Louquética

Incontinência verbal

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Todos os tempos do ser

 


E vamos nós ao quarto mês do ano, abril, mês de meu aniversário e, por isso, bastante especial para mim.

Creio que quando a gente ama a si mesmo tende a ser percebido como um ser humano convencido ou arrogante, mas me importo pouco com isso. Aceito o tempo, apesar de saber que nunca mais seremos os mesmos, embora, por outro lado, tudo seguirá sendo igual, porque numa pandemia não há muitas variações, a vida segue plana. As chances das boas coincidências diminuem, porque saímos pouco, não desfrutamos das festas, das recreações ou situações coletivas que favorecem contatos, trocas ou descobertas.

Ano passado, meu aniversário foi no domingo de Páscoa e a pandemia era uma novidade assustadora e desconhecida. Assim, foi muito triste, sem bolo e sem abraços o meu domingo de aniversário. 

Já estou em festa. Por dentro, o coração sente o júbilo de ter sobrevivido até aqui, ter escapado a muitos abismos, a algumas tristezas, a algumas hesitações...

O tempo ajuda a julgar as coisas e a localizar as águas que nunca mais beberemos e os lugares onde jamais voltaremos e, entre nunca e jamais, a certeza que o correr dos anos nos dá de que "o passado é uma roupa que já não nos serve mais", conforme Belchior cantava.

Tudo que foi bom, virou saudade. Junto a ela, traumas, dores, alegrias, descobertas, vitórias, escolhas...E sigamos a novos capítulos. 

Há uma música de Ivan Lins que remete muito ao perfil das arianas, a música Dandara:

Ela tem nome de mulher guerreira
E se veste de um jeito que só ela
Ela vive entre o aqui e o alheio
As meninas não gostam muito dela

Ela tem um tribal no tornozelo
E na nuca adormece uma serpente
O que faz ela ser quase um segredo
É ser ela assim, tão transparente

Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar
Dandara

Ela faz mechas claras no cabelo
E caminha na areia pelo raso
Eu procuro saber os seus roteiros
Pra fingir que a encontro por acaso

Ela fala num celular vermelho
Com amigos e com seu namorado
Ela tem perto dela o mundo inteiro
E à volta outro mundo, admirado

Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar
Dandara


quarta-feira, 31 de março de 2021

Muito Cuidado!

 


Para mim, a pessoa que não se cuida, que se dá ao desleixo, falta a si mesma. Não entendo o quanto possa faltar de amor por si, a ponto de a pessoa declinar da higiene pessoal, da aparência, dos cuidados que a gente tem até por uma planta – regando, retirando folhas mortas. E eu só estou falando do exterior.

Nunca me preocupei adequadamente com aqueles imbecis que dizem que ‘a gente se arruma para o outro’, porque estes devem pensar que o cuidado pessoal é futilidade. Geralmente, os invejosos, despeitados, preconceituosos e condoídos formam esse time. Para mim, aquele ditado que repetirei a seguir se aplica a tudo na vida: “Se não tens um palácio, enfeita a tua tenda”. Organização e limpeza são lindas e benvindas, na casa, na vida, no corpo. O resto é preguiça e acomodação a coisas que as pessoas nem sabem se pensam mesmo ou se foram coagidas a concordar.

Tanto faz a idade, o gênero, a classe social, o nível de escolaridade, fica bem em qualquer pessoa se cuidar. Agradecer a si, amando a si, reconhecendo o corpo que tem da forma que ele é, já não é a fórmula batida da autoestima. Mesmo porque, autoestima é outra coisa muito superior às balelas da autoajuda – ela diz respeito a um conjunto de coisas, à saúde mental, às nossas escolhas por nosso bem-estar, aos vícios de que nos desviamos, a convívios tóxicos de que nos desviamos...E neste último caso, a família pode se enquadrar. Não conheço veneno mais potente para derrubar moralmente uma pessoa do que um convívio tóxico.

É preciso escapar. Se não dá para fechar a porta ao parente manipulador, àqueles que se aproximam de nós para se aproveitar ou para tentar nos diminuir – quem disse que irmãos não fazem isso? Quem disse que pai e mãe não fazem isso? Quem disse que esposa, esposo, cunhado, não fazem isso? – podemos limitar o alcance dessas pessoas, podemos tomar consciência de onde vem o ataque.

Um dos benefícios da pandemia foi servir de pretexto para afastar esse tipo de gente. Mas, claro, muitos forçam o contato. Uma das peças fundamentais do cuidar de si é a manutenção da privacidade. Sim, você precisa ter segredos – mesmo que não haja razões para esconder nada, por que você precisa compartilhar ganhos, perdas, felicidades ou dores com gente que não tem apreço por você ou, se tem apreço, não tem respeito? Há coisas somente nossas. Inclusive vitórias. O que dá para partilhar socialmente é a superfície do bolo.

Lembro da posição de despeito que uma ex-amiga minha tinha contra TODAS as pessoas que adquiriam bens móveis e imóveis, pagando à vista: parecia uma ofensa pessoal, que alguém pudesse poupar para comprar, declinar de prestações, parcelamentos e outras emoções dos financiamentos. E se lhe parecer exagero, ela, que era avarenta, julgava avarentos os que conseguiam pagar à vista, como se aquilo fosse coisa depreciativa. Muito particularmente, louvo à capacidade de organização financeira, de cuidado, da protagonista da compra. Poupar é igual a regime: não é fácil, mas depois que você se adapta e vai vendo resultados, vai cobrindo e cumprindo a meta, e, finalmente, incorpora como parte constitutiva de seu cotidiano. Penso que quem assim procede, teme muito o dia de amanhã – sabe-se lá o que dará da economia? Sabe-se lá que intempérie de qualquer espécie pode assolar a nossa vida? Eu nunca me imaginei encarando uma pandemia, por exemplo...E olha aí, a gente nessa...Nunca imaginei que funcionários públicos pudessem ficar sem salário por conta de situações orçamentárias de Estados e municípios...mas, fui vendo acontecer com os outros.

Outro fato que a gente capta mal é a vida dos outros: ali são exemplos em que se mirar, para o bem e para o mal. Essa fragilidade remonta a uma velha quadrinha popular muito famosa por aqui, que diz: “Quando vir alguém chorando, não sorria, tenha dó, porque o Mal deste mundo não ficou para um só”, essa velha lição de empatia, serve de espelho para a gente saber que todos nós somos frágeis e suscetíveis.

Olhando também para a vida dos outros, a gente vê o desleixo, a falta de cuidado dos que têm intimidade entre si. Pavoroso a pessoa se permitir ser flagrada no dia-a-dia, como casal principalmente, sem zelo, sem cuidado...já não bastam as partilhas inevitáveis da cara inchada ao acordar, os desalinhos, cheiros, fluidos, tantas outras coisas, que tiram o brilho discreto da privacidade. Por mais que as pessoas saibam das secreções e excreções biológicas, humanas, cabe se preservar minimamente. Odeio, até com amigos, pautas escatológicas ou comentários a respeito...sim, eu me apavoro.

Quando me dizem que certa pessoa está ‘toda largada’, eu penso que a pessoa parou de se amar, que está largada à própria sorte...

NOTA: Citação sobre ex-amiga, cabe um esclarecimento. É que, por exemplo, tem as pessoas que deixam de ser amigas porque não há o afeto, o apreço, a confiança, porque o convívio se mostrou tóxico, com frequentes desrespeitos, que resvalam para humilhações ou conflitos reiterados. Amigos não devem desrespeitar a dor do outro amigo. Amigo precisa fazer concessões. Se assim é, não há motivos para manter. Mas, há também, em meu caso particular, pessoas que eram amigas há anos, num contexto específico e que fazem parte de um tempo. Não gosto do convívio, não quero contato, apesar de nutrir carinho por elas, lhes desejar o Bem. E é algo que pode acontecer com gente da família, de cuja distância depende o bom andamento da relação.


domingo, 14 de março de 2021

Há mar

 


Na sexta-feira, 12 de março, combinei com meu namorado de irmos à praia no dia seguinte, depois de meus 14 meses sem colocar os pés no litoral. Planejamento que levou em conta ir bem longe mesmo, porque, sinceramente, não gosto de aglomeração em tempos normais e muito menos sob pandemia.
Naturalmente, iríamos mais por questões de saúde mental do que, necessariamente, pelo lazer.
Como um preso qualquer, estive e estou privada de coisas triviais para o bem-estar. Todavia, não foi o prefeito, nem o governador, nem autoridade eclesiástica, nem um super herói da Marvel que me impediu de viver a normalidade: foi a pandemia. E toda vez que recuo diante do que desejo, neste sentido, não o faço por obediência a decretos externos, mas por aquela lei interior, chamada Lei de Sobrevivência, que, a seu turno, me chama à responsabilidade sobre os meus atos e alerta sobre as consequências deles. Nem quando eu era adolescente tive esses arroubos doidos de querer desafiar e ser do contra.
Não conto quantas amigas minhas saíram da UTI, por COVID agravada, e foram direto para viagens, praias e festas. Não é exagero nem invenção: saem do estado grave mesmo, vão em casa e seguem feito loucas para Fortaleza, para a Chapada Diamantina, Ilha de Itaparica e etc., isso se eu excluir os amigos que, em geral forçam as visitas a mim.
No fim das contas, o litoral está interditado por conta da pandemia. Fiquei em casa. Sinto muita falta do mar, mas pior seria sentir falta de ar. Se posso evitar, evito.
Tem sempre um doido que diz que o governante que institui a redução do fluxo de pessoas nas ruas (lockdown, meus amigos, no Brasil, nunca houve) é um monstro, ditador, miserável. E eu só acho engraçado é o ser humano perder de vista que comércio aberto é lucro político para o governante, significa ganhar simpatias e afagos, é imposto que entra, é fazer a média justamente com esta maioria ruidosa, que comanda o país de verdade – os cargos, no geral, são figurativos. Governante, no Brasil, costuma ser um fantoche, é só um quadro na parede. Para chegar ao ponto de o governante decretar fechamentos, há de se crer que é uma decisão com contas muito bem feitas, porque no nosso país não se dá ponto sem nó, não se faz qualquer coisa sem antes traçar o cálculo dos impactos. Assim, quem quer que seja a ocupar uma cadeira no poder político, de qualquer partido, de qualquer religião, gênero, time ou facção, não opta por renunciar ao capital simbólico e ao capital real que seriam imensos se eles simplesmente deixassem o barco correr.
Poderia não pagar por tal escolha, tão impopular, e dizer que é de conhecimento de todos a pandemia e que todos façam o que bem entenderem, porque são cidadãos livres e conscientes, que respondem por si mesmos. Então, ele estaria de mão lavadas e cada um que assumisse suas escolhas.
Assim seria, se pudesse ser.
Às vezes, isso que nós enxergaríamos como plena liberdade, no fundo, não passaria de negligência política.
Presumo que eles poderiam fazer isso. Lucrariam muito em todos os sentidos. Mas, apesar de me contrariar a impossibilidade de ir e vir, eu sei que o que está em jogo é o bem-estar coletivo. Em sociedade, liberdade também é renúncia. Teoricamente, a gente é livre para fazer o que quer, mas há momentos em que todos precisam renunciar a parte das vontades, a fim de instituir a sobrevivência coletiva. Ainda que assim não fosse, minha causa primordial é não adoecer. Se for inevitável, que pelo menos eu não seja cúmplice de meu próprio sofrimento.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Aquele toque...

 


Foi anunciada, hoje, a extensão do toque de recolher aqui na Bahia, que passará a ser, a partir desta segunda-feira (22/02/2021), das 18h às 05 da manhã. Desde sexta havia começado, mas valendo das 22h às 5 da manhã. Confesso que fiquei bastante entristecida. Não por nenhuma teimosia suicida minha, mas porque meu dia fica muito diferente... - (além do que, nem posso me arvorar a ir ao encontro do poeta, dada a inviabilidade de horários de deslocamentos)...também minha ida à academia começa a ficar sob tensão, me forçando, provavelmente, a ir no fim da manhã ou no começo da tarde – horários inóspitos para a minha vida.

Juro: não sou de sair. Minhas saídas, quando inevitáveis e programadas (escolho os horários de pouco trânsito e pouca circulação de pessoas), costumam ser para andar. É, largo o carro – moro no Centro – encaro distâncias, ladeiras, calor e aproveito a oportunidade de me deslocar com minhas próprias pernas, de ver a cidade, ainda que catando lugares com pouca gente. Já fiz isso num domingo, favorecida pela interdição de ruas em conserto de pavimentação, e me senti no filme Vanilla Sky (bruta filme, hein? Remake de Abre tus ojos, como todos sabem).

Também conforme eu já declarei, troquei minha academia por outra instituição, séria, que pelo menos afere a temperatura da gente, faz desinfecção de verdade diariamente, usa papel toalha ao invés de flanela e, sim, é responsável conosco. Não aguentaria a vida na caverna sem me movimentar.

Sinto falta de shows. À praia eu não vou desde 02 de janeiro de 2020. Viajar, não o faço desde 17 de março de 2020.

Se não faço tudo isso por obediência e disciplina, faço, no mínimo por responsabilidade e por saber que o mundo não é o mesmo.

Não vou viajar sem aproveitar a vida noturna, sem a liberdade de soltar a cara no vento...não vejo graça.

Minha vida não vale esses passeios.

Covid matar, até que não assusta ninguém. Eu, porém, tenho medo de definhar, de ficar sem ar; tenho medo de não ter sintomas e me comportar como imbecil, brincando com a roleta russa da situação e daqui a alguns anos encarar sequelas. Quem sabe o que uma doença assintomática guarda no silêncio de sua parada em nosso corpo?

Vi muitas coisas, soube de outras tantas no que toca à pandemia. Gente próxima minha morreu...outras pessoas, enfrentam as sequelas, agonizando depois de teoricamente ‘recuperadas’.

Quanto à negligência do povo brasileiro, a mim nada diz. Bem de acordo com o que somos como gente. Não usamos cinto de segurança, a menos que haja risco de multa; não obedecemos a placas de sinalização; aceleramos ainda mais nas curvas; não lemos bulas; não gostamos de obrigações. Somos uns, ante testemunhas; e somos outros no anonimato.

Nunca me iludi com quem somos.

Somos, aliás, os que elegem os mesmos e depois arrotamos repúdio contra a corrupção. Nunca vi nenhum movimento de ódio a Aécio, a Sarney, a Valdemar da Costa Neto, a Gedel Vieira Lima...aqui no Brasil, o ódio toma partido – e só os partidos de determinada direção.

Se só tem corrupto, alguém coloca esse pessoal lá, não é? Não faço ideia de quem seja.

Normal é que a fundação da nacionalidade se dê sob a criação coletiva de epítetos, de louvores, que reforcem pontos positivos da identidade. Acreditamos que somos aqueles lá do hino, “povo heróico” com brados retumbantes... cremos nisso e traímos o espelho, porque focalizamos supostos pontos positivos, não admitimos defeitos e, por conseguinte, não nos corrigimos.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Curving, ghosting e amores líquidos

 


Fico deslumbrada quando uma ideia particular minha, ou um raciocínio, aparecem na fala de alguém que tem mais cabedal do que eu, porque, afinal, há coisas que são meros conceitos empíricos: vi e vivi, deduzi, formulei e cheguei à conclusão.

Dentre os muitos aí inclusos, achei um psicólogo incrível que, assim como eu, afirmou que amor não é tudo num relacionamento.

Claro que a ausência de amor, de certa dosimetria de afetos, reciprocidade, correspondência, impedem que o relacionamento aconteça – porque ninguém vai namorar a quem não gosta – mas, amor, sozinho, apenas amor, é insuficiente para sustentar uma relação.

Amor precisa de outros ingredientes, afinidades, compreensão, cumplicidade, combinações variadas, além de respeito e gestos de reconhecimento, gratidão, etc. Mas, vamos combinar: amar está difícil – embora nunca tenha sido fácil.

Achei interessante ver que ainda se recorre a receitas velhas, como deixar o outro no vácuo ou simplesmente desaparecer (ghosting)...visualizar e não responder...É cada infantilidade! Mas, nomear de curving o ato de deixar o outro na eterna espera, no pega-não-pega, no ‘a gente combina depois’, foi um negócio engraçado.

Para mim, curving é uma curva, é um modo de se esquivar, é como aquela pessoa que te deseja, que pode ter ficado com você uma vez, ambos curtiram, mas na hora de marcar outra vez ou de marcar o primeiro encontro, a pessoa empreende fuga, curva a esquina, dobra, se vai. Contudo, mantém a tornozeleira eletrônica dos esporádicos ‘oi, sumida!” ou de fortuitos “bom dia, como é que você está?!”. Infeliz de quem se põe à espera.

Há vezes em que somos nós esta pessoa. E foi por isso que passei a deixar certas pessoas em paz. Vi que eu não queria nada com o cara, nem que ele fosse minha última opção eu iria sair com ele...aí, deixei de falar com ele, desocupei a vaga e provavelmente perdi o amigo.

“Ulrich, o herói do grande romance de Robert Musil, era – como anunciava o título da obra – Der Mann ohne Eigenschaften: o homem sem qualidades. Não tendo qualidades próprias, herdadas ou adquiridas e incorporadas, Ulrich teve de produzir por conta própria qualquer qualidade que desejasse possuir, usando a perspicácia e a sagacidade de que era dotado; mas nenhuma delas tinha a garantia de perdurar indefinidamente num mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível.

O herói de seu livro é Der Mann Verwandtschaften – o homem sem vínculos, e particularmente sem vínculos imutáveis como os de parentesco no tempo de Ulrich. Não tendo ligações indissolúveis e definitivas, o herói de seu livro – o cidadão de nossa liquida sociedade moderna – e seus atuais sucessores são obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicação próprias, os laços que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam conectar-se... Nenhuma das conexões que venham a preencher a lacuna deixada pelos vínculos ausentes ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanência.” – Fragmento do prefácio e Zygmunt Bauman em Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. (Zahar editora, 2004).

A gente entrevê, nesta passagem, as muitas metáforas sobre a fisionomia dos comportamentos de hoje em dia. O problema é que todo mundo sofre e, para evitar sofrimentos de amor, descartam as pessoas, ou mantém um laço frágil, como se fosse uma corda-guia ao escalar um despenhadeiro...

Quando eu leio que “Ulrich teve de produzir por conta própria qualquer qualidade que desejasse possuir, usando a perspicácia e a sagacidade de que era dotado”, lembro de todos nós, que mentimos para conquistar alguém. Para mim, o grande parceiro do amor é mentira, porque talvez conheçamos nossos defeitos bem mais do que admitimos e precisamos esconder todos e cada um. Quem iria adquirir um produto sem qualidades? E como vender a si mesmo falando do que há de pior em si? Por isso mesmo, sabemos que o outro também mente.

Não falo de mentiras morais graves, mas do quanto fazemos nosso possível para parecermos melhores do que somos. Não acho isso errado. Talvez até nos sirva para melhorarmos.

Do quando ocultamos de nossas misérias e também de nossas conquistas (sim, às vezes a mentira é sobre coisas que temos e somos, mas que poderiam atrair gente interesseira ou até afugentar pretendentes que se julgassem abaixo de nós por questões de escolaridade ou posses), da realidade de nossas famílias ou dos martírios pessoais onde também se inscrevem nossa privacidade, fica uma resposta básica: nunca apreenderemos o total da existência de ninguém e não nos caberia. Amor também precisa ter limites.

O "mundo de sinais confusos" se aplica adequadamente aos nossos dias - antes, havia apenas SIM ou NÃO... e, ao menor, TALVEZ, traduzíamos o advérbio de dúvida como a certeza do NÃO. Entretanto, há quem julgue que significa PODE SER, ou QUEM SABE? O nome disso é curving.

 


domingo, 31 de janeiro de 2021

Estratégias

 


A gente se sente meio injustiçado pela vida quando vê certas pessoas sem qualificação ocupar altos cargos ou posições de destaque. Lembram da velha metáfora do jabuti, que diz que “jabuti não sobe em árvores”? “Se ele está lá, alguém o colocou: não mexa nele!”. E não tem um ser humano que não conheça pelo menos um jabuti bem colocado no topo que ele não alcançaria sozinho. Pois, bem, é muito difícil lidar com isso: desarticula nosso fair play, porque a gente saca que houve manobra e deslealdade para favorecer ao incompetente; gera o ataque moral silencioso, porque julgamos que sexo é moeda de troca e esse pode ter sido o preço do patamar alcançado pelo jabuti; acrescentando situações reais e possíveis de parentesco, apadrinhamento e outras formas de trocas. Até aqui sabemos tudo e admitimos ser possível.

Há, contudo, outro fator: o jabuti pode ser um idiota de sorte ou um incompetente estratégico. Sim, pode. Um idiota bem sucedido pode estar ao seu lado em qualquer canto do planeta.

Os leitores de minha geração vão se lembrar de Forest Gump; os do tempo presente hão de questionar como certas pessoas, autoridades inclusive, passam em concursos difíceis tendo a inteligência tão encolhida ou postura crítica abaixo de zero e nenhuma sombra de capacidades ou habilidades específicas. Eu, entretanto, vos digo: adestramento.

Associamos a palavra ao treinamento de animais, mas não a empregamos aqui com subestima. O adestramento mental inclui a memorização, a atenção a palavras chaves, o treinamento reiterado sob forma de simulação e a codificação de fórmulas ou assuntos.

Está errado? De forma alguma. É desleal? Muito menos. Só depende da disciplina, da memória, da capacidade de decorar.

Como um crente sabe os versículos de cada parte da bíblia, o advogado deve saber as leis, em seus artigos e princípios; tal como um aluno de séries medianas pode decorar a Tabela Periódica dos Elementos. Pode traçar cadeias associativas rasas, até mesmo usando paródias lembradas do cursinho. Pode ter sagacidade e treinar redação e respostas abertas.

A chance da pessoa verdadeiramente inteligente é bem menor: ela não apenas leu, mas estudou. Por isso, o conteúdo para ela, ultrapassa a memorização: precisa ter coerência, ser transformador, apresentar coesão, sentido, a tal ponto que até a maneira como a pergunta e as alternativas se apresentam, influenciam na resposta e no resultado, porque a pessoa inteligente interpreta. Por conseguinte, perdem mais porque têm honestidade intelectual e, portanto, mais dúvidas. Todavia, poderiam aprender muito com os jabutis, no que toca à disciplina do aprendizado e dos simulados.

Simular é treinar, antevendo a situação. Assim, quem faz simulados se familiariza com a linguagem das provas e das fundações que as elaboram; treinam, se preparam, têm esperteza para fazer eliminação, estão no jogo para ganhar. Estratégia vence jogo. Estratégia e inteligência, portanto, duas aliadas para toda guerra. Por fim, as situações que perfazem provas e testes são bem distantes das práticas reais, o que ajuda o jabuti a se ajustar a uma rotina de trabalho que não compromete a incompetência dele, coisas que o comportamento repetitivo e burocrático vai dar conta.

Uma pessoa inteligente, porém, sempre terá mais angústias, por viver a dinâmica das coisas, assumindo angústias, fracassos, insuficiências e se reinventando para dar conta das demandas - quem ganha mais afinal?

 


 


As férias da escrita aqui no blog não tiveram a ver com férias propriamente ditas. Ao contrário, me ocupei por demais com outras escritas alheias, em sentido profissional. Mas, eis-me aqui, finalmente desvencilhada do Instagram e cada vez menos presente no Facebook. No primeiro, porque a futilidade é quinhentas vezes maior; no segundo, porque o Facebook se tornou apenas uma ferramenta chata de disseminação de notícias falsas e jogos fúteis e inúteis- vou lá porque tenho bons amigos e ali acho modos de aparecer e mostrar que estou viva, já que respeitamos a situação de pandemia.

Também por isso, não viajei para lugar algum. Não nego meus maus olhos contra os que viajam, dentre os meus amigos. Acho que lazer todo mundo precisa. Descanso, também. Mas, agora não dá. Agora não há abraço que seja possível, se bem que vez ou outra um amigo me faz visita surpresa e eu, louca para abraçar, para ficar farofando os cabelos deles, porque trato todo mundo como trato os meus gatos e, então, se me distraio, estou farofando os cabelinhos de todos. Hábito mesmo.

Passei o ano novo em casa, fui ao shopping, se muito, três vezes, e me senti num filme de terror, fugindo de zumbis, porque o povo vem para cima, cola, se atira. Criei coragem, no sábado passado, e fui comprar short, porque notei que meu guarda-roupa só tem roupas de trabalho. Fui com medo e voltei com pavor e, sob esse clima, resolvi dirigir até às ruas de festa, para ver se o Bar do Fracassados estava aberto. O nome do bar é outro, mas na minha cabeça esse é o nome verdadeiro, a razão social real, porque lá sempre vão os que estão fracassados em algum setor da vida.

Passei meus olhos gulosos lentamente pela janela do carro, doida para estacionar e ir ver quem eu encontraria lá, para um minutinho de conversa vadia...O bar é sombrio, de pouca luz e muita fumaça de maconha, mas estava aberto sim. Ali é abaixo do underground e quem é gay nunca sai de lá desacompanhado.

Por aqui, o povo aglomera e festeja, sem a menor responsabilidade. Guardei meu distanciamento e voltei para casa, observando o caminho cheio de festas ou de carros circulando atrás de farras.

O verão, até aqui, foi de calor e de pouco sol. Para mim, sem praia, sem piscina, sem marquinha de biquíni. Verão bom é verão sem horário de verão.

E sobre vacina, o dia chegará em que serei contemplada. Não resolve a pandemia, mas contribui para reduzir o agravamento

Vi e ri, de gente que desfez da vacina, agora furar a fila para se imunizar da doença em que não acreditam. Ah, esse Brasil vai mal, mas, sigamos: 2021 será o ano da contradição generalizada.