Louquética
Incontinência verbal
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
O lado B do estereótipo
Não será surpresa constatarmos o imenso número de pessoas a lamentar, na nossa época, a ascensão da idiotia. Pena é notar que ela não se faz apenas de "lepo,lepos", "gordinhos gostosos" e "muriçocas que picam" a disputar terrenos sonoros com funks aeróbicos ("eu vou, eu vou, sentar agora eu vou"), só para citar exemplos da indústria cultural contemporânea.
E é claro que todo mundo sabe do que se trata: como evento comercial, está em toda parte, toca em todo canto e é partilhado independentemente da vontade de cada um. No meu caso, na academia, no camarote e no comércio é o onde se socializam tais músicas. Mas a gente que tem escolha e sabe o que faz, seja porque se ancorou no pedestal da boa formação escolar; seja porque optou por entrar na brincadeira apenas para brincar e driblar a angústia de ser racional e comedido sempre, é bem diferente do pobre alienadinho para o qual a música é empurrada ouvido "adentro" e ele se sente identificado.
Perdoa-se sempre uns mais que outros.
Não perdoo gente letrada ignorante. Gente letrada ignorante adora se apegar a estereótipos e acredita neles, sejam quais forem.
Já trabalhei em terras que eu detestei. Todavia, procurei não ser desrespeitosa com o lugar, É assim até hoje: sou paulistana; e se tem uma coisa que eu respeito é a terra onde moro e os lugares de onde tiro o meu pão.
Já fui a cidades em que o cliente que aparece no estabelecimento é incômodo, porque o comerciante preferia dormir a ser incomodado por um consumidor; já vi malandragens no troco dado; já vi gente chata e preguiçosa em muitos cantos da terra, mas devo dizer que me deixa estarrecida ouvir ou ver alguém repetir e acreditar que o povo baiano é preguiçoso.
Num só carnaval você pode ver um bando de gente pulando nos blocos; na corda dos blocos, os chamados cordeiros, isto é, gente que trabalha no corpo-a-corpo com a multidão interna e externa ao espaço do bloco, a fim de fazer o bloco passar, seguir; quem tem olhos vê os pobres catando latinhas e outros vendendo cervejas, churrasco, queijo...uns tantos catando o que se possa reciclar;
Quem está no camarote vê gente limpando banheiros, outros consertando coisas, cozinhando coisas... E nos patamares mais alto da escala social, o empresário controlando coisas e fechando acordo; e em cima do trio, tem cantores, trabalhando. Todo trio elétrico tem motorista e pessoal de apoio. E do lado de fora de tudo tem um bando de folião que, em sua maioria, trabalhou para ter dinheiro para usufruir da festa.
Nem sempre existiu Bolsa-Não-Sei-O-Quê para nordestinos, para baianos, para brasileiros...e por aqui, eles sempre se viraram.
Herança escravista persistente isso de acreditar que determinados lugares sociais precisam permanecer os mesmos: aos negros, a cozinha; aos pobres, a subalternidade.
Sou daquelas que acham que não existe classe C coisa nenhuma. O acesso a determinados bens não significa mudança real no patamar socioeconômico; tudo é balela estatística. Mas sei que algo mudou para melhor, em algum grau.
Não na consciência do brasileiro em geral, que adora um pretexto para discriminar.
Você já foi à Bahia?Não? Então vá e se decepcione: aqui se trabalha, e muito.
E se você vir rebolations nessas ruas, é isso mesmo: baiano rebola para ganhar seu pão. Tire suas próprias conclusões ou repita as frases estereotipadas...vai que dê preguiça de pensar?
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
(Des) Amor in a flash
Mudei de perfume. Tem mulher que, para operar uma mudança, corta o cabelo, como se mudasse a própria cabeça, ou como se quisesse mudar de fisionomia para tentar ser outra, se renovar, ser outra mulher - aí é mais comum em casos de separação.
Sempre usei Éden, da Cacharel, Resolvi trocar para Amor in a flash, também da Cacharel. Acho que o perfume veste a gente - Marilyn Monroe não estava errada ao dormir usando apenas um Chanel número 5.
Amor in flash quer dizer 'amor à primeira vista'. Há quem acredite que isso exista. Porém, desamor à primeira decepção, poucos dizem existir. Aconteceu, porém, comigo!
Desde que eu li, na página do meu ex-amado Vinícius, um texto feito pelo amigo dele, que falava de mim indiretamente, sob o pseudônimo de 'ser pragmático', contando algo assim, aproximadamente: Vini era tratado como amigo pelas mulheres que ele queria, até o dia em que um 'ser pragmático' elogiou o diferencial dele, ou seja, o bom gosto musical e a escrita. Á moda de Drummond e o poema "Quadrilha", desenrolou-se a história. Ele, então, absorveu estrategicamente o lado bom de uns e toques ruins de outros amigos próximos, se conscientizou que quem come calado, come várias vezes e até a presente data, saiu da friend zone em que o colocavam, vive passando o rodo nas moças, ora descritas como 'ar negas',
Pode não ter sido em um flash, mas posso afirmar que desde então meus sentimentos não são os mesmo. Posso afirmar categoricamente que, se hoje, ele propusesse me ver, a resposta seria um não tão redondo quanto o maior círculo que um compasso possa descrever.
Ele passou a integrar o lugar comum. Saiu do diferencial, virou um cafajeste vulgar, comum, uma pessoa como qualquer outra, sem nada de especial.
Em princípio eu tive ódio, devido à exposição de minha história com ele. Depois vi que ele faz parte dessa história e tem o direito de partilhar com os chegados dele. Mas dentro de mim, sinceramente, algo mudou e a chama feneceu.
Nunca tive nada com ele que excedesse o abstrato. Projetei nele o ideal de uma boa parceria intelectual, desses companheirismos de ouvir músicas e partilhar opiniões, discutir coisas...Diferente da relação que nem é relação, com G., algo realmente para acalmar as exigências do corpo.
Para mim, Vinicius jaz.
Lembro é com tristeza e pesar do tempo que perdi com essa história besta. Na verdade, nunca houve nada.
Andei meio perdida porque tive um sonho com ele, bem freudiano, antes de voltar do Ceará: ele me encontrava numa casa imaginariamente minha. reclamava de uns descasos do quintal. Meu pai chegava e a gente passava pelo lado da casa.
Ele enfrentava o meu pai, falando normalmente com ele. Meu pai entrava aparentemente em minha casa. Vinícius me beijava tão intensamente que me sufocava. Eu tomava ar. Ele me beijava sufocando de novo. Daí acordei e tive medo de dormir de novo.
Fragilizada, atordoada e idiota, mandei uma mensagem para ele e de manhã a gente se falou.
Toquei, dias depois, no assunto do texto que está na página dele. Sugeri mesmo que ele estava em estado embrionário de cafajestagem.
Neste mesmo dia, falei a ele parecer favorável que eu obtive numa revista Qualis A em relação a um artigo meu.
Nada.
Nunca me respondeu.
E como sou adulta e não perco meu tempo excluindo de what's app ou de redes sociais a quem eu previamente já excluí de minha vida nunca mais dei notícias, nem darei. Ao contrário, estou orgulhosa de mim por ter percebido que insistências tolas não valiam o possível prêmio. Não amo cafajestes.
Gosto de namoro por tempo indeterminado, aceito ligações e conexões de outra natureza com os homens, mas, acima de tudo, se deixou de ser especial para mim, não destino sentimentos especiais a este tipo. Acabou. Game over.
Um dia eu disse que ele tinha defeitos respeitáveis. Acho que ele me desrespeitou, depois, em muitas circunstâncias.
O problema do desamor in a flash é que a gente fica com a visão turva, sem saber se amou tanto quanto pensava, ou sei lá mais o quê. Passou. Ou a mágoa se tornou maior que o suposto amor.
Não falo de fidelidade, que é artigo de luxo dado a poucos merecedores e, particularmente, desde 14 de abril do ano passado tenho um affair com G., meu canalha particular para consumo instintivo...Logo, não é a questão da vida amorosa do rapaz, mas do modo como isso se processa.
Talvez eu fale 'nunca mais' além da conta. Mas é isso: Vinícius, nunca mais! E tal como diz Manuel Bandeira, "Amor - chama, e, depois, fumaça..."
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Doces doses de ser
Tem épocas em que é preciso espantar a tristeza às vassouradas e o medo a pontapés. A vida não está um mar de rosas, nem tudo está em ordem, mas não posso reclamar de infelicidade e de coisas mais profundas a demandar chateações.
Desta vez, consegui domar minha agonia: acabou o compromisso, a coisa séria a fazer, e as passagens aéreas foram compradas prevendo uma permanência maior por aqui. Ocorreu de tudo ser compactado e sobrar tempo...Fazer o quê, se tentar remarcar uma passagem aérea gera um prejuízo absurdo e majorado pelo período de carnaval, chega a cifras estratosféricas?! E eis que fiquei. Creio que aprendi aquela dura lição em Campinas, quando tudo deu errado e eu tinha hotel e passagens reservados para cinco dias depois de minha chegada. Desesperada, fiz tudo errado: esvaziei minhas reservas, antecipei minha vinda, cometi desvarios para voltar para casa. Não, nunca mais faço isso.
Fiquei e adorei conhecer Fortaleza.
A Praia do Futuro foi a melhor praia que eu conheci - em água, em beleza, em estrutura...Um show! maravilha!
O Centro Cultural Dragão do Mar, outra maravilha. A vida cultural, convidativa como um todo! então, valeu!
De vez em quando penso em que ficou por lá, num cantinho de minha lembrança: Vinícius. Não tem jeito: gosto dele. Sinto a falta dele e temos alternado o estar-bem e o estar em guerra...E minha sempre pouca paciência a ditar; " Mara, desiste e segue!". Sigo e penso que desisto. Que menino complicado e cruel...História circular.
Vou deixando de me importar com outras coisas, amortizo os desesperos, deixo o tempo passar e tenho medo das saudades que levarei. No fundo, em alguma medida, a gente se acostuma aos novos contextos, aos cenários, ao convívio.
Na vida, aperto um "off" e desligo os desesperos - é preciso aceitar que se pode estar tranquilo, que há remédio para nossa mania de ser sempre do mesmo jeito ante o que parece não ter jeito.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
As marés da vida
Eu nunca quis sair da minha casa para ir ganhar ouro e fortuna há milhas do meu lar. Porém, nunca nascem editais no meu jardim, com vagas no meu quintal.
Ir para longe tem lá suas compensações. Talvez compense mais para quem vive fugindo ou sofra por solidão, o que não é o meu caso. Porém, quem quer estabilidade ou paz financeira, faz desses pactos.
O concurso que seria daqui a eras, resolveu ser na semana que vem.
Neste fim de semana passado, encarei meu medo do mar e das embarcações, enfrentei o oceano e fui a Morro de São Paulo, uma ilha que eu não conhecia.
O caso não foi ir: foi ir e relaxar, prevendo uma data para meus compromissos e que agora se antecipou.
Tenho medo de passar e tenho medo de perder.
Se eu passar, vou me desdobrar para viver aqui, ali e acolá: é que a vaga é num interior acerca de 60 km da capital, onde tecnicamente, se deve morar; par a cada 15 ou 30 dias vir para cá, o meu lar.
Não sei onde eu estava com a cabeça quando me meti nessa.
Na verdade sei: minha vida estava leve demais, no sentido de me faltarem amarras afetivas. Andei viajando com meu ex-orientador de doutorado, que contou de suas peregrinações na região Norte do país, no começo da carreira; medi os sacrifícios dos meus amigos e inimigos, indo morar em cidades amarguradas, onde a internet é à base de lenha e a diversão é morrer para evitar o suicídio - sem shopping, sem livrarias, sem café gelado, sem Multiplex, sem badalações e mesmo sem as frescuras gastronômicas que preferimos. Pelo menos eles se entopem de dinheiro. Mas, uma vez entupidos de dinheiro, ficam lá, marcam passo, querendo sempre mais dinheiro ou tendo medo que o dinheiro acabe - o que é uma contradição frente a lugares sem apelos de consumo.
Gosto de dinheiro. Preciso de dinheiro. Não tenho nada contra dinheiro. o problema é o preço que se paga, em termos gerais, para se ter dinheiro - dinheiro nunca se ganha, se conquista mediante vários meios. ganhar, seria se fosse gratuito.
Eu, claro, uso a teoria do macaco: não se deve largar de um galho sem antes estar-se preso a outro...Do contrário, o macaco cai.
Assim sendo, já engatilhei outros ramos e utras ramificações, estas, sim, realmente, desejadas. Por essas, lutarei sem angústias.
No meio do caminho tem outro elemento: eu o conheci num Congresso. Obra do acaso. E desde que me tornei Espírita, tenho sido compelida a concordar que o acaso é Deus, quando não quer assinar a obra.
Ora, não era para ele ter ido. Nem eu.
Não era para ele ter ido sentar ao meu lado, mas sentou.
E como estivesse de camiseta de partido político, julguei que ele fosse o motorista que nos levaria daqui para lá.
Encetamos a conversa. Cara inteligente, simpático, humano, carinhoso e cortês.
Descubro depois; formado em Direito, Letras e Filosofia.
No meio do caminho, um edital, na cidade dele. nem ele nem eu sabíamos. Soubemos: fez-se o problemas, que talvez nem seja.
Legal isso das pessoas ainda julgarem o blog como uma esfera confessional.Às vezes é. Às vezes não é. Hoje tudo isso aqui é.
Meu rolos amorosos sempre são confessionais.
É Vinícius no coração, as águas rolando, a gente se aproximando, ele brigando porque não gosta que eu saia...Enfim. E aí vem o outro personagem. No fim da questão, também confessional, nunca fiquei com nenhum dos dois. Gosto de um cara com quem nunca fiquei, mas que me namora à distância. Por outro lado, o que está mais distante exige esforço de mim, para que eu passe num concurso, v´para perto e a gente amarre as alianças coronárias. Que fique bem claro: alianças do coração. Eu nunca me casaria - só conheço dois casamentos felizes; o resto é cansaço e conveniência afetiva.
Bom, mas a sorte está lançada: vou lutar. A vitória me assusta, a derrota me destrói. Qualquer resultado me afeta, mas é sempre melhor ganhar que perder. Bom mesmo é ter escolhas.
P.S.: Na foto, eu...aproveitando os ventos que sopraram a favor, nesta sexta-feira passada.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Por onde andei enquanto o tempo passava
Eis que a gente deposita muita expectativa no ano novo, no espetáculo de passagem de tempo, no tempo em si. No fim, somos apenas uns doidos comemorando o que ainda é projeção, torcendo e rezando por novidades boas.
Passei o réveillon em Lençóis, só para fazer diferente. De diferente mesmo, só a ausência das ondas. No mais, tudo terminou cedo e eu vinha de uma experiência horrenda numa trilha até à Cachoeira do Sossego.
Se alguém lhe falar em trilha, saiba: a melhor ainda é a trilha sonora. Do contrário, prepare-se: se um guia te disser que leva duas horas, acrescente cinquenta por cento a mais, mesmo que você seja atleta. Assim como, a depender, há situações em que é preciso lutar pela sobrevivência, já que é necessário, abaixar, agachar, rastejar, rezar para não cair; há momentos em que sua vida fica literalmente em suas mãos: se soltar da rocha, despenca sobre outras rochas pontiagudas.
Não é á toa que em Lençóis, a Amsterdã baiana, todo mundo usa maconha, porque se o cara não estiver viajando numa droga, não suporta aquilo. Até à Cachoeira do Sossego, caminhamos cinco horas, nos maiores perigos. Escute, cara pálida: trilha não significa apenas fazer um caminho a pé, subir ladeiras, descer corredeiras, avançar por rios: é um exercício de desafio dos medos, seja ele de altura, de animais ou insetos nativos, é encarar fome e sede, calor, riscos, desafios, correntezas e , no caso da gente, no final de tanta luta, encontrar uma cachoeira coo qualquer outra, cuja água e cor de Coca-Cola, é fria e não tem lá nada que justifique o sacrifício, exceto, é claro a ignorância ou uma grande labareda no orifício anal. No meu caso foi ignorância.
Lá deixei um pedaço de mim: do joelho, do dedão do pé, da coxa. Paciência: bom é sair de lá.
No Morro do Pai Inácio, sim: legal, apesar de pequenos riscos.
Lençóis estava péssima para qualquer espécie de pegação. Nada acontece: o povo faz trilhas, fuma maconha, bebe álcool, come e dorme. Um saco!
Fui de turma e foi o que salvou a viagem.
Gosto de lá.
No sábado fomos ao Refúgio, dançamos, enfim, encerrei ali meu tour.
De volta ao lar, tempo chuvoso que me fez desistir da praia...Voltar à vida comum e às obrigações.
Preciso me concentrar, ler, escrever, criar.
No amor, tudo só perspectivas. E aquela certeza de que esquecer alguém presume um trabalho cansativo de desconstrução. Mas, como para tudo na vida, gosto de respostas claras. Gostaria de saber tanta coisa sob e sobre a decisão dele, sobre outras infinitas coisas que merecem respostas. Mas aceito o rei posto, deposto e a vida segue nestes trezentos e tantos dias a seguir, se vivermos.
P.S.: Na foto sou eu, no Morro do Pai Inácio, durante a viagem de réveillon de 2014 para 2015.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
V de verdades: retrospectiva do últimos dias do resto de 2014
Agora, sim, posso dizer que este ano passou rápido demais. Ou não: pode ser meu problema particular de memória e de percepção. Deste modo, a sensação que tenho é que a Copa do Mundo ocorreu há dois anos. E meu aniversário neste ano? pouco lembro, exceto que caiu num sábado e que fui comemorar no show da Banda 80 na pista, que minha amiga foi comigo e que aquela peste do meu ex, o Zero Um, foi lá também estragar a minha festa, sempre bêbado e vexatório.
Mas conto meus últimos vexames de 2014: Jesus Cristo, como contar àquela pessoa que pensa que somos amigas, que eu não tenho vontade de vê-la, curiosidade, nem interesse num encontro? como se faz isso?
Há pouco ela me pegou na internet. Blablablá e eu sem jeito ante os protestos de saudade manifestados por ela. Eu e meu desinteresse. E os queixumes dela, de que a irmã não a perdoou, apesar de ser tal irmã, uma católica fervorosa. Veja, ela queria ser perdoada por estar na casa desta irmã tendo um caso com o marido desta irmã, abortando filhos do marido dessa irmã e morando sob o teto desta irmã. Deveria ser perdoada, né? mas...
Pessoa boa, que se então soubesse que eu nunca a perdoei pelas atrocidade, maldades, falsidade e explorações feitas contra mim, iria sambar na minha moral.
Nessa mesma linha, ontem fui encontrar Rodrigo. Fui e fui de caso pensado, nesses dez ou onze meses sem que a gente se encontrasse.
Ora, ele é um grande inibidor de expectativas, ele defende a sinceridade e deixa pistas (o que significa deixar claro, pois não sou burra) algo bem similar ao que ocorreu com minha outra amiga: que para ele, há mulheres para amar e outras para transar. Eu estaria entre essas últimas.
No nosso último encontro, ele deixou a desejar ( ele me deixou desejando, pois fez um fast sex e não me impediu de ir embora - um cavalheiro, por pior que fosse, deveria dar um tempo e se importar com a dama) - isso após eu dar aula até às 17 horas, enfrentar a BR, estar cansada, ir tomar banho, me arrumar, gastar com táxi... neste caso, reconheço: não brinque com a memória de um mulher.
Finalmente, ele manteve contato por seis vezes, sendo duas há vinte dias e quatro entre a sexta e o domingo.
Tramei com as amigas: se ele frustrou minhas expectativas, se inibiu expectativas românticas, vou dar o troco: vou frustrar as expectativas sexuais dele. Caprichei no visual, nos arranjos e no contexto, só para aumentar o impacto da tramada queda. Levei o livro dele que estava comigo, último pretexto de encontro.
Almoçamos. Blablablá, assunto interessante. Velho tópico sobre expectativas - ele falou que não alimentava expectativa para nada. Protestei que viver sem expectativa equivaleria a viver sem sonhos; que Deus me livre!; ele falou que o romance dele acabou, com a moça do Ceará (ora, foda-se!) - Ele pediu a conta - lógico que eu dividi a conta e nem hesitaria em dar tal ousadia a uma pessoa pão duro.
Saímos. Eu me ofereci para deixá-lo em casa, já que eu estava de carro. Ele disse: "Poxa, pensei que a gente fosse esticar esta conversa". Eu disse que iria levar meu tio à casa de meu pai (era verdade, mas não pareceu).Ele começou a ligar compulsivamente para uns amigos, para não ter que voltar logo para casa... Ninguém parece ter atendido.
Fomos para o carro. Liguei o som, pus um álbum dos Beatles com faixas excelentes. Passeei até á casa dele, só para deixar as saudades, na tarde deste domingo.
Larguei ele em frente ao condomínio. Risíveis despedidas sacanas minhas, com beijinho no rosto e muita cara de pau. Viu, escroto, o que é uma expectativa frustrada? é algo assim, tá?
Mas enquanto eu estava no restaurante, qualquer possibilidade de desejo ou simpatia escaparam. Quando dá o desencantamento, é isso: "O que foi que eu vi nesse cara?". E ele se achando, antes. Certo, eu estava encantada, mas isso não dava a ele o direito de tripudiar sobre minhas expectativas.
E eu paguei a metade da conta para reforçar minha vingança: para um pão-duro, perder uma mulher que não dá despesas é um péssimo negócio. Pronto! Fui mesmo ver meu pai, dar um presente, me reconciliar co minha casa, meu lar, meus livros e dormir gostoso, como foi até às oito da manhã de hoje.
E tenho memória. Eu sei o que ele me fez no verão passado, quando poderia ter sido legal comigo.
Já meu primo, um caso sério: quando eu estive na pindaíba, ele nunca me deu um aquilo de fubá, um pão seco, nem se ofereceu para e emprestar de centavos.
Agora ele está me devendo, pois emprestei, na boa, um dinheirinho há quase um ano. E há um ano é assim: vou te dar cem reais hoje; ah, ficou para fim do mês, ah, ficou para o começo da era glacial. E hoje que eu pedi dez por cento do meu dinheiro, ele com grana no bolso, se negou a pagar. Pois é, necessidade é só a dele. As minhas, não. Desse tipo de gente eu corro a léguas. Não empresto mais.
Estou em paz mesmo. Mas sentar na mesa com os desafetos, estou fora: só divido prazeres com os amados. E que em 2015 eu tenha muitos amores, de vários tipos - amizades, namoros, rolos...
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
O poder do estereótipo
Vou viver eternamente inconformada, protestando contra os estereótipos. Os sexuais, então, estão no topo do que eu detesto. Vamos a eles: que convicção é esta de que toda e qualquer mulher gosta de ser chamada de vagabunda, levar tapas no traseiro e ter o cabelo puxado na hora do sexo? E diga-se, ainda, sexo com muito palavrão!
A massificação da cultura, inclusive a cultura comercial sexual, faz com que as pessoas copiem comportamentos. Em sociedades reprimidas, os palavrões equivalem a gestos de liberdade, de privacidade, de extenuação do que se quer falar. Acompanhado dos tapas na bunda mulher e todo o ritual previsível e obrigatório, dá ao homem a certeza de que ali não há amor, é só instinto, liberdade... A depender do homem, associará à ideia de sexo selvagem, que seria, em termos práticos, a aceleração aeróbica do sexo, sempre quantitativo e bruto - que os animais selvagens não se ofendam com tal sandice. Coitado! Pensa que é isso que ele quer e que ela merece!
Quando o André Sant'Anna descreve, em um dos seus contos, o sexo do Executivo de Óculo Ray-Ban, é exatamente isso: a mecanicidade do sexo, repetitivo, previsível, chato, comandado por modelos externos.
A ars erotica de Foucault não tem espaço nesse negócio. Ser carinhoso é ser babaca, ser discreto é ser frio, ser natural é ser fraco. E como há a necessidade de xingar a mulher de puta, talvez implicitamente haja o consenso de que só se pode gozar livremente com uma, ou com quem assuma esse papel. Nós, mulheres, aprendemos que devemos ser damas na sociedade e putas entre quatro paredes. Com isso, também temos medo da naturalidade, das escolhas e das preferências...Não pode! temos que ser liberais. Ser liberal é obedecer ao que é designado pelo comportamento coletivo. Na imposição geral, pelo menos vamos às sex shop, comprar coisinhas para apimentar as relações sem gosto, para vencer a concorrência com as outras, nesse mundo de tão poucos heterossexuais disponíveis.
Casamento em crise? a mulher vai aprender dança do ventre, comprar fantasias, aprender coisas novas visando a prender o homem, escorregadio para outros leitos...Que pena! Tanto esforço e pouco gozo. Quem nunca passou por isso ou disso foi testemunha?
Outro estereótipo é tocante à convicção de que a mulher que gosta de dormir abraçadinha ao par, após o sexo.
Depende do sexo.
Ainda assim, é uma questão de educação o homem tomar a iniciativa de ir embora sem, entretanto, ser grosso ou parecer que o interesse era somente o sexo. Assim, se acabou o sexo, acabou a visita. Verdade seja dita, sexo bom tende a causar sonolência... Consequentemente, virá a preguiça de se vestir, se arrumar, pegar o carro, o caminho...
Queria que meus pares soubessem a hora de ir embora.
Moro sozinha, Gosto de morar sozinha. Gosto de companhia, mas não gosto de quem me sufoca ou delonga a presença pelo meu lar.
E minha privacidade? E meu bem-estar? Se não há indicativos ou pedidos para que o homem fique (ou a mulher, também, lógico), vale o bom senso e obviamente, a partida.
Por mim, cada um que se lasque em palavrões, em estereótipos, no que quer que seja, desde que saiba que cada ser humano é um, tem suas propensões, não corresponde ao que se fala em falso consenso.
Quem é esperto tem que ter feeling para perceber a configuração individual das mulheres. Imagine se o contexto não ajudar e o cara propuser algo em más palavras? Pode até ser contornável, mas duvido que seja perdoado de fato. O limite entre o sexo livre e a repetição mecânica e insípida de modelos impostos pela indústria do sexo é pequeno. Livre é quem tem escolha e assume preferências.
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