Louquética

Incontinência verbal

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Isolamentos

 


Não gosto de subestimar panoramas, nem de desafiar regras, apesar de discordar de muitas delas. Quanto às Leis, muitas são inúteis e tendenciosas; outras, não parecem sequer corresponder à Justiça, mas ainda assim busco obedecer.

Entretanto, desde que resolvi voltar à academia, sabia que um vírus não segue normas, não respeita feriados, não se recolhe em determinado horário nem se submete às regras do comércio e da economia. O que quero dizer com isso é que todo protocolo de funcionamento das coisas são meros arranjos, artifícios que atendem a interesses políticos e à manutenção da vida, porque mesmo gente como eu, que sai muito raramente, precisa ir ao banco, à farmácia, ao supermercado... E é preciso um mínimo direito de ir e vir, a fim de não sucumbir às vicissitudes psicológicas de tanta privação.

Na cidade em que moro tem todo tipo de aglomeração, tem um comércio pulsante, entupido de gente, tem festas clandestinas, bares cheios e mil atrocidades semelhantes mas, lá eu não vou. As pessoas colam em mim por qualquer coisa, devido ao hábito, presumo eu...ou é curiosidade pelo meu perfume, de forma que evito sair para estabelecimentos em geral, mas há dias em que me dói ficar em casa, porque preciso me movimentar. E justamente o movimento, a necessidade de movimento me fez voltar à academia.

Neste dias, encontrei uma amiga, que desinibida, falou que já teve COVID.

Hoje, uma amiga de comportamento exemplar, daquelas que se privam de sexo para respeitar o isolamento, obteve resultado positivo para a COVID...E no meu entorno, foram se formando casos – amigos, vizinhos, colegas de trabalho, até meu chefe.

Para alguns, é um alívio, porque pensam que não terão outra infecção; para outros, é a oportunidade de me dizerem: “Você também vai ter, todo mundo terá!”.

Confesso que o meu ponto de vulnerabilidade é a pandemia são as raras visitas colaterais que recebo – porque uma pessoa sempre tem contato com outras – mas isso de me dizerem que minha vez chegará me deixa de cabelo em pé. Se eu escapar de um problema respiratório -vejam bem, o nome é Síndrome de Deficiência Respiratória Aguda Grave. Presta atenção nos adjetivos: Aguda, grave! – os sintomas são horríveis, as dores de cabeça, segundo relatos,  são de enlouquecer, o mal-estar é absurdo, sono se mistura com insônia, diarreia, febre, etc...ou nada disso, ou seja, se pode se assintomático. E desde quando não ter sintomas significa estar bem? Se não há remédio, é porque tudo no vírus é desconhecido, inclusive, os sintomas imperceptíveis, silenciosos e os que se apresentam depois. Sabe quando a gente admira quem não sente dor e, depois, percebe que a dor incomoda, mas sem ela não se percebe um problema ou uma doença? É disso que eu falo. Então, tenho medo, sim. Obedeço regras e leis e até por isso, não faço spinning nem jump, porque desobedeceria o uso correto da máscara; para mim, um castigo para a respiração acelerada que os exercícios físicos assomam.

Vou à academia por causa da saúde física e mental. Mas, ao mesmo tempo, sei que multiplico meus riscos.

Estes são os últimos minutos de novembro de 2020. Em poucos minutos, entraremos no primeiro dia do último mês do ano...Nosso tempo passa e o calendário não nos trará dias diferentes, será apenas um verão com restrições e longos períodos de impacto do que vivemos.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Mantenha distância

 


Quem ama mantém distância, se quiser continuar amando e sendo amado: eis mais um reforço que a pandemia trouxe a algo já sabido. Pois é: como seres do mundo, estamos tresloucados, com emoções confusas, sentimentalmente infantilizados, pois não sabemos sequer enfrentar privações e lutos; inventamos de odiar diferença e brigar por coisas irrelevantes; estamos mais violentos do que em tempos primeiros da organização social das cavernas e cá estamos em meio a tecnologias, cada vez mais estúpidos, ignorantes, ensimesmados...

A vida sob pandemia obrigou ao convívio. Agora, descobriu-se que ser pai e ser mãe é maravilhoso, desde que não por 24 horas ao dia. E olha que, enrolando direito, dá até para ter intervalo e ir ao banheiro e, em alguns casos, dormir.

Concluiu-se que a ida dos filhos à escola, à academia, ao shopping, associada à saída dos pais para o trabalho, desenhava um importante intervalo, intervalo, inclusive, para gerar a falta, a valorização do tempo juntos. Antes, não se tinha tempo para o convívio familiar. Agora, têm-se o tempo, praticamente de forma integral, o que é deveras sufocante e cansativo.

Não acho que esteja todo mundo em casa, não. Mas estamos MAIS em casa, sim.

Casamento bom precisa ter distâncias que permitam a cada um ser quem se é sem a presença do outro. Para mim, isso é a verdadeira auto-afirmação: quando sou quem sou sob forma solitária, ao natural. Aí é quando a pessoa não é a função que exerce: não se é pai, mãe, filho, empresário, professor, batista, espírita, ateu, flamenguista, gremista ou torcedor do 15 de Piracicaba...Porém, está faltando o tempo vago e a distância necessária para isso.

Algumas outras distâncias, até rudes, se tornaram possíveis, nos salvando dos terríveis convívios com familiares ou com aquelas visitas que nos evocam orações para que se vão ou sequer venham.

É preciso distância. Quando isso veio sob a forma de distanciamento social, por uma questão de regra imposta para evitar contaminações, a gente esperneou. Todavia, confesso o meu alívio por não ter gente grudada em mim nas filas e nos ambientes, como outrora. Decerto, na maior parte do tempo, os distraídos e os cara de pau seguem colados em nós, apesar de olhares de reprovação e de grosserias discretas que eu faço, tipo, sair de lado, ir me afastando da pessoa, a fim de que ela permaneça onde está...geralmente, eu saio de lado e a pessoa vem para cima de mim.

Se alguém se lembra daquela frase tão estampada quanto repetida, de José Saramago em A jangada de pedra, que diz: “Para ver a ilha é preciso sair da ilha”, repare, pois, que a distância é necessária até para ver melhor de fora – uma coisa é ver a dimensão, outra coisa é dar o zoom.

Gente pegajosa, sufocante, que cola nos seres amados, a gente chama de chiclete porque cola e incomoda. Então, proximidade é algo bom, intimidade é melhor ainda, mas distância é fundamental.

Distância é importante até na Física, para explicar percurso, trajetória, movimento – na cinemática escalar, movimento e posição...Mas, a gente não precisa ir tão longe, sacudindo memórias da vida escolar para isso: basta-nos ver, por exemplo, que há casais que moram em casas diferentes ou dormem em cômodos diferentes, em comum acordo, resguardando privacidades; há variadas formas de se exercer a distância direta ou subjetiva, mas o efeito benéfico da experiência costuma ser pessoal, particular. Eu gosto de distâncias por uma questão de bem-estar e saúde mental: imagine se meus parentes  estivessem em constante proximidade comigo? Seria enlouquecedor. Acreditemos na sabedoria escondida no parachoques dos caminhões: “MANTENHA DISTÂNCIA”, porque é uma forma de segurança, de defesa contra colisões, acidentes...como na vida!


domingo, 1 de novembro de 2020

O tempo dos teus olhos


 

Demoramos muito a aprender o óbvio, ou a aceitá-lo. Recentemente, ouvi de um psicólogo que a gente não pode julgar a si mesmo com os olhos do presente. 

Decerto, quem nunca fez uma burrada de que se lamenta tempos depois? Quem nunca ficou indignado porque não deu aquela resposta que só apareceu depois que a briga acabou ou que a situação passou? Quem nunca se sentiu imbecil por uma amizade ruim, por se submeter a alguma exploração, por ter sido besta num relacionamento amoroso – aliás, acho que é onde a gente mais se arrepende, porque depois que o amor passa raramente a gente deixa de constatar, perplexos consigo mesmos, “como eu pude amar uma pessoa dessas? Onde eu estava com a cabeça?”...Mas, são coisas humanas.

Os nossos erros, as escolhas que nos parecem as mais imbecis, as coisas loucas e erradas já cometidas, talvez, naquele momento, não se apresentaram como erradas e loucas. Fizemos o nosso possível, dentro de nossas circunstâncias.

Isso de dizermos, com os olhos de hoje, que faríamos tudo diferente, é algo que não existe, não é justo e não cabe. Por que? Porque você, hoje, tem domínio sobre o passado. Você, agora, tem outros elementos, ferramentas, mentalidade, maturidade e saberes que no momento anterior não tinha. E é preciso se perdoar, a fim de não remoer. A fim também de se libertar, porque geralmente a gente fica discutindo em diálogo interior (monólogo interior é coisa de literatura. Na vida real a gente dialoga, responde a si mesmo com hipóteses), a gente questiona por que esticou a corda em dadas situações; por que se permitiu passar por determinada coisa; por que não fugiu, por que não gritou, por que não rompeu, por que não aceitou, por que prescindiu, por que não fez de outro modo aquilo que a esta altura já está feito...

Muitas circunstâncias não são definitivas, não são sentenças de morte: ainda dá tempo de ter outra profissão, de mudar, de fazer outras escolhas...Mas, o passado passou. Não é justo que o adulto de 35 anos, de hoje, julgue o jovem de 15 a 20 anos que ele foi.

As coisas irremediáveis e imutáveis mostram que o tempo não anda para trás, não tem retrocesso, não tem tecla backspace nem delete. Paciência! Está feito.

Eu mesma constatei, surpresa, que minha madrasta já não poderia mais me fazer mal, porque eu não sou mais uma criança de sete anos. Ela também já não é uma mulher de 33 anos...está velha, doente e não apenas não me amedronta como desperta em mim solidariedade e compaixão. Não somos os mesmos e isso não invalida a experiência. O que eu passei ficou em mim, durou, marcou, fez feridas...Mas, agora, a menina tem defesas, é forte e grande e não pode se comparar com seu próprio ontem.

Dificuldade em perdoar minha família eu tenho e não sou hipócrita. Contudo, preciso me resolver comigo, apesar de tudo.

No reino do óbvio, muitas vezes é preciso repetir: a minha vida é minha; a sua vida é sua. Se não, a gente fica de braços cruzados, dependentes da decisão dos outros, como se não tivéssemos o poder da escolha. 

Aquilo que não depende de nós – demandas da economia, circunstâncias externas mundiais, como a pandemia que enfrentamos, coisas fora de nossas esferas de decisão – precisa ser perdoado também em nós. O que lhe cabe, lhe cabe. Basta ter responsabilidade e não posar de vítima – se o concurso está cheio de candidatos apadrinhados, estude, para dar trabalho a quem quiser te reprovar, mas não desista antes de começar; se você quer ganhar na loteria, pelo menos jogue...crie condições para seus sonhos, em geral, fazendo a sua parte. E com o que não depende de nós, é seguir enxergando que não há nada que se possa fazer (extensivo aos amores não correspondidos, porque nem você tem culpa de amar, nem o outro tem culpa por não lhe amar e não lhe querer. A cada um, seu pedaço).

A vida da gente não pode acontecer sem nós. Também não devemos ser carrascos de nós mesmos, castigando quem fomos no passado. Era nosso possível. Não podemos ser mais um a apontar o dedo, acusando, condenando...

O tempo dos teus olhos não se revelam em marcas de expressão apenas: é preciso ter um olhar mais doce e compassivo com quem fomos e com tudo que fez de nós o que somos. O olhos do presente já viram mais do que à época pregressa poderíamos enxergar, o que nos faz videntes reversos, pois não enxergamos o futuro, mas enxergamos  A PARTIR do futuro...


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

No interior do mundo

 



Continuo na mesma: sou uma das pessoas para as quais a quarentena não significou descanso ou ócio. Não sobra tempo para a escrita, o dia consome-se numa rapidez improdutiva absurda, de modo que faço em seis horas o que antes fazia em duas e meia.

Ah, as lives! Live, para mim, é uma invenção do demônio, para perturbar a paz dos cristãos.

Fiz uma, medeei duas. Assisti três de bom grado e fui a outras tantas por obrigação moral de dar o like de apoio. Mas, não gosto mesmo de lives, por achar enervante.

Minha vida segue sem festa e sem praia. Não acredito em novo normal, porque não é normal respirar de máscara nem contabilizar centenas de mortos por dia num único país. Aliás, este país não é normal, de forma alguma.

Dos relacionamentos, em geral, o meu passou umas crises, depois se recuperou e agora segue convalescente. Houve gente sortuda, que descolou namorado. Outras tantas pessoas do meu círculo, perderam seus pares: convívio e paranoias, tédios infinitos...

Fiz algo fora do comum: voltei à academia. Não aguentava mais a vida atrofiada nas jaulas do espaço doméstico. Tentei as caminhadas e as corridas, mas eram exercícios tristes numa cidade doente, esquisita, que fechava portas cedo e aglomerava gente demais.

Voltei em 08 de setembro à academia. Fui com medo e tudo. Até o terceiro dia, os protocolos foram rigidamente seguidos. O preço da mensalidade aumentou em trinta por cento, para compensar sobre nós o período de fechamento.

No quarto dia, já se revezavam alunos em aparelhos, o álcool já escasso, nem de longe era concentrado a 70 por cento. Então, por medo, caí fora de lá antes de completar um mês.

O lugar com academia de respaldo era o SESI. Extremamente protocolar e burocrático, me obrigou a jornadas em cardiologistas e clínicos, a fim de prover o atestado de que estou apta à prática de esportes. Gastei dez a quinze dias nessa luta. Agora, estou no SESI. Valeu a pena. Hoje, por sinal, fiz spinning e adorei a professora, que nos dá segurança e observa mesmo nosso desempenho. Odeio negligência.

A musculação lá segue o básico, mas tudo é higienizado periodicamente, minuciosamente, em padrão alto de limpeza.

Assinei vários documentos atestando que sei dos riscos apesar dos cuidados. Gosto da responsabilidade deles. Se fossem mirar nos lucros, seria um lugar de maior insegurança e negligências mortais.

Este meu adendo foi, exatamente, para dizer isso: há uma inflação que deixa o básico a preço de supérfluo, por conta de especulação por lucros; e há o comerciante de todas as áreas, que quer compensar perdas estourando preços e reduzindo quantidades e qualidades. Agora, façam as contas: o básico está a preço alto – leite, óleo, arroz, produtos de limpeza, higiene pessoal (creme dental a preço de ouro; papel higiênico a preço de diamantes) – os empregos estão escassos, as perdas salariais se acumulam...o que esperar destes efeitos a longo prazo? Já estou com medo de 2021.

Todo dia reinvento a vida somente para seguir vivendo, porque nada é como antes...acho que nem eu sou como antes. Foram experiências pesadas, aprendizados e muito isolamento mesmo, sem abraços, sem festas, sem passeios, como se o mundo não fosse o mesmo...e não é. O mundo acabou: é Outro, já...

 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Todos os motivos e mais uns

 


Acho que eu nunca parei para pensar direito sobre a palavra motivação. Certamente porque, dentre o rol dos falsos profissionais que estão à nossa espreita, há vários que se definem como “sei lá o quê motivacional”.

Até crime tem motivação.

E a gente fica à procura de estímulos motivacionais. Parece que há uma distância incalculável entre vontade e motivo, válida e aplicável para qualquer esfera, já que, por exemplo, tantas vezes eu queria terminar um relacionamento, mas não poderia fazê-lo sem um motivo. Como se minha vontade de terminar fosse insuficiente; se eu esperasse a motivação enquanto justificativa. Sejamos justos: não é fácil terminar “sem mais nem menos” e, por isso, é preciso mostrar ao Outro qual é o motivo. Neste caso, então, nem sempre o motivo é claro para nós: a gente só percebe que está infeliz e pronto. Ou que o amor passou.

Motivação profissional, para certas pessoas, equivale a pressão: prazo, meta para bater, concorrência, disputa, desafio. A naturalidade, o motivo resumido ao simples querer, não é elemento suficiente.

Tem uns doidos que dizem que querer é poder. Até seria, desde que este querer (e vamos convir que querer, desejar, almejar, são bons motivos) sustentasse ações que propiciassem a realização do que se quer.

Vontade sem coragem é o típico motivo vazio.

No outro extremo da balança estão as nossas compensações: talvez o querer exija esforços e se contraponha à Lei do Menor Esforço. Então, entre a batalha e o ganho, opta-se pelo cômodo lugar de manter o desejo como sonho; a vontade como Utopia.

Entre a vontade e o motivo, nós fazemos cálculos.

Cálculos morais que nos dirão se valerá a pena. Olha como nos expressamos: “Valer a pena”. Pena é condenação, sacrifício, prisão, é o preço. Por isso, calculamos.

Como citei uma questão pessoal de anos atrás, vamos adentrar ao caso subliminar envolvido na situação: os ganhos paralelos.

Nós pensamos que não somos calculistas, mas somos o bastante: quem se prende a situações desagradáveis, fica no emprego ruim, no relacionamento ruim, com certeza tem ganhos paralelos que excedem a suposta zona de Conforto. Pode ser que o ganho seja simplesmente se poupar da dor, da dor de uma ruptura, de uma busca, de estar só, de mil coisas...e aí, invertemos o motivo: temos o motivo para sair da situação; e criamos o motivo paralelo para permanecer nela.

Existe o certo? Existe e a gente sabe qual é. Certo é voltar à calculadora moral e pesar, medir, averiguar nossa vontade real. A motivação vem daí, da vontade verdadeira. Querer, ter vontade, desejar, verdadeiramente.

Daí advém o plano: se quero e sei o que quero, o que posso fazer para ter? O que cabe a mim dentro de tal situação? São as duas perguntas básicas; A partir daí, que tempo e que meios se pode utilizar para colocar em prática a caminhada?

Ocorre que plano é um negócio complexo, com lado material, lado subjetivo e o lado das intercorrências externas (eventos fortuitos, força maior) que faz requerer constante reorientação de rota.

Outro item fundamental: pé na realidade. Precisamos ser realistas – para alguns, o realista é um ser pessimista. Não: o realista acredita e sabe que há um mundo fora de seu próprio umbigo e que ele não tem o controle de tudo. Então, ele não vai querer perder 6 kg numa semana, sabendo que a fome lhe trará dor de cabeça, mas ele vai estipular percentuais, tipos: na primeira semana de meu regime, comerei vinte por cento a menos; após dez dias, comerei vinte e cinco por cento a menos e, em um mês minha meta será comer trinta por cento a menos e me exercitar cinquenta por cento a mais (sendo que se há zero exercícios, a progressão será calculada também).

Se eu quero comprar um bem, antes de qualquer financiamento, eu preciso saber poupar. Para isso, eu não posso dar saltos que comprometam meu empenho. Então, eu começo, por exemplo, guardando cinquenta reais num mês. Posteriormente, eu sigo guardando valores mais altos, mas nunca tão altos a ponto de colocar em risco minha decisão. Assim, melhor poupar cinquenta reais que não vou sacar, a poupar cem e sacar setenta.

Se quero encerrar um relacionamento, construo o trabalho diário do afastamento, reconhecendo o que foi bom e que me atraiu até ali; avaliando o que já não está bom, avaliando a si/mim mesmo; encarando os medos que se tem. Pode ser que isso leve até pouco mais de um ano – sem querer sugerir o tipo terrível do relacionamento da ficção para ninguém, nunca esqueço o velho filme “Dormindo com o inimigo”, em que a personagem interpretada por Júlia Roberts calcula, ao longo dos anos, como fugir do marido opressor e tóxico, saindo da ilha em que vive com ele, bastante vigiada. Aprende a nadar às escondidas, traça um plano e vai embora (causa um blackout na ilha e, na escuridão, nada até o continente).

Ainda acho que a motivação maior que uma pessoa pode ter, está diretamente articulada à vontade real. Quando a pessoa quer, vai em busca – o que significa que ela sabe que nada acontecerá se ela não fizer por onde. E aí se pode recorrer a outro clichê: “motivo não falta”.


sábado, 29 de agosto de 2020

Tretas de terapias

 


Uma amiga me presenteou com uma sessão de tethahealing. Fui desarmada, sem sequer ir dar buscas, porque não queria ir com conceitos prévios, preconceitos.
Primeiro, aceitei de coração aberto o presente. Entendi a intenção.
Parece uma sessão de psicanálise, misturada a uma sessão mediúnica, com um pouco de umbanda e, como não poderia deixar de ser, constelação familiar.
Eis o que o mestre perguntou: “Você já fez constelação familiar?” Não pestanejei e dei minha resposta clássica: “minha família não tem estrelas” (por dentro, eu só pensava no meteoro e nas estrelas cadentes que tenho como parentes recém-descobertos).
Fui mais artificial do que todo o processo: fiz de conta que aceitei com surpresa, mas achei um verdadeiro mosaico, um patchwork de procedimentos religiosos.
O mestre olhou minha aura e constatou algo em minha garganta (acertou: eu somatizo os sapos engolidos, não é ironia); o mestre disse que eu tinha encostos espirituais – e aí, como espírita, eu disse logo que não há quem ande sozinho; que os espíritos se deixam atrair por similitude e todos os pormenores, conselhos e soluções que a doutrina espírita explica...
Houve um festival de lugares-comuns, do mais puro clichê (ou sou eu que já corri muitas estradas e vi repetição barata em tudo), cujo ápice foi: “Por que sua amiga se motivou a te presentear com esta sessão?”. Eu respondi a causa. Ele seguiu: “você reconhece que tem atitudes repetitivas?” Acontece que não, eu não repeti. A causa de agora é totalmente nova e desconectada de outras situações prévias.
O comportamento dele foi que pareceu ensaiado demais, roteirizado, parecendo querer induzir minhas respostas...
Não invalido a experiência porque, acima de tudo, tinha a postura amorosa da minha amiga. Sabe, eu penso que quando alguém me dá um presente qualquer, ali está a parte material, está o tempo da pessoa, na procura do objeto, está o dinheiro gasto, está ela mesma, ao se ocupar de mim. Então, valeu a tentativa de me dar alentos.
Se um ser humano treinador de toda espécie consegue adestrar a mente alheia, de modo a construir na pessoa as respostas de confiança de que ela precisa, para mim, está valendo.
Mesmo que seja mentira, está valendo. É tipo placebo: não tem nenhum princípio ativo ali, mas se você acredita, te cura.
De tudo isso eu acho o mesmo que da autoajuda: vivemos com medo, angústias, impotência, insuficiências, queremos consolos e respostas. As técnicas mais picaretas vão responder ao quadro, tanto quanto as técnicas mais sérias e científicas poderiam fazê-lo.
Crime seria fazer crer que se pode prescindir de psiquiatra, psicólogo, remédio, tratamento médico, por uma solução alternativa. Todo o resto é complementar. O exercício de falar de si, da família, dos problemas, em desabafos coordenados, ajudam a resolver os nós na garganta (os sapos engolidos).
Claro que o charlatanismo existe descaradamente. Se colocar um adjetivo científico ao lado, aí é que é sucesso: quântico, físio, neurocientífico, cerebral, psico... para dar credibilidade e chamar clientes.
Para mim, foi uma experiência nula, a tal ponto que não gerou a vontade de prosseguir. Foram duas horas de terapia ecumênica e aqui aproveito para dizer outra coisa: já topei com mil pessoas dizendo que iam à terapia e com duas mil que se diziam terapeutas. Sem a menor maldade, indaguei: e qual a sua terapia? A pessoa não sabia responder. Era terapia em terapia – ou seja, tanto poderia ser psicanálise quanto origami e artesanato. Nem as pessoas em terapia, nem os pretensos terapeutas sabiam o que era terapia.
A gente cuida da planta ou faz joguinhos e diz que é terapia (terapia, ocupação, não fazem o terapeuta ocupacional, viu? Aproveitando para brincar com a vulgarização do termo), mas é higiene mental.
Sinceramente, acho que a gente, como qualquer outro animal, pode ser adestrado, pode sofrer lavagem ou sujeira cerebral. E somos mais vulneráveis quando desesperados e fragilizados. Se estamos perdidos, qualquer farol é a luz do fim do túnel...o problema é a cegueira temporária do deslumbramento.
Os problemas humanos não são resolvidos como macarrão instantâneo. E se fosse, que gosto ruim tem aquilo...
Gostaria de dormir com angústias e acordar com felicidade, gostaria de tudo” do bem, do bom e do melhor” para ontem, mas não funciona assim.
Para quem estiver na dor e no desespero, o que funciona é parar, se lamentar, chorar se der vontade. Esta é a parte humana do desabafo. Depois que a cara inchou de choro, é hora de pensar em como resolver.
Se não houver modos imediatos de solução, resta pensar que a vida já lhe trouxe outros problemas e todos passaram e você continuou.
Se rezar te faz bem, reze. Tem em quem confiar? Converse. Não tem jeito? Simplesmente desista, viva seus lutos e invista em outras lutas.

Falo com conhecimento de causa, com relato pessoal: Eu amei por dois anos e sete meses o Ex-Grande Amor da Minha Vida, que, simplesmente, foi a experiência mais dolorosa que eu já tive. Dores que me laceravam, transformando a vida numa nuvem fria de uma noite eterna de angústia de perdas. Fui à analista, fui à Igreja (eu era católica, na época), fiz promessas, saí, viajei, namorei gente avulsa...me ocupei, para nem ter tempo de sofrer – mas, sofri e chorei. Até que passou.

Hoje, mal tenho lembranças - a lembrança virou um bloco compacto mesmo, não consigo lembrar de momentos a dois, de coisas pontuais ou singulares (graças a Deus).
Dos lugares em que trabalhei, especialmente da vida militar e da escola básica no interior, mal tenho lembrança de nomes de pessoas ou situações  – para ser sincera, nem de Aracaju eu me lembro, da universidade federal em que trabalhei... E assim é: tudo passa e a gente passará. Só não dá para existir e não ter problemas e angústias: elas vão, vem, se modificam, mas acompanham a vida.

Sempre que acabo um texto, perco meu tempo para explicar que eu não estou prescrevendo nada para ninguém, que cada um é livre para as suas escolhas e que coloco aqui coisas particulares, sem endereço certo, então, é da minha conta. Cada um que responda por sua vida.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Tristes trôpegos

 


Estamos todo tristes: nós, os de cá, os meus próximos e eu. Inclusive os meus mais próximos que moram longe – se tem uma coisa que a filosofia dos para-choques de caminhão ensina direito, é esse negócio de que a amizade supera distâncias. Assim, no afeto estamos juntos.

Por certo, não temos depressão patológica (até porque, ela é bastante singular, embora algumas pessoas gostem de se dizer depressivas, para ganhar afagos e atenção e, fundamentalmente, para capitalizar um suposto estado de angústias), mas notamos o peso da tristeza.

Voltei a fazer caminhadas sistemáticas, porque eu fiquei de março a julho em quarentena severa e, aos poucos, foi me dando pavor de não fazer o corpo se mexer. As academias abriram, mas, lá eu não vou. Só que parece que eu fiquei com energia acumulada mesmo: andar três quilômetros não dá para nada, para mim. Aí, tenho feito de 6 a 10km, geralmente, 3 vezes na semana. Alterno com exercícios em casa. Julgo que, se assim não fosse, eu estaria deprimida.

No período anterior, chovia mais, não dava para sair caminhando.

Como eu já declarei, nunca me faltou o que fazer durante a quarentena: reuniões, lives, TCC (tenho um para fechar domingo, que me foi entregue hoje), livros...E a casa? Excedendo o trabalho doméstico, que nunca falta, que nunca acaba e que sempre se renova, fizemos o jardim (tarefa que nunca acaba, porque implica no cultivo de bougainvilles, em pintar pneus, pallets, vasos, decoração, etc); fizemos um deck de madeira, que levou todos os meus vinténs e dentro de casa também sigo arrumando as coisas.

Junto agora todas as coisas que parecem dispersas: ao caminhar, vejo o mundo de outro jeito, como se fosse um outro lugar. Não há mídia que me faça acreditar em NOVO NORMAL. Não é normal caminhar de máscara, com a respiração reduzindo ou o ar ficando quente...E olhar as pessoas, em filas persistentes, tentando existir, tentando ser e durar...

Não volto à academia neste ano. O NORMAL não vem por decreto. Não é normal nada disso que vivemos agora. Estabelecimentos abertos e abarrotados de gente, não vão tornar as coisas normais – pelo menos para mim, ando com muita estranheza, cautela e distância e ai de quem ousar me visitar! Preciso de distância.

Estar em casa não me incomoda. Só não é normal. A praia não seria normal agora, por exemplo...

Tempo?  Não tenho, não. O fato de romper a rotina e a normalidade, não implicou em que eu tivesse tempo. Meu dia acaba logo. Meu dia não dura nada.

Achei que somente eu tinha essas angústias: vejo as pessoas agirem normalmente, naturalizarem tudo...aí vem meu amigo contar que vai ao psicólogo na terça, e um outro, a reclamar tristezas e, ao olhar, estamos aos montes, todos tristes. Vou fazer trocadilho com Claude Lévi-Strauss, na obra Tristes Trópicos, sem querer desmerecer o ensaio antropológico, mas apenas para dar um título condizente com nossa caminhada trôpega, vacilante, no terreno da tristeza.

Outro aprendizado, com velhos sentimentos em novas circunstâncias – está difícil ser normal.