Louquética

Incontinência verbal

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cafajestes: ad eternum!


Meu famoso primo cafajeste foi me encontrar na academia, ontem, porque ele precisava atualizar o Lattes e não sabia nem para que lado ia...
Lembrai-vos, este é aquele primo cafajeste que falava às moças, no tempo da graduação: "Que lindas pernas as suas! A que horas abrem?" e, também, "Vamos sair, sei lá, para tomar alguma coisa juntos: um vinho, um sorvete, um banho..."
Descobri, ontem, que ele tem uma agenda. Bem pior do que se possa imaginar, não é uma réplica do 234-5678, do Gabriel, o Pensador, ele realmente digita lá: Mulheres que eu gostaria de comer; Mulheres que querem dar para mim e, num outro canto tem escrito: "Deus é mais!", que eu suponho que é gente que não passou no teste de qualidade - ora, veja!
Atenção: lá vem escrita non-sense.
Deixei de contar que pela fama de cafajeste e de tarado que ele tinha na UEFS, especialmente nas aulas de natação, de que ele saía com os olhões vermelhos de tanto ficar olhando as partes submersas das meninas, ganhou o nome de Tarado Terça e Quinta (TTQ), ou seja, os dias de aula que ele frequentava. Sabendo disso, uma menina do curso de Letras, certamente por desacreditar de qualquer critério de seleção que meu primo pudesse ter, foi lá e "pam"!.
Explico: ele estava saindo da piscina, já bem depois das 19 horas ( é que ele fazia a aula dele e ficava para a aula de todo mundo - para a sorte dele, não me lembro de haver outros homens e se eventualmente teve, não era heterossexual - oh vontade de escrever heterossexuais: extint since 1995 - mas eu não vou fazer isso não - nesta saída, a conhecidíssima ( e, diga-se de passagem, mulher tarja-preta since 1994, puro deprezol, cem por cento bi-polaridade, mas não contém glúten!então, tudo bem!) atravessou o caminho do meu primo e agarrou-se ao pescoço dele adiantando o beijo.
Não porque ela fosse feiosinha, masculina, tarja-preta, problemática, psicótica, leguelé, descombalizada (isso é com S ou Z?), estrobofética, mais louca do que a Rê Bordosa ou do que qualquer personagem de Angeli, não, por nada disso o meu primo pirou, mas pelo fato de que ela disse claramente que há tempos não beijava ninguém, se jogou, implorou, fez, aconteceu e o meu primo se sentiu constrangido.
Nunca vi aquele cafajeste mais descompassado: ele, claro, além de reclamar do troféu Feiosidade ( é que Feiúra é pouco, gente. A moça era daquelas que nem usam perfume, nem brinco, nem batom...quase não dá para ver que é uma mulher) da moça, juro, meu primo invocou que estava com encosto espiritual, que a menina iria comprometer a sorte dele, foi como um urubu pousar na janela dele.
Sei que ele tomou banho de sal grosso e morreu de vergonha do ocorrido - e foi bem numa estradinha de areia que separava a área da piscina dos módulos da UEFS...àquela hora, só tinha o ruivo R.C. de testemunha, mas já era demais para render boas gargalhadas posteriores.
Agora descubro a agenda do cafajeste, com as já mencionadas " sessões".
Cafajeste e machista são sinônimos e nãos ei quantas vezes ele mordeu o calcanhar dos meus pretendentes ou o quanto bagunçou meus relacionamentos ou tentativas de pegação na universidade.
Coisa que cafajeste detesta é imaginar que fazem com as parentes dele coisas bem parecidas com o que ele faz com as irmãs, primas e demais parentes dos outros...ah, ele já inventou mil coisas e, se não funcionasse, o processo de afugentar meus namorados apenas iria sofrer adaptações.
Se na família tem desses, imagine no planeta!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem..."


A vida é cheia de contradições e de paradoxos.
Pensando nas questões da Bahia em geral, e de Salvador em particular, o e-mail abaixo transcrito explora a cartografia da cidade através dos nomes dos bairros, claro. Sim, os baianos fazem bons e-mails, viu, professor!
Aos que não conhecem Salvador, Roma, Uruguai, Liberdade, Caixa d'água, Campo da Pólvora, Calçada e demais referências são mesmo nome de bairros da capital baiana.

COISAS QUE SÓ ACONTENCEM EM SALVADOR:

1º) SER PRESO NA LIBERDADE.
2º) FUMAR NO CAMPO DA PÓLVORA.
3º) TOMAR BANHO DE MAR NO RIO VERMELHO.
4º) PASTOR EVANGÉLICO MORAR NA CAPELINHA DE SÃO CAETANO.
5º) ATRAVESSAR A RUA NA CALÇADA.
6º) MORAR NO URUGUAI E TRABALHAR EM ROMA.
7º) FALTAR ÁGUA NA CAIXA D'ÁGUA.
8º) ADULTO TOMAR BANHO NA ÁGUA DE MENINOS.
9º) CANDOMBLÉ NO TERREIRO DE JESUS.
10º) HOMEM DO PAU-MIÚDO SE CASAR COM MULHER DA FAZENDA GRANDE.
11º) CONFUSÃO NA RUA DO SOSSEGO.
12º) BRIGAS NO BAIRRO DA PAZ.
13º) NÃO ENCONTRAR APOIO NA RUA D'AJUDA.
14º) JOVENS NA PRAÇA DOS VETERANOS.
15º) NÃO DAR ESMOLAS NA PRAÇA DA PIEDADE.
16º) CASAS VELHAS NA CIDADE NOVA.
17º) LAGOA DE ÁGUA DOCE DENTRO DE VILAS DO ATLÂNTICO.
18º) ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO NA BOA VIAGEM.
19º) ASFALTO NO CAMINHO DE AREIA.
20º) SER TORCEDOR DO BAHIA E MORAR NO CORREDOR DA VITÓRIA.
21º) LUZ NA MATA ESCURA.
22º) LER A TARDE TODOS OS DIAS PELA MANHÃ.
23º) MORAR NA SAÚDE E FICAR DOENTE.
24º) MORRER NA SEXTA E SER ENTERRADO NAS QUINTAS... DOS LÁZAROS.
"A MELHOR"
25º) UM CLUBE QUE NUNCA FOI CAMPEÃO BRASILEIRO COM O NOME DE: VITÓRIA

E cito, claro, uma constatação dos geógrafos cariocas do Casseta e Planeta, que mui sabiamente concluíram que Salvador é uma cidade de Altos e Baixos, ligados por um elevador.

Lições de ignorância


Como a maioria de nós já sabe, toda PUC, isto é, Pontifícia Universidade Católica, como o nome sugere, tem a ver com a autoridade do Pontífice, o papa. Ao papa cabe a escolha de seus reitores.
As demais universidades chamadas Católicas pertencem à Igreja - é uma mescla com a administração particular, mas, claro, assentada na autoridade clerical.
Esses dados confirmam o quanto a Igreja, ao longo dos tempos, concentrou poder; e poder sob a forma do saber. Se alguns tratam disso como sendo uma exclusividade da Idade Média, ouso discordar, observando essa mesma prática antes e depois de passado o período medieval.
Certo é que as católicas formam a base do sistema particular de ensino superior: são das poucas a terem autorização para doutorados particulares, por exemplo e, queiram ou não, as PUC são entidades sérias, de respaldada produção científica e com amplo reconhecimento acerca de sua competência. Tanto assim que quase nem lembramos que elas são universidades particulares - as primeiras e durante muito tempo as únicas, porque nelas o fato de haver investimento em dinheiro, por parte dos alunos, não significou a mesma mercancia que rege, hoje em dia, o sistema particular do ensino superior, que se sustenta em métodos duvidosos de aprovação, de manutenção e de formação profissional, de modo a corresponder ao que em tempos dos nossos pais era o tal PPP (papai pagou, passou!).
Tenho amigos cursando um doutorado inter-institucional com uma certa PUC. O que me afligiu foi entrever o lado conservador de alguns profissionais da instituição, daqueles tipos para os quais os esterótipos valem tudo, e os pré-conceitos são uma verdade inabalável.
Assim, tal como um ignóbil professor responsável pelo curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia, diante dos baixos conceitos obtidos pelos alunos do curso em uma avaliação do MEC, declarou que os baianos eram incapazes intelectualmente, tal como o berimbau, "instrumento de uma corda só", o referido professor da PUC veio ministrar um módulo do doutorado na Bahia e, de antemão, subestimou seus alunos.
Não foi mera subestima, foi o total desconhecimento sobre seu público, lançando perguntas absurdas em classe, do tipo : "Você já ouviram falar em Michel Foucault? em Derrida? em Deleuze?", desdobrado em: "Algum de vocês já foi a algum congresso?".
Muito me admira o sangue frio dos alunos dele.
Devo dizer que estes alunos são TODOS professores de universidade pública baiana.
Imagine que o sujeito acha que a produção teórica não chega à Bahia e que ninguém aqui vai a congressos.
Perdeu feio o pobre ignorante: Vamos a congresso, fazemos congresso, publicamos em congressos e, pior que tudo, fazemos, frequentamos e publicamos em eventos internacionais.
Pobrezinho: não deve nem saber o que é a Plataforma Lattes, porque se soubesse, teria o cuidado de examinar o perfil de seus alunos.
Esse etnocentrismo todo e nenhum dos alunos lá teve a coragem escancarar a situação.
Pensei, porém, que talvez ele levasse consigo o lado conservador de sua instituição de ensino.
Talvez seja comum que alguém do Sul, no caso dele, Rio Grande do Sul, pense que na Bahia só há ignorantes, que todo mundo é cantor de axé, que todo mundo acha que o hino do Brasil é "Vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa, não", que, por sinal, é música pernambucana...
O problema é que ele não está errado sozinho.
Ao ouvir o relato dos meus amigos sobre o tal professor, pensei no exercício nosso de cada dia, para tentar fragmentar os preconceitos de nossa comunidade e de nossos alunos, isso feito a partir de seminários, de eventos.
A Semana de Letras que tematizou questões GLBTT ajudou a que alguns assumissem seus desejos, mas não que saíssem do armário.
Certos alunos não compareceram, com medo de serem interpretados como gays. Mas levamos a discussão à frente e valeram a pena os tímidos resultados sociais obtidos.
Todo santo dia é uma luta para mostrar que negro, que homossexual, que adeptos de expressões religiosas de matrizes africanas são gente, seres humanos como quaisquer outros. No entanto, há muita resistência.
É uma luta mostrar que mulher é gente, que tem direitos, que tem sexualidade, que tem vida própria.
É uma luta mostrar que Deus fez o homem e fez a mulher e a diversidade veio em seguida, pois que todo homossexual é gente na amplitude do termo, não são seres sem alma e sem princípios que podem ser agredidos e mortos como um animal qualquer.
Em tempos assim, em que tudo se discute, em que usamos o pensamento acadêmico para diminuir preconceitos e para entender os fenômenos sociais, ainda encontramos o que encontramos...oxalá na consciência de um pobre coitado que pensa que é superior, que nunca deve ter lido A invenção do Nordeste,que tem essa estreiteza de raciocínio e nem se dá ao trabalho de agir com respeito frente àqueles que ele julga inferiores e incapacitados!
Penso na questão com ódio e com piedade dele, mas não concebo que uma classe sofra tanta discriminação e não escancare, não ponha a limpo o caso.
Não foi só ele quem agiu desta maneira, pelo que eu soube: os demais, mui respeitosamente,se mostraram surpresos com a capacidade de leitura e com a qualidade intelectual dos doutorandos desta mesma turma.
Nenhum destes meus últimos ficantes paulistanos, seja de que curso for, nenhum deles escapou dos deslizes de linguagem. E olha que eu tenho um assumido preconceito linguístico! então, o sotaque ABC paulista sempre veio acompanhado de problemas de flexão verbal, num " mal falar" que vai de " nós vai", passa por "dois pastel" e chega a picos absurdos de assassinato verbo-nominal que nem dá para expressar. Esses meninos são estudantes ou formados em Direito, em Educação Física, em Engenharia da Computação...
Acredito que o professor lá dos meus amigos nunca tenha se dado conta dessas coisas, da diversidade linguística, da heterogeneidade do país, da produção intelectual baiana...e aí veio a esta terra, tomar uns sustos - fosse comigo, ele iria tomar uns sustos e umas porradas, tchê!porque para tudo aquilo que o diálogo não resolve há sempre uma outra solução mais potente - não levem a sério: é que diante da violência simbólica que ele cometeu, só resta revidar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SatisFashion: para os elegantes!


Recebi este e-mail, cujo conteúdo é atribuído à Glória Kalil.
Hoje em dia a gente tem receio de defender alguma autoria, porque não são poucos os textos que são lançados como sendo de Veríssimo, de Pessoa, de Bandeira, de personalidades da Literatura e da vida pública em geral, mas que, na verdade, são simulados por terceiros e anônimos.
Fora os trâmites da paternidade autoral, há conteúdos interessantes e por isso eis aquele que eu transcrevo abaixo.
Importa a mim não ter desonestidade intelectual, fazendo de conta que a autora sou eu. Não é, não: pode ser mesmo da Glória Kalil.
Eu que vivo dizendo que gente chique, assim como "gente fina, elegante e sincera", usa chita e vira seda, vejo que o texto vai ao encontro do que eu penso: você pode se entupir de grifes, exibir etiquetas como se fossem logomarcas de seus patrocinadores nas suas camisas, vestidos, bolsas, jeans, sapatos, enfim,e ainda assim estar mal vestido-vestida e não ter o menor traquejo social ou não aparentar familiaridade com saltos,acessórios e similares. Vejamos por que:

"Nunca o termo "chique" foi tão usado para qualificar pessoas como nos dias de hoje.
A verdade é que ninguém é chique por decreto. E algumas boas coisas da vida, infelizmente, não estão à venda. Elegância é uma delas.
Assim, para ser chique é preciso muito mais que um guarda-roupa ou closet recheado de grifes famosas e importadas. Muito mais que um belo carro Italiano.
O que faz uma pessoa chique, não é o que essa pessoa tem,
mas a forma como ela se comporta perante a vida.

Chique mesmo é quem fala baixo.
Quem não procura chamar atenção com suas risadas muito altas, nem por seus imensos decotes e nem precisa contar vantagens, mesmo quando estas são verdadeiras.
Chique é atrair, mesmo sem querer, todos os olhares, porque se tem brilho próprio.
Chique mesmo é ser discreto, não fazer perguntas ou insinuações inoportunas,
nem procurar saber o que não é da sua conta.
Chique mesmo é parar na faixa de pedestre.
É evitar se deixar levar pela mania nacional de jogar lixo na rua.
Chique mesmo é dar bom dia ao porteiro do seu prédio e às pessoas que estão no elevador.
É lembrar do aniversário dos amigos.
Chique mesmo é não se exceder jamais!
Nem na bebida, nem na comida, nem na maneira de se vestir.
Chique mesmo é olhar nos olhos do seu interlocutor.
É "desligar o radar" quando estiverem sentados à mesa do restaurante, e
prestar verdadeira atenção a sua companhia.
Chique mesmo é honrar a sua palavra, ser grato a quem o ajuda, correto com quem você se relaciona e honesto nos seus negócios.
Chique mesmo é não fazer a menor questão de aparecer, ainda que você seja o homenageado da noite!

Mas para ser chique, chique mesmo, você tem, antes de tudo, de se lembrar sempre de o quão breve é a vida.
Portanto, não gaste sua energia com o que não tem valor, não desperdice as pessoas interessantes com quem se encontrar e não aceite, em hipótese alguma, fazer qualquer coisa que não te faça bem.
Lembre-se: o diabo parece chique, mas o inferno não tem qualquer glamour!
Porque, no final das contas, chique mesmo é ser feliz!"

Então, gente, São Paulo Fashion Week, sozinha, não sustenta ninguém.
Como Zeca Beleiro, vejo gente "Mais sem graça que a top model magrela na passarela", mas isso é a deselegância interior saindo pelos poros, derrubando a montagem e a produção que as boutiques e personal stylist nenhum podem evitar.

Cenas de um outro capítulo


Mas eu não posso negar que os meus queixumes serão sempre os mesmos enquanto os meus problemas também forem os mesmos. Assim é que está sendo minha volta ao trabalho, hoje, agora mesmo: viajei ao lado de um caboclo roncador - este, pelo menos, não jogou os cotovelos contra as minhas costelas -, nunca durmo mesmo na estrada, o que me faz acordar sem ter dormido; lamentei o fato de não considerar os poucos minutos de sono como "dormir", uma vez que, para mim, dormir sentado não é dormir; lamentei as oito horas de viagem e, de novo, questionei minha sanidade mental para me meter numa dessas e, por fim, conclui que gosto da atividade, em si, gosto da cidade, até; preciso do salário, claro; mas o melhor de tudo é saber que nada é eterno e que há data marcada para isso acabar.
Não encaro com desânimo nada disso, é que o corpo pede descanso, ainda mais depois que a gente se apegou a outra rotina, à das férias.
Sono, para mim, é vital!
Tem gente que gosta de coca-cola light; tem gente que gosta de cigarro; tem gente que adora whisky; tem gente que é viciada em sexo...eu gosto de dormir - dormir sem horário determinado para acordar.
Tenho uma cama maravilhosa, travesseiros que são, literalmente, dos sonhos de qualquer um: a cama, para mim, é um templo. Lá realizo as orações do corpo e fico em paz com a minha alma. Oh, como ela me faz falta aqui!
Nessas histórias dos nossos "apesar de", posso dizer que todo mundo aprende a tecer suas compensações, apesar de. Por conta disso, volto com mais gás para casa, fico mais feliz por estar em casa, encaro com prazer a tarefa de limpar tudo que é meu, vejo felicidade nos menores gestos, como ligar a TV no canal do videoclipe e saber que eu estou de volta ao meu habitat - eu, um ser urbano! eu, um ser humano!
Mas, meu raciocínio parco se perde nas aulas que ministro à tarde, travando lutas incessantes contra o sono, contra o bocejar que se impõe e contra o cansaço, me fazendo trocar o sentido do que eu quero expressar, me deixando praticamente o Cebolinha da Turma da Mônica, não por trocar R por L, mas por trocar alhos por bugalhos, conhaque de alcatrão por catraca de canhão; rifle de caçar rolinhas por bife de caçarolinhas; apostolado por lado oposto; fuzileiro naval por funileiro nasal, entre outras emboladas de raciocínio, se é que eu tenho esse negócio que se chama raciocínio...bom, o caso é que penso que penso, então.
É muito diferente perder a noite de sono por causa de algum prazer e perder uma noite de sono por causa da labuta, ainda mais levando-se em consideração que após as festas eu chego em casa e durmo - e se houver ressaca total e arrependimentos, tomo suco de cenoura com limão, o suco oficial do arrependimento.
O trabalhador intelectual é, também um trabalhador braçal: vive do corpo, precisa do corpo, gasta a garganta e os neurônios, gasta a vitalidade, perde o viço da pele em noites insones, se desgasta, se acaba em doenças específicas, tanto quanto qualquer outro trabalhador.
Quem separou o trabalho braçal da atividade intelectual, não sabia o que estava fazendo: meu braço não se move sem a ação da minha mente; minha mente não concretiza o que pensa sem a ação do corpo, logo, essa divisão só existe mesmo no campo dos conceitos, por sinal, já ultrapassados.
Por isso também, se não faço como o trabalhador braçal, que para se divertir se acaba de cerveja após o trabalho;por outro lado procuro meus subterfúgios nas festas, no cinema, nas gargalhadas com a turma, nos passeios, na praia...
E lá vou eu, transbordando sono, dar conta do meu serviço. É, seu Ed Motta: "...Pensou no seu trabalho, ficou desanimado.Se eu fosse um político a vida não seria assim..." ou ao estilo do Ultraje a rigor, eu diria: "Todo dia essa é a minha labuta, eu trabalho como um filho da p*&¨@!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Para os teus sentidos


" - Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso (...).
Tudo estava tranquilo agora. E ao lembrar-se de sua imagem bíblica, ao se ter olhado no espelho, achou-a de algum modo bonita, que tinha que dar esse aspecto de beleza a alguém. E esse alguém só podia ser Ulisses que sabia ver a beleza disfarçada e tão recôndita que um ser vulgar não poderia. Mas ele, a um olhar, podia. Ele era homem, ela era mulher, e milagre mais extraordinário do que esse só se comparava à estrela- cadente que atravessa quase imaginariamente o céu negro e deixa como rastro o vívido espanto de um Universo vivo. Era um homem e era uma mulher"
(LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 - pp.26-27)

P.S.1.: Para Cléo, para os nossos Ulisses, para minhas amigas que precisam viver apesar de e para as outras que eu não amo "por que", mas "apesar de".
P.S.2: Para os que nunca leram este livro, o trecho foi transcrito. Logo, a pontuação e a supressão dela é parte da opção estética da autora.

Os melhores dias do resto de nossas férias


Ele comentou que me achou revigorada e atribuiu meu bem-estar ao pós-praia, às maratonas comemorativas do último fim de semana antes do fim das férias e às demais peripécias destes dias.
Mais uma vez minhas amigas e eu vivemos todos os dias como se fossem mesmo "o último ano do resto de nossas vidas", porque, apesar de gostarmos do trabalho, gostamos ainda mais das férias.
Nem todo mundo pôde ir à praia, mas eu fui e fiquei por lá até ontem, porque nessas férias quase nem houve sol. Não obstante, eu estive com um sorriso de arame farpado até ontem, quando o dentista beliscou minha gengiva e me livrou de tantos corretivos ortodôntico e pontos. Ah, sim: tive uma reação alérgica cutânea,e ntão m enchi de umas espinhas monstruosas, parecendo caroço de milho, do lado direito do rosto. Haja peróxido de benzoíla para dar um jeitinho e muita massa corrida chamada base.
Então, não saí muito, não.
Desta sexta-feira para cá é que bateu o desespero - mas, aproveitamos;
Não sei em que filme eu vi alguém dizendo que não queria um trabalho regular porque este só lhe permitiria ser feliz um mês por ano.
Felicidade é acordar às nove, gostosamente, espreguiçando e enrolando para sair da cama; ou acordar cedo porque o programa vale a pena; ou chegar em casa para dormir na hora de acordar porque a noite foi tão boa que acabou após às 08 da manhã.
O mar estava delicioso neste final de semana. A água de Guarajuba parecia uma piscina térmica, na temperatura certa, confortável...de lá fui passear pela Praia do Forte, andar perto do Castelo, pela Sapiranga, e deambular pela vila dos pescadores, tão bonita à noite, tão convidativa.
E o Tango Café, como sempre, com a melhor torta-mousses do planeta - e por falar em planeta,a parte masculina do planeta estava lá, desfilando beleza e sensualidade.
Em nossas conversas de hoje, claro, entre mim e as minhas amigas, constatamos que não estamos muito preparadas para determinados relacionamentos.
É tão bom ter companhia, ter quem se importe conosco, ter para quem escolher um presente, ter em quem pensar antes de dormir, ter "a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida", mas se o kit-namoro não vem completo, se o kit-relacionamento não contém os itens principais, ora, sejamos felizes com nossa liberdade e com nossa independência.
Tesouros eternamente duvidosos, mas tão bons: liberdade e independência!- meu inconsciente, sabotador, me diz: "liberdade, ainda que tardia"?; "Independência ou morte"?.
É tão divertido quando as pessoas são motivos de diversão, de riso bom, de cumplicidade, de partilhas.
No meu tempo de adolescente, "dar um tempo no relacionamento" era o equivalente a dizer: "Vá se acostumando sem mim porque vamos terminar, viu?". E acho que era menos traumático.
Eu não queria inventar desculpas ou deixar de atender ao telefone, mas não tenho lá muita coragem de dizer que era só isso mesmo, que ele toque a vida dele porque na minha ele já não ocupa lugar de destaque algum...acho que no tempo presente nos falta um pouco dessa forma indireta de dizer que acabou.
Também não sou desonesta:não dá para amarrar meu carrinho em nenhum poste no momento em que eu estou em fase de degustação e, graças a Deus, Senhor, me aparecem umas iguarias que são um pecado da gula desde a aparência até às promessas insinuadas. Estar com ele é estar de dieta, e das bem restritivas - fora o repertório insuportável do "você está onde?"; "você está com quem?" e, o mais grave, se achar amado...ah, está difícil!
Lembrei do filme O amor não tira férias - cá entre nós, acho o Jude Law gatérrimo, poderoso! - porque minhas amigas gostam de armações, de que a gente faça armações para elas e de fazer armações que me favoreçam. Por isso lembrei do filme, não que tenha a armação, mas tem a coincidência das protagonistas estarem em luto de amor e de Jude Law ser irmão de uma delas e daí, então...ah, vão ver o filme - é tão besta, meu Deus! filmezinho idiota...divertidinho. Mas, tem armação no ar e eu estou adorando.
"Vamos viver tudo o que há para viver,vamos nos permitir".