Louquética

Incontinência verbal

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Reprogramar rotas

 




Ainda não saí da pandemia, apesar do afrouxamento das medidas sanitárias. Não me sinto segura me metendo em aglomerações, dando beijos no rosto de gente conhecida, pulando e vibrando em eventos sociais ou em lojas e estabelecimentos que aboliram o álcool. As amigas já se mobilizam atrás de viagens em grupo pelo Brasil. Desconverso. Quero ver o que pensarei em setembro...Mas, fora isso, a vida segue o fluxo.

Meu atual affair, para quem faço memes usando obras de arte como Template, reclama que eu deveria estar escrevendo e publicando meus livros. Este é um ponto a que sempre volto porque as pessoas, de fato, confundem os fluxos. Eu não acho que a autoria seja uma vaidade. Para mim, é responsabilidade. 

Se eu exerço a posição de crítico literário, investigo e aponto acertos e erros. Da mesma forma como o faço em minha condição de leitora, a exigência para comigo mesma é bem maior. Logo, eu acho que escrever é para quem se garante. Portanto, esse ‘se garantir’ é saber o que se está fazendo, ultrapassar a marca da mediocridade e apresentar um livro como se fosse um pedaço de si mesmo, no sentido de ter noção de que reunir palavras não é fazer literatura.

Larguei mesmo meu quase atual psicanalista por conta de coisas já citadas no post anterior (veio ele exaltar o fato de que leu livros de Augusto Cury; citou um título de outra autoria de teor semelhante no ramo da autoajuda duvidosa, numa clara demonstração de falta de critério de leituras, me fazendo duvidar da real intimidade dele com Freud e Lacan, não obstante viver metendo religião e Jesus em ramos totalmente alheios à lógica cristã de culpas e de delírios salvacionistas). Paro e penso: há algo de errado no mundo; e esse algo deve ser eu, por que não é possível uma coisa dessas!

Abro esse parêntese para frisar minha insatisfação com a postura dele, a citar a condição de capelão, o cargo na Igreja; a dar claras provas de personalidade sedutora, ocupada em exibir pretensas qualidades e exaltar à própria presumida Inteligência... E as perguntas ‘ de bolso’, que parecem coisa de Youtuber a catar likes. E eu, sem saber como manobrar o fim das sessões, ainda fui lá uma outra vez, totalizando três, com minhas desculpas parciais o mais educadas possíveis. Imagine, chegar para o analista e declarar: “Não quero mais sessões com você. Não gostei.” É preciso sensibilidade para evitar criar traumas. Os meus, ele não ajudou a resolver.

É muito difícil terminar relações, de qualquer tipo. Uma dessas aí é bem sensível, porque constitui um pacto comercial progressivo. Ao contrário do que se dá entre outros profissionais, que a gente sempre pode trocar sem dar explicações – psicanalistas são portadores de nossas intimidades e é o tempo que vai desenrolando o novelo deste tipo de relacionamento. Não dá para simplesmente sumir, nem inventar desculpas inverossímeis.

Esquisito: para quê a gente se demora em situações que não nos fazem felizes? Sem ganho secundário, nada justifica...a não ser o vício em repetições. Reprogramar rotas, às vezes, implica passar pelo mesmo lugar; às vezes implica tomar outras direções.

Voltando ao meu affair, também me pergunto o que quero com ele, o que quero dele. Há dias em que gostar basta; dias em que a companhia inteligente dele me provém de muito do que me falta...e há dias em que eu reconheço que aguardo indícios fortes e claros do que ele sente por mim. Há dias em que falho muito, como um sinal instável de wi-fi...


quinta-feira, 12 de maio de 2022

Amor é sorte

 


Está me faltando tempo para escrever, mas, eis-me aqui, no aperto, para tratar sobre a vida. A começar pelas coisas engraçadas e trágicas, meu analista atual não sabe que é meu ex-analista. Fui a ele por recomendação de uma amiga, também analista, que por conta de nossa amizade não poderia me atender.

Para começo de conversa, analista com fé cristã é uma incongruência. É preciso se garantir muito, a ponto de não cruzar as fronteiras, porque são coisas antagônicas a religião e a Psicanálise (Freud escreveu O futuro de uma ilusão, lembram? E a ilusão vocês sabem qual é), porque arregimenta noções de culpa, perdão e muita coisa e ideias inadequadas com o necessário processamento e elaboração de questões internas. E eu sou espírita kardecista, logo, creio em Deus. Porém, na psicanálise, não dá.

Então, meu analista K. se vangloriou de ter lido Augusto Cury, reproduziu que “Jesus Cristo foi o maior psicólogo que existiu” (verbos no passado porque eu quis) e, na terceira sessão, para me dar um exemplo, saiu pulando na sala, porque achou a linguagem verbal insuficiente.

Citou, feliz, um livrinho de autoajuda de casal neurótico (As cinco linguagens do amor) e me fez perguntas de bolso, questionando o que para mim era mais difícil dizer: “EU TE AMO”; “VOCÊ ME INSPIRA” e outras três igualmente rasas, sendo que eu nunca disse a segunda a ninguém. A bem da verdade, me senti palhaça.

Com uma personalidade sedutora (termo que deve ser entendido na perspectiva da psicanálise e não como a ideia de que ele seja galanteador, assediador ou conquistador), fala muito de si, conta de seus 15 anos de casamento e dos encontros com os amigos de longa data. A ideia dele é aparecer e ser reconhecido. Achei deveras inconveniente, não vi minhas angústias se resolvendo e lancei mão de um balaio de gatos para me desvencilhar, de modo que disse que não voltaria, mas deixei de acrescentar o NUNCA MAIS.

Acrescentando, afirmo que tenho estado indecisa e triste. Triste porque vivo indecisa, com pouca visão sobre as coisas, sobre a minha vida. Apesar do namoro recomeçado e das vezes em que me vejo feliz por ter uma excelente companhia para sair, noto que muito me falta. Não me sinto amada, nem tratada como eu deveria. Aí, estou carente. Carecer é não ter, é sentir falta de alguma coisa ou de alguém. E eu sinto. Desde que acabou minha relação com o Poeta, as noites mudaram, as madrugadas ficaram chatas. E dói não por ele, em si, pois que não nutro nenhum sentimento amoroso; mas pelas aventuras boas dos encontros, do sexo bom e pleno...Aliás, como é difícil achar afinidade no sexo com um homem. Por eu ser tímida, não tomar bebida alcoólica e pouco sair, fica difícil penas em encontrar um homem compatível comigo. Mas, amor é sorte...queria fazer uma aposta certa.

Outro problema: independentemente de minha posição política, eu gostaria muito de ter algo de bom para falar do governo atual, gostaria de poder fazer um elogio, mas, como, se a incompetência impera? bem, além de tudo, a inflação está comendo meu dinheiro, minhas condições materiais. Se muito eu tenho conseguido guardar, não passa de 600 reais por mês.

A inflação aqui de casa – porque, gente, índice de inflação de instituto de estatística e de telejornal não trata do dia-a-dia de gente real tipo eu – está lascando. Comida principalmente. Acho que quem se alimenta direito está na faixa da ostentação. Pão a quase 20 reais o quilo; frutas, temperos, nada custa menos que 5 reais o peso mínimo; produto de limpeza está a preços exorbitantes e papel higiênico, do pior tipo, 13 reais por 12 rolos – sendo que um rolo tinha 30 metros, mas hoje em dia tem 20.

Produtos de higiene pessoal, nem se fala. Viver pode ser o maior barato, mas não está barato não.

Toda semana, cem reais de gasolina, no mínimo.

Faço uma outra graduação, então, pago Faculdade.

Faço psicanálise, então, pago a um ser humano que me veio com “As cinco linguagens do amor”, o que me mostra o tamanho de meu desperdício.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Casos de família

 


Neste ano meu aniversário não foi grande coisa. Isso porque eu estava triste pela morte de minha analista e por contextos internos igualmente pesarosos.

Nunca pude contar com minha família para nada. Isso significa que tanto faz se me refiro a um momento de adoecimento na infância, carência econômica ou de momentos festivos, como um batizado ou minhas cerimônias de formatura de Graduação. Na saúde ou na doença; na alegria ou na tristeza, nada de pais, tias, primos ou avós!

Por conta disso, desenvolvi o espelho-inverso que me fez batalhar por minha vida. Disso decorre meu medo de errar e de perder, estando, pois, suscetível a depender deles. De todos os medos, o maior medo.

Meu analista atual também me disse que família de comercial de margarina só existe no comercial de margarina. No todo, todo mundo está num lar disfuncional ou em famílias competitivas, cujos conflitos são disfarçados pela educação. Grande consolo!

Então, meus medos se mostram por esse apego atencioso aos detalhes, pela responsabilidade em não me tornar refém de qualquer coisa que exija acionar parentes. Achei bastante grave que seja para precisar deles, seja para comemorar com eles, não posso leva-los em conta.

Desqualificam minhas conquistas, meus títulos, minha formação, meus esforços. Por outro lado, não sou muito de estar perto deles. Se a gente toca uma superfície quente, o normal é largar do que queima, não é? Tenho amor por alguns deles; pavor e distância dos meus parentes maternos recém-descobertos que, no caso desses últimos, são usuráveis e invejosos, sobrando poucas exceções entre eles.

Eu, assim como a maioria das pessoas, passo pano, faço de conta que estamos todos bem; que nos damos bem e comungamos opiniões e afetos, mas não sou muito de alimentar hipocrisias, então, também opero na Zona do Sumiço, desapareço, não posso e não estou.

O melhor da pandemia foi o distanciamento. Não reclamo, não: estar longe de quem não gosta da gente; de quem a gente não gosta, é tão importante e satisfatório quanto estar perto de quem amamos

São marcas difíceis de encarar nos desafios da vida. É como estar num time em que nunca lhe passam a bola...por isso eu abandono o jogo.

 


quarta-feira, 13 de abril de 2022

Para a grande mulher que se foi

 


Minha analista (psicanalista, para especificar redundantemente) morreu.

Não imaginei que a dor desse luto fosse tão profunda, diferente, intensa.

Conforme eu já afirmei aqui, antes, eu queria ser uma daquelas pessoas frescas que aproveitam as dores para poder escrever e criar. Eu, não: a dor me paralisa. Eu fico como meus gatos, enroscada, quieta, num silêncio de desertos.

Lêda G. morreu em 23 de maio do ano passado. Eu só soube há duas semanas. Soube porque precisei voltar à psicanálise. Ao procurar por ela, as notícias na web me avisaram.

Fazia um tempo que ela não morava mais na Bahia. Na ética da psicanálise, as pessoas não sabem quem é analisando de quem. O nome do cliente precisa ser resguardado. Logo, não poderíamos ser avisados do óbito.

Doeu, em especial, uma mensagem de um órgão da Sociedade Brasileira de Psicanálise, em que se dizia do quão inacreditável era que não veríamos mais a ‘exuberância’ de Lêda G.

Ela foi a mulher mais inteligente que eu conheci. Sábia mesmo. Moça, jovem, alegre, doce, sensível. Justa, cobrava menos ou cobrava nada de quem não podia lhe pagar. Foi humana comigo e com minha amiga-mais-que-irmã, convertendo o valor de nossas sessões em moedas ‘pagáveis’.

Linda Lêda, compreensiva.

Nunca ouvi falar no luto por analistas. Observem: o analista não é apenas um confidente; não é somente alguém com quem efetuamos trocas e transferências de papéis. Tem amor ali. Tem temor. Tem a vontade de nunca mais voltar e a de não mais sair.

Tem aquela hora do ódio, em que a sua responsabilidade sobre a sua vida cai no seu colo.

Tem aquele momento em que é  você quem é instado a confrontar suas fraquezas, suas repetições, os desejos não declarados, as declarações não desejadas...Tem os desejos de colo e os desejos frustrados e, acima de tudo, tem um amor maior que não se compara ao de um parente, ao de um amor romântico...

Tem, também, a hora em que você é estimulado a se perdoar, porque os seus erros foram o melhor que você poderia fazer com os instrumentos que você tinha, com a pessoa que você era, pela idade que você tinha, pelos recursos mentais, materiais e psicológicos que você tinha. E assim são os analistas: dão a justa medida do que lhe cabe, ajudam a ver ‘a dor e a delícia de (se) ser o que é’. Por isso somos gratos.

Lêda G. foi minha professora na UEFS.

Antes de ser aluna dela, acompanhava as palestras que ela proferia – isso em minha primeira graduação também na UEFS.

A vida inteira eu a admirei. Achava que ela era uma mulher linda – minha classificação de ‘linda’ não se volta à ideia de perfeição. Uma pessoa linda é um conjunto, inclusive os desvios estéticos que a personificam. Linda e elegante. Gostava de usar o perfume Accordes, no dia a dia; e J’adore e L’air Du Temps em outras ocasiões. Já usava cabelos avermelhados no mesmo tempo que eu. Antes de tudo isso, eu já achava que o perfume veste a pessoa. Continuo achando. Gente sem cheiro é algo entre um cadáver fresco e uma pessoa nua e nada sexy. Gosto e cheiro andam juntos, daí porque dizemos: ‘Cheiro gostoso”, confundindo os órgãos do sentido – cheiro, paladar.

Sim, minha analista era uma mulher sexy e exuberante, elegante na voz e na altura; nas palavras, sobretudo.

Tem doído muito a falta dela, a morte dela. Foi mais uma a ser devorada por um câncer – tal a minha amiga-mais-que-irmã.

Fiz aniversário ontem. Ganhei, dentre meus presentes, uma foto grande de minha amiga citada. Quem me presenteou, me disse: “você merece mais que eu”. Concordei de outra forma: eu preciso, caso eu não mereça.

E à minha analista, que me fez ser quem eu sou; quem arrumou minha cabeça para eu arrumar minha vida, deixo minha declaração de amor e de saudades. Que Deus, nosso Pai supremo em misericórdia, sabedoria e amor dê a ela um doce repouso.

Ela, que traduzia minhas palavras, meu texto interior de angústias caladas e não-percebidas...ela, quem me faz falta e que me deixou sem palavras, leve a certeza de que foi amada e admirada.  Ela, que me devolveu a vida, agora deixou a vida...e um vazio em minha existência.


quinta-feira, 3 de março de 2022

Dando as cartas

 



Vejo algumas pessoas que se queixam de que a clientela do tarô se zanga e se revolta quando a leitura das cartas contradiz seus sonhos, seus planos, seus interesses. Entendo isso. Acho que quem recorre a oráculos está em busca de respostas e de clareza, mas que no fundo pagam para obter boas notícias e confirmações de suas premissas. Nem sempre isso vai ocorrer, aqui considerando crentes, charlatães e profissionais sérios do ramo – porque não me referi às cartomantes clássicas que agiam e agem mais por intuição e performance teatral, do que pelo poder intuitivo ou mediúnico. Mas, o preâmbulo não é para tratar de cartas, tarôs ou cartomantes e, sim, para os que reagem mal e de forma histriônica a conclusões, ilações e previsões que contrariam seus próprios interesses. É tipo essa gente que se revolta contra resultado de pesquisa eleitoral: desqualificam o instituto de pesquisa, caso o resultado não favoreça o candidato que ela profere. Pois, bem: a corrida eleitoral aqui no Estado da Bahia, seja por estatística, seja por leitura de contexto, desenha um cenário favorável à vitória de ACM Neto nas urnas. Eu não fico nem um pouco feliz por isso, todavia preciso encarar que a realidade projetada será essa, independentemente de meu gosto pessoal.

Ao colocar a análise na mesa, inclusive sublinhando que ACM Neto tem a seu favor o império das comunicações – herança de família, bem gerida, reprodutora da Globo, além de aparatos variados de marketing, dinheiro, estratégica e influência – as pessoas enlouquecem de revolta. Um aluno meu ficou estupefato. E eu achando engraçada a forma como as pessoas tratam o tema, como se fosse questão de torcida. E não é... Do outro lado, os bobos de sempre, defendendo que o resultado de eleições são sempre culpa das elites...Como se nós tivéssemos mesmo uma elite tão cheia de gente, uma parcela tão grande da sociedade tão cheia de dinheiro. Não: o povo vota com a elite porque se identifica com ela, com seus ideais, com seus sonhos.

Vendedores de lojas de grife se sentem ricos como seus próprios clientes; empregada doméstica de casa de profissional liberal, de empresário, se sente privilegiada, dá razão ao patrão, vota como ele vota porque é dali que vem seu emprego. Portanto, o pobre mesmo, o pobre raiz, louva o empresariado, porque acredita que um empresariado forte que tenha lucros pesados é o suficiente para garantir empregos e salários para as classes mais baixas. Posso apostar que pobre nem sabe que é pobre; da mesma forma que negros e pardos nem sabem que o são.

Pobre tem outros valores, ainda mais quando são vinculados a alguma instituição religiosa: querem mais é agenda moral, com vigilância de comportamentos sexuais e todo rigor da palavra bíblica. Isso importa mais que o pão ou o preço da gasolina! Acho que sociólogos de outrora devem ficar desolados com o perfil do povo brasileiro atual.

Em um ano sem carnaval, mas com futebol e eleição em lide, a cara que o Brasil vai mostrar em 2022, com ou sem pandemia, será uma máscara para  nunca mais a gente esquecer.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Hipnoses

 


Não sei como as pessoas, hoje em dia, não têm o menor escrúpulo de pegar o título “neurociência” para meter nas propostas mais abjetas, descabidas ou incongruentes. Há um processo de hipnose coletiva em curso, de que já tivemos exemplo paralelo quando se multiplicaram os empregos aleatórios de 'psico' qualquer coisa; ou o qualquer coisa "Quântico/Quântica". Certamente, isso concorre para atrair credibilidade, agregar valor científico a modas e picaretagens discursivas em geral.

Onde iremos parar com um rebanho de pretensos preparadores, que lançam mão de artimanhas de convencimento falsamente enaltecedoras de fracos, inseguros e de portadores de autoestima minúsculas? Esse povo que vende terreno na lua quer convencer às massas de que basta pensar da forma certa, que o Bem vem. O pensamento positivo, é aquele pensamento irresponsável que dá a entender que se você souber pedir, mentalizar, as coisas vão tomar corpo e se materializar em sua frente, e isso basta. Aí, quem não foi avisado acredita que há milagres e mágicas, que bons deuses se compadecem de quem pede com afinco. Seria bom se nossa vida se resolvesse somente com atitudes mentais. Não teríamos nenhuma responsabilidade e tudo estaria definitivamente resolvido sem o menor esforço. Assim são as propostas.

Por termos ego e precisarmos de reforços positivos, afagos, elogios, acreditamos que o autoconvencimento resolverá a vida. Não há processo que seja assim, porque tudo precisar ser bem elaborado. Logo, o domínio sobre uma situação (qualificação para o trabalho; coragem para encerrar um relacionamento; impetuosidade para aceitar propostas novas, etc.) passa pela lenta conscientização a respeito dela, como se fôssemos conhecer o objeto. Conhecer, pegar, medir, ver, pensar a respeito para distinguir e identificar, como se fôssemos crianças de cinco anos diante de uma caixa fechada. Às vezes, a caixa é a gente.

Então, conquistar coisas, alcançar metas, não é uma linha reta, não tem mapa, não tem receita, não tem tempo determinado. Tantas vezes, com planejamento e cronograma na cabeça, a gente se sente perdido? Quantas vezes o tempo nos faz duvidar da pertinência da decisão de outrora? Se nessas horas a gente lembrar que pode fazer as coisas diferentes, ótimo. Se a pessoa pode tomar outras decisões, ainda que não anulem as anteriores, eis um retrocesso que vale a pena.

Se seu casamento funcionou por 25 anos, mas ultimamente é puro tédio, não adianta aprender dança do ventre, nem tentar colar o que rasgou. Mas, se houver amor, ainda se pode negociar (negociar pode ser cada um morar em uma casa ou separar afeto e sexo, de modo a que cada um possa ter parceiros paralelos, se assim quiserem – há várias formas de amor e várias formas de amar); se seu emprego lhe causa náuseas, mas você fica ali porque acha que é o preço da estabilidade, você pode engolir os sapos e esperar a aposentadoria; mas você pode ir fazer outros concursos e cursos. Tem gente que diz: “imagine! Eu já vou fazer 40 anos! Se eu for começar algo agora, só me estabilizo com 50!’ – e perde de vista que terá 50 anos um dia, de todo modo, com o sem cursos novos, com ou sem concursos novos.

Dois momentos em que os seres humanos são frágeis: ao começar algo e para encerrar/concluir algo. É clássico, praticamente ninguém escapa. Porém, concluir é mais difícil que começar – quantos livros começados, que ficaram por ler? E os regimes? E os planos? E as decisões? “Deixa como está para ver como é que fica!”

Entre começos e fins, o fim das férias me traz uma melancolia diferente: não é porque interrompe meu relativo ócio, mas porque já sobrecarrega minha mente, que antecipa o peso das ocupações.

Trabalho porque preciso, mas nunca é apenas uma questão de sustento. Tem sempre mais. Tem sempre aquele peso do bem-estar, dos relacionamentos interpessoais, mesmo que essas pessoas não sejam tão ‘inter’ assim... Tem uma má relação com o tempo, que parece tomar o calendário todo, em semanas e meses. Porém, se tem algo que o trabalho faz é segurar questões existenciais mais densas – porque, afinal, não dá nem tempo para sofrer; e quando a gente quer mergulhar em si, para elaborar aquela questão profundamente, nunca consegue ficar sozinha, porque sempre aparece alguém grudando na gente. Em meu caso, tenho a dor adicional de precisar me meter num ônibus, viajar por três horas e ficar em contato com as vulnerabilidades e dissabores da trilha pelas rodovias; e a hospedagem, que seja como for, é um foco de perigos no meio de uma pandemia. Mas, é como se o ano estivesse começando agora, para mim: ajustado pelo calendário letivo; pelas imposições da vida prática, em um período que eu ainda não soube o que são férias no sentido lúdico. Trabalhar, então, passa a ter outro peso, diante do contexto em que estamos – não, não consigo achar normal; nem acredito em novo normal...e  será que ainda existe gente normal?


sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Doa a quem doer

 



 

Se você acha que comportamento abusivo dentro de um relacionamento  diz respeito apenas a situações injuriosas, humilhações, subestima, dominância psicológica, controle e retirada da autonomia financeira e outras situações mais explícitas, por favor, acrescente mais um item, porque quando uma pessoa coloca o sofrimento do Outro sob o rótulo de drama ou ridiculariza a dor de que esse Outro se queixa, manifesta, sim, uma conduta abusiva.

A dor de cada pessoa é a maior dor do mundo. Não interessa as causas. Dor não se mede por critérios objetivos. Costumamos até perguntar a alguém, por exemplo, se ‘depilação com cera, dói?” e obter como resposta que: “Sim, mas é uma dor suportável” ou dar dimensões metafóricas sobre dores. Faz parte da conduta humana dizer que dores de perdas, de lutos, são dores maiores que outras. Isso se volta ao critério de que há dores temporárias e outras que são reversíveis, especialmente as de cunho material. Em contrapartida, as dores existenciais ou a dor pela perda de um parente, tanto não têm cura, quanto não têm tamanho. Porém, são formas de falar. Qualquer dor é legítima se é reconhecida enquanto tal. Não se pode subestimar a dor do fim do primeiro amor de um adolescente; nem dizer que a dor de uma mulher é um drama.

Há quem grite de dor, assim como há quem silencie e viva sua dor calado, num canto. Há até quem transforme dor em canto (em poesia, em arte)...Mas, nem todo mundo é Fernando Pessoa; e cada pessoa precisa ser respeitada em sua dor.

Os amigos dizem logo: “Não sofra por uma pessoa dessas!” – já ouvi tanto isso! – e sabemos que esse imperativo, essa ordem, esse conselho, é um gesto de amor e solidariedade de quem gosta da gente.

Assim como não se pode determinar a quem iremos amar ou não, não podemos escolher que algo não vá doer. A dor não é opcional. A maneira de encarar a dor, sim. Gente madura emocionalmente sabe disso: quem não quer anestesia ou analgésico na hora da dor? Quem não reza para uma dor passar? A gente quer se livrar, mas sabe que a dor passará...E outras dores virão e também passarão.

E se a gente aprende o que faz doer e onde dói, estaremos prevenidos de despertar certas dores.

As falácias mais absurdas são tomadas como grandes verdades – citei essa aqui, sobre ‘a dor ser opcional’ e reitero o absurdo da outra, amplamente aceita, a de que ‘não se deve criar expectativas’. Ora, sem imaginação, sem expectativa; sem expectativa, sem esperança. Não dá para viver sem sonhos, sem transcender, sem ultrapassar o presente. A vida não é um filme de ação e aventura que a cada cena traz grandes novidades. A vida tem é muita repetição e tédio. E se a gente não puder nem sonhar, não ter sequer expectativas de que haja diferenças no amanhã, que a dor de hoje passe; que o amor de agora melhore; que ao estudo se sucedam boas oportunidades de emprego; que a cura venha, que algo melhore, como será viver? Não falo da positividade tóxica, que ignora a realidade ou coloca elementos mágicos em coisas que dependem de nossa condição de agente e coisas do tipo. Falo do crer, do querer, do esperar...


Onde é que dói na minha vida,

para que eu me sinta tão mal?

quem foi que me deixou ferida

de ferimento tão mortal? 

(Fragmento do poema de Cecília Meireles, "Rimance"