Louquética

Incontinência verbal

domingo, 4 de dezembro de 2022

Cuidado: Tóxico!

 


Preparamos mesas para estar com os amigos. Alguns amigos são circunstanciais; outros nem sabem que deixaram de ser amigos, porque subestimam o mal que nos fizeram, a dor que causaram, a ferida que deixaram em nós nos momentos de suas faltas. E tem aquelas faltas que são imperdoáveis, que jogam a gente no chão com violência.

Fiquei entristecida e decepcionada ao constatar que uma amiga de longa data se tornou um ser politicamente delirante, desses que pedem a intervenção de Extraterrestre, mas que precisam claramente de intervenção psiquiátrica. Se ela quer uma Ditadura, é porque na vida particular ela precisa de punição, castigo e torturas pelas culpas que provavelmente carrega.

Ela que foi uma companheira de perrengues e não apenas do pão-que-o-diabo-amassou, mas de toda a panificadora do inferno...Pois é: desvio terrível de caráter ela teve, pois foi pobre que venceu roubando cheques do patrão e descontando discretamente. Viveu fartura e escassez, viveu crises morais verdadeiras e todas as marés de causa e efeito decorrente delas. Está certo: era uma pessoa péssima e escrota, mas com o tempo ela se recuperou e pegou a rota certa. Reconheceu os erros, produziu reparações, reorientou as condutas e se refez. Porém, ter se rendido à ideologia de Extrema Direita é, para mim, o ápice da falta de noção. Ser humano altamente tóxico. Não que haja nada de errado no caminho político de quem quer que seja, o problema é a pauta. Não dá para ser ovelha e andar com os lobos, porque a distância entre predador e presa é condição de sobrevivência para o mais fraco. Todavia, é desafiador constatar a afinidade que uma pessoa pode ter com seu algoz, desafiando a lógica mínima da sobrevivência.

À parte esse caso, sigo sem tempo para dar conta de estar aqui escrevendo, ou no Facebook a passeio. Fazer outro curso superior consumiu meu tempo e minha paciência, mas a necessidade falou alto, para dar coerência ao meu currículo.

E que venham as férias – pelo jeito, com chuva e com a pandemia voltando forte, como tem sido agora. Força, guerreiros!


terça-feira, 25 de outubro de 2022

A outra e a mesma - clichês

 



Breve adendo da vida real: conto, com a mais sincera solidariedade à minha amiga, que o caso citado como exemplo, sobre a mulher que descobre a traição conjugal e põe a culpa na outra mulher, considerada rival, acabou de acontecer mais uma vez.

Minha amiga, assim como eu, parte da desconfiança de que se o cara é casado, está tendo um caso com outra e depois de um tempo começa a deixar pistas, é porque deseja ser descoberto, ainda que seja este um processo inconsciente.

Há um barato na traição, que eu acho que não está no constante risco e, sim, na habilidade em escapar de flagrantes e revelações. É muito excitante dissimular, escapar, escamotear, cometer ‘crimes perfeitos’ no matrimônio. Mas, quando o cuidado é deixado de lado, significa um ato falho.

Então, nós achávamos que ele queria terminar o casamento, que queria provocar ciúmes, agitar os tédios...Após a mulher traída ter ido atrás da minha amiga – tentou pessoalmente, mas errou o alvo por pouco saber sobre ela e onde encontra-la;  e o fez por meio de rede social – dias depois, deixou por escrito a declaração de perdão ao marido, depreciou à Outra (e usou clichês pouco convincentes, se auto-elogiou também), concluímos o oposto: ele colocou a mulher dele para encerrar o relacionamento com a amante (minha amiga, Lídia). E deu certo: na outra ponta também estava uma mulher pouco interessada na manutenção entediante de um caso com um covarde. Sendo ainda mais sincera, acho que há uma extrema perda de glamour, de excitação, quando a pessoa se reconhece num triângulo comum e previsível...perde-se sabe-se lá mais o quê, porque não vi lágrimas nem lamentações da parte de  minha amiga. Só vi curiosidade, do tipo 'como isso acontece?'; 'para quê?'. Talvez porque não houvesse valorização do homem, nem disputa por parte da Outra...

Todavia, a esposa estava diante de uma rival; a amante só a viu a outra como outra mulher. Se ele se deu bem? Provavelmente, sim. Já esposa traída, alcançou a paz temporária, até que outra diferente venha e ela repita o ciclo.


Na balança

 


Eu acredito em crime perfeito porque há crime perfeito, insolúvel, jamais descoberto. Isso depende de astúcia. Estou falando dos premeditados, porque partem de planejamento prévio, estudos, astúcia. Ao tratar dessa forma, provavelmente alguém pensará que me refiro a assassinatos e roubos; outros pensarão que cometi algum (não, nenhum, pode sossegar). Decerto, trato desses, porque quantos crimes cometemos acidentalmente? Sejam os que nem sabemos ser crime – e um escroto sempre argumentará que a ninguém é dado o direito de desconhecer à Lei. E eu vos direi: Caro cara pálida, as leis variam com o tempo, a cultura e os costumes. Aqui no Brasil, não temos acesso pleno aos códigos legais, sequer à Constituição. Não temos dinheiro nem instrução. Não temos educação para isso. Meta seu argumento na mochila! Logo, da mesma forma que há Leis que o próprio Estado não cumpre (ou o salário mínimo provê o que está assegurado em Lei? Ou você já leu “É dever do Estado...”blábláblá, sem que o Estado dê o que seria sua obrigação?)?

Vamos piorar um pouquinho? Há uma piada que fala o seguinte: “Dizem que quebrar um espelho dá sete anos de má sorte. E se você tiver um bom advogado, a pena pode cair para dois anos.” Boa defesa é boa defesa. Mas, voltemos aos crimes perfeitos. Citei-os por acompanhar nosso cotidiano brasileiro, não apenas da política, mas os de nossos mais próximos. Quem não conhece um infrator? É que a gente perdoa muitos, conforme a classe. O orgulho que as pessoas expressam ao falar do bisavô, rico fazendeiro detentor de 500 escravos; ou das origens italiana e alemã, dos que depois prosperaram no comércio, no agronegócio brasileiro, esses orgulhos de terem vindo de brancos; e não dos índios mortos por outros brancos (que agora prosseguem matando índios, tomando a casa, a terra, destruindo o ambiente natural deles), sempre tratando como intrusos quem já estava aqui antes da vinda desses outros que, juntos, formam o ‘nós’ que somos hoje; isso sempre me chocou. A sorte é que isso tudo é permitido. Não há vergonha de escravizar um outro ser humano: há orgulho por isso. Há saudade. Preconceito racial é expressão da saudade de ter escravo; de submeter um outro ser humano à inferiorização social.

Os outros crimes, ‘são tantas vezes gestos naturais’. Eu não vejo nada de errado nisso, não. A pessoa tem seu preconceito, tem seu desejo de humilhar, de matar, de destruir, logo está agindo de acordo com a sua vontade e seus interesses. Se fosse errado, haveria punição real. Mas, com uma nota de retratação, se muito, tudo se resolve. Os errados são os que se calam, aceitam, nada fazem...a parte interessada não tem o menor interesse: ao contrário, quem nunca viu pobre defendendo pauta de rico? Quem nunca viu o dono da mercearia do bairro afinar seu pensamento com o do grande empresário do ramo de alimentação, produção e exportação? Quem nunca viu a empregada doméstica da casa do médico desdenhar da diarista ou da empregada doméstica da casa do professor? E a mulher, quando traída pelo marido, que responsabiliza a outra pela traição (o coitado do marido poderia se defender de uma mulher ‘oferecida’? ele poderia evitar, fechar o zíper ou dizer não?); então, não somente há crimes perfeitos, insolúveis, bem planejados, em escala macro; como os há em dimensões menores, repetitivos, previsíveis, mas perdoados pelas próprias partes atingidas. O problema é a qualidade de nosso júri.


segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Ansiedade

 


De alguma forma a gente julga que raciocinar e racionalizar sobre as coisas nos ajuda a sair das situações-problema. Sim, é verdade. Mas, há coisas que a lógica não dá conta, porque a gente sabe o que seria o certo, o lógico, o adequado, mas segue na direção oposta.

Ficamos, e esse plural se refere a mim e a uma colega de trabalho, desesperadas com os relatos de três alunos (um homem, duas mulheres), jovens mal entrados nos 20 anos, com crises de ansiedade.

Ansiedade todo mundo tem e é bem necessária. É até excitante ficar contando as horas para que algo aconteça, para que aquela pessoa apareça, ou aquele resultado seja publicado, ou que cheguemos logo a um lugar ou que uma data chegue...Normal e bom, ainda que cause alterações na gente. O problema está quando todas essas sensações se convertem num mal-estar, num sentimento que evolui para sintomas físicos de sufocamento, coração acelerado, sensação de desmaio, de escurecimento da vista, de tontura ou de coisas que sequer a pessoa sabe dizer do que se trata, exceto de que pensa que vai morrer – e nessas horas, as mãos ficam geladas, as extremidades podem suar frio.

Aí, sim, se tem um quadro de ansiedade patológica.

O aluno, totalmente saudável, socialmente ajustado, excelente em popularidade, notas, desempenho, relacionamentos, queixou-se, em princípio, de sintomas de calor, sufocamento e mal-estar. E demorou até notar que era mais do que sintomas.

As moças já tinham um parecer médico após descreverem os mesmos sintomas.

De episódios isolados, passa-se a episódios recorrentes, precipitados pelo medo de sentir tudo de novo.

Vale racionalizar? Sim. É a melhor defesa. Saber que aquilo vai passar, porque já foi experimentado antes e passou: fundamental. 

Se estiver tonto, parar e sentar, respirando com controle, de modo a evitar a hiperventilação, ou seja, evitar ficar ofegante ou respirara celeradamente...E se a cabeça acelera, andar é a melhor saída: pisotear a ansiedade gastando energia. Naturalmente, tratamento psicanalítico é o que vai resolver posteriormente.

A ansiedade é um grito do psiquismo para que algo seja solucionado. Cada ‘algo’ é particular. Normalmente, a gente não tem noção clara da causa. Mas, até que se possa resolver, vale o anti-ansiolítico natural que é o chá ou um fitoterápico adequado, vale a higiene mental e um pouco de solidão para se ter repouso, vale o que lhe traga conforto (homeopatia, aromaterapia, o que for). E novamente, a racionalidade: pensar em QUANDO isso começou, a fim de descobrir POR QUÊ.

Sinto que meus alunos têm vergonha, como se fossem ser julgados ou inferiorizados. Imagine, nosso mundo dá motivos constantes para sofrimentos psíquicos e quem tem coração não tripudia das dores do existir. A razão não vai lhe poupar de sofrer, mas vai ajudar a encontrar saídas para os sofrimentos.


sábado, 24 de setembro de 2022

Em que espelho?

 


Há um conhecido verso de Cecília Meireles, repetido à exaustão – e válido para muitos tempos – que é “Em que espelho ficou perdida a minha face?”. Obviamente, se refere ao processo de envelhecimento. Não reclamamos de termos sido crianças quando já somos adolescentes, porque é parte do crescimento; estranhamos ser adultos quando deixamos de ser adolescentes, mas, tudo bem, também é parte do crescimento. Todavia, os primeiros sinais da velhice derrubam egos – que, para alguns é uma calvície, um cabelo branco, um pouco mais das gorduras advindas dos hormônios em mudança, uma girada no cronômetro etário e lá vem o fim do mundo. Crueldade da natureza, os primeiros sinais de velhice aparecem a partir dos 25 anos – aquele colágeno que nos dava um rosto bem contornado, um sorriso de bochechas brilhantes, uma pele sem opacidade e uma barriga comportada, cede lugar e aos poucos vai nos deixando...até os neurônios e os óvulos vão dando suaves adeuses.

Meu ex-namorado nunca me permitiu saber a idade dele. Penso que era uns 56 ou 58 anos, bem escondidos num corpo sem gorduras, musculoso, ao longo da excelente altura e dos raríssimos cabelos brancos.

Como tem ocorrido a muitas pessoas, ele coloca fotos de perfil no whatsApp e nas redes sociais de quando ele tinha vinte e poucos anos: deve ter muitas saudades de si mesmo.

Uso filtros em minhas fotos, mas não dos que anacronicamente retira a verdade de minha idade: queria apenas ter a pele bonita, sem os poros abertos que me acompanharam a vida inteira.

O que a idade me deu de bom: cabelos. Nunca tive cabelos grandes como agora. Também meus dentes estão mais bonitos, porque passei pelo ortodentista sob uma disciplina que eu não teria antes (nem tempo, nem dinheiro para tal); entrei na academia para nunca mais sair (desde 2013, nunca larguei – na pandemia, me exercitava em casa); a vida toda eu não fui sedentária, jogava handeball aos 13; fazia musculação desde os 22, mas largava; mudaram as formas de meu corpo e talvez isso tenha significado uma resposta ou uma conversa com a minha idade. Não sou infeliz por estar mais velha, provavelmente porque não tive senão muitas angústias ao longo da vida. Ser feliz foi algo muito de depois dos meus 35 anos – e não é felicidade idealizada de fim de novela, não. Aí seria preciso ser alienada ou viver de positividade tóxica o tempo inteiro, negando a realidade e achando que vou cocriar verdades adequadas à minha satisfação. Felicidade é indescritível, não é ‘cesto de alegrias de quintal’ e, aliás, é de graça e sem causa declarada.

Eu me sentia feia aos 18 anos. Eu era boba aos 24 anos. Somente aos 33 eu amei pela primeira vez na vida. Então, não tenho motivos para ser saudosista com a juventude.

O que vem antes do citado verso de Cecília Meireles é “Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil”.

E as pessoas acham que nunca mudarão, exceto na aparência. Também achei que nunca mudaria. Por conseguinte, “Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil” e aqui não me refiro a aspectos físicos. É que eu achava que não suportaria estar completamente sozinha, no plano amoroso. Eu achava que estava amando pela segunda vez e que acataria qualquer condição para estar com meu par. Mas, não foi assim: coloquei minha viola no saco e nunca mais voltei à casa dele, nem para ele, nem sequer procurei conversa. Logo eu, que adoro conversar, estranhei não gastar palavras para resolver com diálogo as questões. Foi um basta e um ‘foda-se’ que eu jamais me imaginei capaz de dar.

Mudei em tanta coisa, inclusive, na postura ao sair sozinha na noite: hoje eu me vejo como uma mulher adulta e independente, que não precisa ter vergonha de estar só, dançando, curtindo, sem querer beber álcool, sem hesitações. Mas, eu não vi isso acontecer, só notei após o percurso estar concluído.

Já falei aqui algumas vezes o que eu penso sobre algumas palavras da moda, tipo autoestima, por exemplo. Fundamental é você saber que não precisa apertar para caber, nem tem que contrariar a si mesmo para favorecer a paz com o outro. Este foi o ponto de meu término de namoro: seria necessário sempre fazer a vontade dele; ter cuidado com a forma como ele entendia as coisas; aceitar que não haveria diálogo, porque as convicções dele, o parecer, o julgamento que ele fazia, eram irrevogáveis. Era muito poder numa mão só. Era muito autocracia, para não dizer autoritarismo.

Dizem que há uma regra nos jogos, nas brincadeiras em par: quem ganha pode ganhar a maior parte das vezes, mas não pode ganhar todas as vezes (sempre), porque se não, o outro se retira do jogo, larga a brincadeira. Chamam isso de 60-40, ou seja,  alguém ganha sessenta por cento das vezes; o outro, quarenta. Claro, você vai jogar para perder? Zero ganhos, zero satisfação? Quem quer? Isso significa que é preciso dar algo, proporcionar algum ganho secundário para manter o outro no jogo. Não vi nada em meu favor, caí fora, W.O.

Sem contrapartida não há partida.

Na foto desta postagem sou eu, na idade atual.


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O amor bateu à porta

 


Pensamos muito nos amores impossíveis, mas o que dizermos dos amores viáveis? Talvez, o que esteja ao nosso alcance nos pareça, previamente, entediante. Para outras pessoas, não: é conveniente. A pessoa certa. A pessoa certa nem sempre é a pessoa amada, mas a soma das conveniências – em alguns casos, é o interesse puro; em outros, é o fim da busca pela ‘sorte de um amor tranquilo’. Demorei a entender isso no meu ex, o Poeta. Não entendi quando ele me disse que casar era como ter uma religião: alguns precisam. Demorei a ver que o Poeta casou, na primeira vez, aos 17 anos. Meu Deus do Céu: como pode um garoto de 17 anos se casar? E casou uma segunda vez, já aos 26 anos...No fim deste casamento, cinco dias após completar 33 anos, ele me conheceu ao vivo (depois de me mandar um convite pelo Facebook, respondido três meses depois), numa noite de dezembro. Então, quando a gente se separou, depois do começo da pandemia – é, a pandemia é um marco histórico e um divisor de águas –, ele não queria, de fato, se separar e eu não entendia aquilo, já que ele claramente estava num outro relacionamento. Sofri um bocado. Passou o tempo, ele passou em importância afetiva para mim – importância histórica ele sempre terá. Foi um homem com quem amadureci sexualmente, com quem muito conversei, ri, aprendi, ensinei, me consolei de coisas que ele jamais soube que aconteceram e, por fim, vez por outra a gente se viu e também deixou de ser ver. Essas pequenas distâncias modificaram muito o modo como ele me tratava, porque trouxe a admiração, inclusive admiração física por mim, que antes era básica, como se eu fizesse parte da decoração da sala...E não sei o que houve para ele manifestar um apreço diferente. Talvez seja apenas aquela vaidade de perceber que há outros conhecidos dele declarada e assumidamente querendo me namorar (escondi o namoro com o Homem de Capricórnio), mas, enfim, como novela mexicana, ele veio à minha rua, já bem tarde, sob a chuva de ontem à noite, depois de não ser atendido ao telefone. Temendo bater à minha porta àquela hora e ser rechaçado por mim e por meus parentes vizinhos, insistiu no telefone e eu o atendi, saindo de carro ao encontro dele (ele, em frente à garagem, praticamente), para manter a privacidade. Ele não me disse nada que fizesse sentido. Alisou meus cabelos, me beijou o rosto enquanto eu dirigia sem entender do que se tratava.

Ele inventou que estava passando perto de minha casa, porque tinha ido à inauguração de uma casa de poker secretamente localizada a 200 metros de minha casa...ele já sem palavras, sem congruência, sem nexo argumentativo. Depois de um silêncio de saudades cúmplices, ele disse que queria dormir comigo, na minha casa, na minha cama. Claro, não atendi à ousadia descabida, mas ficamos em intimidades silenciosas até o decurso de um temporal interno em nós e o externo, na chuva incessante. Muito tempo!

Levei-o de volta à casa dele – foi muito diferente esse estar perto. Quando cheguei em casa, vi que ele avisou que me bloquearia no WhatsApp, por motivos de segurança, porque ele está casado com outra, mas que não queria deixar de falar comigo...Por mim, sem problemas. Eu não poderia responder a isso, já que estava bloqueada.

Concluí que, talvez, ele tivesse vindo atrás de mim apenas para se despedir de vez, como quem se reservasse um último desejo, antes de sepultar verdadeiramente um sentimento. Gente mais acessível, mais descomplicada, ele teria, se quisesse. E posso dizer que até ao pronunciar meu nome, ele não o fez da mesma forma. Na minha cabeça, era questão de despedida, de última vez, de nunca mais.

De manhã, lá estava eu desbloqueada. Achei bonita essa declaração indireta de amor, porque eu entendi ali um amor ágape, outra linguagem, outra coisa. Perdoei, por dentro, o ser humano confuso que experimentava saudades de mim, que reconhecia a alegria que tínhamos quando perto; entendi que eu não teria a dar a ele algo que ele queria muito. Não era questão idiota de bloquear e de desbloquear, era um homem em busca da paz do amor tranquilo, da segurança de um lar e de um esteio, que digladiava com os outros prazeres que eu lhe outorgava e que o tempo estava tirando dele. Acho que ele passou a entender que não poderia combinar duas pessoas com duas coisas que lhe eram vitais, mas como prescindir delas?

Eu não disse nada sobe nada, em momento algum. “Esse silêncio todo me atordoa/atordoado, eu permaneço atento” – digo eu, citando Chico Buarque.

Amar não é tudo. Pobres de nós, que achamos que um amor correspondido é garantia de felicidade. Não, não é. Até dói mais quando a pessoa que a gente ama também nos ama, mas há uma série de coisas em que a gente não se ajusta; e quando a pessoa com quem a gente se ajusta em uma série de coisas não é alvo de nossos sentimentos? sei que o bicho que mordeu o Poeta vive me mordendo.

O Homem de Capricórnio instaurou uma crise em mim e eu edifiquei uma boa distância emocional. Não deixei de gostar dele, só achei que precisava ficar sozinha, que a paz é estar sozinha e sair do campo de guerras que eu já não suporto, porque tenho poucas armas contra a infantilidade e contra defeitos inegociáveis - falo de vinganças que ele sempre me faz; de interromper minha fala; de nem ouvir argumentos; de desejar que eu esteja à disposição dele e prescinda de minha vida particular, etc.

Disse Drummond que "O amor bate na porta/o amor bate na aorta/fui abrir e me constipei." Pois, me descreveu até na crise de rinite.

Será que existe amor equilibrado? Ou será que tudo é negociação, jogo de perdão, ajuste infinito? Saio dos amores sem respostas, entro com muitas perguntas...


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Colapso cognitivo e Efeito Dunning -Kruger

 



Hoje li uma pequena manchete, sem adentar ao conteúdo, que me deixou bastante pensativa. Era algo assim: o conservador quer conservar o quê? E lembrei de um ser humano que achava que ser conservador era regredir às leis morais do tempo de nossos avós. Acho engraçado, só isso.

Outra grande descoberta, daquelas que não guardam qualquer novidade, foi que me chamou a atenção ter ouvido e lido sobre o efeito Dunning-Krugger, de que eu jamais tinha ouvido falar antes. Foi citado numa palestra de Fabiano Moulin (se minha memória estiver certa), para a Casa do Saber, e refere-se à falsa sensação de sabedoria, à confiança cognitiva que a gente pode traduzir por arrogância e que eu ouso chamar de “seachismo”, seja porque quero dizer que o termo se reporta a quem “se acha”, seja porque, na minha cabeça, faz inferência a ‘sea’, mar, em inglês – e, portanto, a pessoa se encontra num mar de sofismas; seja porque até parece com ‘search’ do verbo pesquisar, em inglês. Mas, vamos trocar em miúdos, objetivamente: o efeito Dunning-Kruegger recebe este nome a partir dos pesquisadores que têm os sobrenomes citados; e trata do sujeito que leu qualquer coisa e acredita que esgotou o tema e sabe suficientemente o que mais ninguém sabe como ele.

Com muita sorte, ele perceberá a própria ignorância e a parcialidade de seu saber. A partir daí, consciente das próprias limitações, irá buscar saber verdadeiramente. Acontece, entretanto, que vejo as pessoas assistirem vídeos no Youtube e consultarem a Wikipedia, a fim de dominarem assuntos. A estratégia se apoia, ainda, na memorização de jargões e termos técnicos, com o intuito de passar credibilidade. Aí, eu penso que não somente essas pessoas medianamente formadas se valem disso, mas que um número indistinto de profissionais seguem pelos mesmos caminhos: o mecânico que diz que há uma ruptura na rebimboca da parafuseta, que implica na desaceleração da ventoinha e, portanto, o serviço de troca do adesivo do óleo vai te custar R$ 900,00; àquele seu coach quântico, ou o orientador tethahealing quântico; ou a cartomante quântica e, mesmo, o bispo presbiteriano quântico da neurociência dos santos dos últimos dias vão jogar um monte de palavras que causem a impressão de sabedoria a si e lhe esfregue à cara a sua ignorância na causa. Sabe com o que isso se parece? Parece aquele povo que decora versículo de bíblia e os encaixa deturpados, adaptados aos interesses próprios; parece aquele povo que decora número de leis, artigos e portarias e lança no meio das conversas para parecer que sabem tudo.

Onde a Filosofia não erra, é ao demonstrar que é preciso estudar e ler muito para saber um pouco. Feliz de quem sabe que só sabe um pouco. Por outro lado, coitado dos que pensam que sabem bem pouco, apenas porque estão diante de ‘sabidos’ que são apenas espertos. Mas, voltemos ao básico: a pessoa se dizia conservadora e não sabia o que era para conservar...é cada uma!