Louquética

Incontinência verbal

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Saiba:



Um dos principais pilares do fracasso da educação é a manipulação pedagógica da realidade.
Assim é que se fundamenta o pensamento de que a educação salvará a Humanidade – não salva não: sozinha, não salva nada, embora tudo seja bem pior sem ela.
Assim, também, é que emerge o discurso contra a avaliação, contradizendo a verdade da vida que nos mostra que todo mundo é avaliado, sempre.
Assim, rejeita-se a reprovação, como se a vida real não cobrasse competências e habilidades construídas ao longo de um processo de formação, como se não houvesse nenhum processo de seleção e de avaliação na vida real, na vida extra-escolar. Então, é preciso reter conteúdos, processá-los e transformá-los, recriando toda uma cadeia de conhecimento, excedendo a repetição vazia.
Ou ficamos como estamos e viramos uma empresa, apoiada em estatísticas, de modo a congratular os percentuais de metas, a ter os alunos como se fossem clientes, tudo por uma lógica de lucros inserida, no caso do que diz o senso comum acerca da escola pública de que “o professor finge que ensina; o aluno finge que aprende”. E pode ser diferente? É proibido reprovar – e as falhas, as faltas, as carências vão sendo empurradas para frente. É que reprovar alguém é frustrá-lo, ferir o ego, ferir o íntimo...melhor é o fingimento ( e que fique a cabo da realidade mostrar a Verdade).
Educação é ginecocracia: lugar de diretoras histéricas, governo de mulheres competitivas, vingativas e ensimesmadas! Minhas colegas de trabalho na universidade que também dão aulas nos Ensinos Fundamental e Médio comentam que elas, as diretoras, parecem ter saído de uma mesma forma, que são produção em série, todas encarnando a representante do Estado Vigilante. Também passei por isso quando dei aulas nestes patamares da educação.
Comigo era ainda pior: eu tinha que ouvir, no tempo em que fui Coordenadora, o Secretário de Educação dizendo: “Quem perde é o aluno”, em referência às raras ausências dos professores, gente séria e competente que levava a escola nas costas, se empenhando em projetos nunca reconhecidos.
Em minha teoria pessoal, acredito que existe a Pedagogia de gabinete, algo análogo à Antropologia de gabinete, isto é, o tempo em que as formulações antropológicas eram fundamentadas a partir de relatos terceirizados, nunca o antropólogo estava in loco, apenas sentava-se no gabinete e tirava conclusões.
Na Pedagogia de gabinete, a realidade é ignorada: há apenas lindas teorias, citações de Perrenoud, de Vigotsky, de Wallon... ignora-se a violência sofrida pelos professores,ignora-se a perseguição das diretoras às suas colegas que alcançam títulos acadêmicos importantes, ignora-se que muitos alunos vão para a escola se encontrar com amigos e ter vida social, conhecer de sexo e de amores, ignoram-se os ensinamentos e os aprendizados que se processam nos fundos das escolas... e a cada professor agredido virá um pedagogo justificar o agressor dizendo que o referido aluno não se sentiu inserido pela e na escola.
Que pena!
Numa conversinha de salão de beleza, nesta sexta passada, a cliente nos contava que era professora e que, estando de volta para casa, no começo da noite, há poucos metros da sua casa,foi cercada por quatro rapazes, de modo que não havia como fugir.
Ela diz que observou os bonés cobrindo a cara de cada um deles, até que um destes rapazes se aproximou e colocou a mão num dos seus ombro..
No susto, ela só percebeu o cheiro forte de maconha impregnado nas roupas dele...e depois, ele, finalmente dizendo o nome dela e pedindo aos demais para caírem fora, porque aquela era a professora X.
Ele fez questão de levá-la à porta de casa e ficou, neste tempo, recordando coisas do tempo em que ele estudava, do quanto brincara com os próprios filhos daquela professora.
Ela disse isso já com lágrimas nos olhos e explicou para nós que tinha visto aquele marginal lá quando criança. E ela disse com pena e com desespero que a gente vê a pessoa pequenininha, que toda criança, todo menino é igual, é engraçado, é bonito, é divino... e que nenhum professor deixa de se chocar quando percebe que aquela criança de outrora virou aquilo ali. Claro, nós, professores (posso responder em nome de todos), sinceramente, desejamos o melhor para os nossos alunos. Quem não se entristeceria ao defrontar com alunos em situações adversas, em situações humilhantes, em risco, em clara marginalização fazendo mal aos outros e se inscrevendo do outro lado da Lei?
Interessante é a contradição na fala desta professora: “Imagine você, se eu fosse uma professora ruim? Esse menino teria feito misérias comigo! Viu como é melhor ser um professor bom?” parece embutida aí uma noção de que um professor ruim mereceria vinganças de todo tipo. E se ser um professor ruim é aplicar disciplina, é cobrar a parte do outro na parte da educação, poxa, eu não sou boa não!
Falo de pacto porque educação é pacto ; e não é o pacto da mediocridade. Disse Paulo Freire que “ninguém educa ninguém; ninguém se educa sozinho: os homens se educam em comunhão”.
Então, não é só a questão da reciprocidade no sentido da troca de conhecimento, mas o pacto de que há um compromisso tacitamente firmado entre as partes, o que pressupõe direitos e deveres de ambas as partes, ou seja, está subentendida a realização de tarefas escolares, de funções, e há uma série de atos que resguardem o respeito mútuo.
Mas, eu, que gosto de trilha sonora para tudo nesta vida, fiquei pensando na música de Arnaldo Antunes, Saiba, porque acredito que na simplicidade e na obviedade das constatações é que se escondem as coisas que todo mundo sabe, mas não percebe exatamente o significado desse saber.
Arnaldo Antunes - Saiba

Saiba,
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba:
Todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba,
Todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba,
Todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba,
Todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba,
Todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você.

domingo, 3 de abril de 2011

Marley e eu


Vai puxando o seu carrinho e acelerando, caso você esteja achando que o post Marley e eu é sobre uma historinha insossa acerca de um cachorrinho e um casal hollywoodiano.
Nos tempos de hoje o povo associa o rastafári a um cabelo de dread-lock e um cheirinho de erva proibida, mas, isso é uma afronta aos ideais de Bob Marley.
Tudo bem que tem aí um lado fumegante na questão – eu cursei História, convivi com os adeptos estereotipados – mas a base política de Marley, inscrita em suas músicas e em suas atitudes, convida à reflexão sobre as comunidades negras e sobre as formas de governo que buscam preservar um lugar subalternizado para os meus irmãos de etnia.
Facilmente a mensagem de Marley é identificada com a religiosidade: é que Jah é justo. O Deus de Marley é justo e justiceiro, como diz lá em Is this Love? Mas quem é que presta atenção à letra de uma música que tem um batidão reggae-love-song desses? e uma das músicas que eu mais gosto é Redemption Song, a canção da redenção, que pede a libertação da mente, pois que as mais fortes correntes prendem a mentalidade,a percepção, o senso crítico.
Nesta letra, o branco é o pirata que aparece no primeiro verso, o ladrão da liberdade alheia, negociador de almas e de destinos, não tem nada de herói. E cabe ao negro romper a cadeia opressiva e conquistar sua Liberdade plena.
Outra música que amo é Waiting in vain: nunca uma boyband poderia falar de amor como Marley fala, sem cair nos lugares comuns, nas imagens desgastadas, mas ao mesmo tempo sendo tão simples, dizendo tudo de maneira tão simples...

Bob Marley - Redemption Song

Old pirates, yes, they rob I,
Sold I to the merchant ships,
Minutes after they took I
From the bottom less pit
But my hand was made strong
By the hand of the Almighty
We forward in this generation
Triumphantly
Won't you help to sing,
These songs of freedom?
'Cause all I ever have:
Redemption songs,
Redemption songs!
Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look
Huh, some say it's just a part of it:
We've got to ful fill the Book
Won't you help to sing,
These songs of freedom?
'Cause all I ever have:
Redemption songs,
Redemption songs,
Redemption songs!
Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our mind
Oh, have no fear for atomic energy,
'Cause none of them-a can-a stop-a-the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look?
Yes, some say it's just a part of it:
We've got to ful fill the Book
Won't you help to sing,
These songs of freedom?
'Cause all I ever had:
Redemption songs,
All I ever had:
Redemption songs!
These songs of freedom,
Songs of freedom!

Para aquele lugar!


Há posicionamentos que a gente toma e que nos fazem parecer a mais arrogante, prepotente e convencida pessoa do Universo, mas é que as questões sempre vão além do que nos mostra a superfície. Assim é que eu nem sei que jeito dar para fazer com que a criatura possa entender que eu, de fato, não quero nada com ele, que eu não gosto dele, que eu não quero que ele ligue para mim e que eu não me importo nem um milímetro com nenhum dos planos que ele insiste em me contar.
A mensagem subliminar eu já havia passado há quase quatro anos, mas ele não entendeu. Alguns homens não entendem o que é desinteresse. Muitos interpretam um não, redondíssimo e claro, como se fosse um charminho que as mulheres fazem. Então eu já disse que gosto de outra pessoa, eu já inventei compromissos, eu já disse claramente que não queria nada com o sujeito, mas, ainda assim o idiota é besta o bastante para querer ser lembrado.
Na verdade, o convencido é ele, que não sabe conviver com uma resposta negativa, com um não claramente declarado – poxa, e estes, os caras assim, são muitos.
Era para ele perceber que, além de minhas palavras, minha eterna indisponibilidade expressa muito mais do que qualquer gesto ou palavra.
Já criei namorados imaginários para afugentar o sujeito, mas a obsessão dele é teimosinha, sempre espera por mim, para abusar da minha educação, para desafiar a minha paciência... Vai que tudo isso se resolva com um exorcista, não é?
Ele sabia perfeitamente que eu estava só, mas parece que não percebe que nem a pior solidão do mundo, nem o maior desespero de causa me fariam ficar com ele.
Só me resta mandá-lo ao mesmo endereço para onde andei mandado certas pessoas. Então, mais uma vez, estou providenciando o transporte específico, para não ter erro nem dúvida, pela Empresa PQP, do grupo empresarial **Taqueopariu S/A. Boa viagem!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Memória e esquecimento



"Todas as mudanças profundas na consciência, pela sua própria natureza, trazem consigo amnésias típicas. Desses esquecimentos, em circunstâncias históricas específicas, nascem as narrativas. Depois de passar por transformações emocionais e fisiológicas da puberdade, é impossível ‘lembrar’ a consciência da infância. Quantos milhares de dias transcorridos entre a primeira infância e o começo da idade adulta desaparecem para além de qualquer evocação direta! Como é estranho precisar da ajuda de alguém para saber que aquele bebê nu na fotografia amarelada, esparramado, todo feliz no tapete ou na caminha, é você! A fotografia, belo fruto da reprodução mecânica, é apenas o mais definitivo exemplar dentre um enorme acúmulo moderno de evidências documentais (certidões de nascimento, diários, fichas de anotações, cartas, registros médicos e similares) que registra uma certa continuidade aparente e, ao mesmo tempo, enfatiza a sua perda de memória. Desse estranhamento deriva um conceito de pessoa, de identidade (sim, você e aquele bebezinho são idênticos), a qual não pode ser ‘lembrada’, precisa ser narrada."
(Anderson, Benedict R. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução Denise Bottman - São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.278)
Trabalho com memória e com esquecimento na narratividade da nação brasileira e da nação portuguesa, daí a minha escolha por este trecho de Benedict Anderson, porque as figurações da nacionalidade, nome exato que acompanha minha tese, são construções discursivas, narrativizadas. Mas a gestação da nação não difere muito das experiências pessoais da memória, da constituição biográfica de cada um de nós.
Adoro o livro que citei: acho que o trabalho da tradutora é imprescindível para dar este tom de leitura boa, de compreensão, de acesso ao texto. Poucos textos teóricos têm essa característica de ser agradável e compreensível, dispensando uns volteios enfadonhos que servem apenas para dizer a mesma coisa.
Mas, então, somos quem somos também por nossa memória e por nossos esquecimentos.
Às vezes dizemos a uma pessoa: “Eu nunca irei te esquecer”. E para a mulher, o esquecimento é algo que dialoga com os sentimentos.
Esquecer alguém, no vocabulário feminino, é anular esse alguém, subtrair seu significado para si, diminuir sua importância. Nem sempre isso é feito contra o outro, mas a favor de si: é uma maneira de cicatrizar amores não correspondidos, relações dolorosas, humilhações,superar perdas, escorregos morais...
E quando dizemos “Eu nunca irei te esquecer”, na verdade, queremos dizer que esta pessoa a quem se fala fará parte de nossa memória, estará presente enquanto lembrança. Acontece, porém, que até nossas lembranças mudam porque um mesmo fato, passado um certo tempo, pode ser interpretado de uma outra maneira. Isso independentemente de dados que venham a surgir e desabonem o sujeito a quem se dirige a proposição “Eu nunca irei te esquecer”.
A maturidade e o próprio humor diante das circunstâncias da vida levam a gente a mudar a perspectiva da memória. Assim, aquele fato que nos deixou orgulhosos num dado momento, num tempo posterior poderá ser motivo de vergonha; o grande amor vira decepção, os pais, nossos heróis, passam a ser vistos como algozes, aqueles inimigos passam a já nem serem assim, tão potentes quanto nós os pintávamos e, aqueles que são parecidos comigo, certamente olham para trás e dizem: “Como eu fui idiota!”.
Mas só podemos ver o que somos depois que deixamos de assim o ser, isto é, num tempo posterior cuja mudança assinalada em nós permita perceber o passado de outro modo.
Todo mundo tem passado. Uns têm uma relação melhor com ele, outros, vivem dele, uns tantos mais preferiam apagá-lo e não poucos vivem de exumar o passado das suas vivências pessoais, a questionar o passado do outro e a investigá-lo...eu me interesso pela nossa relação com o passado da nação, embora não o passado histórico por si só, mas a construção desse passado e a forma como a gente se relaciona com ele – nós, um país de memória curta que a todo momento tem que confrontar com as piadas auto-dirigidas de que “brasileiro não tem memória: tem uma vaga lembrança”.Temos uma memória bem manipulada e processos de esquecimento sempre sob manobra, deduzo eu, sem maiores aprofundamentos hipotéticos.
No plano pessoal, porém, acho que o esquecimento vem sem ser chamado (ah, quando você tenta esquecer, aí é que não esquece mesmo!). Quando você percebe, já era: os personagens forem apagados, a história já é outra e no livro de nossa vida ficam muitos capítulos suprimidos. E isso pode ocorrem sem o mínimo prejuízo da narrativa.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ignorar ignorantes: um ato de liberdade


Acho que ele, o Outro Lá, nunca vai entender que eu gosto da minha solidão.
Não é a solidão brava, de não ter um abraço para lhe acolher, um lado para o qual correr quando o bicho pega, um ouvido atento nas horas de angústia, nem olhos atenciosos para as nossas mágoas: é a minha solidão tranquila, quieta, bem minha, tão minha.
É este prazer de que minha cama esteja ali, à minha espera, sem incômodos, sem barulhos, sem explicações, tudo à minha escolha - inclusive de quem um dia possa, quiçá, estar em minha cama...mas é que eu não gosto disso sempre, todo dia...
Meu amigo hoje estava me dizendo que não se casará pela terceira vez caso o seu matrimônio venha a se dissolver: é que tudo vira obrigação, inclusive a companhia do outro - e o sexo, e as despesas, e as datas comemorativas em que não há o que se comemorar.
A minha solidão tem a ver com a minha liberdade, porque eu gosto de estar só, é escolha: por mais que eu goste de alguém, seja amigo, namorado, ficante, parente, etc., eu gosto de ficar sozinha. Talvez isso seja o egoísmo de gostar de mim mesma e precisar ficar a sós comigo mesma - ah, quem disse que eu estou à procura de explicação? É bom e eu gosto.
Gosto de todas as outras companhias, porque são companhias: não quero ninguém em meu osso vinte e quatro horas por dia.
Talvez tenha a ver com o fato de que sempre escrutinaram minha vida, minhas agendas, meus diários, meus escritos, minhas fotos: a vida toda houve um bisbilhoteiro em minha cola...
Tudo aquilo que a gente não conta, acaba criando lendas urbanas sobre nós mesmos, do tipo: traumas nunca sofridos, namoros que nunca ocorreram, atos que nunca cometemos, mas que, enfim, como criação coletiva acaba pegando. Nem ligo! ligo apenas quando é injúria real, fofoca; e quando o negócio é descabido. O resto, o que imaginam ou que criam, não me irrita.
E por falar em irritar, andei notando que eu estava me irritando pelo fato de que um certo Ser Humano fazia cara de paisagem ao me ver. Eu achava isso uma afronta: a gente se conhesse há uns 04 anos, tivemos uma certa aproximação; e a última vez em que ele me cumprimentou foi na Páscoa do ano passado.
O problema é que eu me importava, porque eu queria que a gente fosse amigo como começamos a ser, mas ele foi se distanciando inexplicavelmente.
Hoje eu o encontrei: passei por cima dele como se ele fosse transparente - ah, todos os fantasmas são.
Foi para ferir mesmo, porque sei que os que têm ego imenso, ao perceberem que não são significantes como pensam, quando finalmente viram passado e não despertam em nós nenhum desejo de lembrança, sofrem o impacto de nosso gelo.
Sei que fiz por maldade: passei por ele, na ida e na volta, como se ele fosse transparente, fiz cara de paisagem, ignorei, passei por cima. Fiz isso mais para mim do que para ele, para que eu visse que aquela minha desconfiança, na verdade uma dúvida, sobre cortar o contato mínimo, excluir das redes sociais, deletar de minha história, já estava mais do que clara como a certeza de algo que eu deveria fazer. E fiz. Não quero mais papo, nem contato, nem gracinha.
É que eu achava mesmo que ele tivessea algum significado para mim, mas,tanto faz: eu me interesso tanto por ele quanto pelos rumos da Economia do Sri Lanka ou pela territorialidade cíclica das formigas na Noruega...
Os cumprimentos não devem ser uma obrigação burocrática, no caso das nossas escolhas. Escolhi que não quero mais contato, qualquer que seja, nem mesmo aquele contato que a Educação exige.
Coisa boa é esvaziar gavetas, jogar fora o que apenas ocupa espaço,se livrar do que não é útil, se desfazer daquilo que não soma nada à nossa vida...
E estou me sentindo tão bem!

The suburbs, do Arcade Fire


Eu fico mesmo muito feliz quando surge alguma banda criativa, com uma música que consegue comunicar e seduzir os ouvintes. A banda canadense Arcade Fire, que todo mundo a esta altura já conhece porque The suburbs passa e toca em tudo quanto é canal de música, já havia lançado outros álbuns, mas mesmo se eles se tornassem uma banda de um só hit, valeria a pena.
Gosto do clipe da música The suburbs pelo meu velho argumento: é um curta-metragem. E bem feito.
Mas você não precisa dominar a língua inglesa para interagir com o conteúdo da música: a sonoridade é bem próxima ao que o pessoal do The Smiths já criou, ou seja, a música fala com você.
A letra, por si só, tem um suporte sociológico que merece ser entendido, mas se não chegarmos a uma decodificação direta, o clipe, sozinho, já explica tudo, já traz uma narrativa compreensível e boa, com imagens boas e atores juvenis excepcionais.
No clipe, os amigos estão no começo da adolescência, brincando e se divertindo juntos, brincando de guerra também. Aí, então, se instauram as imagens de guerra civil, com as pessoas que são do mesmo país, da mesma cidade, mas de bairros diferentes, em plena ação bélica.
O lado metafórico explora os binômios: centro X periferia, isto é o subúrbio, as partes depreciadas da cidade em oposição ao pólo hegemônico. Mas, ao mesmo tempo,nessa conversa de amigos, vão se desenhando as separações, os sonhos que se distanciam, os temores de que a vida futura não permita realizar os sonhos mais simples.
Acho que o meu blablablá aqui é só para dizer que eu gosto da música, antes mesmo de me aprofundar sobre qualquer coisa sobre a banda.
Arcade Fire - The Suburbs

In the suburbs,
I learned to drive
And you told me I'd never survive
Grab your mother's keys we're leaving
You always seemed so sure
That one day we'd be fighting
In a suburban war
Your part of town against mine
I saw you standing on the opposite shore
But by the time the first bombs fell
We were already bored
We were already, already bored
Sometimes I can't believe it
I'm moving past the feeling
Sometimes I can't believe it
I'm moving past the feeling again
The kids want to be so hard
But in my dreams we're still screaming
And running through the yard
When all of the walls that they built in the 70's finally all
And all of the houses they built in the 70's finally fall
Meant nothing at all?
It meant nothing at all,
It meant nothing
Sometimes I can't believe it
I'm moving past the feeling
Sometimes I can't believe it
I'm moving past the feeling into the night
So can you understand
Why I want a daughter while I'm still young?
I want to hold her hand
And show her some beauty,
before all this damage is done
But if it's too much to ask
If it's too much to ask
Then send me a son
Under the overpass
In the parking lot we're still waiting
It's already past
So move your feet from hot pavement
And into the grass
'Cause it's already past
It's already, already past
Sometimes I can't believe it
I'm moving past the feeling
Sometimes I can't believe it
I'm moving past the feeling again
I'm moving past the feeling
I'm moving past the feeling
In my dreams we're still screaming
We're still screaming
We're still screaming

terça-feira, 29 de março de 2011

Era uma vez... MTV


Já faz um tempo que a MTV não tem M, isto é, Música.
Quando a Music TeleVision chegou ao Brasil, nos anos 1990, foi uma revolução e muita gente que a gente vê estabelecida na televisão um dia já foi VJ.
No final da minha infância eu e muitos de minha geração ficávamos vigiando o Fantástico, que sempre trazia a estréia de algum clipe. Depois, com a MTV, quem tinha televisão por assinatura se esbaldava com tantos clipes e com VJs do tipo do louquético Thunderbird e até tempos atrás, com o asqueroso João Gordo – todo mundo muito louco, muito transruptivo.
Ultimamente, até mesmo a VH1 latina já nem tem clipes: é só um festival de programação alternativa besta, tipo Ru Paul e a Corrida das Loucas e outros realities shows sem graça. Pelo menos, tem ainda os Clipes para Levantar (com o qual, graças a Deus eu me levanto, tomo banho e tomo café), Zzzzzzzz e os 100 melhores clipes. Mas, a cada dia que passa, a música ocupa um lugar menor na programação dos canais que deveriam fazer jus aos seus nomes e exibir videoclipes de música.
O videoclipe trouxe exatamente o que o título sugere: o encontro da música e da imagem, tal como no cinema, exibindo uma narrativa e configurando um curta-metragem. Não é à toa que grandes diretores de cinema assinam vários clipes. Mas, vamos a um caso recente: Hurricane, do 30 Seconds to Mars.
Lançado no final do ano passado, o clipe, que está mais para filme, dura 13 minutos, sob a direção do próprio vocalista da banda (o gatésimo Jared Leto, que também é ator), tem um perfil de filme de ação e traz cenas de nudez, violência e sadomasoquismo – por conta disso, do conteúdo do clipe, a MTV norte-americana e outros canais, condicionaram a exibição do clipe a uma censura. Assim é que cerca de 40 cenas foram suprimidas da versão televisiva, mas no site d abanda e no You Tube se pode encontrar a versão sem cortes. Com ou sem cortes, o clipe é excelente.
Muitos artistas brasileiros que amargaram temporadas de ostracismo tiveram na MTV uma grande aliada para ocupar lugar na mídia: as versões acústicas dão um up grade na carreira de qualquer um, porque retomam o repertório antigo da banda, sucessos já consagrados; e raramente colocam uma ou duas faixas diferentes, mas é do velho sucesso que sai o novo sucesso e com isso, sorte do artista!
Acho que o clipe é a cara da música, é a personificação da música. E como a música acompanha o meu dia, há aquelas que compõe a trilha sonora dos momentos mais importantes de nossa vida – sejam os bons, os dolorosos, os felizes - aquelas cenas tão pessoais que foram acompanhadas de alguma música e que fizeram nossos videoclipes particulares.
Como cantou titia Rita Lee, "Quem M te viu, quem M te vê"!