Louquética

Incontinência verbal

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Fora de controle


Eu estava tão em paz com as minhas decisões. Aí me vem uma ameaça para desestabilizar minhas convicções.
Fico quietinha, na minha, na minha casa: eu e minhas decisões, eu e minhas dificuldades, eu e minha vontade de não precisar nunca mais voltar para onde eu sequer quero ir, eu e minhas convicções; eu e meus planos para resolver as coisas; eu e meus desesperos; eu e minhas conclusões; eu e minha rinite que me deixou de molho a Semana Santa inteira...
Aí lá vem ele e sua perfeição.
Ele vem, com aquela hipnose que desafia minhas decisões, minhas certezas, meu bom senso, meu senso de auto-preservação...ah, lá vem ele!!!
Ele nunca vem sozinho: ele vem com aquelas palavras doces, escritas e ditas ("...E ainda teve a cara-de-pau/de me dizer, assim, em tom tão educado: Oh, pero que letra más hermosa!") e eu vou resistindo, sabendo que não posso ficar feliz desse jeito que meu coraçõa idiota fica me cobrando. Coração besta, pulando igual a cachorro com a chegada do dono! É, eu tenho vergonha disso, eu pratico a auto-censura.
Paro tudo, acudo esses meus dois neurônios - a julgar pelas minhas atitudes interiores, estes neurônios já morreram! - não tem jeito: sinal de ilusão chegando.
Não precisava ser assim: ele sabe que é lindo e administra esse capital simbólico.
Convencido, mas cortês, educado, cavalheiro, lindo, simples, doce, delicado...e aquele velho problema de ser tudo o que eu queria para mim - ao passo que, também é impossível ter segurança com um sujeito desses.
Quando a gente se via na boate, minhas próprias amigas se desmanchavam para ele, outras se ofereciam. Nem dá para condenar: aqueles olhos cor de violeta, aqueles cabelos, aquela pele, aquela estatura, com a maior pose de protagonista de filme de Hollywood...ah, tão lindo, tão desejado! tão de acordo com os sonhos que a gente nem acredita que ele existe.
Mas ele existe. Eu apago, mas ele existe.
Ele sabe ser galante, ele não se exibe pelo que tem, ele anda com amigos de todas as classes, ele encanta mesmo - aquele olhar sedativo, anestésico, aquele abraço que ampara todas as dores e me faz crer que Deus está de brincadeira comigo ou que me ama muito, aquele jeito de pegar em minhas mãos... tudo que poderia ser um clichê, mas que com ele não é.
Aquele jeito de me chamar de Dona Moça, mas nunca omitir meu nome...hum, que veneno! ele sabe que esse é o mantra que eu gosto de ouvir. Ele sabe que eu não sou daquelas nojentas que chamam e gostam de chamar aos seus de "mô", de "benhê" e similares...ele nunca me chamaria assim - ele me singulariza, mostra que sabe com quem ele está - e nunca me ouviria chamá-lo assim. Por isso suas mentiras são mais verdadeiras.
Não sou ninguém para falar de mentiras com ele.
E eu perdi minha chance: quando a gente se conheceu eu tinha namorado e não acreditei que um cara daquele fosse querer rolo com uma mortal como eu. Então, não namoramos.
Da segunda vez ele me deu todas as chances. Novamente eu não acreditei na relação, eu saí pela tangente quando a coisa ficou séria. Eu menti. Menti porque eu não sabia o que fazer diante daquela pergunta.
Eu não menti à toa, eu fiz de tudo para não mentir, tanto foi assim que fiquei muda, eu fiz cara de paisagem, eu discuti os rumos da Física Quântica para mudar de assunto e fui escorregadia.
Não adiantou, ele insistiu e eu aí eu tive que mentir. Ele ficou uma fera...a pior das feras é silenciosa, não é ruidosa, não rosna nem assusta às presas. Sei disso porque sou assim também: enquanto eu reclamo, está tudo bem. Se faço muito barulho, está tudo bem, tudo sob controle. Mas se calo, é o anúncio da tempestade que varrerá a Terra e sacudirá os Continentes.
Um grande amigo meu - grande pelos meus sentimentos por ele, não pela recíproca - sempre me falou sobre dar respostas silenciosas - essas são as piores mesmo.
Não vou, claro, levar desaforos para casa - problema é para ser discutido mesmo, intriga se resolve é no bate-boca , que eu não estou aqui para ser uma hipocritazinha educada, não...mas, finalmente, quando as situações não valem nem mesmo uma palavra, tenha medo!
A melhor resposta é aquela que te alivia de engolir do que você tem para falar - não é melhor ser direto, a falar em paralelo, nos corredores, nos bares, com terceiros? esse negócio de remoer a mágoa apenas para preservar o suposto amigo, namorado, ficante, parente ou sei lá quem, em mim viraria úlcera.
Esperei a raiva dele passar, contei a verdade e perdi totalmente a credibilidade. Não sou, para ele, uma pessoa confiável. Não ofereço sentimentos confiáveis nem esboço nada que o faça imaginar que eu sustentaria uma relação confiável.
Assumo os meus erros. Não sou covarde não, porque eu acho feio não assumir as coisas, as palavras, os atos, as posturas. Aceito o castigo, mereci. Sou covarde com outras coisas que, alías, "Dessa coisa que mete medo/ pela sua grandeza/ não sou o único culpado / disso eu tenho a certeza."
Tenho tanto a aprender...tenha paciência, Thales!

O peso do amor


Eu me desculpei com minha amiga por ter comemorado tanto a separação dela.
Também, como não comemorar, se ela nunca amou aquele panaca? se ela casou por causa das pressões da mãe, sempre a convencendo que ele era uma boa pessoa, como se fosse o último homem do mundo.
Acho que eu nem deveria ter pedido desculpas, porque a primeira coisa que ela fez quando ele puxou o carrinho de lá da casa deles foi me chamar para viajar para Morro de São Paulo. E acho que ela não iria tão longe apenas para chorar as mágoas de um amor perdido.
Ah, quer saber? o que eu acho é que ela está feliz, feliz como pássaro que escapa da gaiola.
Nem sei os motivos da separação, mas sei que os efeitos dela são ótimos.
Quando eu perguntei, há 200 anos, se era bom estar casada, ela me disse: "Casar é bom, mas ser solteira é melhor".
Imagine, uma moça como aquela, que me arrastava da cama em Porto Seguro, porque queria aproveitar cada minuto da viagem, que até reclamava de que eu "Só pensava em dormir" (sem notar, ao que parece, as incontáveis noites perdidas nas festas e na Passarela do Álcool e os dias socados na praia e na Axé Moi, em plena badalação), pense se uma pessoa dessas poderia ser feliz ao lado daquela múmia paralítica cenozóica?
Graças a Deus ela (nem ele) nunca lerão este blog, porque assim posso me desmanchar em sinceridades.
Volto à questão:a moça bonita, saudável, bem formada, com emprego estável e cheia de fogo no espírito, vai e casa - porque nos dias de hoje ninguém acha casamento, seguiu aquele raciocínio do Ultraje a Rigor: "preferiu a segurança/de uma vida certa/ ponderou que bom marido/não estava em oferta" - agora, bem feito, é mãe dela quem fica com bebê enquanto a gente sai. Em situações inevitáveis, o bebê vai junto. Paciência!
Encontrei, neste final de semana, meu grande amigo (não sou muito desses negócios de dizer melhor amigo, mas não posso negar que ele é mesmo meu grande e melhor amigo), há muito desaparecido.
Sabe como é: amigo está perto quando as coisas do coração não vão bem. Quando têm relacionamentos, vivem apenas para seus pares, anulam a humanidade, nem lembram dos amigos se estão em "lua-de-mel". E se são amigos verdadeiros, reconhecem isso. Assim foi.
Aí lá vou eu pagar conta e pegar fila no supermercado e encontro ele. Surpresa boa e bem-vinda! adoro ele.
Vem então a avaliação: poxa, meus amigos, parece até regra, mas eles, se a relação amorosa vai bem , o primeiro sintoma é ganharem peso. Tá lá a fartura de gordura e alguns desleixos próprios de quem já tem o que quer.
Não tem dois meses o fulano estava correndo e malahndo para perder peso. Ficou lindo, mais lindo aliás, com a barriga de tanquinho, saradão, todo tesudo...até voltar para ela e se dar ao desprezo.
Meus amigos gays se deixam convencer pelos seus companheiros de que estão "fofos", "cheiinhos" e outros termos para consolar baleias, achando que serão aceitos exatamente como são.
Ora, pois:o efeito contrário é verdadeiro. Mulheres, quando desprezadas, mudam logo o cabelo (vide Amarelo manga), cuidam do corpo, procuram se enfeitar - se para enganar a si, buscando novos efeitos na imagem que possam refletir na imagem interior que têm de si e, desta forma, curar feridas narcísicas, ou se o fazem porque querem estar atraentes para outras possibilidades, tanto faz!e se for só para provar ao ex "olha o que você perdeu", pouco importa. É bom cuidar de si.
A dor não precisa estar na cara, não precisa expressar a auto-comiseração. Meu amigo bem notou isso e assim que levou um kick, se cuidou. Contudo, de volta ao aconchego, está lá, gordura pura.
O ministério da louquética adverte: "Relacionamentos estáveis causam gordura localizada e dependência emocional"

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Em memória de um amigo abandonado


"Todos são iguais perante Deus". Oh, meu amigo, tenho que te informar que não estamos no Céu, certo? entendeu? então, aprenda rapidinho que vivemos em hierarquias, por mais que seu chefe ou o seu amigo poderosão se faça de camarada. Isso não é coisa do dia primeiro de abril, não é mentira!apenas as pessoas - aquelas pessoas perfeitas, melhores do que todo mundo, aquelas que são melhores do que você e eu, aquelas de espírito nobre e bons sentimentos - gostam de repetir essas frases para parecerem ainda mais superiores que nós, os medíocres que conseguimos ver o que todos vêem mas ninguém admite. Eu, pessoalmene, sou ainda mais má e medíocre que qualquer outro, porque assumo posturas e declaro minhas inimizades. Mas, como dizia o sábio filósofo do forró de duplo sentido, que eu tanto cito com estima e consideração, o mestre Sandro Becker,"esta vida é um buraco/o forte pega o mais fraco/ e...Ó!"
Tive aula ontem com um ex-colega de mestrado. Ele estranhou minha presença na sala dele, brincou, pensou que era pegadinha, mas a gente conversou sobre a vida acadêmica e profissional,após o horário de aula.
Putz, que não se mude da água para o vinho sem o risco de embebedar, o menino está antenado! Meu Deus do Céu: ele me contou que no primeiro ano como substituto, fez e aconteceu, arrasou, arrotou bibliografias,mostrou tudo que sabia, procurou aprender o que não conhecia, fez jus ao lugar conquistado...até perceber as regras do jogo.
Eu estou falando de um "queridinho", não das arraias-miúdas, dos peixes-pequenos como eu. Olha que se a vida do preferido foi recheada de perseguições, oxalá a minha, que nem fui elevada à categoria de gente?
Há um tempo atrás eu falava disso com meu professor de Metodologia do Trabalho Científico, o senhor Eurelino Coelho: da Mais-valia.
A Mais-valia é um conceito marxista plenamente válido para o tempo presente, segundo o qual o proprietário dos meios de produção, além de toda exploração explícita que possa praticar contra o proletariado, dispõe do tempo desse mesmo proletário que, num processo complexo de se explicar em poucas linhas, redunda na apropriação de excedentes por parte de quem domina os meios de produção.
Então, sobretudo, o proletário é explorado em seu tempo.
Não à toa, o capitalismo dirá que tempo é dinheiro.
Aí o meu colega me mostrou que administra seu tempo na universidade de modo a defender sua Mais-valia. E está certo. Levo a lição na mala: se você já é explorado em várias situações, naquilo que leva para casa para corrigir, no que elabora, nas reuniões de que participa, nos projetos de que faz parte, na assistência que dá aos seus alunos extra-classe, nos eventos em que colabora, em tantas outras situações, é você quem deve perceber esta exploração e se defender.
Horários desumanos ou horários em que a formalidade fala mais alto que o aproveitamento, são coisas descabidas. Infeliz de quem não vê, mas, por outro lado, se você é super beneficiado, se seu trabalho é reconhecido, se seu chefe não subestima suas necessidades, se seus superiores hierárquicos não desdenham de sua palavra, não desautorizam suas posturas nem lhe diminuem profissionalmente - e há muitos para os quais "seu desejo é uma ordem!" - porque não ser certinho, palmatoriazinha do mundo, perfeitinho e cumpridor? é a contra-partida. Eu não condeno, não.
Então me vem outra situação absurda: meu amigo, competente no que faz, não foi aprovado num concurso. Não, ele não perdeu: quem perdeu foi a universidade, ao não classificar alguém competente. Ele apenas foi reprovado. Justamente pela incoerência do resultado, sei que ele está ferido.
Vejam como a coisa funciona: o campus ao qual pertencia a vaga, declinou de mandar seus representantes para a banca. Isso faz presumir uma neutralidade da banca, porque seria até suspeito e provavelmente tendencioso aprovar um professor que já pertence à casa, como era o caso do meu amigo (substituto num campus, concorreu a uma vaga real daquele mesmo campus).
Ocorre que nos muros já não cabe mais ninguém, porque ficar em cima do muro é uma beleza: você senta a sua bunda lá e contempla as misérias lá do alto.
Eu, que acredito em acaso, afirmo que o acaso foi dando pistas para ele: num intercâmbio entre os candidatos, o meu amigo descobriu que a sua concorrente (que veio a se tornar a única aprovada) era amicíssima de sua outra colega de trabalho.
Sou suspeita, eu sei, porque a tal amicíssima da candidata aprovada não está na lista dos meus amigos - até porque, esta eu conheci quem é rapidinho e dou graças a Deus por ela não saber o que eu realmente sei sobre ela - mas o caso é que meu amigo se decepcionou com isso: a figura não quis compor a banca porque a sua amiga estaria concorrendo. Logo, lavou as mãos, para não ficar "mal" com ninguém, digamos.
Além dos mais, foi ela quem compôs os slides, quem cedeu o material e quem preparou a candidata aprovada. Sabiamente, naquela terra de gente em cima do muro, ela alegou "desconforto" para estar na banca. Ui! adoro gente boazinha!!!Êta Bigbrother.
De todo modo, a banca depreendeu que o meu amigo estivesse cheio de si e que presunçosamente se julgava o "dono da vaga". Esta é a desvantagem que poderia ser compensada se o tal campus tivesse representação na banca.
Assim, a banca foi endógena: todos eram professores de uma certa universidade e aprovaram sua pupila (naturalmente, da mesma instituição de origem dos membros da banca, ex-aluna deles).
Já fiz um concurso na UESB em que eu fui para lá de medíocre: dei uma aula pública que nem o pior professor de Ensino Fundamental daria. Mereci perder.
Por duas vezes fiz concursos em que reconheço que apliquei conceitos pertinentes, mas desconhecido da banca e, também fui vítima de preconceito de formação, por ter feito o percurso História-Letras.
Ser reprovado sem merecer é doloroso.
A gente fica pensando: "Será que a aula era sobre História da África e eu discuti os novos parâmetros da mídia audiovisual nos realities shows?"
É, porque costumamos ter noção do que sabemos e sobre nosso limites e deficiências, também. Não tem ego que seja tão forte a ponto de mascarar tanto um desempenho.
Das conversas com meus dois amigos, cada um a seu tempo e em seu contexto, eis que resolvo cuidar de mim - e eu já disse que a maré não está para peixe, mesmo sendo Semana Santa - está lá a droga da vaga disponibilíssima, feita para mim. Deveria se chamar: disciplina: Mara Vieira. Pois bem, está lá a disciplina de Cultura e Literatura, que pede experiência na área de Estudos Culturais, trabalhos publicados como os meus, pesquisas como as minhas e, juro, parece que pegaram a marca d'água de mim mesma, a sombra e o contorno e fizeram a vaga.
Como nada é tão bom que não tenha seus defeitos, devo dizer que a vaga é na UFRB, justamente num lugar para o qual eu não volto nem amarrada, nem por desespero: Amargosa.
Não quero dizer, presunçosamente, que a vaga seria minha: muito pelo contrário, minha experiência por lá mostrou a endogenia, também. Mas é a vaga sob medida, que corresponde à minha formação, indicando, inclusive, graduação em Letras ou História.
Na UFRB o campus dos meus sonhos é Cachoeira.
Aí vêm os problemas: a vaga de lá não corresponde ao que sei, nem à minha formação. Se minha inscrição for deferida, terei a desvantagem de tratar sobre o que eu não sei. Pode uma coisa dessas?
Não trabalho nunca mais em lugares distantes. Não, não quero. Osmando que me perdoe - ele é quem diz que eu tenho a teoria da minhoca: isso de ser apegada à terra - mas, sou telúrica mesmo.
Não há lugar melhor que a minha casa.
Quero uma vida normal, gente: não quero dormir sentada uma noite inteira, dar aula sem descansar, sem disposição e achar que isso é assim mesmo; quero ir ao cinema sábado, ou me trancar em casa e comer pipoca; não quero chegar em casa na madrugada de domingo depois de 07 horas de viagem...o problema é a distância - o cansaço, claro! Por exemplo, amo Xique-Xique como jamais gostei de Aracaju. Mas entre ambos e eu, há a distância...e aí voltamos à Mais-valia, porque eu não sou (ninguém é) remunerada pelo despêndio temporal, pelo tempo e saúde perdidos no trajeto. E nem sei se há preço que pague tudo isso em suas implicações indiretas.
Mas, conforme Machado de Assis, "Matamos o tempo,ele nos enterra." Ou mais exatamente como os Engenheiros do Hawaii, "Não querer perder a razãopara ganhar a vida/nem perder a vida para ganhar o pão".

segunda-feira, 29 de março de 2010

Viva la vida loca!


Olha, quem quiser fique aí fingindo que não tem uns acessos de perplexidade diante do encolhimento do número de heterossexuais. Eu, pela falta que sinto desta espécie em extinção, admito que o mundo parece é heterofóbico, isso sim.
O que me dá mais desconforto é lembrar de um certo homossexual de meu convívio, que ficava apontando quem, dentre os outros próximos, era gay. Rapaz, esse cara já morreu, e ele era língua maldita, mas não errou um diagnóstico, um prognóstico sequer.
E a gente ficava lá, achando que ele (o finado) é que queria taxar todo mundo, enquadrar todo mundo. Que nada! era o reconhecimento dos seus pares.
Aí, hoje, vou eu abrir a internet e dou de cara com a notícia de que Rick Martin saiu do armário. Ah, caramba! Oh, Viva la vida loca!
O mauricinho foi meu ídolo de infância, cara! o tempo todo eu desejei, heterossexualmente falando, uma biba. Bibíssima, purpurina pura! E o finado já havia falado isso! Ah, que droga!Não fosse o vexame de admitir que eu gostava dos Menudos - eu comprava figurinhas, caramba! - agora me vem essa boiolice toda. Ah, caramba!!!
E veja que este filho da mãe cantava Não se reprima. Olha só: "Não segure muito seus instintos/porque isso não é natural" e o miserável lá , enganando meu desejos, cantava outro trecho: "...Não controle, não domine,/não modere,/tudo isso faz muito mal,/Deixe que a mente se relaxe,/Faça o que mandar o coração".
Quantas décadas enganando a mulherada!
Onde há fumaça... há uma rosca queimando, pode crer. A dele, carbonizou!
Não é a diversidade sexual que causa o choque, pelo menos em mim: é a venda de uma imagem sexual totalmente mentirosa.
Acho o Rick Martin um artista incrível. Fisicamente, ele é um homem lindo! Mas, poxa, que embromation!
E agora, vem declara que é "um gay privilegiado". Blablablá!
Ah, eu tô retada porque não posso nem mais sonhar com ele! Até porque, seria lesbianismo.
Tudo bem que se ele fosse heterossexual, não iria me dar bola mesmo. Mas, agora, ele jogou areia nos meus sonhos. Como é que eu vou ficar tendo desejos por alguém que é gay? Isso aqui não é música do Hanói-hanói, não, baby: "...Namora sempre com gay/que nexo faz?/tão sexy e gay"! poxa, meu irmão, isso me desarmou.
Eu me sinto uma criança enganada!
E tanta gente por aí, dentre os meus amigos, enfrentando crises de identidade sexual, se encerrando em igreja evangélica, indo para o seminário, sonhando com cirurgia de redesignação sexual ou mostrando-se um ego-distônico sem a menor noção de si mesmo, pirando o juízo para tentar esconder ou frear a paixão por outros homens...
Não é nada fácil e tudo isso gera um transtorno de desordem de identidade - algo que escapa ao meramente sexual.
Apesar de tudo, ainda bem que o boyzinho saiu do armário.
Se para ele, que tem carreira consolidada, grana, influência e beleza, não é fácil se expor, imagine para os cristãos comuns, filhos de Deus - que aliás, são convencidos pelos verdadeiramente preconceituosos que não são filhos de Deus coisa nenhuma!
Ah, tá bom, Rick, Vie la vida loca también, maricón!

Meus grandes amores


Faltei à aula hoje à tarde, depois de um dia cansativo em que acordei às 06h45min, tentando ir à aula de Latim, mas desistindo lá mesmo na universidade.
Aí, hoje à tarde, fiquei em casa com os meus bichos. Alternava A República, de Platão, assunto da aula de amanhã lá na UFBA, com a atenção que os meus gatos pediam.
Fico abobalhada, içando um ratinho de pelúcia, para meus gatos ficarem brincando.
Gosto muito deles.
Pela primeira vez, minhas três gatas (únicas adultas do grupo) tiveram uma gestação, com intervalo, entre as mamãe-gato, de uma semana ou 10 dias entre elas.
Assim que os filhotes de todas haviam nascido, era uma confusão: elas sabiam quais os filhos delas, mas não se furtavam às aglomerações da amamentação. Resultado? 07 filhotes lindos, saudáveis, travessos...
Não entendo, ainda a atração deles pelos fios do home-teather, nem pelos porta-retratos de vidros, mas eles têm noção de que se eles causam barulho forte, vai pintar bronca minha. Espertos, se escondem.
O senso comum diz que há os que preferem os bichos porque têm medo de seres humanos.
A psicologia mostra, porém, que quem não é capaz de criar um bicho está evitando relacionamentos, isto é tem medo de qualquer espécie de relacionamento.E de relacionamentos com seres de qualquer espécie.
Tenho gatos, cachorros e galinhas: não é metáfora. E amo a cada um deles.
Para minha sorte, Raquel, minha vizinha, também gosta de bichos. Então, a gente se reveza no cuidado de muitos outros bichinhos deixados na porta da gente, enjeitados por aqueles donos escrotos que gostam do bicho enquanto eles estão sadios, ou enquanto são filhotes. Assim foi com Raika, que hoje tem um pêlo lindo, é saudável, amada e muito carinhosa.
Os bichinhos da foto são adotivos, isto é, eram meus mas foram morar com o pai deles - a partilha que acontece quando a gente desmancha os namoros. O cachorro é Belic, e eu tive que deixá-lo ir porque ele atacava minhas galinhas (elas são para existir, não para comer)e Lincoln, porque eu fiquei com toda a família de gatos, era justo que ao pai coubesse pelo menos um. O jacaré de brinquedo é o chamego de todos, mas também dei na partilha, para a casa do pai deles.
Se me perguntarem de verdade, eu direi que me encho com eles, que os latidos me irritam e me acordam, que miados demais me torra a paciência, que eu acho que o galo aqui de casa está desregulado (cantando fora da hora) e que eles me dão uma despesa monstro...mas perto do que eles me dão, não tem preço! a vantagem é toda minha.
Amo os meus bichos.
Dou graças a Deus por ter uma área de 727 metros quadrados para viver com eles. Todo mundo tem alojamento, tem lugar para correr, árvores para subir e minha rinite fica a salvo do convívio constante com os pelos, porque eles não dormem em minha casa, mas na casa deles.
Aprendo sobre convívio com eles. Aprendo muito.
Eles convivem com as diferenças deles: os cachorros convivem com os gatos e estes, com as galinhas...bem, sobra para as lagartixas e passarinhos, que são alvo de todos eles.
Então, beijos para Bruno, Raika, Andrezinho, Silvinha, Juninho, Ana tereza, Tereza Letícia, Lise, Mal educada, Gremlim I, Gremlim II, Frajoly, Renatinho, Panterinha e Dinny - meus amados bichos.
Tenho um amor infantil, tatibitate por meus bichos!

sábado, 27 de março de 2010

A gente pede festa


Meio indecisa, optei por ir ao último ensaio do Jau, na Garage - casa de shows daqui de Feira de Santana.
Para minha surpresa, a noite feirense estava bombando, e olha que era só uma sexta-feira: tinha festa no Massapê, no Megafest e em mais duas casas perto da Garage; fora os animadíssimos ensaios de São João lá no Kabana's, minha casa preferida para dançar.
Realmente, adoro festas. Mas festas para dançar, não gosto de eventos contemplativos.
E foi uma festa maravilhosa: Jau tem um repertório incrível, é um músico fantástico e sabe comandar a noite.
Onde, nesta vida, eu iria a uma festa para poder dançar Extra, do Gilberto Gil? reaggae maravilhoso!
E a música do Jau, que eu adoro, então? Sandália de couro:
"Não tem sapato que lhe calce, ela só gosta de sandália de couro, de sandália de couro, de sandália de couro...
De tênis, não vai;
De scarpin, não sai;
Descalço, machuca o pé;
O salto, lhe trai;
Tamanco, ela cai;
Sapato, lhe dá chulé..."

Eu amo esta música. E ainda me derreti de dançar ouvindo outras tantas que eu amo. estas, sim, a música baiana que me seduz - Vixe mainha e músicas do Ylê, passando por vários ritmos, como pop e MPB. O cara é show!
Eu tinha ido para o camarote. Como sempre, uma opção questionável, porque este apartheid nas festas dá a entender que é a gente quem quer se diferenciar.
Para quem compra lugar no camarote, espera, na verdade, ter mais espeço e conforto para dançar, mas, no caso do Garage, não foi assim: estava entupido de gente, o povo se acotovelava para garantir um lugar na sacada e sempre tem os povos que eu mais odeio sobre a Terra: os fumantes. Yes, eu odeio fumantes. Pena de morte para os fumantes!
Não faço discursos moralistas, não defendo idiotices super-saudáveis, mas o fumante nos obriga a compartilhar de um vício que é dele. Os incomodados são os que MUDAM, porque eu não quero ter que ME MUDAR por conta de gente que não contém seu vício em favor do convívio coletivo.
Desci do camarote e fiquei com a plebe, na segunda parte da festa.
Fui sozinha à festa, claro, mas não senti falta de ninguém. Logo, presume-se que eu saí para dançar... e dancei. Dancei até doerem os meus pés e eu escolher meu momento de ir embora - só lá fora é que eu ouvi Jau encerrando o show.
Como sempre tem alguém interessado em saber do contingente masculino, advirto que não, não tinha homem bonito - só uma ou duas crianças meio Jonas Brothers, que não me interessaram; uns Zé, classe operária e pé rachado, mulheres desesperadas, garotinhas de shopping, universitários donzelos, Mané Cannabis (maconheiros), Zè Roela, Periguetes, Encalhetes, Loiretes fashions, Bombadinhos de sexualidade questionável e gente normal (sim, eu sei: onde é que eu me enquadro?).
Outra coisa surpreendente: a Casa Mortuária Pax Cristo Rei patrocina a festa.
De ouvir isso, ali, ao vivo, comecei a rir feito uma idiota. Como é que pode a funerária patrocinar a festa?
Fica, dentro de mim, a impressão de que o patrocinador torce por uma briga sangrenta que resulte em homicídio, par angariar os lucros do funeral.
De outro modo, como seria? a gente vai à festa, ouve o nome do patrocinador e decide que, no momento de enterrar alguém, o melhor é contratar aqueles serviços da Pax cristo Rei, que eu me lembro de ter ouvido a propaganda numa festa a que eu fui.
Festa e funeral, só em Feira de Santana (bem existe um livro de João José Reis cujo título é A morte é uma festa, mas se refere aos ritos fúnebres e a disputa por lugares no atual cemitério do Campo Santo, em Salvador; também o autor com o qual trabalhei no mestrado tem um livro de poesias que se chama Festa e Funeral)
Coisa boa é ter lazer! Não aquele lazer idiota que faz você sair tirando fotografias para depois provar a si mesmo que se divertiu; nem outros falsos lazeres inventados, regados a muito sofrimento e dívidas posteriores. Esses, não.
Bom lazer é este de desligar tudo e ficar em paz, em casa. Ou, quem sabe, sair e dançar, ficar de "varejeira" no Rio Vermelho, sobrevoando o Largo de Santana, pousando no Desabafo e no Bondcanto - é no Bondcanto que eu quero comemorar meu aniversário. Como não abre na segunda (que dia para fazer aniversário, hein?), vou lá na terça, depois da aula. Sozinha, claro!a menos que o meu coleguinha de doutorado queira me acompanhar. Como eu não sei se ele é homem do sexo masculino, ele poderá ser minha nova melhor amiga ou meu mais recente interessado...não tenho muito a perder, não é?
Ainda estou sentindo o impacto do sono perdido ontem à noite, vou ficar quietinha em casa hoje, cuidando dos textos da aula de terça, que são um castigo - e pior, castigo em inglês, que tenho que ler.
Mesmo que eu me decepcionasse com a festa, teria valido a pena minha iniciativa de sair.
Como é bom ter liberdade e ter inciativa.
"Deixa eu dançar, para o meu corpo ficar Odara!"

sexta-feira, 26 de março de 2010

Das escolhas e das renúncias


Eu já parei para pensar, como dizem alguns, sobre as coisas que eu deixei de fazer e também tive medo de me arrepender por ter deixado de fazer algo que eu queria, mas que meu superego, minha prudência, meu moralismo, meus censores interiores falaram mais alto e me impediram de seguir.
Outro dia tive a prova de que me arrependeria de ceder às minhas carências ou de desafiar o bom senso: um aluno meu havia me ligado alta madrugada, supostamente cheio de álcool.
Não preciso ir longe para constatar que se trata de uma pessoa covarde.
a minha vida inteira eu fui cercada por homens covardes: meu pai sempre foi covarde, incapaz de enfrentar algum assunto familiar ou afetivo cara a cara; Marcelo era extremamente covarde, incapaz de assumir opiniões ou de tomar atitudes; D. é covarde, teme as trocas afetivas, mas sente muito a cada decréscimo de meus sentimentos por ele...aí vou e encontro um aluno covarde que se enquadra na mesma regra.
Bem, se passaram quase dois meses entre o telefonema inconveniente do sujeito e o seu pedido de desculpas.
Volto à mesma tecla: não namoro os meus alunos. Eu não ficaria confortável, não toleraria o contexto, não dá. Mas, enquanto ser humano, também acho meus alunos bonitos, atraentes, interessantes...claro, isso é raridade.
Só penso no processo fantasioso que povoou a cabeça dele, encontrando paridades entre nós, imaginado situações impossíveis, ultrapassando os limites da nossa relação: ele, a quem eu nunca toquei e a quem eu nunca abri um precedente para esses desvios.
Então ele me chamou de cretina, por tabela, é claro, pois reconheço que eu comecei, eu xinguei primeiro, educadamente, num contexto que dissimulou a agressividade, mas eu falei, não me contive; e ele me acusando de ter um bando de namorados.
Ah, meu Deus, como eu queria ter um bando de namorados.
Ah, como se ele não tivesse, por seu turno, seu compromisso - atenuado e disfarçado pela distância que ele impôs, porque é covarde o suficiente para não assumir a falência do relacionamento.
Não, meu amigo, eu não tenho ninguém.
Eu tenho é medo!
Eu tenho é preconceito, porque um colega de doutorado se mostrou todo interessado, mas eu não sei se é em mim ou se é pelos meus sapatos. Como cursar Letras e não questinar a masculinidade dos colegas? como é que vou saber se ele é homem do sexo masculino? eu tenho é medo!
Eu tenho tanto medo que nem fui ver meu loiro, nesta terça-feira. Fiquei na minha.
Passei então a ver duas coisas: a primeira é esta impressão que as pessoas formam sobre a minha vida.
Sim, minha vida tem muitos personagens masculinos: nenhum está comigo, são só histórias. Eu durmo só. Janis Joplin disse isso de si, não foi? "Passo a noite com muita gente, com a platéia, mas durmo só". Eu estou só.
Gosto das tensões sexuais, das coisas que nunca passarão de imaginação, não tenho vontade de realizar nada: a neurose da espera é bem melhor do que a decepção. Vide os casos Alexandre e J. P., após 04 anos de espera por cada um deles.
A segunda coisa é a seguinte: Minha amiga, minha melhor amiga, amiga-irmã, falou para mim, em tom de aquiescência e cumplicidade: "...Do jeito que você é vingativa!"
Poxa, uma coisa sou eu me dizendo vingativa. Outra coisa é minha grande amiga dizendo isso.
É, eu sou.
Mas minha vingança é revestida de justiça, não é gratuita.
Sei separar as coisas, mas gosto que me paguem exatamente aquilo que me devem.
E percebo que eu só tenho ciúmes de quem é importante para mim.
Isso me leva para um outro extremo, de coisas que eu observo: faz um bom tempo que tenho um outro amigo meu próximo, mas não íntimo.
Eu não via isso.
Eu não lia este direito que as pessoas têm de escolher em quem confiar e com quem compartilhar segredos. Assim, meu amigo próximo não é meu amigo íntimo. Isso mexeu comigo, muito.
Pelo menos, nada disso me magoa, mas me alerta: vou me transformando, me fechando, fechando minha boca, escondendo opiniões, aprendendo a ser como os outros são.
A sinceridade que pratico é interior, não é mais ostensiva: finjo não ver o que todo mundo sabe; finjo não ouvir o que todo mundo percebe; aprendo a construir segredos onde antes havia um infantil livro aberto.
Ando ocupada comigo mesmo, aprendendo a cuidar melhor de mim, a me priorizar.
Não quero estar na foto dos sorrisos falsos, das proximidades dos que se suportam por educação, no jogo besta das conveniências.
Eu não me arrependo do que não aconteceu: eu dou graças a Deus por não ter trilhado caminhos que me trouxessem dores de cabeça e ressaca moral.