Louquética

Incontinência verbal

terça-feira, 28 de abril de 2020

Estes que nós somos




Não sei de onde saem os absurdos de meu tempo, mas me sinto como se estivesse em transe, num pesadelo. Nunca pensei que o pensamento político e histórico do brasileiro chegasse a este ponto atual de bestialidade.
Hoje, por exemplo, foi vetado o reconhecimento do ofício de historiador enquanto profissão.
Gostaria de saber qual foi o presidente comunista que o Brasil já teve, como isso aconteceu, se ele foi eleito pelo povo ou se deu um golpe de Estado e assaltou o poder.
Gostaria de saber de onde as pessoas tiram uma coisa dessas e o que há com a cabeça das pessoas para sustentarem tantos delírios.
Acho válido que o povo faça suas apostas naquilo que eles julgam novo – o Estado Novo não tinha nada de novo; Fernando Collor já foi o novo e a cada vez que os mesmo políticos, cujos sobrenomes conhecemos desde a infância, são eternamente eleitos e reeleitos pelo povo, passo a desacreditar da maioria numérica.
Se aquele povo iludido com Educação, uns coitados sonhadores, que acham que Educação é tudo, viu a ascensão de indivíduos provenientes da periferia, das minorias, das camadas pobres, à universidade (pública e privada) nos últimos 12 ou 10 anos, cadê esses frutos? Não estão em lugar algum. Sou professora, defendo a Educação e sei os limites dela.
Cito isso porque as escolhas políticas não são frutos da ignorância, da falta de educação formal.
Sem educação, pior ainda. Mas, educação, sozinha, não dá tudo. Há processos mais sérios e mais profundos, de ordem psicológica, por exemplo, que faz com que a massa se identifique com um perfil e com um discurso, especialmente no nosso país, que se preocupa mais em criminalizar os atos de preconceito do que em erradicar preconceitos, por meio justamente de recursos de educação extraescolar; há a falta de auto-reconhecimento, porque nem sempre o negro sabe que é negro, nem o pobre sabe que é pobre, nem o gay sabe que é gay, então, costumam fechar questão aderindo às causas alheias, muitas vezes favorecendo seu próprio opressor, como ocorre às mulheres que defendem posturas machistas. Acho tudo compreensível. Acho que o brasileiro sonha tanto, que delira.
O que é assustador é que os sonhos atuais, coletivos, não incluam o bem-estar coletivo. Não vejo mais o povo brasileiro querer que o seu compatriota não passe fome; nem se importar em diminuir a violência, nem torcer para que o analfabetismo acabe.
Não querem dividir o pão, não querem que existam índios (logo eles, os donos da terra; os que habitavam o país antes disso aqui ser invadido pelos portugueses e gerar os monstro que somos). Somos, cada vez mais, seres do ódio. Seres impiedosos.
Achamos que o pobre tem culpa por ser pobre; que o desempregado é apenas um preguiçoso, que o diferente é o inimigo e que há uma maneira padronizada e reta de ser cidadão, como se a vida fosse uma conta exata e como se as pessoas pudessem ser seres programados.
Para arrematar, uns que se pensam nacionalistas pregam a submissão e a subserviência total aos Estados Unidos, acham que tudo que pertence à nação deve ser vendido – as companhias estatais que geram lucros foram todas torradas, vendidas a poucos centavos.
Há um parcela de pessoas que para justificar suas escolhas equivocadas toda hora chama o passado. Pior era o governo anterior; ah, ele também roubou; ele acabou com o Brasil – e cá para nós, nas eleições de ultimamente, tudo é equívoco, apenas varia em maior ou em menor grau. E quem, está no poder está detonando e destruindo o que pode, proporcionalmente ao seu tempo de poder- mas, este ser iludido é muito preocupado em ter razão, seja porque meios for. E ainda culpa as forças etéreas de quem ‘torce contra’, como se torcer contra mudasse algo. Se mudasse, o eleito nem seria quem ocupa o cargo hoje em dia, O cidadão que vota errado, que segue a onda sem medir a corrente e sem se ver enquanto nadador, se afoga e vai feliz.
Sendo objetivos, vamos lá: com esta onda de COVID-19, a vida só se normalizará em agosto ou setembro, quando tudo que puder acontecer já tiver acontecido.
Eu, por exemplo, caso o shopping abrisse amanhã e a academia também, não iria nem por decreto. Aliás, não é por causa do decreto de ninguém que eu iria, mas por meu bom senso. Acredito que prefeitos e governadores não têm o poder de fazer o vírus obedecer às suas ordens, ou seja, não me sinto segura. E a cidade em que moro nem sequer tem 50 casos confirmados ou, se passou disso, foi na estatística de hoje, que eu não acompanhei.
Acontece que entre assintomáticos e portadores com sintomas, há a distância dos testes, que não são feitos.
Não vou na roleta russa.
Provavelmente, se eu tivesse que dar aulas em maio, eu não iria de forma alguma.
Não é que a reclusão me proteja, uma vez que furo a quarentena para receber delivery, abastecer o carro, comprar comida, ainda que o faça raramente e no momento crítico.
Junta, aqui no Brasil, uma crise de saúde e uma crise política, comandada por um presidente que se acha o rei absolutista e uns eleitores que se sentem súditos e têm postura de verdadeira adoração e submissão a ele, pelo qual, renunciam a qualquer exercício de criticidade,  porque se é para pensar em discordância com as afirmações do grande ídolo, melhor nem pensar.
Todo pensamento contrário é severamente punido, projetam redes de ódio, ataques morais, mas isso não vale uma pauta. Na verdade, acho que ele nem é o problema. O problema é o povo brasileiro mesmo. Se somos nós quem fazemos escolhas, quem elegemos...
Certamente que a insegurança chegará ao festejos natalinos, mas aposto que a partir de setembro, com a primavera e o sol, tudo será feito para apagar a memória dos dias atuais, com vistas a alimentar o consumo, o turismo e à própria política  - ponto fraco do brasileiro. 
Devo, porém, acrescentar um atenuante para nossas culpas: em certos pleitos, as opções horríveis de políticos também fizeram com que nosso cálculo moral ficasse na berlinda. Era isso: o ruim e o pior, lado a lado...Para evitar mal maior, fomos para determinado lado... 
Continuamos um povo crédulo, acreditando em político limpo, de boa intenção; acreditamos em futuro - o tempo passa e ficamos para trás e somos passados para trás, sempre e ad eternum.


domingo, 5 de abril de 2020

De volta à caverna doméstica



Não escrevi antes por total falta de tempo.
Se me aparecia um pequeno intervalo, eu o dedicava a urgências acumuladas.
Como todas as outras pessoas, estranho os dias de confinamento. Gosto deles, decerto, seja porque não me sinto sozinha, seja porque não vejo problemas em me manter isolada. Solidão é um fato normal, comum, que nunca me assustou de verdade. Talvez, também por ainda não ter experimentado o ócio – nossa quarentena começou em torno do dia 20 – e exercer minha função de professora nas burocracias dos preenchimentos infinitos dos diários e atividades incorporadas anteriormente, como os cadernos de campo que trago para corrigir em casa, os trabalhos de conclusão de curso – não senti o peso real das coisas da vida urbana.
Tanta gente vive sem shopping, sem cinema, sem praia, em cidades minúsculas, em muitas das quais até já estive...não seria eu a sofrer exatamente por isso. Sofro e não nego, pela falta da academia. Por alguns poucos produtos de franquia de chocolates ou do lugar que vende meu queijo favorito e que não abrem agora, sim, sinto falta.
A atividade física já ultrapassou, em minha vida, a questão estética. Incorporei ao meu viver. Gosto de gastar energia e se não me apetece muito puxar ferro e levantar peso, me adaptei e gosto como hábito.
Tenho mais medo dos momentos furtivos em que saio de carro na rua deserta para ir ver o poeta – pouco, bem pouco, porque matamos a saudade em conversas virtuais ao longo da semana – porque se algo ocorrer, ficarei em reais apuros na cidade deserta. A cidade deserta nunca é esvaziada de perigos. Os maus não tiram férias nem respeitam quarentena.
Tenho livros e filmes para ver. Tenho declaração de imposto de renda para fazer. Serviço doméstico não falta.
Tenho muito livro espírita para ler, um jardim para cuidar, bichos para cuidar e brincar e no somatório das coisas, o que me deixou perplexa foi pensar que sexta era quinta-feira.
Também acho esquisito o povo sem noção, que quer desafiar verdadeiramente o perigo do vírus, mesmo com todos os exemplos, testemunhos e comprovações.
Será que pensam que os mortos não estão mortos?
Será que acham que há um complô mundial para uma ilusão coletiva?
Ultimamente o Brasil se mostrou um país de seres delirantes, no geral, incapazes de reconhecer a incoerência em suas próprias posições.
Brasil é um país de maus.
Inventam epítetos, hinos, louvores de enaltecimento, mas somos gente de pouca sensibilidade e nossos governantes refletem o que somos. Falo aqui da coletividade, da identidade coletiva, não dos indivíduos isoladamente, porque eles são mistos. Porém, a predominância é do perfil monstruoso, preconceituoso, hipócrita, corrupto... nossa pátria-mãe é aquela mãe hipócrita que diz ‘meu filho não mente’, enquanto sabe que o filho é dissimulado, mentiroso, desonesto.
Não creio que o isolamento vá durar. Mas, tem sido uma grande lição. Não achei ruim, achei disciplinador. Falo como passado, talvez porque no domingo da semana que vem seja meu aniversário e eu esteja a ver a vida passar, os anos correndo...no fundo, minha casa me diverte. Cada livro é como se eu tivesse um amigo inteligente para me contar uma história ou me ensinar alguma coisa – estou em boa companhia e ainda escolho a trilha sonora.
Durmo e durmo feliz – adoro dormir. Só meu relógio biológico está em modo preguiça.
Raramente como errado, mas hoje, que resolvi fazer uma receita de pão enviada por uma amiga, ah, exagerei.
Vou ver se pulo corda. Não quero que meus músculos diminuam...
No momento, o exercício é outro: parar em casa.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Carnaval: currículo vitae



Tenho muitos carnavais no currículo.
Sempre gostei de festa.
Quando criança, minha tia colocava sonífero no meu suco, para que eu não inventasse de ir às festas com ela e a outra tia. Aos 4 anos eu chorava e esperneava para ir às festas que começavam nove da noite do sábado.
Aos 11, minha tia me levava às festas infantis dos domingos à tarde nos clubes. A vizinha dizia que eu parecia estar me afogando, porque me metia no meio da galera, pulava, dançava...E sabia dançar.
Aos 13, eu fugia com as filhas de minha madrasta para uma discoteca suburbana, recheada de maconheiros e gente de conduta questionável. Deixavam a gente entrar, a gente entrava. E não entendíamos nada sobre drogas, prostituição ou álcool: cada um com seu refrigerante ou sua água, em companhia de uma pseudo-irmã maior de idade...Até que minha madrasta aparecia na porta do estabelecimento e catava a gente a tapa, jogando todas dentro do carro, já às 23 horas e nós não entendíamos que mal poderia fazer sair para dançar...afinal, era o que fazíamos.
Apesar das proibições, sempre houve festa e dança em minha vida. Vi os shows dos ícones de minha adolescência e da fase adulta, brinquei micaretas e carnavais até 2016. Encerrei ali. Saí satisfeita: foi o melhor carnaval da década, para mim.
Eu havia conhecido o poeta em dezembro e o primeiro carnaval depois dele foi também o último, seja coincidência ou não. Não vou ao carnaval porque não quero mais ir.
Neste ano, acompanhei o carnaval pela TVE Bahia. Adorei. Se tem duas coisas que são melhores à distância que ao vivo, são o carnaval e a Cachoeira do Sossego, na Chapada Diamantina. O carnaval é melhor em casa, sem calor, sem cansaço, sem importunação, sem fome e sem desesperos para voltar para casa. E quanto à Cachoeira do Sossego, é linda pelo Google fotos. Ao vivo, são quatro horas de caminhada pela mata, com muitos penhascos e vegetação inóspita para, enfim, você encontrar um lugar besta cheio de pedras com uma água gelada cor de Coca-cola. Sob meu ponto de vista, não vale a pena.
Meu ponto de vista, viu? Meu! Respondo por mim, falei de mim.
Aprendi isso e só desobedeço no réveillon: datas festivas, com estradas cheias, ruas cheias, alvoroço e desassossego, é melhor ficar em casa. Claro que tem monotonia, que a cidade fica vazia...Mas, prefiro isso. Fica fácil preferir porque eu já curti muito, muito mesmo.
Não sou dessas pessoas hipócritas que se fartam de tudo e prescrevem dietas para os outros. Eu, não. Carnaval é bom – tem diversidade de festas, lugares e atrações, bastando que a pessoa escolha e vá – rua, camarote, bloco, etc; Festa também é algo ótimo.
Carnaval: Já pulei, hoje pulo fora.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O feitiço da bondade



De vez em quando, a vida fica mais pitoresca que narrativas de filme adolescente ou ficção pouco elaborada. Vamos a uma: Mais engraçado do que o momento em que “o feitiço vira contra o feiticeiro”, é quando o feiticeiro fica enfeitiçado e magnetizado a tal ponto que não quer mais ser feiticeiro.
Resumindo essa história, uma Amiga-Fura-Olho intermediou o encontro de um cara meio mala com outra amiga nossa em comum.
Não gostei da ideia, porque a Amiga-vítima é chata, mas não merece um mentiroso e mala como o tal que lhe foi arremessado nos braços.
Em cinco dias um já eram o grande amor da vida do outro. Fez-se a intimidade sexual e ele, mala que é, disse à mediadora que a Amiga-vítima era fria e que ele gostava das novinhas.
Aos dez dias do caso, ele mudou completamente de ideia: confessou que a Amiga-vítima era muito legal, pessoa direita, de coração bom, presente, companheira, que deu a ele os melhores dias dos últimos tempo, porque trazia paz gratuitamente e que, fazendo as contas, valia mais a pena ficar com ela do que descartá-la.
Dali a dois dias, estava ele, o mala, a cercar a Amiga-vítima em precauções para livrá-la de perdas e golpes.
A Amiga Fura Olho ficou enfurecida: ninguém mudou por ela – eles já tiveram um caso e conhecem bastante um ao outro, a ponto de saber que reciprocamente não valem nada. Inveja, ela teve.
E eu, que estava inquieta, pensando em como dizer à Amiga-vítima que aquele homem tem 12 anos a mais do que declara, não tem aquela profissão, nem aqueles bens...que é um estelionatário afetivo, cheio de mentiras no bolso...
Feio ele é, mas um feio elegante não chega a incomodar e isso ela já havia visto. Fiquei feliz pelos dois: por ela não quebrar a cara e por ele ter se convertido, passando para  lado positivo da situação.
Enfeitiçado ficou ele, especialmente pela bondade dela - que tem o coração tão bom que, numa viagem comigo, catou um copinho e foi regar as plantas da recepção de onde a gente se hospedou...com ele, ela deve ter regado tão bons exemplos, que os frutos apareceram logo.
Pequenas narrativas da vida que nos fazem crer que pode ser possível ser diferente, que os finais podem tomar outros rumos – e eu, do que sei, nada direi. E passemos aos próximos capítulos.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Coisa de louco!



Hoje o percurso é longo até que eu chegue ao ponto da discussão. Mas, vamos lá: o mundo está cheio de loucos. Bem, este blog é o Louquética, portanto, eu devo estar à procura de contradições, não é? Não. Aqui não falo dos loucos que ganham este adjetivo porque são pessoas alegres, ou autênticas, ou inconvenientes e irreverentes, porque, aliás, em minha função de professora, a coisa mais comum é chamar de louco ao professor espontâneo, ao que faz gracejo; enquanto que aqueles que garantem a autoridade gritando, humilhando alunos e fazendo ameaças são apenas os nervosos. Mas, falo dos loucos strictu sensu. Louco que é louco mesmo e não se escondeu sob o rótulo de qualquer adjetivação da psiquiatria, louco que não se faz de bipolar, de depressivo, de traumatizado...Louco que, aliás, até se esconde sob esses rótulos e jamais se perceberá esquizofrênico. Eles são muitos e múltiplos.
Decerto, há situações em que um ser humano fica temporariamente animalizado e irracional, que vira cem por cento instinto e eu acredito que é igual ao que ocorre com a personagem de Michael Douglas em Um dia de fúria, isto é, a pessoa transborda porque vinha acumulando uma série de dissabores. Há, claro, os que já estão no limite e se aproveitam de situações sociais para descarregar seus ódios, os que dizem para nós desaforos gratuitos, como forma de expurgar ódios diante dos reais destinatários – a velha sentença de descontar nos outros uma fatura não devida por eles, já que os credores reais são fortes demais para serem enfrentados.
Então, vamos sair do tangencial agora: tenho pouco apreço biográfico por Renato Russo, assim como por Roberto Carlos, Pelé e Cazuza. Para todos eles, eu, que não sou de ódios gratuitos por conhecidos, muito menos o seria por desconhecidos. Entretanto, por acesso a relatos, entrevistas, filmes e biografias confirmadas por eventos reais, constatei a arrogância de Renato Russo e seu ego imenso que se traduzia em hostilidades e acessos de soberba; vi as mediocridades de Roberto Carlos e de Pelé, frente aos filhos concebidos fora do casamento e com mulheres pobres ( no caso, esses filhos jamais quiseram dez centavos desses sujeitos, apenas queriam um nome na certidão de nascimento), dentre coisas correlatas reiteradas pelo esforço de Roberto Carlos em proibir sua biografia não autorizada, por exemplo...E, no esteio da conversa, registro minha leal antipatia por Renato Aragão, muito esperto e pouco caridoso com seus companheiros de Os trapalhões, apenas para exemplificar. Por fim, meu caso com Cazuza foi bem a respeito do comportamento arruaceiro dele, desrespeitoso até com a própria mãe, deselegante e ríspido com as mulheres fora do padrão de beleza, além do ego imenso, arrogância e metidez pura e simples.
Não obstante minhas observações pessoais e particulares, todos foram muito bons naquilo a que se propuseram a fazer.
Uma coisa é a pessoa, outra coisa é a obra.
Da mesma forma que gente inteligente pode ser canalha; gente canalha pode ser bom pai e boa mãe; maus artistas podem ser grandes pessoas; grandes mentes podem ser emocionalmente fracassadas, desequilibradas.
Obras, obras. Artistas à parte.
Estava eu a observar, com tristeza, um versinho de Pais e filhos: “Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar”. É uma música do meu tempo, dos anos 90...Lembro que Matheus adorava cantar para mim...E essa lembrança do verso me mostrou como pode ser triste ter um pai que é visita.
Não sou conservadora, penso que um lar saudável é melhor que um lar com pais que se odeiam. Não estou tratando disso, mas dessa percepção de perda e de luto que é ter um pai que é uma visita, um pai para de vez em quando.
Comentei isso com um amigo louco. Ele toma os remédios certos, mas tem mania de perseguição e megalomania. Obviamente, ele não sabe. Já é um senhor de sessenta anos, vivido e inteligente, por sinal.
Não preciso acrescentar que ele tomou para si meu comentário. Disse, ainda, que não conviveu com nenhum dos artistas que eu citei, porque no contexto eu fui exemplificando e explicando.
Tive que ser mal educada e dizer que também não fui íntima de Hitler, nem do imperador Carlos Magno, muito menos de Getúlio Vargas, mas que sabíamos muito bem quem foram e como levaram suas vidas.
Nos anos 90, Matheus e eu éramos essas pessoas cujos pais são visitas. Ocorreu de só agora reparar na música e, por empatia, entender essas feridas.
Não me meto nas escolhas de ninguém e, por isso mesmo, levo a sério as minhas: eu não quis ter filhos. Não quis por não querer, sem mais. E se eu tivesse, nunca seria porque determinaram, ou por posse, para chamar de meu, por utilitarismo, muito menos (para ser útil na velhice, para trazer felicidade à minha vida): eu teria vergonha de mim. Responsabilidade esse negócio todo.
Nós dois sabíamos a barra que era ter um pai que é visita.
Os vazios, as perdas, aquela falta...
Meu amigo, ofendido, falou da guarda compartilhada. Não discuto isso. A pessoa precisa ouvir e ler muito mal para direcionar a conversa para um aspecto fora do foco.
Há um luto nesta falta de pai – no processo natural, psicologicamente, a gente faz a separação e a superação. Mas, quando se é adolescente, você sofre mesmo.
Entendi meu amigo louco: foi a forma dele subtrair as próprias culpas. Em se tratando de alguém que jura que o whatsapp e o facebook perseguem os passos dele, que há gente observando tudo e todos os passos dele, naturalmente ele iria achar minha observação uma indireta.
Os loucos pelo politicamente correto vão ficar à cata da expressão cabível para o portador de enfermidades e transtornos mentais, porque louco é uma palavra inadequada...Ah, tá!
Não tem indiretas nem julgamento: tem um parecer, um ponto de vista, uma opinião. É a minha opinião. Não vou multar nem matar quem tem outra opinião, nem insultar quem pensa diferente...
O brasileiro comum tem se tornado um chato fundamentalista, que quer que todos torçam para um único time, para um único partido, para um único modo de ser mulher, de ser negro, de ser professor, de ser gente...
Não seria mais fácil não comer jiló se você não gostar de jiló; e permitir que quem gosta, que se farte? Você não gosta, não faça, não consuma, não pratique, não frequente... Mas, por aqui, as pessoas se ofendem pelas escolhas alheias, pelas opiniões, ainda que não haja desrespeito...Então, voltando ao tema da loucura, bem, os loucos, ah, eles são muitos.

sábado, 18 de janeiro de 2020

De novo, o novo...



Acerca dos tempos sombrios que atravessamos aqui no Brasil, eu tenho que dizer que é assim mesmo. E é assim para todas as coisas e para todos os políticos: por mais que a polícia prenda, o povo vota nos caras. Por mais que algum político seja nazista, fascista, racista, sexista, misógeno, tosco, violento, sujo, louco, sórdido...O povo sempre elege.
Olha, devo dizer: tem Cidade Maravilhosa por aí, que é cheia de negros, pobres, gays, prostitutas, nordestinos, excluídos em geral...e se você contabilizar um a um quem eles são, numericamente serão maioria. É esse contingente que forma eleitorado...E elege esses representantes ruins. o povo dá o poder a esses monstros.
Aqui no nordeste, pelo menos, tem negro que nem desconfia que é negro e pobre que não sabe que é pobre. Então, se identificam ideologicamente com a elite. E como a elite, numericamente, se compõe de pouca gente (ou alguém aqui conhece milionários?), não tem o poder de colocar gente nas cadeiras da política - se, para isso, ela recorre a ideologias, ações de propaganda e falsidades múltiplas, o povo segue atrás. Mas, o povo não é ingênuo nem burro: abraça a causa porque se identifica com ela e com seus representantes.Nosso Brasil tem Sarneys, tem Aécios e tem Renans...E o povo sempre os elege, assim como São Paulo sempre elegeu Maluf.
Perdi meu direito à reclamação: o povo elege esses, como elegeu o atual presidente. O voto vem do povo, que é maioria numérica e votante.
A Esquerda, por seu turno, acha que a elite elegeu o monstro atual. Contudo, quando era a Esquerda no poder, foi o povo quem escolheu? Nos dois casos, é o povo, é seu processo de identidade, é fechar com a causa do candidato mesmo. E são sempre os mesmo, até os que se fazem de novidade. Na política, como na tecnologia, não há novidades...
A propósito, vai um Beto Guedes e sua Feira Moderna (tem versão dos Paralamas também) para a gente pensar musicalmente na questão:
"Tua cor é o que eles olham, velha chaga...
Teu sorriso é o que eles temem, medo, medo.
Feira moderna, o convite sensual

Oh! telefonista, a palavra já morreu
Meu coração é novo!
Meu coração é novo!
E eu nem li o jornal
Nessa caverna, o convite é sempre igual
Oh! telefonista, se a distância já morreu
Independência ou morte!
Descansa em berço forte
A paz na terra, amém."


Pane no sistema!



Não tenho paciência com as falhas na tecnologia. Nunca vi lógica em ter que me haver com os defeitos das coisas que existem para agilizar a vida e que, no entanto, emperram, travam, falham, quebram...
Talvez, por isso, eu seja resistente a ter grandes gastos com computadores e celulares.
Já falei aqui de roupas velhas que tenho, no sentido do tempo, que são bastante novas, no sentido da conservação e do pouco uso – e, para isso, eu lavo as minhas roupas. Lavo com orgulho, à mão, separando grupos de cores e fico feliz por haver máquinas de lavar que eu nunca terei.
Bons computadores também duram muito. Não travam à toa.
Neste em que escrevo, não tenho sossego. Se eu pudesse dar um conselho, diria: Não comprem computadores da Samsung.
Tive celulares caríssimos da Samsung: o último, durou 27 dias. Apagou de repente. Nunca mais se reabilitou.
Eu me senti aquele Coiote do desenho do Papa-Léguas, que vive comprando produtos ACME, que sempre falham ou funcionam tão tardiamente, que prejudicam a armadilha e é o coiote quem cai nelas. São produtos que a gente, assim como o coiote, conserta batendo e xingando, apesar de saber do prejuízo.
Por que comprei tantas vezes? Por achar que aquilo foi uma exceção; por conselho de amigos que diziam ter se dado bem, por acreditar que modelos diferentes trazem resultados diferentes e, por fim, por assumida burrice mesmo.
Tem coisa mais irritante que clicar e nada abrir?
E quando o sistema cai, ataca meu sistema nervoso – vamos ser sinceros? A tecnologia de celulares e computadores têm mais propaganda do que proveito.
Há teoria conspiratórias (e justas) que preconizam que os softwares de cada tecnologia são programados para fazerem os objetos tecnológicos pararem, a fim de forçarem novas compras. Eu acredito. Não tem como alimentar a idiotice de lançarem a cada dia uma versão nova de tantas coisas, como se fossem coisas novas realmente...
Decidi não ter impressora e conheço um rebanho de gente que também não tem nem terá, porque não funcionam. E se for multifuncional, não funciona nunca. Quanto mais funções, menos funcionam.
Ganharíamos mais se investíssemos no aperfeiçoamento real da tecnologia e não nessa lógica de descartabilidade, também válida para carros, medicamentos e produtos que ganham um "plus', uma "versão atualizada", uma "nova fórmula" que tem pouco de novo e muito de enfeite.
A propósito dos carros, então, é recall toda hora, porque o defeito de fábrica é a grande contradição, ou seja, a peça já vem quebrada, defeituosa. O novo já vem velho...
E tem sites especializados que mostram mesmo que a versão de cinco anos atrás é melhor que a de agora e muitos modelos, mas, enfim, leis de consumo - é preciso descartar. Bens duráveis já não duram...