... E esta é uma discussão em que sempre perco porque me sinto envergonhada em dizer o que já fiz pela pessoa, onde fui pela pessoa, o que passei com a pessoa ou pela pessoa. Não vejo vantagem em vencer uma discussão: não é debate político.
Minto muito agora porque omito o que sinto, fica assim, cada um na sua a adivinhar e conjecturar o que terá motivado a dissociação.
Minto porque não digo: “Olha, eu não acredito em você. Eu sei que você simplesmente não iria cumprir o trato e creio que se não fosse por quem te acompanha, você sequer teria aparecido.” É o que eu penso. Não foi o que eu disse. Também não quis alimentar o conflito e achei, sinceramente, que o passar dos dias iria arrefecer a contrariedade.
A desconsideração sofrida, justo comigo que não merecia, tocou forte, determinou lugares e sentimentos e eu percebi que vivia melhor sem alguém para me magoar nos momentos raros em que tudo deveria ser festa. Porém, me incomodo por não deixar as coisas explícitas.
Quando há um tempo uma pessoa mega-falsa foi dizer a uma colega de trabalho que eu teria lhe dito que as atribulações passadas por sua desafeta eram efeitos do ebó de autoria desta colega de trabalho, fiquei indignada pela mentira, pela injúria, mas sobremaneira, pela pronta aceitação da colega, que não titubeou a respeito de eu dizer ou não coisas deste tipo. Acreditou, me rechaçou sem apelações. Em minha cabeça eu fiquei perplexa. Vê se pode? Não só eu não diria, como não faz sentido algum.
Não obstante meu respeito pela cultura africana, eu gostava das três pessoas em questão: da falsa, da colega e da ‘atribulada’. No fim das contas, só a atribulada merecia o rótulo da sinceridade. E assim desfez-se a amizade. Para uma delas, já vai tarde! Para a outra, sinto muito: eu nunca tive o que falar dela e até hoje, torço para que ela esteja bem. No cerne das coisas, digo sempre: Deus te dê o que você merecer!
Por coisas desse tipo, prefiro o enfrentamento. Gosto do direito ao contraditório, gosto da acareação: acaba a treta, corta o rabo do Diabo na hora! E, sabemos: há quem viva de injúrias. Minha porta está fechada a esse povo faz tempo!
Não dá para perdoar. Pensei que pudesse, que fosse opção, que alguma educação sentimental pudesse reorientar meus afetos, mas não deu: não perdoei. Talvez até perdoasse, como ocorreu com o meu ficante, que assumiu seus erros, suas falhas no tratamento que me deu – estou rezando para ele perceber, agora, que anda me tratando como esposa, que está infantilizando tudo (e sei que vai ficar infinitamente sem falar comigo até passar a criancice)...
Tenho a carga cristã na lembrança: “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Tarefa difícil demais!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Protesto (II)

Protesto contra  censura, contra a caretice generalizada dos puritanos hipócritas e, principalmente, protesto por não ter vizinhos parecidos com este sujeito da imagem acima!

Protesto (I)

Protesto contra a censura!


Estado de luta!




Ah, meu Deus, como eu ando sem saco para as criancices dos adultos!
Mal suporto a criancice dele, que se sentiu preterido porque eu não quis ficar feito uma idiota, na noite de sábado, com ele aqui em casa, a fim de fazermos nada.
Tampouco tenho saco para joguinhos idiotas com amigas infantilizadas que pisam na bola e são incapazes de admitir. Sinal claro que de que minha amizade vale menos do que um pedido de desculpas, né? E o rolo que isso dá? A gente está falando com uma, a outra, que se sabe na berlinda e na mesma situação, toma as dores para si.
Francamente, as pessoas só fazem quinze anos uma vez na vida. Depois farão dezesseis, vinte, trinta... Quinze anos, de novo, nunca mais!
Nossas cerimônias pessoais, do casamento, da formatura, das defesas de mestrado e doutorado, são só uma vez. Se você se formar de novo, será outra formatura. Então, é assim: cada oportunidade é uma oportunidade porque ao longo dos outros 365 ou 364 dias do ano, vivemos dias comuns. Separamos uns poucos deles para que sejam especiais, por isso me senti profundamente magoada pelas negligências que me fizeram...
E aí, se a gente fica 10 dias sem falar com uma pessoa, às vezes os ventos de mudança sopram bem forte e tiram tudo do lugar – às vezes até nos levam para longe. A vida corre. Foi o que me aconteceu recentemente: o ficante voltou, o outro apareceu, eu fiz uma viagem, eu conheci gente, eu fui a festas, eu fiz um concurso, eu fui aprovada, as coisas se movimentaram e a gente vai se readaptando, redirecionando posições...
Sinto falta de todo mundo que eu gosto. Senti uma tremenda ressaca moral quando dei uma dispensada nele porque o negócio estava ficando sério e sinistro, com ele se impondo em minha casa e querendo determinar como seria meu final de semana, tudo de forma imperativa.
Ouvi uns “Compre isso!” e “Faça aquilo” e quando fui argumentar, a última palavra era dele (assim como a primeira, assim como todas). Não, eu não quero casar. E não permito que casem comigo sem a minha autorização.
O que eu queria era uma relação boa e leve, com cada um na sua, com programas a serem discutidos e combinados, com uma confiança a ser construída ao longo do tempo...
Mas engraçado mesmo foi o ponto a que Zé Bonitinho chegou recentemente: ele me ligou dizendo que os negócios dele iam de vento em popa e que agora que soube que passei no concurso, poderíamos ser uma sociedade não só em termos afetivos, mas em negócios. Tenha santa paciência! Quando falo com ele me sinto impotente e cansada: já disse que não quero, já disse que tenho namorado, que não tenho interesse por ele... Nada resolveu! Talvez isso só passe quando eu morrer. Que obsessão ridícula!
Bom, hoje voltei a correr no fim da tarde. Adorei! Gosto de estar só, de correr de boca fechada, porque odeio fazer qualquer exercício conversando... Estas semanas não estão sendo fáceis, com um bando de coisas para fazer, mas ao correr eu me concentrei, pensei na vida, fiz planos...
Às vezes sonho com um verão bom, com viagem entre amigos, cada turma num carro, rumo ao litoral, à Praia do forte, nas reuniões do fim de tarde na vila dos pescadores e dos jantares por lá, com a torta mousse de café e chocolate no Tango Café. Mas as pessoas vão se fechando nos seus mundinhos perfeitos, em seus recalques, despeitos, invenções e falta de coragem... Aí a gente olha e já não há um amigo ali.
Não seria eu se escondesse de mim mesma as decepções que sofro. Perco o rebolado diante de um amigo que me magoou, não sei fazer o teatro certo para disfarçar que tenho mágoa...
Bom, acho que ele não vai falar comigo tão cedo, nem faço questão. O mesmo vale para a ex-amiga: não sou uma pessoa de paciência, não tive filhos e detesto criancices.
Apesar disso tudo, estou cansada e feliz, porque a felicidade não é a ausência de conflitos.Estou feliz como posso!