Louquética

Incontinência verbal

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Ansiedade

 


De alguma forma a gente julga que raciocinar e racionalizar sobre as coisas nos ajuda a sair das situações-problema. Sim, é verdade. Mas, há coisas que a lógica não dá conta, porque a gente sabe o que seria o certo, o lógico, o adequado, mas segue na direção oposta.

Ficamos, e esse plural se refere a mim e a uma colega de trabalho, desesperadas com os relatos de três alunos (um homem, duas mulheres), jovens mal entrados nos 20 anos, com crises de ansiedade.

Ansiedade todo mundo tem e é bem necessária. É até excitante ficar contando as horas para que algo aconteça, para que aquela pessoa apareça, ou aquele resultado seja publicado, ou que cheguemos logo a um lugar ou que uma data chegue...Normal e bom, ainda que cause alterações na gente. O problema está quando todas essas sensações se convertem num mal-estar, num sentimento que evolui para sintomas físicos de sufocamento, coração acelerado, sensação de desmaio, de escurecimento da vista, de tontura ou de coisas que sequer a pessoa sabe dizer do que se trata, exceto de que pensa que vai morrer – e nessas horas, as mãos ficam geladas, as extremidades podem suar frio.

Aí, sim, se tem um quadro de ansiedade patológica.

O aluno, totalmente saudável, socialmente ajustado, excelente em popularidade, notas, desempenho, relacionamentos, queixou-se, em princípio, de sintomas de calor, sufocamento e mal-estar. E demorou até notar que era mais do que sintomas.

As moças já tinham um parecer médico após descreverem os mesmos sintomas.

De episódios isolados, passa-se a episódios recorrentes, precipitados pelo medo de sentir tudo de novo.

Vale racionalizar? Sim. É a melhor defesa. Saber que aquilo vai passar, porque já foi experimentado antes e passou: fundamental. 

Se estiver tonto, parar e sentar, respirando com controle, de modo a evitar a hiperventilação, ou seja, evitar ficar ofegante ou respirara celeradamente...E se a cabeça acelera, andar é a melhor saída: pisotear a ansiedade gastando energia. Naturalmente, tratamento psicanalítico é o que vai resolver posteriormente.

A ansiedade é um grito do psiquismo para que algo seja solucionado. Cada ‘algo’ é particular. Normalmente, a gente não tem noção clara da causa. Mas, até que se possa resolver, vale o anti-ansiolítico natural que é o chá ou um fitoterápico adequado, vale a higiene mental e um pouco de solidão para se ter repouso, vale o que lhe traga conforto (homeopatia, aromaterapia, o que for). E novamente, a racionalidade: pensar em QUANDO isso começou, a fim de descobrir POR QUÊ.

Sinto que meus alunos têm vergonha, como se fossem ser julgados ou inferiorizados. Imagine, nosso mundo dá motivos constantes para sofrimentos psíquicos e quem tem coração não tripudia das dores do existir. A razão não vai lhe poupar de sofrer, mas vai ajudar a encontrar saídas para os sofrimentos.


sábado, 24 de setembro de 2022

Em que espelho?

 


Há um conhecido verso de Cecília Meireles, repetido à exaustão – e válido para muitos tempos – que é “Em que espelho ficou perdida a minha face?”. Obviamente, se refere ao processo de envelhecimento. Não reclamamos de termos sido crianças quando já somos adolescentes, porque é parte do crescimento; estranhamos ser adultos quando deixamos de ser adolescentes, mas, tudo bem, também é parte do crescimento. Todavia, os primeiros sinais da velhice derrubam egos – que, para alguns é uma calvície, um cabelo branco, um pouco mais das gorduras advindas dos hormônios em mudança, uma girada no cronômetro etário e lá vem o fim do mundo. Crueldade da natureza, os primeiros sinais de velhice aparecem a partir dos 25 anos – aquele colágeno que nos dava um rosto bem contornado, um sorriso de bochechas brilhantes, uma pele sem opacidade e uma barriga comportada, cede lugar e aos poucos vai nos deixando...até os neurônios e os óvulos vão dando suaves adeuses.

Meu ex-namorado nunca me permitiu saber a idade dele. Penso que era uns 56 ou 58 anos, bem escondidos num corpo sem gorduras, musculoso, ao longo da excelente altura e dos raríssimos cabelos brancos.

Como tem ocorrido a muitas pessoas, ele coloca fotos de perfil no whatsApp e nas redes sociais de quando ele tinha vinte e poucos anos: deve ter muitas saudades de si mesmo.

Uso filtros em minhas fotos, mas não dos que anacronicamente retira a verdade de minha idade: queria apenas ter a pele bonita, sem os poros abertos que me acompanharam a vida inteira.

O que a idade me deu de bom: cabelos. Nunca tive cabelos grandes como agora. Também meus dentes estão mais bonitos, porque passei pelo ortodentista sob uma disciplina que eu não teria antes (nem tempo, nem dinheiro para tal); entrei na academia para nunca mais sair (desde 2013, nunca larguei – na pandemia, me exercitava em casa); a vida toda eu não fui sedentária, jogava handeball aos 13; fazia musculação desde os 22, mas largava; mudaram as formas de meu corpo e talvez isso tenha significado uma resposta ou uma conversa com a minha idade. Não sou infeliz por estar mais velha, provavelmente porque não tive senão muitas angústias ao longo da vida. Ser feliz foi algo muito de depois dos meus 35 anos – e não é felicidade idealizada de fim de novela, não. Aí seria preciso ser alienada ou viver de positividade tóxica o tempo inteiro, negando a realidade e achando que vou cocriar verdades adequadas à minha satisfação. Felicidade é indescritível, não é ‘cesto de alegrias de quintal’ e, aliás, é de graça e sem causa declarada.

Eu me sentia feia aos 18 anos. Eu era boba aos 24 anos. Somente aos 33 eu amei pela primeira vez na vida. Então, não tenho motivos para ser saudosista com a juventude.

O que vem antes do citado verso de Cecília Meireles é “Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil”.

E as pessoas acham que nunca mudarão, exceto na aparência. Também achei que nunca mudaria. Por conseguinte, “Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil” e aqui não me refiro a aspectos físicos. É que eu achava que não suportaria estar completamente sozinha, no plano amoroso. Eu achava que estava amando pela segunda vez e que acataria qualquer condição para estar com meu par. Mas, não foi assim: coloquei minha viola no saco e nunca mais voltei à casa dele, nem para ele, nem sequer procurei conversa. Logo eu, que adoro conversar, estranhei não gastar palavras para resolver com diálogo as questões. Foi um basta e um ‘foda-se’ que eu jamais me imaginei capaz de dar.

Mudei em tanta coisa, inclusive, na postura ao sair sozinha na noite: hoje eu me vejo como uma mulher adulta e independente, que não precisa ter vergonha de estar só, dançando, curtindo, sem querer beber álcool, sem hesitações. Mas, eu não vi isso acontecer, só notei após o percurso estar concluído.

Já falei aqui algumas vezes o que eu penso sobre algumas palavras da moda, tipo autoestima, por exemplo. Fundamental é você saber que não precisa apertar para caber, nem tem que contrariar a si mesmo para favorecer a paz com o outro. Este foi o ponto de meu término de namoro: seria necessário sempre fazer a vontade dele; ter cuidado com a forma como ele entendia as coisas; aceitar que não haveria diálogo, porque as convicções dele, o parecer, o julgamento que ele fazia, eram irrevogáveis. Era muito poder numa mão só. Era muito autocracia, para não dizer autoritarismo.

Dizem que há uma regra nos jogos, nas brincadeiras em par: quem ganha pode ganhar a maior parte das vezes, mas não pode ganhar todas as vezes (sempre), porque se não, o outro se retira do jogo, larga a brincadeira. Chamam isso de 60-40, ou seja,  alguém ganha sessenta por cento das vezes; o outro, quarenta. Claro, você vai jogar para perder? Zero ganhos, zero satisfação? Quem quer? Isso significa que é preciso dar algo, proporcionar algum ganho secundário para manter o outro no jogo. Não vi nada em meu favor, caí fora, W.O.

Sem contrapartida não há partida.

Na foto desta postagem sou eu, na idade atual.


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O amor bateu à porta

 


Pensamos muito nos amores impossíveis, mas o que dizermos dos amores viáveis? Talvez, o que esteja ao nosso alcance nos pareça, previamente, entediante. Para outras pessoas, não: é conveniente. A pessoa certa. A pessoa certa nem sempre é a pessoa amada, mas a soma das conveniências – em alguns casos, é o interesse puro; em outros, é o fim da busca pela ‘sorte de um amor tranquilo’. Demorei a entender isso no meu ex, o Poeta. Não entendi quando ele me disse que casar era como ter uma religião: alguns precisam. Demorei a ver que o Poeta casou, na primeira vez, aos 17 anos. Meu Deus do Céu: como pode um garoto de 17 anos se casar? E casou uma segunda vez, já aos 26 anos...No fim deste casamento, cinco dias após completar 33 anos, ele me conheceu ao vivo (depois de me mandar um convite pelo Facebook, respondido três meses depois), numa noite de dezembro. Então, quando a gente se separou, depois do começo da pandemia – é, a pandemia é um marco histórico e um divisor de águas –, ele não queria, de fato, se separar e eu não entendia aquilo, já que ele claramente estava num outro relacionamento. Sofri um bocado. Passou o tempo, ele passou em importância afetiva para mim – importância histórica ele sempre terá. Foi um homem com quem amadureci sexualmente, com quem muito conversei, ri, aprendi, ensinei, me consolei de coisas que ele jamais soube que aconteceram e, por fim, vez por outra a gente se viu e também deixou de ser ver. Essas pequenas distâncias modificaram muito o modo como ele me tratava, porque trouxe a admiração, inclusive admiração física por mim, que antes era básica, como se eu fizesse parte da decoração da sala...E não sei o que houve para ele manifestar um apreço diferente. Talvez seja apenas aquela vaidade de perceber que há outros conhecidos dele declarada e assumidamente querendo me namorar (escondi o namoro com o Homem de Capricórnio), mas, enfim, como novela mexicana, ele veio à minha rua, já bem tarde, sob a chuva de ontem à noite, depois de não ser atendido ao telefone. Temendo bater à minha porta àquela hora e ser rechaçado por mim e por meus parentes vizinhos, insistiu no telefone e eu o atendi, saindo de carro ao encontro dele (ele, em frente à garagem, praticamente), para manter a privacidade. Ele não me disse nada que fizesse sentido. Alisou meus cabelos, me beijou o rosto enquanto eu dirigia sem entender do que se tratava.

Ele inventou que estava passando perto de minha casa, porque tinha ido à inauguração de uma casa de poker secretamente localizada a 200 metros de minha casa...ele já sem palavras, sem congruência, sem nexo argumentativo. Depois de um silêncio de saudades cúmplices, ele disse que queria dormir comigo, na minha casa, na minha cama. Claro, não atendi à ousadia descabida, mas ficamos em intimidades silenciosas até o decurso de um temporal interno em nós e o externo, na chuva incessante. Muito tempo!

Levei-o de volta à casa dele – foi muito diferente esse estar perto. Quando cheguei em casa, vi que ele avisou que me bloquearia no WhatsApp, por motivos de segurança, porque ele está casado com outra, mas que não queria deixar de falar comigo...Por mim, sem problemas. Eu não poderia responder a isso, já que estava bloqueada.

Concluí que, talvez, ele tivesse vindo atrás de mim apenas para se despedir de vez, como quem se reservasse um último desejo, antes de sepultar verdadeiramente um sentimento. Gente mais acessível, mais descomplicada, ele teria, se quisesse. E posso dizer que até ao pronunciar meu nome, ele não o fez da mesma forma. Na minha cabeça, era questão de despedida, de última vez, de nunca mais.

De manhã, lá estava eu desbloqueada. Achei bonita essa declaração indireta de amor, porque eu entendi ali um amor ágape, outra linguagem, outra coisa. Perdoei, por dentro, o ser humano confuso que experimentava saudades de mim, que reconhecia a alegria que tínhamos quando perto; entendi que eu não teria a dar a ele algo que ele queria muito. Não era questão idiota de bloquear e de desbloquear, era um homem em busca da paz do amor tranquilo, da segurança de um lar e de um esteio, que digladiava com os outros prazeres que eu lhe outorgava e que o tempo estava tirando dele. Acho que ele passou a entender que não poderia combinar duas pessoas com duas coisas que lhe eram vitais, mas como prescindir delas?

Eu não disse nada sobe nada, em momento algum. “Esse silêncio todo me atordoa/atordoado, eu permaneço atento” – digo eu, citando Chico Buarque.

Amar não é tudo. Pobres de nós, que achamos que um amor correspondido é garantia de felicidade. Não, não é. Até dói mais quando a pessoa que a gente ama também nos ama, mas há uma série de coisas em que a gente não se ajusta; e quando a pessoa com quem a gente se ajusta em uma série de coisas não é alvo de nossos sentimentos? sei que o bicho que mordeu o Poeta vive me mordendo.

O Homem de Capricórnio instaurou uma crise em mim e eu edifiquei uma boa distância emocional. Não deixei de gostar dele, só achei que precisava ficar sozinha, que a paz é estar sozinha e sair do campo de guerras que eu já não suporto, porque tenho poucas armas contra a infantilidade e contra defeitos inegociáveis - falo de vinganças que ele sempre me faz; de interromper minha fala; de nem ouvir argumentos; de desejar que eu esteja à disposição dele e prescinda de minha vida particular, etc.

Disse Drummond que "O amor bate na porta/o amor bate na aorta/fui abrir e me constipei." Pois, me descreveu até na crise de rinite.

Será que existe amor equilibrado? Ou será que tudo é negociação, jogo de perdão, ajuste infinito? Saio dos amores sem respostas, entro com muitas perguntas...


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Colapso cognitivo e Efeito Dunning -Kruger

 



Hoje li uma pequena manchete, sem adentar ao conteúdo, que me deixou bastante pensativa. Era algo assim: o conservador quer conservar o quê? E lembrei de um ser humano que achava que ser conservador era regredir às leis morais do tempo de nossos avós. Acho engraçado, só isso.

Outra grande descoberta, daquelas que não guardam qualquer novidade, foi que me chamou a atenção ter ouvido e lido sobre o efeito Dunning-Krugger, de que eu jamais tinha ouvido falar antes. Foi citado numa palestra de Fabiano Moulin (se minha memória estiver certa), para a Casa do Saber, e refere-se à falsa sensação de sabedoria, à confiança cognitiva que a gente pode traduzir por arrogância e que eu ouso chamar de “seachismo”, seja porque quero dizer que o termo se reporta a quem “se acha”, seja porque, na minha cabeça, faz inferência a ‘sea’, mar, em inglês – e, portanto, a pessoa se encontra num mar de sofismas; seja porque até parece com ‘search’ do verbo pesquisar, em inglês. Mas, vamos trocar em miúdos, objetivamente: o efeito Dunning-Kruegger recebe este nome a partir dos pesquisadores que têm os sobrenomes citados; e trata do sujeito que leu qualquer coisa e acredita que esgotou o tema e sabe suficientemente o que mais ninguém sabe como ele.

Com muita sorte, ele perceberá a própria ignorância e a parcialidade de seu saber. A partir daí, consciente das próprias limitações, irá buscar saber verdadeiramente. Acontece, entretanto, que vejo as pessoas assistirem vídeos no Youtube e consultarem a Wikipedia, a fim de dominarem assuntos. A estratégia se apoia, ainda, na memorização de jargões e termos técnicos, com o intuito de passar credibilidade. Aí, eu penso que não somente essas pessoas medianamente formadas se valem disso, mas que um número indistinto de profissionais seguem pelos mesmos caminhos: o mecânico que diz que há uma ruptura na rebimboca da parafuseta, que implica na desaceleração da ventoinha e, portanto, o serviço de troca do adesivo do óleo vai te custar R$ 900,00; àquele seu coach quântico, ou o orientador tethahealing quântico; ou a cartomante quântica e, mesmo, o bispo presbiteriano quântico da neurociência dos santos dos últimos dias vão jogar um monte de palavras que causem a impressão de sabedoria a si e lhe esfregue à cara a sua ignorância na causa. Sabe com o que isso se parece? Parece aquele povo que decora versículo de bíblia e os encaixa deturpados, adaptados aos interesses próprios; parece aquele povo que decora número de leis, artigos e portarias e lança no meio das conversas para parecer que sabem tudo.

Onde a Filosofia não erra, é ao demonstrar que é preciso estudar e ler muito para saber um pouco. Feliz de quem sabe que só sabe um pouco. Por outro lado, coitado dos que pensam que sabem bem pouco, apenas porque estão diante de ‘sabidos’ que são apenas espertos. Mas, voltemos ao básico: a pessoa se dizia conservadora e não sabia o que era para conservar...é cada uma! 


terça-feira, 19 de julho de 2022

Aqui estamos nós...

 


Blogs são espaços sobreviventes em meio a uma era cada vez mais indisposta à leitura. Foi-se o tempo em que blog era um diário que movimentava a curiosidade alheia e servia para desembaraçar cérebros cheios de ideias e dúvidas. Quanto mais me ocupo, menos tempo sobra para a escrita.

Por aqui, como posso, procuro manter distância e anonimato parcial, porque continuo achando estranho que a gente possa priorizar censuras internas para evitar julgamentos dos conhecidos; ou se dar à tarefa de implorar seguidores.  Acho tudo isso chato e desnecessário e nunca usaria tal régua para medir sucessos. Estou aqui há 12 anos. Sobrevivendo há mais de uma década, porque não busco patrocinadores nem retornos financeiros ou coisas materializáveis.

Acho minha vida engraçada, até quando ela está trágica e, por isso, dou conselhos que ninguém me pede – porque quem não acatar, basta não seguir; quem não gostar, basta não ler. E eu adoro esse desprendimento.

Falando nestes 12 anos de blog, vos digo que o mundo mudou, que o século verdadeiramente só está começando agora – não me refiro a datas, logicamente, mas ao tempo em sua categoria abstrata. Uma pandemia é muita coisa. Uma legião clamando a volta da ditadura, é muita coisa. Todo o retrocesso no conhecimento é muita coisa e, se algo nesse embaraço me surpreendeu, foi a completa ausência de sentido nos termos recorrentemente citados. Por que, ao reclamarmos do ensino escolar, o que houve com as aulas de História, Geografia, Física, Português, Ciências, Biologia, Química? E não falo exclusivamente das deficiências da escola pública: falo do geral, das pessoas com formação e repertório de vivências.

Onde ficou perdida a noção básica entre Capitalismo e Comunismo? De onde saiu a ideia de que o Brasil já foi Comunista, ou que grandes detentores de meios de produção, gente de família quatrocentona, agroexportadores e redes de televisão mundialmente estabelecidas poderiam ser comunistas? De onde saiu a ideia de que o Capitalismo beneficia o pobre e prega o bem comum? Quando a Terra se tornou plana? Como se pode propor intervenção militar no próprio país, mas se defender a Democracia para a Venezuela? Quando foi que a Ciência se tornou menos relevante do que as indicações mendicamentosas dadas por um presidente? Desde quando alguém pode ser considerado conservador porque prega contra a liberdade sexual dos outros? E desde quando se pode ser cristão desejando o extremo mal aos desafetos e fazendo-se apologia à violência, como prediz a BBB (Bancada do Boi, da Bala e da Bíblia) e, aliás, como se pode aliar políticos do agronegócio, políticos da indústria de armas e políticos que defendem valores cristãos? Desde que o país resolveu acreditar nisso. Daí que, para mim, o novo século só começa agora: com suas contradições, misérias e múltiplas faces. Estou assustada com o tempo, com as pessoas, com o nonsense descabido. E com a identificação que as pessoas têm com tudo isso. Não há o que reclamar: são escolhas de uma maioria.

Conservadores não são conservadores: são apenas retrógrados ou reacionários. Têm saudades do passado, assim como todo racista tem saudades da escravidão, porque afinal era a escravidão alheia. Mas, há um sentido de masoquismo coletivo aí, porque o Brasil é pobre. A maioria é pobre. Não se tem classe alta com tanto número de gente que possa representar maioria quantitativa: é o povo que vota conforme a cabeça do algoz; que se identifica com o patrão e que acha que mais vale defender uma pauta moralista do que um prato de comida que chegue a quem não tem.

 


sexta-feira, 24 de junho de 2022

Ciúme Retroativo

 



Meu namorado tem me atormentado com perguntas e referências descabidas sobre minha iniciação sexual. Mais de uma vez me perguntou quando eu deixei de ser virgem. Respondi a verdade: aos 19 anos – ou seja, há bem mais de duas décadas. Na hora do sexo, vez por outra, ele tem me perguntado como seria se ele houvesse me encontrado quando eu tinha 20 anos. Também respondo a verdade: seria ruim, porque eu era babaca.

E era mesmo: uma moça insegura, que não sabia o que era orgasmo, que teve uma primeira vez ruim e todas as relações sexuais até os 27 anos sem o menor prazer, sem a menor graça, sempre como um dever a cumprir junto a quem eu namorava. Tinha outros prazeres, é certo, mas nada genital.

Aí foi o tempo de encontrar um amor que não assumi, com L.; e, depois, aos 33, o Ex-Grande Amor da minha vida. E, enfim, por conta de pressões deste tipo, declarei para os devidos fins que foi com o poeta que eu atingi minha maturidade sexual e que, por isso, tanto fazia minhas experiências pregressas, que não era coisa quantificável.

Sexualmente, sou feliz com ele (ele, o homem de agora, o Rei de Espadas). Combinamos em muitas coisas, mas, no fundo, eu que chamo de namorado, mas não temos essa assunção, apesar de atendermos à cenografia social de ser casal e aparecer juntos.

Não mudo meu status de Facebook nunca. Não acho justo que o status de um relacionamento dependa apenas do homem, que ele determine a natureza da relação, contudo sei que é a prática comum, é o patriarcalismo que nos guia.

Mudamos muito, em nossos altos e baixos, na ambivalência do relacionamento. Na hora das reivindicações dele, vem a assunção de que não dá para dizer que não sejamos nada um do outro; na hora de alguma questão minha, há a insinuação de que eu quero que ele cumpra papéis.

Assumidamente, sou uma pessoa de bom orgulho, em termos de ter vergonha na cara. Eu tenho vergonha na cara. Não retorno aonde não sou bem recebida; não mantenho contato com quem não gosta de mim, exceto se forças maiores – como trabalho, burocracias e acasos sociais e formais – impuserem. Portanto, não me humilharia jamais para estar com quem não me quer, não gostaria que alguém forçasse uma barra para estar comigo e demonstrações de apreço que não sejam espontâneas, a mim não interessam.

Sofro, choro e me desespero como qualquer outra pessoa, mas a vergonha na cara me impede de muitas coisas. Forçar a barra, seja forçando coincidências ou se aproveitando de situações de vulnerabilidade da pessoa (fragilidades, dores, lutos, carências financeiras, afetivas, etc) é um negócio tão artificial e, ao mesmo, tempo é uma desonestidade que retira todo o sabor do desejo realizado, porque a gente sabe que a pessoa não está com a gente por escolha, por querer naturalmente. Então, entendo quem não quer se comprometer porque não quer pagar o preço da responsabilidade, quer receber sem ter que dar, mas esquece de que poderá obter apenas o que tem a dar.

Acho que, em situações assim, não há vítimas nem inocentes: a gente vê e a gente escolhe compactuar ou não com tudo.

Vejo, então, no meu namorado atual, o desenho de um ciúme retroativo absurdo, incabível. Todo mundo tem passado – eu, sem o meu, não teria história, não seria quem sou.


Escolhas, riscos e saltos

 

A maternidade nunca foi uma dúvida para mim: desde os 13 anos eu já sabia, de forma consolidada, que não queria ser mãe. Desde antes, na infância, eu sabia, mas atravessei a vida esperando ver se algo em mim mudaria, se não era questão de fase. Nunca foi. Era convicção.

Há um lado de nossa identidade que é o que é e nada mudará, exceto, claro, por coerção, ameaça, força externa. É similar a querer forçar um gay a deixar de sê-lo: vai mudar o comportamento, mas não a condição – Logo, a perseguição social; o terrorismo moral, as ameaças de castigos, a exclusão, a violência física e psíquica não conseguirão senão o efeito repressor, contenedor, mas não a conversão.

Fico feliz por ser quem eu sou, apesar de todas as repressões.

Todo dia, cada um de nós luta (como eu luto!) para ter a paz de fazer imperar escolhas minhas para a minha própria vida. Esses que nos cerceiam em nossas escolhas de vida ou configuração de nossa personalidade nem sempre são elementos sociais externos. Podem ser desde nossos pais até os amigos mais próximos, que gostariam que fôssemos como eles gostariam, que pensássemos como eles pensam, que agíssemos como eles acham certo, que correspondêssemos a modelos de seus respectivos agrados.

É a lição mais tola e mais difícil da existência: saber que a sua vida é sua. Sua! Isso pressupõe, também, na hora das escolhas, observar quais dentre elas são definitivas. Não caia no golpe do ‘esta é a escolha mais importante da sua vida!”. Importante é qualquer escolha cujas consequências sejam impactantes e irreversíveis – eis um critério: o que é ou não irreversível, porque um matrimônio pode ser desfeito, mas uma paternidade e uma maternidade, não; Se você quiser mudar de profissão; de país; de parceiro amoroso, tudo pode dar certo e tudo pode dar errado. E se der errado, tem como voltar atrás. Mas, se você mudar de sexo; se você fizer uma intervenção cirúrgica; se você doar um órgão, se você tiver um filho, é decisão de vida, para a vida toda. Por conta disso, é sempre bom examinar se suas decisões são suas ou se são apenas escolhas pautadas em certo atendimento de expectativas externas, porque eu sei o quanto é difícil remar contra a maré, enfrentar olhares repressores; encarar gente disposta a confrontar escolhas íntimas que são de foro particular.

Nunca devemos esquecer isso: o que eu posso mudar, reverter, alterar ou alternar, se minhas escolhas derem errado? E se eu fizer conforme me indicam, que ganhos eu terei? E o EU, se a vida é MINHA, é a primeira pessoa de qualquer verbo.