Louquética

Incontinência verbal

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Dez de Espadas e um conselho

 


Porquanto somos humanos, compartilhamos de sentimentos, sensações, desejos e experiências comuns, universalizadas por nossa condição. Então, através da experiência do outro, podemos colher certos aproveitamos particulares.

Não tenho autoridade para dar conselhos. Aliás, de vez em quando me exaspero com uns tantos leitores do blog, que me procuram com cobranças de respostas e resultados, ou em busca de esclarecimentos sobre determinadas pautas. Aqui é um espaço de opinião sincera, de relatos meus, que não conheço nem tenho intimidades com meu público, nesses 11 anos de existência da página – olha, nem eu acredito nesse tempo todo.

Hoje, entretanto, vou fazer diferente. Vou dar um conselho explícito e direto – esperando não ter por leitor nenhum ser humano paranoico, que nunca vi, nem conheço, nem sei o nome, porque tem de tudo nesse mundo e tem pessoas que julgam que tudo é indireta para si. As novelas não frisam à toa: “Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos, datas ou lugares, terá sido mera coincidência”. Então, lá vai: ontem tirei, no tarô, um X de Espadas.

Há um tempo passei a jogar o tarô para mim mesma. Entendi o tarô como um caminho de leituras arquetípicas psicanalítica, ou seja, um jogo entre coisas inconscientes, mais do que um oráculo com mágicas de adivinhações – se bem, confesso: tarô lê mais o seu presente. Aí as interpretações são pessoais. As Lâminas têm significado geral, narrativo, imagético e dependem da posição ocupada no jogo, por exemplo. E faço o preâmbulo para me explicar melhor e passarmos ao X de Espadas e à vida de quem nem acredita em tarô – não é necessário mesmo.

Destaco o quão apavorante é o naipe de Espadas: de elemento ar, corta dos dois lados, quando surge, derruba os sonhos. Se o IX, é a carta mais temida por muitos, por representar sofrimento psíquico, desassossego, pesadelos, preocupações, medos; o X de Espadas assusta ao mostrar muitas espadas atravessando o corpo – tanto faz a origem do baralho e as variações de ilustração. Pura dor e desespero. Mas, o que pode haver de bom nisso? Primeiro, enxergar a dor e o problema (consciência da situação). Segundo, a possibilidade de reverter. Parar, pensar, observar: é preciso encontrar a saída em meio ao caos. Solidão e silêncio para estar consigo e ver a necessidade de solução.

Pensemos agora nas espadas que podem nos atravessar – no amor, no dinheiro, na vida social, nas mágoas, nas tristezas, nas coisas de que somos vítimas por não termos meios de escapar. Podemos ser esgrimistas e ter na espada uma arma, mas, no simbólico é ela que nos acerta.

Eis o conselho: o X de Espadas, para mim, representa todas as situações abusivas que pedem o fim, exigem que tenhamos as rédeas e as encerremos: as que tocam nossa interioridade, as agressões cumulativas, as questões familiares que causam feridas nunca declaradas ou nunca admitidas, os assédios morais e pesadelos de convívio, seja lá onde for. Por causa de nosso momento atual, associamos a ideia de relações abusivas ao contexto sexual, ao estupro, mas não percebemos que o homem que nos negligencia comete um abuso; que os pais egoístas que tivemos ou que os colegas que boicotam nosso trabalho cometem abusos. Toda forma de assédio, bullying, todo mau trato reiterado é um abuso. Tem gente abusiva em todo canto. Deste modo, veja que IX vem antes de X, não é? É a véspera, é o pré, é o antes, é o que antecede ao fim de um ciclo, portanto, acabe com isso. O dez é o fechamento. Não é uma carta ruim. Ao contrário, é a carta da responsabilidade sobre aquilo que te acontece, uma vez que você percebeu onde está o problema e criou a consciência do abuso.

Se a carta traz o temor e mostra o sofrimento, também te mostra: resolva. Se te parece desesperador, esfrie a cabeça, confie que tudo passa e apresse o fim dessa situação. Saiba dizer não, saiba desligar o telefone ou trocar o número, saiba fechar o ciclo se posicionando de modo diferente, pois se não puder mudar seus sentimentos, você pode mudar suas atitudes.

Não é para agir de forma intempestiva, mas aproveite a passagem de ano e tome atitudes diferentes, se livrando do lixo mental que essas pessoas, coisas e situações geram.

Acho uma infantilidade sem fim bloquear os outros, excluir, mas há pessoas para as quais a conversa jamais surtirá efeito. Considere como medida cautelar isso de manter distância. Não se ponha ao alcance do abusador, seja lá quem for.

Se não der para cortar o contato, enfrente a situação, a pratos limpos.

Se o caso for de dependência – ou seja, não se pode romper com o abusador, pois se depende dele economicamente, ou é o chefe, ou, pior, há relações parentais pelo meio, pense em formas de sair disso, mas quebre o ciclo.

Sei que datas comemorativas são guiadas por consumo, economia, comércio, mas não sou uma pessoa amarga. Acredito que são bons pretextos para expressar carinho, amor, para comemorar a existência ou acreditar num amanhã melhor. Ano novo é rito de passagem – na verdade, só muda a data. Mas pode ser época de inaugurar outra fase de vida, planejar, criar, meios, executar... fechar ciclos, encerrar, acabar, tal como a ilustração, dar aquele golpe de misericórdia, finalizar e começar outras coisas.

 


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Respostas óbvias para questões comuns

 

 


Sendo mulher, quem nunca encarou problemas clássicos com o relacionamento com os homens? Desde situações em que a gente ama o cara, mas não tem satisfação sexual com ele e, por isso, hesita, se termina ou mantém o namoro, suportando essa falta (ou se resolve, tendo um terceiro elemento); àquelas clássicas mais clássicas, com as quais resolvi me arvorar a responder, por mera brincadeira – afinal, o especialista em sua vida é você e o acesso a este blog não substitui a orientação de um profissional – e será que tem doido que vem tomar decisões baseando-se em blogs? Bem, vejamos os típicos casos:

a) Apertem os cintos, o sujeito sumiu após o primeiro encontro; b) Visualizou a mensagem e não respondeu, por que será?;  c) Ele sumiu, mas depois apareceu...e sumiu de novo; d) Ele adora estar comigo, mas não saímos em público; e) Marcou de vir e desapareceu; f) Ele exige tanto e dá tão pouco; g) Eu sempre pago a conta por nós dois; h) Ele está no Tinder; i) Eu que sempre tomo a iniciativa de buscar contato com ele.

Nem tudo acima eu coloquei sob a forma de perguntas, seja por que em alguns casos as coisas não se dão de modo interrogativo direto, seja porque minhas amigas e eu, ao formularmos perguntas, já temos ali a resposta. Então, a gente traduz assim, para bons entendedores:

  a) Apertem os cintos, o sujeito sumiu após o primeiro encontro – Sumiu mesmo, porque queria sexo. Se gostasse, voltaria. E se não houve sexo, não voltou porque não gostou de algo em nós. Pode se tranquilizar, porque ele não foi sequestrado, nem abduzido por extraterrestre, o telefone não bugou e detonou a agenda, ele não está na UTI.

  b) Visualizou a mensagem e não respondeu, por que será? Bem, a resposta já está dada. O vácuo, o silêncio é uma resposta e das mais pesadas: a atenção é proporcional ao interesse. Se a pessoa estiver interessada, você será prioridade. E o melhor é dar uma resposta à altura, ou seja, nunca mais manter contato.

 c) Ele sumiu, mas depois apareceu...e sumiu de novo: pois é. Some e volta porque tem certeza de que você estará onde ele deixou, isto é, à espera (“Esperando, parada, pregada na pedra do porto”, como diria Chico Buarque). E este ‘espera aí, que eu já volto”, significa que você foi deixada em stand by, em modo de espera. Meu sincero conselho: levante-se e vá embora. Contudo, se você ama, não tem jeito. Precisa catar a migalha que cair desse prato e criar forças para se libertar, enfrentando as fomes do fim do esconde-esconde. Vamos falar sério? O cara está brincando com você.

d) Ele adora estar comigo, mas não saímos em público. Neste caso, está claro que o sujeito tem outras ou deseja ter todas as outras. Para tanto, convém ser visto sozinho. Isso indica seu lugar na vida dele – o porão.

e)* O "eu sempre pago a conta por nós dois", eu prefiro não comentar porque é bastante explícito e eu vou poupar adjetivos.

 f) Ele marcou de vir e desapareceu: os itens b e c estão subentendidos aqui: há descaso, desrespeito e clara falta de interesse. Quem quer a gente, busca ficar com a gente. Se não é prioridade o encontro, a pessoa sumirá tranquilamente e se você for útil, no futuro ela (re)aparece e reinicia o jogo das esperas.) 

   g) Ele exige tanto e dá tão pouco. Outro óbvio caso em que o cara te trata como última opção, com postura abusiva de superioridade, pois faz mil exigências, impõe condições, se autovalorizando de tal forma que, quem quiser desfrutar desse ser valioso, que pague seu preço. A solução? Você está na promoção, para aceitar isso?

h) Ele está no Tinder. Aí o problema é todo seu, porque quem está nos aplicativos de relacionamento não busca, ali, crescimento espiritual; nem novas amizades; nem um novo emprego. O que será que buscam, não é? Aplicativos para relacionamento são autoexplicativos, se prestam àquilo que o título já diz. Mas eu vou repetir, porque tem gente distraída no mundo: relacionamentos. De flerte, a pegação, sexo, namoro...

  i) Eu que sempre tomo a iniciativa de buscar contato com ele. Dá vontade de repetir porque, de novo, as respostas se subentendem. Se todo o esforço é seu, é porque ele não tem interesse e se acha, crendo que você pagará qualquer preço para estar com ele, que você sempre estará disponível. Não há nada de mais em nenhuma das situações acima descritas, desde que você aceite e queira; desde que não sofra.

CONCLUSÃO: Amor não é receita de bolo. E há várias formas de amar. Quem é feliz em casal, trisal, em quadrisal, que seja e viva sua fórmula particular.

Na Fidelidade ou na Fudelidade, na solidão honesta ou nos pegue-e-não-se apegue, cada um que siga o que quiser, desde que goste e não faça disso uma angústia; desde que não se force para caber no modelo que não é adequado a si.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Positivo e (in)operante

 


Houve um tempo em que me acusavam de ser pessimista.

Houve um tempo em que alimentei uma particular raiva contra os seres humanos otimistas, aqueles bem esquisitinhos, que não admitem jamais a ideia de fracasso, que detonam qualquer um que levante a hipótese de que algo pode dar errado.

O pior, eu suponho, é aquele tipo de pessoa que acha que algo deu errado por que você pensou que poderia dar errado. Basta a pessoa ser prevenida, cautelosa, para ser chamada de pessimista.

Isso chegou a tal ponto que odeio até hoje, com todas as forças da antipatia, aquela música de Lulu Santos, chamada A cura. Quando eu ouvia:

“...Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal, a cura.

Existirá, em todo porto se hasteará
A velha bandeira da vida
Acenderá, todo farol iluminará
Uma ponta de esperança...”

 Ah, eu, internamente dizia: “Mas, que música filha da puta, delirante, fora da realidade!”. Um banho de otimismo fora da rota da realidade que nos cerca, totalmente sem noção.

Sempre me pareceu loucura isso de ‘pensar positivo’ e ‘vai dar tudo certo,’ mas não por tendências pessimistas: é que para dar certo é preciso atender a muitos fatores.

Nesta semana acabei lendo sobre POSITIVIDADE TÓXICA e suspirei aliviada por ver, em teoria, o que eu sempre achei: não adianta pensar positivo, se você não contribuir para que as coisas deem certo.

A gente, fazendo tudo para dar certo, já se depara com situações fortuitas e fracassos, imagine sendo um ser inadvertido?

O resultado da positividade tóxica, além da fuga da realidade, é a negligência e a negação da responsabilidade individual nos processos pleiteados.

Aí, se tudo que você tem para um concurso ou uma entrevista de emprego, é o pensamento positivo, sinto muito, mas há grande probabilidade de não dar certo. Se você se preparar, aumentarão suas chances. O que há são chances!

Agora, pensa no contrário, por exemplo: pensei positivo e perdi ou não alcancei meu alvo. Muito provavelmente não terei fair-play, vou colocar a culpa nos outros ou, pior ainda, não vou saber superar a perda.

A positividade tóxica gera uma falsa sensação de segurança, porque delega a forças externas (algumas vezes, forças sobrenaturais) o desenrolar das situações.

E se sou confiante por causa das arrogâncias da fé, como fico quando não sou agraciada com o sucesso? Novamente, à mercê de conclusões absurdas e, claro, fragilizada.

Quem nunca ouviu ou leu: ‘LUTAMOS COMO NUNCA, PERDEMOS COMO SEMPRE’? Dou risada, mas é coisa que acontece. A pessoa faz a sua parte e mesmo assim, perde.

Não é pessimismo pensar que as coisas podem errado: é somente por esse senso de realidade, que a gente aprende a andar, por exemplo, com um band-aid na bolsa, ter água mineral no carro, criar dispositivos de prevenção.

Se pensar positivo me dispensar de estudar para a prova, acho que sairei no prejuízo, porque não estarei assumindo o que me cabe.

Para mim, pensar positivo é ser responsável. Então, isso supões planejamento, organização e método.

Olha, até para sair de casa eu calculo as rotas que farei – e dentre as rotas, penso nas alternativas, caso seja necessário escapar de engarrafamentos.

Acredito que a vida é cheia de imprevistos.

A gente tem tanto pavor de nossa falta de controle sobre as coisas, que vive catando previsão do tempo, previsão astrológica, cartomancia, tarot e todo tipo de oráculo simbólico. Então, a sua proteção é o seu cuidado consigo mesmo, com a sua parte na sua vida. Coisas que não estão sob nosso domínio vão sempre existir.

Pensamento positivo, sem as ações que reforçam os planos, não funciona sozinho.

Querer pode ser poder, à medida que a gente leva a sério o que quer – o famoso e citado ‘correr atrás’, que é a metáfora do esforço para alcançar algo. Eu acredito no esforço – seja no esforço mental do estudo  ou no esforço físico para o emagrecimento.


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Isolamentos

 


Não gosto de subestimar panoramas, nem de desafiar regras, apesar de discordar de muitas delas. Quanto às Leis, muitas são inúteis e tendenciosas; outras, não parecem sequer corresponder à Justiça, mas ainda assim busco obedecer.

Entretanto, desde que resolvi voltar à academia, sabia que um vírus não segue normas, não respeita feriados, não se recolhe em determinado horário nem se submete às regras do comércio e da economia. O que quero dizer com isso é que todo protocolo de funcionamento das coisas são meros arranjos, artifícios que atendem a interesses políticos e à manutenção da vida, porque mesmo gente como eu, que sai muito raramente, precisa ir ao banco, à farmácia, ao supermercado... E é preciso um mínimo direito de ir e vir, a fim de não sucumbir às vicissitudes psicológicas de tanta privação.

Na cidade em que moro tem todo tipo de aglomeração, tem um comércio pulsante, entupido de gente, tem festas clandestinas, bares cheios e mil atrocidades semelhantes mas, lá eu não vou. As pessoas colam em mim por qualquer coisa, devido ao hábito, presumo eu...ou é curiosidade pelo meu perfume, de forma que evito sair para estabelecimentos em geral, mas há dias em que me dói ficar em casa, porque preciso me movimentar. E justamente o movimento, a necessidade de movimento me fez voltar à academia.

Neste dias, encontrei uma amiga, que desinibida, falou que já teve COVID.

Hoje, uma amiga de comportamento exemplar, daquelas que se privam de sexo para respeitar o isolamento, obteve resultado positivo para a COVID...E no meu entorno, foram se formando casos – amigos, vizinhos, colegas de trabalho, até meu chefe.

Para alguns, é um alívio, porque pensam que não terão outra infecção; para outros, é a oportunidade de me dizerem: “Você também vai ter, todo mundo terá!”.

Confesso que o meu ponto de vulnerabilidade é a pandemia são as raras visitas colaterais que recebo – porque uma pessoa sempre tem contato com outras – mas isso de me dizerem que minha vez chegará me deixa de cabelo em pé. Se eu escapar de um problema respiratório -vejam bem, o nome é Síndrome de Deficiência Respiratória Aguda Grave. Presta atenção nos adjetivos: Aguda, grave! – os sintomas são horríveis, as dores de cabeça, segundo relatos,  são de enlouquecer, o mal-estar é absurdo, sono se mistura com insônia, diarreia, febre, etc...ou nada disso, ou seja, se pode se assintomático. E desde quando não ter sintomas significa estar bem? Se não há remédio, é porque tudo no vírus é desconhecido, inclusive, os sintomas imperceptíveis, silenciosos e os que se apresentam depois. Sabe quando a gente admira quem não sente dor e, depois, percebe que a dor incomoda, mas sem ela não se percebe um problema ou uma doença? É disso que eu falo. Então, tenho medo, sim. Obedeço regras e leis e até por isso, não faço spinning nem jump, porque desobedeceria o uso correto da máscara; para mim, um castigo para a respiração acelerada que os exercícios físicos assomam.

Vou à academia por causa da saúde física e mental. Mas, ao mesmo tempo, sei que multiplico meus riscos.

Estes são os últimos minutos de novembro de 2020. Em poucos minutos, entraremos no primeiro dia do último mês do ano...Nosso tempo passa e o calendário não nos trará dias diferentes, será apenas um verão com restrições e longos períodos de impacto do que vivemos.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Mantenha distância

 


Quem ama mantém distância, se quiser continuar amando e sendo amado: eis mais um reforço que a pandemia trouxe a algo já sabido. Pois é: como seres do mundo, estamos tresloucados, com emoções confusas, sentimentalmente infantilizados, pois não sabemos sequer enfrentar privações e lutos; inventamos de odiar diferença e brigar por coisas irrelevantes; estamos mais violentos do que em tempos primeiros da organização social das cavernas e cá estamos em meio a tecnologias, cada vez mais estúpidos, ignorantes, ensimesmados...

A vida sob pandemia obrigou ao convívio. Agora, descobriu-se que ser pai e ser mãe é maravilhoso, desde que não por 24 horas ao dia. E olha que, enrolando direito, dá até para ter intervalo e ir ao banheiro e, em alguns casos, dormir.

Concluiu-se que a ida dos filhos à escola, à academia, ao shopping, associada à saída dos pais para o trabalho, desenhava um importante intervalo, intervalo, inclusive, para gerar a falta, a valorização do tempo juntos. Antes, não se tinha tempo para o convívio familiar. Agora, têm-se o tempo, praticamente de forma integral, o que é deveras sufocante e cansativo.

Não acho que esteja todo mundo em casa, não. Mas estamos MAIS em casa, sim.

Casamento bom precisa ter distâncias que permitam a cada um ser quem se é sem a presença do outro. Para mim, isso é a verdadeira auto-afirmação: quando sou quem sou sob forma solitária, ao natural. Aí é quando a pessoa não é a função que exerce: não se é pai, mãe, filho, empresário, professor, batista, espírita, ateu, flamenguista, gremista ou torcedor do 15 de Piracicaba...Porém, está faltando o tempo vago e a distância necessária para isso.

Algumas outras distâncias, até rudes, se tornaram possíveis, nos salvando dos terríveis convívios com familiares ou com aquelas visitas que nos evocam orações para que se vão ou sequer venham.

É preciso distância. Quando isso veio sob a forma de distanciamento social, por uma questão de regra imposta para evitar contaminações, a gente esperneou. Todavia, confesso o meu alívio por não ter gente grudada em mim nas filas e nos ambientes, como outrora. Decerto, na maior parte do tempo, os distraídos e os cara de pau seguem colados em nós, apesar de olhares de reprovação e de grosserias discretas que eu faço, tipo, sair de lado, ir me afastando da pessoa, a fim de que ela permaneça onde está...geralmente, eu saio de lado e a pessoa vem para cima de mim.

Se alguém se lembra daquela frase tão estampada quanto repetida, de José Saramago em A jangada de pedra, que diz: “Para ver a ilha é preciso sair da ilha”, repare, pois, que a distância é necessária até para ver melhor de fora – uma coisa é ver a dimensão, outra coisa é dar o zoom.

Gente pegajosa, sufocante, que cola nos seres amados, a gente chama de chiclete porque cola e incomoda. Então, proximidade é algo bom, intimidade é melhor ainda, mas distância é fundamental.

Distância é importante até na Física, para explicar percurso, trajetória, movimento – na cinemática escalar, movimento e posição...Mas, a gente não precisa ir tão longe, sacudindo memórias da vida escolar para isso: basta-nos ver, por exemplo, que há casais que moram em casas diferentes ou dormem em cômodos diferentes, em comum acordo, resguardando privacidades; há variadas formas de se exercer a distância direta ou subjetiva, mas o efeito benéfico da experiência costuma ser pessoal, particular. Eu gosto de distâncias por uma questão de bem-estar e saúde mental: imagine se meus parentes  estivessem em constante proximidade comigo? Seria enlouquecedor. Acreditemos na sabedoria escondida no parachoques dos caminhões: “MANTENHA DISTÂNCIA”, porque é uma forma de segurança, de defesa contra colisões, acidentes...como na vida!


domingo, 1 de novembro de 2020

O tempo dos teus olhos


 

Demoramos muito a aprender o óbvio, ou a aceitá-lo. Recentemente, ouvi de um psicólogo que a gente não pode julgar a si mesmo com os olhos do presente. 

Decerto, quem nunca fez uma burrada de que se lamenta tempos depois? Quem nunca ficou indignado porque não deu aquela resposta que só apareceu depois que a briga acabou ou que a situação passou? Quem nunca se sentiu imbecil por uma amizade ruim, por se submeter a alguma exploração, por ter sido besta num relacionamento amoroso – aliás, acho que é onde a gente mais se arrepende, porque depois que o amor passa raramente a gente deixa de constatar, perplexos consigo mesmos, “como eu pude amar uma pessoa dessas? Onde eu estava com a cabeça?”...Mas, são coisas humanas.

Os nossos erros, as escolhas que nos parecem as mais imbecis, as coisas loucas e erradas já cometidas, talvez, naquele momento, não se apresentaram como erradas e loucas. Fizemos o nosso possível, dentro de nossas circunstâncias.

Isso de dizermos, com os olhos de hoje, que faríamos tudo diferente, é algo que não existe, não é justo e não cabe. Por que? Porque você, hoje, tem domínio sobre o passado. Você, agora, tem outros elementos, ferramentas, mentalidade, maturidade e saberes que no momento anterior não tinha. E é preciso se perdoar, a fim de não remoer. A fim também de se libertar, porque geralmente a gente fica discutindo em diálogo interior (monólogo interior é coisa de literatura. Na vida real a gente dialoga, responde a si mesmo com hipóteses), a gente questiona por que esticou a corda em dadas situações; por que se permitiu passar por determinada coisa; por que não fugiu, por que não gritou, por que não rompeu, por que não aceitou, por que prescindiu, por que não fez de outro modo aquilo que a esta altura já está feito...

Muitas circunstâncias não são definitivas, não são sentenças de morte: ainda dá tempo de ter outra profissão, de mudar, de fazer outras escolhas...Mas, o passado passou. Não é justo que o adulto de 35 anos, de hoje, julgue o jovem de 15 a 20 anos que ele foi.

As coisas irremediáveis e imutáveis mostram que o tempo não anda para trás, não tem retrocesso, não tem tecla backspace nem delete. Paciência! Está feito.

Eu mesma constatei, surpresa, que minha madrasta já não poderia mais me fazer mal, porque eu não sou mais uma criança de sete anos. Ela também já não é uma mulher de 33 anos...está velha, doente e não apenas não me amedronta como desperta em mim solidariedade e compaixão. Não somos os mesmos e isso não invalida a experiência. O que eu passei ficou em mim, durou, marcou, fez feridas...Mas, agora, a menina tem defesas, é forte e grande e não pode se comparar com seu próprio ontem.

Dificuldade em perdoar minha família eu tenho e não sou hipócrita. Contudo, preciso me resolver comigo, apesar de tudo.

No reino do óbvio, muitas vezes é preciso repetir: a minha vida é minha; a sua vida é sua. Se não, a gente fica de braços cruzados, dependentes da decisão dos outros, como se não tivéssemos o poder da escolha. 

Aquilo que não depende de nós – demandas da economia, circunstâncias externas mundiais, como a pandemia que enfrentamos, coisas fora de nossas esferas de decisão – precisa ser perdoado também em nós. O que lhe cabe, lhe cabe. Basta ter responsabilidade e não posar de vítima – se o concurso está cheio de candidatos apadrinhados, estude, para dar trabalho a quem quiser te reprovar, mas não desista antes de começar; se você quer ganhar na loteria, pelo menos jogue...crie condições para seus sonhos, em geral, fazendo a sua parte. E com o que não depende de nós, é seguir enxergando que não há nada que se possa fazer (extensivo aos amores não correspondidos, porque nem você tem culpa de amar, nem o outro tem culpa por não lhe amar e não lhe querer. A cada um, seu pedaço).

A vida da gente não pode acontecer sem nós. Também não devemos ser carrascos de nós mesmos, castigando quem fomos no passado. Era nosso possível. Não podemos ser mais um a apontar o dedo, acusando, condenando...

O tempo dos teus olhos não se revelam em marcas de expressão apenas: é preciso ter um olhar mais doce e compassivo com quem fomos e com tudo que fez de nós o que somos. O olhos do presente já viram mais do que à época pregressa poderíamos enxergar, o que nos faz videntes reversos, pois não enxergamos o futuro, mas enxergamos  A PARTIR do futuro...


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

No interior do mundo

 



Continuo na mesma: sou uma das pessoas para as quais a quarentena não significou descanso ou ócio. Não sobra tempo para a escrita, o dia consome-se numa rapidez improdutiva absurda, de modo que faço em seis horas o que antes fazia em duas e meia.

Ah, as lives! Live, para mim, é uma invenção do demônio, para perturbar a paz dos cristãos.

Fiz uma, medeei duas. Assisti três de bom grado e fui a outras tantas por obrigação moral de dar o like de apoio. Mas, não gosto mesmo de lives, por achar enervante.

Minha vida segue sem festa e sem praia. Não acredito em novo normal, porque não é normal respirar de máscara nem contabilizar centenas de mortos por dia num único país. Aliás, este país não é normal, de forma alguma.

Dos relacionamentos, em geral, o meu passou umas crises, depois se recuperou e agora segue convalescente. Houve gente sortuda, que descolou namorado. Outras tantas pessoas do meu círculo, perderam seus pares: convívio e paranoias, tédios infinitos...

Fiz algo fora do comum: voltei à academia. Não aguentava mais a vida atrofiada nas jaulas do espaço doméstico. Tentei as caminhadas e as corridas, mas eram exercícios tristes numa cidade doente, esquisita, que fechava portas cedo e aglomerava gente demais.

Voltei em 08 de setembro à academia. Fui com medo e tudo. Até o terceiro dia, os protocolos foram rigidamente seguidos. O preço da mensalidade aumentou em trinta por cento, para compensar sobre nós o período de fechamento.

No quarto dia, já se revezavam alunos em aparelhos, o álcool já escasso, nem de longe era concentrado a 70 por cento. Então, por medo, caí fora de lá antes de completar um mês.

O lugar com academia de respaldo era o SESI. Extremamente protocolar e burocrático, me obrigou a jornadas em cardiologistas e clínicos, a fim de prover o atestado de que estou apta à prática de esportes. Gastei dez a quinze dias nessa luta. Agora, estou no SESI. Valeu a pena. Hoje, por sinal, fiz spinning e adorei a professora, que nos dá segurança e observa mesmo nosso desempenho. Odeio negligência.

A musculação lá segue o básico, mas tudo é higienizado periodicamente, minuciosamente, em padrão alto de limpeza.

Assinei vários documentos atestando que sei dos riscos apesar dos cuidados. Gosto da responsabilidade deles. Se fossem mirar nos lucros, seria um lugar de maior insegurança e negligências mortais.

Este meu adendo foi, exatamente, para dizer isso: há uma inflação que deixa o básico a preço de supérfluo, por conta de especulação por lucros; e há o comerciante de todas as áreas, que quer compensar perdas estourando preços e reduzindo quantidades e qualidades. Agora, façam as contas: o básico está a preço alto – leite, óleo, arroz, produtos de limpeza, higiene pessoal (creme dental a preço de ouro; papel higiênico a preço de diamantes) – os empregos estão escassos, as perdas salariais se acumulam...o que esperar destes efeitos a longo prazo? Já estou com medo de 2021.

Todo dia reinvento a vida somente para seguir vivendo, porque nada é como antes...acho que nem eu sou como antes. Foram experiências pesadas, aprendizados e muito isolamento mesmo, sem abraços, sem festas, sem passeios, como se o mundo não fosse o mesmo...e não é. O mundo acabou: é Outro, já...