Louquética

Incontinência verbal

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Arqueologia dos prazeres: encantos e tormentos


“O menino completou a taça de Sócrates com o vinho temperado por Erixímaco. O filósofo verteu outra vez a mistura lentamente pela garganta, que ainda estava quente do discurso pronunciado. Do outro lado da sala, despontava Alcebíades, que chegava tarde ao banquete de Agatão. Retivera-o a festa dos atores e do coro, que também resolveram estender por mais um dia as comemorações pelo sucesso da sua tragédia. Um tanto distraído pelo que já bebera, Alcebíades demorou alguns instantes para encontrar o anfitrião e, reclinado ao seu lado, Sócrates. O ciúme acendeu-se no sangue já bem aquecido da bebida, mas o belo rapaz conteve o seu ânimo, estendendo-se no leito junto aos dois varões. Apenas inteirou-se das regras estabelecidas para as bebidas e as falas naquele convívio, e pediu a palavra para, por sua vez, fazer seu elogio ao Amor. No vinho apareceu a verdade.”
(Cf. Platão, Banquete, 217 IN: SANTORO, Fernando. Arqueologia dos Prazeres. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 15).
Acima está a parte introdutória das discussões propostas por Fernando Santoro em Arqueologia dos Prazeres.
Quem, a partir do título, deduziu aproximações e ressignificações dos postulados de Foucault, acertou: tanto vai à exploração filosófica da Arqueologia dos saberes quanto passa pela História da sexualidade. Logicamente, os prazeres que norteiam o assunto são de ordem variada, mas passam em maior proporção pelos prazeres do sexo. Há, portanto, o prazer da música e das artes, os prazeres do espírito, os falsos prazeres e muitos outros prazeres. Uma parte importante está no capítulo V, que trata da Catártica:
“O prazer, seja entre os que o defendiam ou entre os que o temiam, sempre contou com a questão da pureza entre os seus temas de reflexão e com a catarse entre as suas práticas mais intensas. Depurações, purificações, purgações, expurgações estão nos discursos filosóficos desde as mais remotas manifestações órficas, relacionando de modo íntimo as experiências do saber, da salvação, da saúde e do prazer. Não apenas no domínio da arte erótica é questão de prazer puro ou impuro. Também a arte poética produz um prazer depurativo característico na catarse do expectador. As religiões iniciáticas já buscavam o êxtase na purificação. E contrariamente, também, o discurso contra o prazer encontra sentido nas purificações dos desejos, nas expurgações das paixões. Textualmente, porém, a consideração acerca do puro (katharós), relacionada aos prazeres, vem a ganhar espaço decisivo na obra de Platão.” (Idem, pp. 143-144).
A descrição do Banquete aponta para as relações dos homens entre si, do Amor só possível, numa sociedade misógina como a da Grécia, entre os iguais, ou seja, entre os homens, de homem para homem. O caráter depreciativo que acompanha as visões da homossexualidade não imperava ali, diferentemente do que ocorre até os dias presentes.
Ao discutir a Catártica, acentua-se a necessidade do prazer e a forma como as sociedades trataram de traçar a condenação ao sexo ou a conceber e determinar a quem cabe ou não ter prazer. Os ideais de pureza, certo, errado, normativização e regras também estão sob o manto da discussão.
No caso das mulheres, nós já sabemos como se tratam e como se chamam àquelas que assumem desejos e vontades de prazeres sexuais.
Ontem a minha amiga mais íntima – no sentido de que conversamos pontos, vírgulas e reticências das nossas vidas – estava dizendo que a paixão erótica que ela sente pelo sujeito errado, há anos, se deve à sintonia sexual deles.
Em sua cara de pau extrema, ela disse que eu certamente sentiria o mesmo que ela, já que o sujeito, em sua competência sexual, degustava o corpo feminino como se fosse alguém que está comendo e que quer todos os sabores, cada detalhe, cada peculiaridade. E por me conhecer e entender quando eu digo que sexo ruim não é sexo e que odeio sexo genital, ela se convenceu do ponto de vista apresentado, porque, para mim, de fato, sexo é uma potencialidade porque o corpo é uma potencialidade.
Costumo postar imagens de homens nus por aqui: primeiro porque não existe este mercado de sexo para mulheres (é para gays e para homens heterossexuais); segundo porque acho interessante e bonito e, terceiro, porque acho incrível o corpo do homem. Portanto, um corpo de homem não se resume ao pênis, mas a tudo mais que ali está ao alcance dos cinco sentidos e de outros sentidos que, quiçá, nós nem detectamos ainda. Particularmente, acredito no sentido imaginativo, também. Deste modo, se pensando num homem e imaginando o que sequer conheço, ele desperta algo em mim, certamente ultrapassou os cinco sentidos.
Mas, então, adoro as mãos: gosto da leveza das mãos carinhosas do homem, da textura, do calor, do toque, da firmeza, da mão que aperta a minha mão e da mão que acaricia os meus cabelos ou que fica lendo o meu corpo procurando coisas e descobrindo coisas. Claro, não é qualquer homem que tem mãos hábeis. E não é qualquer mão que me (nos) interessa – infelizmente, na exclusão vão as mãos peludas, as de unhas pretas, as de unhas grandes ou as de ridículas unhas dos dedos mínimos grandes, as que portam anéis (oh, perdão, odeio homens que usam anéis!)...
Há homens que têm pescoços lindos, parecem príncipes, têm postura, têm uma altivez na sua simplicidade que, de longe, já são totalmente sexy. E há os que sussurram maravilhosamente bem e, então, a voz também faz parte do pacote avaliado.
E eu ficaria 5 anos aqui enumerando o que há de interessante e de potencialmente erótico no corpo de um homem. Isso, excluindo os fetiches porque se eu fosse incluí-los, teria que falar de tornozelos (que eu acho lindo, fofo, eu olho mesmo!) e de sardas (ah, sardas são meu ponto fraco) e cabelos (cabelos limpos, leves, cheirando a xampu... cabelos que a gente acaricia e os fios acariciam as mãos da gente)... Mas, sabendo que essa discussão é interminável, penso que os homens começaram a acreditar que sexo é só uma coisa genital. Por conta disso, deixaram de descobrir a si mesmos e deixaram as mulheres na mão (KKK! Nas mãos do deus Onam, porque é melhor um sexo bom consigo mesmo a um sexo compartilhado e ruim, sem sabor). Aí a máxima popular de que “Amor de p***, quando bate fica” se torna real.
Tem as exceções que percebem a dimensão plural de um corpo e não acatam os modelos deterministas do sexo falocêntrico, restrito, exclusivo...mas eles são exceções.
Já é tão difícil encontrar heterossexuais! E encontrar homens heterossexuais que sejam sábios com o prazer, que tenham o sexo como ars erótica, conforme propõe Foucault, aí é um achado, uma raridade.
Quando a gente diz que um homem é gostoso, é o nosso ato de comer com os olhos que fez com quem antevíssemos o sabor - aqueles que assim chamamos, nunca vamos lá dizer isso pessoalmente, fica tudo na imaginação mesmo. E acho incrível o homem que consegue ativar nossa imaginação.
Fantasias e estados de tensão sexual também compõem a sexualidade: flerte é uma delícia, esperas, insinuações, desejos e até as fantasias que nunca passarão de fantasias...
Não tenho nada contra fazer a coisa certa com a pessoa errada, fazer "coisas erradas " com a pessoa certa, assumir desejos, propor situações... o limite é o bem-estar e o respeito. E aí, mais uma vez vão os parabéns aos cafajestes - porque estes fazem as mulheres de gato-e-sapato porque conheceram muitas mulheres e fizeram do contato um aprendizado. Infelizmente, cafajeste é convencido e vaidoso, tende a se aproximar das mulheres para tê-las como adereço da vaidade, mas não dá para negar a competência dos cafajestes, porque eles percebem que as mulheres têm gostos plurais e nãos e furtam a considerar cada mulher como uma descoberta, assim como não inibem as mulheres que estão a fim de fazer descobertas no corpo deles. O resto é sexo de mídia, da indústria, da propaganda, da quantificação idiota, da mecanização de tudo que reduz nossa capacidade de sentir.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma noite com eles


Comer o pão que o Diabo amassou não vai matar a minha fome. E quando digo “Desta água não beberei”, é porque sei que terei que aturar a sede, portanto assumo as minhas escolhas e sou firme quanto a elas. E foi o que ficamos discutindo ontem à noite na casa de Héber. Na verdade, discutimos coisas pessoais e coisas coletivas que parecem pessoais...
Foi uma noite bastante feliz: ainda somos tão amigos quanto éramos no tempo em que nos preparávamos para o vestibular, estudando na Biblioteca Municipal daqui. Eu, ele, Renê, Nanno, Arquimedes e uma galera de gente que acabou se conhecendo e não se largando mais, nem largando mais os livros e as boas discussões... E passe quanto tempo for, vendo mais uns do que outros, nosso encontro é sempre profícuo.
Alguns se tornaram literalmente ricos porque fizeram os concursos certos, foram para longe, fizeram boas escolhas e são tão gente quanto eram antes, com a diferença da plena tranqüilidade financeira.
Considero a noite de ontem como um segundo réveillon, talvez mais verdadeiro do que aquele da noite do 31 de dezembro.
Gente de carne e osso, que pena, sofre, chora, ri, se regozija, sonha, investe e erra: faz tanto tempo que eu só vejo robôs em minha frente que, talvez, por isso, eu tenha me sentido tão bem com eles – nós, uns cafés, umas conversas, os pais de Héber – de quem nós gostamos muito – brincadeiras, histórias, memórias, bobagens e muita discussão consistente e sincera.
Acabamos na pauta sobre a felicidade. Todos nós já fomos felizes várias vezes e não estou falando daquela felicidade contida, da alegria calma das conquistas ou da paz de espírito por tudo estar bem, mas daquela felicidade que dá medo.
Pois é, a felicidade plena é assustadora. Não é só desejar e ter, não é só chegar ao objetivo é experimentar um troço que eu duvido que haja qualquer droga que reproduza ou que a sintetize.
Todos nós tivemos medo dessa felicidade, mas nosso medo era por saber que iria acabar. Colocar os pés no Paraíso é uma experiência que a gente sabe que tem dia, hora, cronômetro para acabar.
Até os médicos já disseram que seja qual for a felicidade – até mesmo as que vêm da paixão – precisam ser mesmo datadas porque nosso corpo não suportaria o prolongar de tanta endorfina, adrenalina, excitação, nervosismo, estado de atenção, dentre outras reações. A felicidade vicia, eu sei... Mas quem tem escudo contra ela? E quem vai querer desperdiçar felicidade? É impossível não ter medo da felicidade.
Agora foi que eu vi que, sei lá por que, nunca conheci mulheres na Biblioteca. KKK! E sei que elas estavam lá, mas os meninos estudavam Física e me interessavam, claro... Tudo mera coincidência, já que eu tinha amigas do colégio e lá eram só os amigos meninos que se aproximavam...
Namorei um deles,aqui não citado, como não poderia deixar de ser entre tanta gente desejante junto e antes de se instaurar o sentimento de amizade; e os demais se tornaram o que são até hoje: meus grandessíssimo e respeitáveis amigos.
Lembramos das roubadas em que já nos metemos, nos congressos, nas festas, nos programas de índios que já fizemos... E quem diria que aquela dureza toda um dia iria virar piada? E quem diria que todas as pindaíbas, crises e vicissitudes um dia seria risíveis? A cumplicidade permanece.
Falamos sobre as ilusões de hoje, onde “amigos” e seguidores quantificáveis criam ilusões de companhia e acabam revelando as outras tentativas de aproximar os seres humanos em comunidades: até o estabelecimento das comunidades virtuais (de qualquer tipo, incluindo as redes sociais), passamos por vilas,aldeias, sociedades alternativas, villages, condomínios e todo tipo de associação que pudesse dar a sensação de inclusão e acolhimento - Igrejas, congregações, torcidas organizadas... tanto faz!
Numa sociedade em que a iniciativa privada, a ação do indivíduo mostra que cada um é problema de si mesmo (daí a proliferação da auto-ajuda, porque ou você ajuda a si mesmo ou ninguém quer te ajudar) e até a Psicanálise mostra que é você quem deve tirar suas conclusões e aprender a ler seu texto interior, poucos de nós percebe que isso que parece particular e individual se multiplica nas pessoas, é numericamente expressivo, todo mundo tem, todo mundo sente. Logo, o que parece ser um problema individual é, na verdade, um problema coletivo.
Não somos amigos porque constituímos uma associação ou cooperativa para resolver problemas comuns. Aconteceu, porém, de sermos irmanados e cúmplices, até mesmo na hora de comer o pão que o Diabo amassou.
Tem uma água que eu digo que não beberei, mas não porque não mate a minha sede. Aliás,o problema é que a sede sempre se renova. Contudo, as fontes da água daqueles olhos cor de violeta às vezes me intoxicam, dão efeitos colaterais como: confusão mental, aceleração cardíaca, distúrbios da percepção, alterações do sono, ilusões, dentre outros efeitos, além de me viciar.
E por falar nele, que me perturbou o domingo inteiro e até o meio-dia desta segunda-feira me mandava torpedos SMS com aquele dom de iludir que eu conheço tão bem, meu amigo Abílio resolveu nomear o filho dele de Thales. Diante disso eu deveria ser mais crítica com as minhas amizades...Onde já se viu?

Promessas possíveis


Há coisas, há setores nos quais eu não sou firme, eu não me sinto ninguém, eu peso e me deixo abater pelo fardo da chantagem emocional que eu sei que virá. Dizem que nós, os neuróticos, sofremos bastante com as nossas faltas morais e é isso que nos faz neuróticos e normais, ao contrário dos psicopatas que não estão nem aí para ninguém.
Sempre relembro, com auto-ironia, que o carneiro que simboliza Áries bate a cabeça contra a parede, dá marradas, insiste, mesmo que isso vá lhe causar dores de cabeça – e se recorro à astrologia é porque humana e racionalmente certas coisas são inexplicáveis, certas repetições são imperdoáveis, certas inércias são incompatíveis com o que sou e é o tipo de coisa que contradiz quem eu sou e como eu sou. Melhor pensar que é porque sou de Áries.
Claro, resolver a vida dos outros é sempre mais fácil: sabemos o que deve ser feito e como deve ser feito. Esta frieza que dá a objetividade e a pronta resolução acontece porque nosso envolvimento emocional e psicológico com as coisas é parcial – afinal, é a vida dos outros, dos nossos amigos, de gente que amamos e que sabemos o que elas precisam e merecem. Mas tem um negócio chato nos problemas: quanto mais a gente convive com eles, quanto mais a gente arrasta cada problema ao longo da vida, mais a gente tende a criar uma casca de conformismo. Foi assim com este caso e é assim com a porcaria do tijolo do muro que eu tinha que destruir; destruí, mas fiquei até hoje catando coisas e fragmentos sob os escombros. E ali era outro caso.
Claro, quem fala que é possível vencer alguém pelo cansaço, não errou: como cansa convencer alguém de que você não o quer; que a relação não está certa, que nada está bem...
Eu já pensei em por, literalmente, um Oceano (Atlântico) de distância entre nós, mas acho que ele atravessaria a nado. Não faria isso por me amar, mas pela obsessão, pela teimosia, pelo desafio, porque tem sido assim ao longo dos anos e eu, claro, morro de pena, explodo em piedade do auto-flagelamento daquele ser humano.
Quando eu percebo que houve gente com muito maior importância emocional para mim e que eu sequer pronuncio o nome ou dou um telefonema, percebo também que a repetição e inércia a que me refiro devem ter bases patológicas. Talvez eu volte correndo neste mês para a Psicanálise, porque as coisas já se arrastaram demais.
Não entendo a outra parte de ironia da vida da gente: Por que quem quer a gente não é quem a gente quer? E onde vai parar a dignidade dessas pessoas?
Recentemente eu estive com um grande amigo – de outro núcleo, que não esse da Biblioteca - e a gente estava discutindo o fato de sermos tão amigos, tão “feitos um para o outro” e sermos, ainda assim, desde sempre, amigos fraternais.
Depois foi ele quem discutiu o comportamento de um outro amigo meu que se sentiu ofendido por eu ter por ele apenas sentimentos de amizade. E o exercício desse ser humano é interessante: num dia ele me conta que está tendo um tórrido caso com uma aluna; no outro, comenta que o pai dele me adora e como a mãe dele “sentiu” que havia algo entre nós; o quanto nos ajustamos nas discussões, nas preferências, nos destinos e como sempre fui presente na vida dele. Ora, meu Deus do Céu, do que será que ele pensa que uma amizade é feita? Companheirismo, solidariedade e cumplicidade a gente tem mesmo com os amigos... E ele acha que eu não vejo que somos pares perfeitos. Todos os esforços dele são para despertar meus ciúmes, meus supostos sentimentos que eu não vejo...
Então, como convém nos inícios de ano, lá vou eu traçar uma meta e fazer uma promessa a mim mesma: eu prometo varrer os últimos vestígios do muro que eu derrubei, limpando, inclusive, os escombros e os entulhos e prometo solucionar meu problema relativo ao ser humano que eu não quero – não quero como coisa alguma, porque nossa amizade sempre será manipulada por ele.
Não vou estabelecer um prazo, porque eu desejo resolver isso depois de amanhã, mas não vai ser possível. E não quero que seja algo reversível por lágrimas e lamentos, nem quero suportar a base aliada dele ligando para mim, suplicando, ajudando a dobrar os meus joelhos em conformismo. Como dizemos nos tribunais, na condição de testemunhas, “assim o prometo”!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Céu de Santo Amaro


Na segunda-feira, antes de eu ir à praia, começou a tocar Céu de Santo Amaro no rádio. Era a versão em que Caetano Veloso canta com Flávio Venturini: lindo, lindo, lindo! Mas vou confessar que esta, para mim, é a música mais triste do planeta terra.
É uma música bonita, que sensibiliza, mas que põe para fora todos os meus lutos: quando eu ouço eu me sinto em perda, eu sinto como se alguém que eu amo morreu ou está morrendo. Resumindo: é, literalmente, o tipo da beleza que dói.
Céu de Santo Amaro reverencia o céu da cidade do Recôncavo Baiano em que Caetano Veloso nasceu, mas a imagem que eu escolhi é do meu arquivo pessoal e traz o céu de Maraú, num pôr-do-sol.
Nunca coloquei os meus pés em Maraú: é que o Ex-Grande Amor da Minha Vida vai frequentemente para lá, para a casa da irmã dele, e acha que é o céu mais lindo do mundo. E aí ele disse, um dia, que esta era a forma que ele havia encontrado não para provar que estava certo, mas para me dar o céu, como eu merecia... - Deixa para lá a racionalidade que nós acionamos ante um apelo tão óbvio e barato: que valha o encantamento do efeito de verdade da gostosa ilusão de ter me sentido amada.
E a música nunca fez parte do nosso repertório juntos - livre associação mesmo.

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Meu amor
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
E eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
E eu me coloco em tuas mãos
Pra sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sol, mar e encantamentos


Esqueci de dizer que vi de tudo no réveillon da Praia do Forte. Mágica e ilusoriamente, vi tudo de bom, mas especialmente eu vi muitos homens bonitos, de uma beleza cinematográfica, daqueles que é preciso chegar bem perto para saber que eles são de verdade e que eles existem.
Neste interregno (uma semana) me meti em Guarajuba vários dias e fiquei mega feliz pela segunda-feira ter praia cheia e sol favorável. Também passei em Arembepe, mais para matar a curiosidade dos meus acompanhantes do que por vontade própria, porque gosto de lá apenas para andar e para rir.
Interessante como as pessoas ainda sabem pouco sobre os antigos hippies e como a Aldeia ainda capta turistas, apesar de não convencerem mais ninguém acerca de uma maneira alternativa de vida: todos chupam os frutos do capitalismo, vendendo artesanato a preços de gente grande - qualquer aramezinho custa 80 reais, mano velho... - e cooptando simpatias que possam se converter em grana, mas não serei eu a negar a beleza do lugar.
Nas areias de Arembepe já tropecei num homem nu, nem queiram saber em que parte dele, porque ele estava deitado na areia e era da cor da areia; lá já andei com milhares de amigas e com uns dois namorados; lá já discuti filosofia existencial no tempo em que eu achava que sabia o que era isso; lá já tropecei na pessoa certa na hora errada e, sentindo a pressão da situação, larguei a praia e fui ao meu porto seguro e chato, onde atraquei por quase dez anos...e anos depois,quando encontrei o marinheiro em que tropecei, aí foram vários episódios interessantes que me fizeram perceber que, às vezes, a melhor estória é aquela que se faz por capítulos esparsos, com suspenses, com esperas e, quem sabe,com um final não declarado, mas presumido.
Já estou recarregada por ter ido onde eu queria ir, ter visto o que eu queria, ter comido o que eu queria, ter saboreado as praias que eu gosto,ter experimentado a área de jet de Barra do Jacuípe, que eu nem intentatva ir; por ter meus amigos comigo e encontrar os que nem estavam na lista do meu passeio - tudo valeu e agora que a carruagem se faz abóbora, pouco importa porque já vivi o que eu queria e, afinal, não tenho nada contra abóbora, desde que bem preparada.

Com- puta- dores


Dentre as coisas que mais me dão uma sensação de impotência estão as panes nos eletrodomésticos. Considero computador um eletrodoméstico. Ora, por essa nem mesmo eu esperava, porque assim como qualquer outro ser humano que tenha vivido em família, que tenha estado num lar, fica a noção de que o eletrodoméstico é apenas um utensílio (olha aí que carrega a ideia de útil desde o nome) para facilitar as tarefas da casa. Vão aí os liquidificadores, as geladeiras, as torradeiras, os ferros de passar roupa, enfim, qualquer coisa com uma utilidade prática, mas é prática na ação, sabe? Não é aquela prática simplesmente prática, mas algo que ajuda a tornar ágil a vida de uma casa.
Não estou nem um pouco interessada na classificação técnica ou tecnológica: computador é eletrodoméstico aqui em casa – e se eu trabalhasse fora, num escritório ou numa repartição, apenas iria somar mais uma função, agregar outro adjetivo que não deixaria que esse meu raciocínio parco e insistente deixasse de considerar a high-tech como eletrodoméstico.
Não tenho nenhum computador móvel, portátil – seja lá com o nome que você escolher nesses tempos de “the e-book is on the tablet”, conforme propaganda de cursinho de inglês. E podem matar e morrer por essas causas tecnológicas pois eu continuarei achando que lugar de computador é em minha casa. Lógico, o meu computador.
Acho que criam muitas necessidades tecnológicas falsas, também. Por causa disso, não serei eu a engordar o consumo marginal.
Mas chamar o computador de eletrodoméstico é construir uma relação afetiva com ele. E eu tenho: gosto do meu computador. Quer dizer, gosto dele quando ele não me dá trabalho; quando não interrompe meus papos no MSN com gente com que eu gosto de falar; quando ele não empaca como uma mula travada no meio da ladeira; quando meus arquivos não somem sem explicação, quando o HD não queima e detona junto tudo aquilo que é vital para minhas obrigações acadêmicas, enfim.
Mas então, de tanto ser surrupiada por gente com experiência técnica, gente que teoricamente é expert em computador, mas, que sempre dá a dica de que em três meses solicitaremos uma nova visita, passei a ter mais autonomia com tudo quanto posso, de modo a resolver sozinhas as situações.
Mas eu sou do tipo esquentadinha. Eu odeio dependência: troco lâmpada, troco botijão de gás, troco resistência de chuveiro, tenho olhos e ouvidos abertos com os carros (nunca um mecânico me enrolaria por causa de correia dentada, de pastilha de freio, de fios soltos e de supostas panes elétricas), de modo que eu tenho muita raiva de não saber o bastante para comandar o meu computador (ah, tá bom, e os meus eletrodomésticos em geral).
Eu me sinto tão impotente quando um problema se instala e eu não posso fazer nada! Chamo o técnico quando é o caso de chamar o técnico, seja lá técnico em que for, mas imaginar que eu vou me privar do eletrodoméstico e que eu não posso fazer nada para resolver o caso, estando, portanto, na mão da assistência técnica, me deixa louca, transtornada.
Como eu disse, eu odeio dependência – toda e qualquer dependência – mas eu preciso tanto dos recursos tecnológicos que seria uma hipocrisia ridícula ignorar que eu gosto, uso e aprovo tudo que facilita a vida.
No momento, meu computador anda me mordendo, travando, caindo...e é tudo junto: a conexão cai, a edição cai, o apagão se instala - me sinto irritada com isso, com a falta de obediência da tecnologia: juro, parece perseguição.
Se você tem prazos, compromissos e coisas importantes a fazer, o computador vai aprontar, com certeza. Se é Lei de Murphy, eu não sei, mas nunca aconteceu uma coincidência que favorecesse meus interesses - o computador me boicota, parece que está vivo e está se vingando.
O cérebro eletrônico definitivamente machuca o meu limitado cérebro humano e me faz perder a cabeça - tantas vezes, meu Deus, eu quis esmurrar o computador e quantos de nós não acha que se der umas pancadas na televisão ou no eletrodoméstico enguiçado vai fazê-lo funcionar? a violência reativa é prima-irmã do sentimento de impotência... e ao término do processo, eu é que fico com puta dores de cabeça!

Assim foi...


Não tem muito tempo que eu ouvi um palestrante do Café Filosófico – terá sido o Gykovate? Ou Renato Janine Ribeiro? – falando que a gente tem mania de fotografar tudo que vivemos, sob o risco de nem a gente mesmo acreditar. A ironia foi por conta das ilusões de lazer que todos nós experimentamos. Eis aí o meu registro do réveillon que excluí os momentos de blábláblá com Adriana, quando a gente lamentava o casamento dela, com o marido por perto; e recordávamos tantas doideiras em Porto Seguro, na Chapada Diamantina e em outras viagens que fizemos juntas, quando ela era solteira (e feliz!).
Registrei alguns vexames dos colegas e dos desconhecidos, passando a virada do ano com o estômago revirado, vomitando nos jardins da Vila dos Pescadores; minimizarei a narrativa do acidente cinematográfico sobre a ponte do Rio Pojuca, envolvendo quatro veículos, a quatro quilômetros da entrada da Praia do Forte, meia hora antes do réveillon, porque teria tanta coisa para falar...
Mas, enfim, apesar dos feridos não terem grandes problemas, foi interessante o comportamento de todos nós, no engarrafamento, que lamentávamos mais nosso atraso para a festa do que o acidente – seres humanos, oh, que incrível criação de Deus!!! Fosse nos dias de hoje, até Deus convocaria um recall para a Humanidade. Agora, estamos aí com nossos defeitos de fabricação.
Bom, criam-se ritos de passagem para tudo... Por mim, não estou aqui para protestar porque acredito na eficácia do simbólico e, assim, acho que tudo em que a gente acredita existe, porque tem seu aparato simbólico para isso. Logo, por menos lógico que seja – um vampiro, um lobisomem, um extraterrestre, uma alma penada, um Paraíso, uma vida eterna, um amor perfeito – a crença é que faz a existência imaterial das coisas. Ah, tá, parece contraditório...
Certamente, os corajosos ateus são odiados porque quebram as regras e enxergam a vida em sua crueza, sem ninguém para te salvar nas horas de aflição, sem vida após a morte, sem justiça divina, sem providência divina, sem intervenções, sem compensações, sem previsões - antes partilham da visão realista do “futuro de uma ilusão”.
Fala-se muito na intolerância religiosa e eu, particularmente, tenho visto é gente etnocêntrica e crenças etnocêntricas, mas é praticamente universal a perseguição aos ateus, que nem são tratados como gente ou são associados ao demônio... Basta discordar da maioria que o cara está julgado e condenado. Não quero dizer que esfacelando o lado simbólico das crenças os ateus não tenham lado simbólico. Não sou tão ignorante assim e se fosse estaria endossando os preconceitos contra eles.
Voltando aos ritos de passagem, o que seria de nós se não acreditássemos nas cerimônias de casamento? Ora, aquela assunção social de um compromisso pública e religiosamente compartilhado exerce força simbólica.
E os medos de morrer pagão, sem batismo? E como acreditamos, ao vestir becas e togas no cerimonial de formatura, que estamos realmente formados? E sem Defesa Pública de dissertação e de tese, em seus cerimoniais, réplicas, tréplicas e argüições, como seria ser mestre e doutor? E o que seria de nós, meu Deus do Céu, sem o apoio simbólico da crença no amanhã? E o amanhã é tão desconhecido, tão imprevisível, tão fora do determinismo do Destino que, ainda bem, nos abre as portas da esperança no que pode mudar.
Infelizmente, dentro do imprevisível está o improvável. Traduzo o improvável como impossível: embora tudo possa mudar, não vou acordar com a notícia de que ganhei um carro, uma grana maciça ou uma casa na praia. Tampouco o meu artista favorito vai aparecer à minha porta. Mas, sendo improvável, quem disse que não posso, simbolicamente, construir sonhos, voar imaginativamente até os meus desejos, querer, querer e querer? É nossa válvula e nosso combustível esse querer e esse desejo – os que conscientemente sabemos impossíveis e os que tornamos reais nos sonhos e nas fantasias. Infeliz de quem não sonha, triste de quem não deseja, porque já morreu e não sabe disso.
Quanto de verdade colocamos no coração para desejar o bem a quem amamos? Quão concretamente queremos que nossos amigos tenham o que merecem? Esse simbólico, sim, é válido, não carrega o vazio do lugar comum do repetido “palavra é força” e dos ineficazes e vagos “pensamentos positivos”. Dentro de nós há a verdade do voto dado, dos desejos em favor do Outro e é essa verdade que dá suporte ao que acreditamos.
Bem,acabou a festa que durou, para mim, uma semana e cá estou eu, de volta ao que me espera, aos livros para ler, às coisas para escrever, às obrigações em geral e aleluia que o sol tenha brilhado nestes dias de praia.