Louquética

Incontinência verbal

domingo, 31 de março de 2024

Os sonhos que me acordam


 

Ao cansaço se fez juntar a total falta de tempo. E como eu fico com saudades do blog, da escrita, desses encontros com anônimos que acompanham esta página.

Há tantas coisas que acontecem na minha vida, mas, às vezes, até parece que não houve movimento.

Vou aqui priorizar meus relatos de psicanálise, pois que foi neste ano que voltei ao consultório, já em minha segunda tentativa de analista após a morte da minha primeira.

Começando pelo fim, ele disse não se sentir mais à vontade para se enquadrar como psicanalista. Disse se identificar como psicólogo cognitivo-comportamental.

Confesso que odiei a troca, embora, de fato, em nada alterasse o andamento das sessões. É que, neste caso, a postura do profissional é mais intrusiva.

A psicanálise lhe deixa sozinho, na sala, com seus monstros. No máximo, nomeia cada um, mas a você cabe levar um papo. Já a psicologia, conduz e convoca, mostra e se intromete.

Não dói menos, mas é esquisito que alguém me diga para que lado olhar.

Vou ficando, preciso experimentar. O provável é que eu deixe as sessões daqui a um pequeno tempo, por não me enquadrar nesse negócio. Tenho vergonha de admitir que a Psicologia me parece insuficiente, talvez seja somente preconceito meu. Não sou fechada a mudar de ideia. Veremos.

Na vida real, o efeito foi que eu fiquei acomodada com alguns problemas. Parei de digladiar, aceitei, não quero guerrear com angústias insolúveis.

No campo afetivo, vi que preciso de estabilidade mesmo. Fiquei com quem eu já estava, mesmo num relacionamento morno, que me priva de muitas coisas de que gosto e não terei.

O Homem de Capricórnio me fez dois acenos. Respondi de forma vaga, fui formal e monossilábica. Velho paradoxo: gosto dele, mas não será bom voltar para alguém que não me dá parte do que eu preciso e quero e, ainda por cima, não me oferece estabilidade.

Com minha família, segue a administração de contatos formais e o controle de minhas impaciências.

Ultimamente, o trabalho me pegou de jeito. Ando por demais ocupada.

Acredito que eu não esteja vendo os deslocamentos que faço, as mudanças em transcurso porque estou elaborando lutos. Sei que é temporário. Depois, acordo. E este é o ponto: será que deixei de sonhar?


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

É o bicho!

 


Aproveitando a excentricidade e a excepcionalidade deste dia 29 de fevereiro, quero aproveitar para declarar que continuo a mesma pessoa de postura política que sempre fui. Não passo pano para a realidade, não idolatro malandro de partido algum e sei muito bem minha classe social, meu gênero e minha etnia – cuja consciência já sinaliza meu impedimento de ser alinhada com qualquer pauta da Extrema Direita.

Hoje, quando noticiado o assassinato em massa das pessoas na Faixa de Gaza, na hora em que se buscava alimentos e utensílios distribuídos pela ajuda humanitária (não sei dizer, neste momento, o número exato, mas passou de 100 pessoas), posso dizer que senti muito por cada um que lá estava e mais ainda pelos que sobreviveram, porque vão chorar seus mortos e prosseguir no cenário de dor e incertezas. Notei, com dor ainda maior, quanto se faz uso de pobres e indefesos jegues e jericos naquela região. Amo os bichos, em geral. Mas, cavalos, burros, equinos de todo tipo, amo ainda mais e já me meti em muita briga para defender os bichinhos.

É muito terrível carregar pesos, levar seres humanos e ser chicoteado por eles. Sem contar a brutalidade da violência em si, a sede e a fome que esses animais passam. Imaginem tudo isso num cenário de guerra! Os animais em meio a conflitos criados pelos homens que, teoricamente, são seres racionais!

Na hora em que defendemos os animais, sempre aparece um palhaço para falar que a criança abandonada merece isso e aquilo e etc. Nessas horas, convém perguntar: “E você, atualmente, ajuda quantas crianças?”. E quando você vai olhar de perto o cristão hipócrita, ele é somente um hipócrita querendo aparecer e que não contribui em nada para melhoria de coisa alguma, mas vai catar algum versículo para amparar a própria pequenez. Só não entendo as razões que fazem com que esse tipinho de pessoa se incomode com quem defende bichos ou causas fora do seu interesse. Desde que eu não vá à porta dos outros convencê-los de meu próprio ponto de vista; ou que a circunstância venha a modular situações de opinião, a ordem é: "cada um na sua e a vida continua". Lógico que se a pessoa mora conosco, convive conosco ou dela nós dependemos para sobreviver, tudo muda. Porém, não entendo porque raios há quem perca tempo para tentar dissuadir quem gosta de bicho.

Certamente, pessoas assim nem sabem que são mamíferos bípedes...ou, a depender da crueldade de cada coração, nem sei que espécie de gente podem ser.


Oi, sumida!

 


Quem nunca se deparou com um “oi, sumida!”? Sim, sabemos que o sumido, de fato, é o sujeito que nos interpela. Sabemos, também, que essa pessoa que sumiu, resolveu reaparecer por algum interesse próprio – seja para um sexo casual; para pedir um favor ou engrenar alguma conveniência (aquele tipo que diz que vai estar na cidade em que você mora dali a dias – certamente, quer sexo e hospedagem grátis. E sem querer decidir por ninguém, recomendo: se isso ocorrer, diga à tal pessoa que “aproveite a cidade”, feche sua porta e sua vida, a menos que você deseje entrar no jogo). Se o sumido for você, se ligue, porque as ações e situações já são previsíveis, portanto, dificilmente você vai lograr êxito.

Mas, bem: estando na sessão de psicanálise, posso dizer que situações do passado, quando ali convocadas, me parecem exatamente um grandessíssimo “oi, sumida!”

Pequeno adendo aleatório: peço a devida vênia para a licença poética de dizer: puta que o pariu! E não sei porque caralhos as pessoas escrevem os vocativos sem as vírgulas, o que piora oi, sumida! – preguiça ou ignorância? Provavelmente, é desleixo mesmo.

Coisas encobertas na memória dão o ar da graça e haja hematoma psíquico a se revelar.

Situações psíquicas inconscientes fazem verdadeiro strip-tease, tirando peça por peça, lentamente, num jogo de se mostrar e se esconder. Enfrento, no momento, um gigantesco calo psíquico. Faço até abdominal para poder ‘empurrar com a barriga’, mas, agora, o psicanalista resolveu que preciso resolver – sim optei por ser redundante aqui. O jogo com a linguagem é o que prevalece na psicanálise (em alguns casos, a linguagem corporal indica algumas coisas, mas não acredite piamente que ‘o corpo fala’ – o corpo pode ser treinado e controlado, como habilidoso ginasta, expressar suas artes e iludir a plateia, simulando seguranças e posturas, inclusive, fazendo certos contorcionismos sociais – ora, nossas carinhas de felicidade ao apertar a mão do desafeto ou nossa suposta altivez em ocasiões sociais desfavoráveis são exemplos disso. Por vezes, somos pavões, mostrando belezas temporárias e artificialmente conquistadas; ou somos gatos de pelos arrepiados para nos mostrarmos maiores ante nossos inimigos).

Também ao contrário do que ouvimos por aí, não temos o poder de fazer ninguém nos amar. O ódio é gratuito, facilmente aprendido, distribuído, aceito. Desde criança – e aqui, cito as filhas de minha madrasta, na época, tão crianças quanto eu, mas que aos sete anos já sabiam que o certo era me odiar, e odiavam com sádico capricho. Fazer alguém nos odiar é fácil e infalível. Fazer alguém nos amar é impossível.

Quem quer se arvorar a trazer um amor de volta em 3 dias, seja por meio de magia ou mandando uns capangas ir buscar o ser amado, pode trazer e amarrar, mas aquilo nunca será amor.

Se um sujeito, dentre o casal, se esforça sozinho para estar junto ao outro; se sempre é como se fosse necessário matar um dragão a cada vez que se quer estar com o príncipe ou com a princesa, não há chances disso ser amor.

Não me reporto a quem mora longe; aos que têm plantão e jornadas de trabalho específico (médico, músico, atores, etc) e cujos fatores são sempre impeditivos para certos planos do estar juntos. Trato de quem inventa desculpas ou, diante de um empecilho real, não constrói meios de estar com o par.

Ninguém quer ser rejeitado, nem mal-amado. A gente até esquece que já rejeitou algumas pessoas na vida e que amou insuficientemente – e aqui, cito isso porque é do ser humano viver os dois lados da questão.

Com quantos ‘nãos’ se faz um término? O quanto esperamos para constatar que o outro não quer nada conosco? E quando os afetos são de natureza diferente; e a gente não quer namoro, mas quer o amigo? Então, é preciso ter essa sensibilidade.

Minha amiga gasta horrores com ‘trabalhos rápidos e garantidos’ para manter um certo caso. Mesmo admitindo que houvesse alguma eficácia no trabalho sobrenatural, qual o sabor de estar com quem sabidamente não nos quer? Vale a pena forçar o Outro a querer o que ele não quer? Vale a pena estar com o Outro a qualquer custo, trazer para perto quem emocionalmente está distante?

Por discutir isso com sinceridade, minha amiga fica de cara amarrada comigo. Apesar de tudo, ela entende e sabe que eu tenho razão, mas não se esforça para processar o luto de um término e libertar a pobre pessoa do cativeiro das chantagens emocionais (até filho imaginário ela inventou). Não aceitar o fim de um relacionamento significa não aceitar a realidade, nem aceitar que o Outro tem vontade própria, desejos próprios e autonomia, porque também quem ama, mesmo amando, pode sair da relação se perceber que não está bom nem está saudável aquilo tudo. Amar não basta. Porém, sem amor, pior ainda.

O ódio pode ser manipulado, ensinado e facilmente se desenvolver. Amor, não. Quem me dera amar a pessoa certa, amar quem me ama – a vida seria bem fácil.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Lutos e carnavais

 


Não fui ao carnaval e não iria de forma alguma, porque muito já gostei da festa e, no presente – retroativo, na verdade, a 2016 -, não me interessa a festa e respectivas atrações. Danço músicas de carnaval, vou a festas carnavalescas fora do carnaval, entretanto. Neste ano, um agravante a me afugentar das folias: minha amiga, Rosana, morreu na sexta-feira de carnaval.

Diz-se que se o paciente é terminal, as fichas já estão colocadas acerca de seu futuro. Porém, o terminal é algo de prazo elástico, mais significando que a doença não tem cura e não regredirá do que, exatamente, um cronômetro acelerado para o momento da morte. Portanto, pode-se durar anos enquanto paciente terminal. Nesta seara, Rosana tinha idas e vindas – temporadas longas e intermitentes no hospital, concomitante às festivas voltas para a casa da família, de modo que fiquei outubro inteiro com ela, excetuados meus dias de trabalho e o período subsequente, quando da internação e morte de meu tio.

De meados de janeiro para cá, voltei à psicanálise. Encontrei um excelente profissional e, se tomo sustos com minhas descobertas pessoais, mais me tranquilizo por estar em boas mãos. Finalmente, dentre meus muitos lutos reais, processo o luto simbólico pelo fim de meu relacionamento com o Homem de Capricórnio.

Assevero, sem medo, que há muita distância entre um relacionamento que começa; e outro, que recomeça. Não é que não valha a pena recomeçar, mas hoje em dia me interpelo se eu deveria ter voltado para ele após nosso segundo término. Decerto, é preciso tentar para ver e, às vezes, ver para saber – e saber para se convencer. Então, não parece ser justo sustentar hipóteses ilusórias sobre futuros imaginários. Normal: como teria sido ‘se’. E nas nossas ilusões, o futuro sempre teria sido lindo. O cotidiano, contudo, seguia me mostrando desenhos diferentes.

Minha outra amiga, para encarar a separação, ilude-se maratonando vídeos sobre homens narcisistas.  Mais uma moda chata, que busca diagnosticar genericamente e classificar. Para mim, alguns homens são apenas canalhas mesmo – do contrário, estaríamos vivendo uma epidemia de narcisista – como se já há séculos os homens não saíssem para comprar cigarros, sem serem fumantes, largando a moça grávida e sozinha; como se as leis protetivas às mulheres houvessem brotado do chão, supérfluas. Na verdade, ela tem dificuldade de aceitar que foi deixada, de admitir a rejeição sofrida e, assim, busca justificar o homem que se foi, explicando razões que ela interioriza como absolutas verdades. Mas, quando indagada sobre o que é, afinal, que ela faz na suposta psicóloga atual, desconversa e muitas vezes se assusta quando faço relatos de meu processo de análise – o que me leva a presumir que ou ela está com péssima profissional, ou sequer vai  a nenhuma psicoterapia. Fica a dica: o YouTube não substitui uma sessão de psicanálise. Se for um youtuber sensacionalista, midiático, cheio de clickbait, pior ainda.

Há canais bons, tipo o de Christian Dunker, Marcos Lacerda, Lucas Nápoli, Emanuel Aragão. Porém, são todos gente séria (o canal do Ludoviajante não é de psicologia, mas tem excelente conteúdos correlacionados). Podem vender cursos e livros, mas não embarcam na mercantilização sensacionalista de muitos outros. E em nenhum momento eles vendem soluções, sentenças, laudos genéricos e fórmulas infalíveis. Há coisas que só a gente pode fazer por nós, não dá para terceirizar.   

Então, sigo tocando o barco, com a coragem dos náufragos e dos sobreviventes.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

As pedras do castelo

Sabe aquela filosofia de para-choque de caminhão, que diz: “Fiz o meu castelo com as pedras que jogaram em mim?” Verdade imensa está sob essa aparente bobagem. Assim, para muitos, o fato de ter sido desafiado, atacado ou, mesmo, humilhado, pode representar um estímulo para mudanças extremas. Nunca vi carga motivacional maior para alguém, dentre os meus mais próximos. Não é todo mundo, porque cada um reage de um modo, mas os que de fato acatam a ofensa como um desafio, dão respostas silenciosas gestadas calmamente no planejamento e no método. E estão certíssimos.

Sem planejamento, método e disciplina, nada feito. Dou os exemplos: um certo funcionário temporário que eu conheço era constantemente atacado no desempenho de suas funções. Ele ouviu, respondeu aqui e ali, mas, após um tempo, calou e seguiu. Em silêncio, construiu a própria escada: após dois anos, passou em segundo lugar para o concurso do INSS... e nem deu tchau a ninguém. Simplesmente, sumiu...só se viu o pedido de exoneração.

Outro exemplo: Patrícia pesava quase cem quilos. Ouviu o que as pessoas gordas ouvem, de conteúdos depreciativos, de insinuações de preguiça a desleixo. Obviamente, o exterior dela revelava questões internas. Nunca é fácil ouvir grosserias, mesmo quando travestidas de boa educação. E assim foi: Patrícia emagreceu, sem paranoias, sem desespero. Foi, com o tempo, acertando nas comidas, porque não queria perder o prazer dos sabores; se ajustou às atividades físicas. E foi ficando mais atraente para si mesma. Se bem me lembro, foram quase dois anos até ela estar bem consigo mesma, porque não nos faltam colegas e amigas a recorrer a programas radicais de emagrecimento, cirurgias bariátricas e etc., mas como forma de agradar aos outros. 

Essa pressão externa para enquadrar todo mundo num padrão, todos nós sofremos. Algumas vezes a gente não dá bola, porque há coisas que são nossas, são nossos gostos e ponto final – em meu caso, as pessoas querem me obrigar a morar em condomínio (porque todo mundo mora); a ter outro carro (mas, eu amo carros vermelhos); a ter comportamentos e aparências igualmente padronizados; etc. e eu já contrario a todos porque não gosto de cerveja, de vinho, de nada que contenha álcool; e muito menos gosto de feijoada, maniçoba, mocotó, açaí, refrigerante, doces açucarados e nem pizza...

Os clichês de sonhos, fantasias se repetem. Intromissão e críticas até sexualmente, a gente recebe – e aqui acrescento que por eu não gostar de sexo oral em mim e afirmar isso em conversa coletiva com as amigas, vieram os protestos. Ora, há coisas particulares, individuais, há territórios que são terminantemente pessoais. Incrível como as pessoas sentenciam que somos obrigados a gostar e a querer o que elas julgam ser o certo, porque medem o mundo pela circunferência do próprio umbigo.

Aqui eu citei os amigos íntimos, realmente íntimos, que discutem intimidades porque têm tal liberdade. Porém impor padrões e determinar o gosto alheio, é uma forma de agressão.

Uma ex-amiga costumava sempre me dizer, diante de alguma discordância: “reveja os seus conceitos!”. Claro, eram os MEUS conceitos que estavam errados.

Todavia, quando a crítica vem e, de alguma maneira, ela tem fundamento ou encontra repercussão na gente; se é algo que ressoa com a nossa verdade interior, vale a pena mudar. Mas, mudar nos termos de uma melhora, com o que pode ser mudado. Recentemente também aprendi tudo isso, porém, num sentido oposto: se para casar há namoro, noivado, enxoval e cerimônia, para sair de um casamento, de um emprego, da casa dos pais, igualmente é necessário etapa, tempo e planejamento. Ninguém conhece alguém hoje e casa depois de amanhã. Então, o descasar, o desfazer e o deixar também exigem tempo, requer construção. E quem termina no ímpeto, no impulso, bate a porta e sai, corre mais risco de voltar atrás – todo corte requer elaboração...E um castelo requer uma boa base - e fortalezas, sempre fortalezas que o protejam.


sábado, 30 de dezembro de 2023

O fim de ano e outros recomeços

 



Não me queixo do ano que está acabando, apenas reclamo do cansaço das causas acumuladas. Posso dizer que de setembro para cá foi época de cansaço mental, de desgastes psíquicos e encargos emocionais. Nada se compara aos meus dez dias frequentando (vivendo, permanecendo) um hospital para ficar com meu tio doente. Isso significou oferecer a ele segurança, dar garantias e assistência psicológica de que o mundo dele não iria desintegrar e que ninguém da família iria decidir por ele os rumos de seus pequenos bens. Mas, até este fatídico novembro, muita água rolou sob a ponte da minha vida.

E deixei o hospital, suas filas, burocracias, negligências e tragédias, sem trazer meu tio comigo – ele morreu após uma cirurgia.

Não sou uma pessoa alienada a ponto de agradecer pelas tragédias, mas sou grata mesmo a Deus por ter sobrevivido a tantas coisas – prejuízos materiais, acidentes terceirizados, porque foram coisas que resvalaram em mim e, portanto, foram causas indiretas de perdas materiais e, claro, meu luto amoroso que me faz defrontar comigo mesmo no espelho, a duvidar de minha sanidade, porque não faz o menor sentido gostar de quem não tem o mínimo qualitativo emocional, isto é, maturidade.  Aprendi que, de fato, renunciar causa o maior peso ao ser humano. Entendi melhor porque dói escolher entre duas pessoas, entre várias opções de qualquer coisa. Devo frisar que o pessoal do poliamor resolveu isso simplesmente acumulando gente. Decerto, não sai de graça. A estrutura emocional que gira nessa assumida ausência de estabilidade, é para quem aguenta. Se a dois a gente já não tem estabilidade nem garantias, já corremos o risco de sermos trocados, deixados e preteridos, imagine quando se envolvem mais pessoas. Entretanto, é ótimo viver na sinceridade e tanto não precisar mentir, quanto não ouvir mentiras. Poliamor não exclui o respeito. Porém, ao invés de escolher uma pessoa, fica-se, em comum acordo, com quem está e quem mais vier.

Enfim, pelo cansaço também estou avaliando largar umas coisas. Também entendi que há distinções severas entre a perseverança, a persistência e a teimosia. Sob esta última está minha (e nossa) necessidade de renúncia.

Renunciar é difícil, sim. É dizer não àquilo que a gente quer e deseja. É um exercício terrível que justapõe o que se quer, o que se pode, o que convém e o que é melhor para a gente. Renunciar é desistir, mas uma desistência consciente, nobre porque faz parte da autopreservação, mas não menos dolorosa.

 Fim de ano não é fim de mundo. É somente rito de passagem.Deixa o calendário rodar

domingo, 26 de novembro de 2023

Luto e convicções

 


Eu sei que tenho convicções muito firmes. Estou aqui para confirmar o que eu digo por convicção há tempos: eu não sei de onde as pessoas tiraram a conclusão de que a dor é um estímulo à escrita. Sei que tem certa pertinência nisso de angústia e literatura, mas, para mim, a dor paralisa. Eis porque parei de escrever estes tempos.

Depois de cruciantes dez dias em hospital, o meu tio único faleceu. Estou num luto doloroso e o primeiro alívio que tive foi de ontem para hoje, quando finalmente consegui dormir por cinco horas seguidas – e cá estou, escrevendo.

Meu sono existia, mas vinha entrecortado e sob stress.

Na primeira noite em que dei socorro ao meu tio, ele, um senhor de 80 anos recém completados, fui obrigada a ficar em claro, numa UPA, em companhia dos gemidos dele.

De lá, sete da manhã, ainda sem dormir e em fuga assumida, fui à casa de meu pai, contar o ocorrido. Nunca dirigi sem dormir. Perdi o caminho porque havia obras e desvios no trânsito. Foi um dia horroroso.

Meu tio foi para o Hospital Geral Clériston Andrade. Estava atento e vivaz, fazendo planos e ameaças às enfermeiras. Fez um exame. Ficou sob observação por 03 dias. No quarto dia, optaram pela cirurgia. O resultado final foi óbito, com parada respiratória e infecção generalizada, num sofrimento absurdo e negligenciado de mais seis dias. O fígado se desintegrou de tanto antibiótico.

Se fosse aqui um relato técnico de causa mortis, estaria tudo bem. O que não se conta é o clima mórbido e depressivo de frequentar o hospital. É aquela fila para a visita ou para entrar como acompanhante e ver outros tantos doentes e as hienas vorazes da religião protestante querendo ganhar adeptos, fazendo um teatro de horrores...E as acompanhantes profissionais, que se dizem cuidadoras, se lançando sobre nós, os parentes, como fontes de renda, de maneira inconveniente e fria.

Foram dias traumatizantes. Foram dias em que a mão fria da morte pousava em meu ombro cansado. Encostava o peso da foice em mim.

O tempo do hospital é outro tempo: o agora dura 04 horas; o daqui a pouco dura 6, tudo se arrasta em angústias delongadas.

O que também não se conta são os telefonemas assustadores e a pouca habilidade da assistência social, que liga às 03h da manhã a pretexto de pedir a identidade do paciente – ora, claro está que o paciente morreu. A falsa delicadeza não funciona.

Não entendi quando li no informativo das obrigações do paciente, que ele ‘deve deixar o hospital logo que tiver alta’. Pensei se poderia haver quem ali quisesse permanecer. Mas, olhei para os lados e percebi que, graças ao governo do Estado da Bahia, é preciso reconhecer a obra de Rui Costa (ora continuada por Jerônimo), o hospital dá seis refeições ao paciente e ao acompanhante; dá um teto e saneamento básico, um banheiro e um lugar para dormir. Assim, num país pobre, como é o nosso, o hospital provê sobrevivência. E até amigos meus de boa condição financeira e plano de saúde particular, vão ao HGCA para cirurgias específicas de que o Hospital é referência na área.

O sepultamento foi igualmente uma cerimônia dolorosa, que confirmou minha pouca resistência a lutos.

Ainda estou muito abalada. Chorei até adoecer, com crise de rinite e mais distúrbios do sono.

Não consegui trabalhar. Meu pai se preocupou demais comigo, me obrigou a sair, a atender às condolências, a responder à vida burocrática quanto me fosse possível – ele, que estava comigo e com meu tio, está muito abalado também.

Por ser espírita, tenho uns consolos, mas a falta não se apaga.

Já me considero beneficiada por terem se passado nove dias desde o sepultamento de meu tio, porque só o tempo atenua a dor. Considero, assim como recomenda a doutrina espírita, o esquecimento como uma dádiva de Deus. Nunca fui a favor de regressão e seus similares. Precisamos de memória, sim, para muitas coisas; e precisamos do esquecimento para aliviar a dor do que passou.

Com dor eu não escrevo. A dor é inimiga da escrita.