Louquética

Incontinência verbal

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Mantenha distância!




Faz tanto tempo que não saio para dançar! Dançar mesmo, até o pé doer, até adiar o sono e passar o domingo do sofá para a cama, vendo seriados reprisados no Canal Sony, bebendo o suco do arrependimento (cenoura, laranja e gengibre; ou só cenoura, ou cenoura com limão), com o apetite em desvario: em casa, sozinha – que é mais gostoso.
Domingo, o day after, é para lembrar os acasos, o beijo em Rodrigo, os flertes, a vida alheia bêbada, as coisas que acontecem com as amigas, os foras, as gafes, as músicas... E dormir, dormir.
Mas ao contrário disso, nesta cidade só chove. Tudo frio. E nenhuma festa. Festa só em 7 de setembro, no Botekim, com a 80 na pista. E eu vou, se Deus quiser!
Tenho mil ensaios para corrigir, resenhas para corrigir, diários de classe para passar a limpo, aulas a repor, já que me convocaram depois do semestre estar em andamento. Tudo isso e um bando de alunos enrolões, que fogem dos prazos e das responsabilidades, que procuram os pretextos mais inconsistentes para não cumprir as avaliações. Gente que quer ser aprovada de graça. Esses são os da universidade ' de lá'. Os da universidade 'daqui' simplesmente arranjam laudos de última hora atestando que eles estão com problemas nas articulações, transtornos bipolares, lesões invisíveis e perda conveniente das capacidades mentais.
Para arrematar o clima, não só terminei com o Zero Dois como excepcionalmente, como nunca antes na história de minha vida, bloqueei chamadas vindas do número dele, adicionei na listagem geral de rejeição e excluí o número de minha agenda. Poxa, nunca dei ‘um nunca mais’ tão bem dado!
Mas se a ação foi extrema, a situação que a gerou também foi. Sim, ganhei paciência, com o passar do tempo, mas Zero Dois extrapolou minha paciência. E olha que eu gostava da companhia dele, da pessoa em si, das afinidades, do gosto musical, do gosto dele (de forma ambígua mesmo!)... Mas posso dizer com toda ironia que atualmente Zero Dois deixou um gostinho de quero mais: quero mais que se exploda! Quero mais é longe de mim. E ficou nisso: mantenha distância.

sábado, 24 de agosto de 2013

O muro e outras lutas


E para dar notícias de mim, digo que andei a mexer no velho muro que eu tinha a derrubar e que, conforme já foi dito em outras postagens de outros tempos, só me restavam pequenos escombros.
Mexi no muro duas vezes e tendo saído vencedora, me senti como quem foi aprovado no exame da OAB.
Decerto, me urubuzaram muito. Sempre há os que dizem que a gente não vai vencer, que na hora da vida real, a gente cai, se quebra e não vence. Venci duas batalhas. E quase não venço porque dei ouvidos aos maus diagnósticos, aos torcedores pelo fracasso, esses aí que andam ao nosso redor mas não nos acompanham.
Só não declaro que estou feliz porque o tempo está chuvoso e porque nunca mais fui a festa alguma. Daí que vivo cansada e com o lazer fora de compasso. Outrossim, nos dias de TPM, como esses últimos, o sono só vem na hora de acordar - paradoxos que só um Deus muito engraçado pode explicar.
Estou me resolvendo. Como uma equação de segundo grau ou um problema cheio de incógnitas, descubro as soluções, o valor de X, de Y... E isso me fez riscar muita gente inútil de minha vida, também. A gente se resolve e resolve os calos nos sapatos também: vamos combinar que estar dando atenção a quem não nos dá a mínima é uma humilhação? tratar como prioridade a quem nos trata como última alternativa não adianta nada. Voltei a ser como eu era: saio sozinha, me divirto sozinha, tenho os amigos que são amigos; não imploro companhia, não tomo toco no dia do meu aniversário nem fico esperando por quem não virá e muito menos gasto meus centavos ligando para quem acha que me faz um favor por me atender. Não, a vida tem outras opções! Mudei mesmo! Descobri boas companhias e sou, também, uma boa companhia para mim mesma.
Em breve extermino o muro, mexo em outras estruturas, viro páginas, crio capítulos, insiro personagens e recrio sempre a minha história: nela eu sou protagonista e não vou ceder este papel a outra pessoa....

Virou fumaça...




Se há aqueles que vivem nos dizendo que é preciso vencer na vida, não é meramente para afirmar a necessidade material das conquistas e a necessidade simbólica de ser bem sucedido no emprego, nos relacionamentos e socialmente: é um forte indício de que a vida é mesmo uma luta, uma batalha.
Foi lendo a Odisseia que constatei a coisa mais óbvia inserida naquela literatura: toda busca de Ulisses para voltar ao mesmo ponto pode se resumir na indicação de que a vida é jornada e batalha. Mais óbvio, impossível. E por ser óbvio, a gente não enxerga senão extemporaneamente.
Envelhecer não é amadurecer. Tenho, portanto, pena da mãe dele – como tenho pena de qualquer outra mãe que tenha um filho infantilizado, dependente, que está na vida para fazer idiotices e se comportar como se estivesse na adolescência.
A gente assistiu juntos a Somos tão jovens. Durante a sessão ele ficou abobalhado, meio que recordando o passado, se identificando e certamente pensando que ele consegue traçar uma continuidade entre o outrora e o agora, sem nada mais a abalar as mais óbvias diferenças.
O tempo passou e ele não viu. Nem viu que o cabelo caiu e a pele perdeu o viço... Não viu que nada se realizou e que ele jogou fora tudo que tinha, inclusive a saúde e a juventude.
Esses dos muitos que são iguais a ele vivem num universo paralelo, na eterna perenidade das drogas. E ainda se acham superiores porque são viciados em cocaína e não em maconha, “coisa de derrotado!”. Isso me reporta a Valeska, que andava constantemente com um saquinho de cocaína para conquistar amigos e ser popular na universidade, mendigando a amizade de quem a via apenas como uma moça gorda e excluída. Mas, em seus contextos, são todos do mesmo saco esses de quem falo.
Pensam tremendamente mal de mim – a recíproca nos iguala – porque sou metódica para uns, burguesa para outros, careta para todos. E eu que não bebo, não fumo, não injeto e não tomo Coca-Cola, não influencio ninguém a não ser viciado em nada e tão pouco me deixaria cooptar para usar o que não quero ou viver o que abomino. Fica cada um na sua, desde que um não atravesse a barreira dos limites do Outro. Porem, atravessam: acham que eu deveria abrir mais as portas da minha casa e a da minha percepção.
Sou chata: precavida, agendada, metódica mesmo. Tenho horário, tenho metas, tenho responsabilidades e não vivo sem isso.
Na nossa última briga, eu não queria ninguém em minha casa. Falei que não queria ver, conhecer ou sair como o casal estranho. Ponto final. Não fiz convites nem acordos. E a casa caiu quando ficamos a sós e eu tranquilamente comecei a cantar junto com o Zeca Baleiro, por achar engraçado e ‘alter-biográfico’:

“Não tenho dinheiro para pagar a minha Yoga;

Não tenho dinheiro para bancar a minha droga,

Eu não tenho renda para descolar a merenda.

Cansei de ser duro, vou botar minha alma à venda.

Eu não tenho grana para sair com o meu broto,

Eu não compro roupa, por isso que eu ando roto.

Nada vem de graça: nem o pão, nem a cachaça.

Quero ser o caçador, ando cansado de ser caça.”.


Este foi o trecho da discórdia.
Tinha tudo a ver com eles e como ele em particular.
Gosto do Zeca Baleiro, estava tocando, cantei e me diverti.
Faz um tempo que eu digo que gosto de estar sozinha em casa, de ter escolha e de ter liberdade. Se eu pensasse o oposto, me casaria ou moraria com terceiros. Agora me vem essas pessoas achando que tenho que abrir a guarda.
Não gosto de partilhar a privacidade do meu lar com pessoas distantes ou que eu julgue inadequadas para isso. Sequer gosto que amigas de minhas amigas venham para cá, adentrar meu quarto, me fazer perguntas, reparar no meu sapato, no meu armário, nos meus perfumes, nas minhas fotos, nas minhas músicas, no que eu faço...
Diante de tudo, me espantei mesmo pela fixação dele e de toda a turma numa era que já passou. Querem sustentar os vícios à custa da mãe, dos que trabalham, dos que cedem, e vão catando de três reais, cinco reais, vinte reais, de mão em mão, para ter acesso a noites incríveis ou dias intermináveis e intensos: cocaína, álcool, cigarro e sexo. Tudo junto. Talvez com música, mas com a música certa para não dar a paranoia errada. E vão se desviando do mundo objetivo, desse mundo que tem angústias e que as pessoas batalham por si mesmas e embarcam em jornadas próprias à vida.
Esqueci de dizer que se a idade me deu algo, por incrível que pareça, foi um pouco mais daquilo que sempre me faltou: a paciência.
Acho que aguardo mais, escuto mais, espero, planejo e faço...
E junto com minha porção metódica, comedida, planejada está também minha independência. Sou independente. Se não quero, não quero: tenho escolha. Escolhi não ser um deles e isso foi há muito tempo, para quem viu o tempo passar.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Machado de Assis, para qualquer época




Vítor, filho da minha amiga, precisou de uma consultoria online em Literatura. Devo dizer que este online limitou-se aos trinta e poucos minutos de ligação telefônica. O fato é que gostei de recordar uns trechos interessantíssimos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Guardadas as distâncias temporais entre a nossa época e a do romance, ainda acho lamentável que para os estudantes de agora o livro pareça uma sentença de morte: difícil, chato, pesaroso!
Mas Vítor, por temer a reprovação, até que se envolveu com o livro. Deu as respostas certas, ainda que com uma boa medida de insegurança.
Zero Dois ficou me olhando ao telefone: eu, com um livro na mão, toda atenção, toda ouvidos, a citar Memórias Póstumas. Ele, alimentando fetiches, achando erótico eu estar em meu papel de professora, a falar as palavras que ele ignora. E não porque ignore significados, mas contextos. Até chegou a cogitar indiretas dentre as coisas que eu formulava ao telefone... E depois, despregou as palavras do contexto ignorado, rasurou e deu-lhes sentidos próprios... Ou, aliás, distorceu sentidos, fez um nonsense.
Ah, claro, não voltei para o Zero Dois que, aliás, neste dia soube que era o Zero Dois e que veio aqui em casa por ter me visto com o Zero Um. Não foi isso que revelou a novela passional, mas meu telefonema posterior, com a amiga: ele colou o ouvido na conversa e quando ela me perguntou quem estava em minha casa e eu disse: “Zero Dois”, ele entendeu. O romance deixou de dar certo, eis o caso. Nem em doses homeopáticas eu quero mais. Quis, é verdade, no momento, porque afinal foi consensual. Sensual. Ah, meu Deus! O ponto sempre foi esse: compatibilidade sexual... E o Zero Dois é sagaz, inteligente. Ficou vendo um filme comigo, todo feliz pela situação e todo sem jeito com meus episódios de rinite, em minhas crises de asma que interrompe a respiração e os beijos.
Mas, voltando ao Machado de Assis, tínhamos que traçar uma analogia entre os desejos de glória do Capítulo O emplastro e aquele que se chama Conquanto. Era uma questão de trechos, mas não resisto a reproduzir a quase totalidade destas partes, respectivamente;
“Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar nossa melancólica Humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para este resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanho e tão profundo efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplastro Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os mais modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro, sede de nomeada. Digamos: amor da glória.
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos mais antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a cousa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição”.
(MACHADO DE ASSIS, 1979, p. 27).
Não só me rendo a esta genialidade, mas à atualidade desta obra de mil oitocentos e cacetadas: não obstante, se houvesse um emplastro desses, eu recomendaria à minha amiga, mãe de Vítor. Eis que a Humanidade deixou de ser melancólica para ser depressiva, o que dá na mesma, com os pequenos agravantes farmacológicos e o showbizz dos que se dizem depressivos para ganhar carinhos e ver perdoadas as mediocridades, afinal este troço está na moda. Mas faz tempo que a humanidade está doente.
Encanta-me essa assunção da vaidade, do desejo da glória assumido pelo narrador só após a morte. Conheço muita gente humilde assim, especialmente no ramo da Literatura, das Letras, em que as pessoas se travestem de modestas, humildes e despretensiosas, mas estão em buscar de Óscar e glorificação. Talvez só admitam ao morrer.
E a outra parte que disseca a hipocrisia social de todo dia – e olha que aqui estou a alfinetar as colegas que empurram seus filhos para os cursos de Direito e Medicina que impedem que suas filhas namorem ou se casem com pessoas de classe inferior à sua – é justamente no capítulo Conquanto:
“-Conquanto o que?... Interrompi eu, imitando-lhe a voz.
- Ah! Brejeiro! Conquanto não te deixes ficar aí inútil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convém, e a todos nós; é preciso continuar o nosso nome, continuá-lo e ilustrá-lo ainda mais. Olha, estou com sessenta anos, mas se fosse necessário começar vida nova, começava sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...” (p. 72).

E daí que não é um mau exercício discutir Machado de Assis. Nem mesmo julgá-lo longe demais do nosso tempo. Ou ele se adiantou ao tempo ou os homens não mudaram nada de lá para cá. Assim é: desejos de glória, interesses, status quo. E tudo exposto com base na ironia machadiana, de que sou adepta e fã declarada. Hipocrisia é um troço difícil de engolir, porque sempre se refere a algo que está presente, que é praticado, que todos fazem e que todos sabem, mas que ninguém declara.
Coincidentemente, nesta postagem vão embutidas muitas situações que envolvem gente interesseira, das quais a mãe de Vítor que declarou ter casado por interesse mesmo, “para ser madame” – pelo menos, não alimentou a hipocrisia... O casamento acabou, os bens continuam, a vida continua... E por falar em vida, vou ali cuidar da minha.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Da noite para o dia



É assim que as coisas são: instáveis e imprecisas.
Na segunda a gente discute Derrida e envereda a análise pela Teoria da Narrativa. Depois, sai dali e comenta a novela das oito (que passa às nove).
Na terça a gente pensa como será a quarta; e na quarta a gente apronta e põe um ponto final nas coisas eternas, que foi o que fiz.
Na quarta vi a amiga que há anos não vi, armamos situações, elevamos a cumplicidade, saímos juntas enquanto Zero Um estava em minha casa. E ao sair, eu não sabia sequer que iria mesmo terminar com Zero Dois. Mas já estava na hora. Digo ao povo que me amarrei no Terceiro Elemento e que por ele, desfiz os nós folgados da relação interessante mas trabalhosa. Ademais, o ciúme dele entrou em cena junto com uma crise de machismo. E como não chorei, deve ter algo errado comigo,talvez emoções adiadas, talvez um distanciamento imperceptível.Cortei o laço, apesar de me sentir dominada pela competência sexual do rapaz e  pela compatibilidade musical, do afago, do café..
Na quinta a gente planeja a viagem da sexta, que será daqui a pouco. Mas, mediante um convite surpresa do amigo e das amigas, sai por aí, peregrinando na noite, atrás de festa. Fomos ao Feira VI ver se o Fifó tinha festa - nada de festa; ao Antiquário, ver se tinha festa e nada havia lá além de fantasmas e mosquitos; a gente vai à São Domingo e tem festa. Por isso, lá ficamos.
O sapato aperta, o sono vem e as obrigações de hoje acenam para mim.
Rimos dos tropeços da noite.
Uma amiga sempre bebe a mais; outra amiga sempre dá um pití básico de  mau humor para não dançar com um inconveniente qualquer; há sempre a pessoa sonolenta, que sou eu; e há a fome posterior à festa, que é bem difícil de resolver porque os predadores devoram tudo que há à venda nos estabelecimentos.
Assim vai a noite virando dia, o dia de hoje me que me preparo para viajar e encerrar minha disciplina no Baixo Sul (eu, a retardatária deste semestre).
Bom, como é sexta-feira, tenho que largar deste blog e ir para a vida real que outra vez me deixa afastada do mundo virtual.
Sexta-feira de trabalho e teoria.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

No teu corpo


Como é difícil resistir a uma boa tentação!
Compreendo as mulheres que não gostam de homens. Mas, para mim, que gosto, tudo é um encanto, especialmente os que conhecem do próprio corpo e que sabem percorrer o corpo das mulheres.
Gosto da beleza óssea dos magros, e dos músculos dos definidos, dos charme dos nerds, da inteligência dos cult, da sagacidade dos bem humorados, dos lábios técnicos dos cafajestes, das mãos hábeis dos mesmos cafajestes, da perícia tátil dos sonsos, das animadas surpresas eróticas dos tímidos - benditos sejam os homens de óculos - , dos que sabem usar gravatas e dos que são belos em jeans e camiseta, dos discretos que beijam bem, dos clássicos que sabem dar prazer e dos cavalheiros que sabem lisonjear e encantar. Gosto dos criativos e dos sexualmente animados, pouco afeitos a números e quantidades. Gosto de homem que sabe fazer a mulher se sentir amada, mesmo que o amor seja instantâneo e volátil.
Bendito seja o sempre louvado Chico Buarque:

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca

quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.





domingo, 4 de agosto de 2013

Amor e álcool


Descobri que o visual da bebida exerce muito poder sobre a vontade de beber. Como não me entendo com o álcool. como não gosto de álcool, peço as bebidas e os drinks como se mostram no cardápio e solicito contraditoriamente: sem álcool.
Uns garçons me dizem: "Seu suco!"; uns amigos me dizem: "Seu suco!". E o que vou fazer? não gosto de álcool! Pior é pagar por um suco o mesmo que se paga por um drink, pois não abatem do valor a vodka que não vem. E por falar em vodka (poxa, acho vodca escrita com C menos elegante que a escrita com K), ando perambulando pelo supermercado, sempre paquerando vodkas.
Confesso: queria tomar uma Absolut. Um ex-aluno meu, Álisson, me convenceu de que vodka Absolut é uma delícia, que nem parece álcool. Prudente, porém, me advertiu que é beber e cair duro no chão. E eu tenho intolerância ao álcool. Nem, por isso deixo de deambular nas prateleiras de supermercado. Vejo os vinhos e me encanto com as embalagens; vejo as vodkas e penso no que elas poderiam fazer pela minha vida social, mas vou logo me dissuadindo porque para tudo eu preciso ficar em pé e aí é uma coisa ou outra.
Neste sábado foi um inferno: congestionou a linha aqui de casa. A verdade é que estou em processo de engalinhamento e como não chovem heterossexuais em minha horta todo dia, tento administrar os flertes e levar à frente minha incipiente poliandria. Brincadeira, pois nenhum deles é meu marido. Acho que eu tinha curiosidade em ver como é possível administrar uma penca de relacionamentos, principalmente aqueles que não são assumidos como relacionamentos. Mas ontem o bicho pegou! O telefone tocou na hora errada, Rodrigo, que nem existe objetivamente nesta história, resolveu dar o ar da graça, o fincante Zero Dois colou em mim e e em minha casa; o ficante Zero Um estava para chegar no começo da noite... E minha cabeça não estava nada criativa para fabricar as desculpas esfarrapadas.
Conselho: se você se meteu em confusões amorosas,atualize a lista de desculpas esfarrapadas e deixe previamente armado com os amigos os pretextos que vão livrar a sua cara.
Graças a Deus, pintou um amigão para me salvar ontem!
Lógico que era daqueles amigos "mais que irmão", que para não perder a rima, se chama João. Que, por sinal, detestou o naipe, a cara e o jeito do Zero Dois e ao conhecê-lo confessou: "Mara, tu arranja cada figura!".
Sei é que ontem, além de dançar forró sem saber dançar, rebolei, viu? Na iminência do Zero Um chegar, me arrumei em tempo recorde, dei uma crise para arrancar o Zero Dois daqui, chamei um táxi de repente e acabei indo na casa dele, do Zero Dois, a pretexto de que ele se arrumasse para a gente sair.
Juro: me deu uma angústia louca. Puro desespero.
Já dei flagrante em namorados e já destruí um para-brisas para forçar o traidor a sair da toca, mas deve ser o pior sentimento do mundo a pessoa ser desmascarada, flagrada em delito... A casa cai e por maior que seja a cara de pau, não há quem fique de pé. Temi por mim!
O problema é que ele mora com a mãe. E ao lado, mora a irmã. E os sobrinhos. E as cunhadas. E, de repente, virei atração de circo e todo mundo apareceu para me conhecer.
Minha Nossa Senhora da saia justa!
Devo dizer que Zero um mora a poucas ruas de Zero Dois. Logicamente, os parentes deles são vizinhos entre si. Mais importante que a minha coragem, foi a minha cara de pau - e se chovesse cupim eu morreria desfigurada ontem à noite!
Educadamente falei com todo mundo, conversei, aceitei o café, vi fotografias e segui rezando para ninguém me ligar.
Depois de um tempo, saímos de lá. Passei raspando na casa de Zero Um e nas ruas que ele costuma ficar.
Andei tranquila e feliz depois de um tempo, de mãos dadas com o Zero Dois, feliz - e meio insegura e desnorteada.
Ontem vi que ele é mais que ciumento: em minha casa, grudou no telefone a cada vez que o fixo tocou. interpretou o que ouviu ao modo dele e comentou que eu recebia muitos convites para sair.
Corri perigo e liguei para o Zero Um do meu celular: ele insistia em perguntar com quem eu falava, mas como eu não sou da 'babação' de estar dizendo palavras bestas tipo: "Mô, amor , querido", ficou por isso mesmo.
Finalmente, quando a desculpa para eu voltar sozinha para casa apareceu, Zero Dois deu crise, me ameaçou nunca mais olhar em minha cara e sacou a arma que tinha: alegou que embora  a gente não admita e nem se dê conta disso, somos namorados.
Aí, meu ex está doente e desequilibrado, muito mal, a ponto de ser compulsoriamente internado por causa de vício em álcool. Gosto dele e não quero que ele fique ao deus dará. O resultado é que acolho ele, mas se os adjacentes souberem, me mandam pastar;
Rodrigo resolveu aparecer e por ele eu largo o processo de engalinhamento e fico somente com ele.
Não levo os flertes a sério porque apesar das coisas que nos unem, eles não me dão um chão firme para pisar... E imagino meu destino atado a essas pessoas que são divertidas porque me são esporádicas, mas que me encheriam se fossem constantes.
E , finalmente, sexta-feira passada aquele que "Não pode ser" deu de cara comigo, me cumprimentou, trocamos meias-palavras e como sempre ocorre, apareceu um empata e empatou a situação. Quando ele pegou em minha mão, estava suando frio. Comentei de brincadeira que aquilo seria efeito da vodka da noite anterior. Mas eu sabia que era nervosismo. Apesar de "Não poder ser", poxa...ai, ai!
Bom, depois da desculpa esfarrapada achei que Zero Dois não iria mesmo falar mais comigo, porque ele rodou a baiana, me disse cobras e lagartos e ainda jogou em minha cara que eu era dissimulada, que larguei a rede para pescar até a simpatia da mãe dele, que devagar eu infiltrei os sentimentos dele e blablablá... E eu fiz jus e passei o dia mandando torpedos indutores e persuasivos. Deu certo!
Concluo que amor e álcool são parecidos: primeiro, aprecie com moderação; segundo, embriaga mesmo; terceiro: atraem por sua embalagem; quarto:têm efeitos colaterais.