Louquética

Incontinência verbal

quinta-feira, 14 de julho de 2016

E o passado fez as malas...


Eu nunca consegui terminar uma relação sem sofrer junto com o Outro, exceto nas raríssimas vezes em que me arrependi por ter começado a relação.
Nessa de me desvencilhar dos paralelos, li há pouco uma indireta de V., para mim, uma transcrição de Guimarães Rosa, a se conformar com o fim. No caso dele, o fim de meus sentimentos - e o consequente fim das massagens no ego dele, porque ele adora ser paparicado.
Com F eu inventei que tiraria o fim de semana para ficar mesmo com outra pessoa, porém inespecífica. e parei de manter contato, para não alimentar o que eu não queria de jeito nenhum.
Mas o ex, o que se pensou namorado, ah, esse gosta de uma autocomiseração, se faz de desentendido, faz cara de cachorro na chuva, faz ameça, roga pragas...Olha, vou aproveitar e dizer com todas as letras e quem tiver juízo que tome por conselho: se uma relação fica nesse ponto, se já contabilizou vários vai-e-vem, se no último vai a pessoa não foi, desista. Lembre como era sua vida antes dessa pessoa. Você existia? Respirava? Comia? Pois é, depois dela você ainda pode. Não alimente relações doentias e também não se escore em tarja-preta para resolver seus problemas. Remédio controlado não é drops, não é bala para distrair das dores, a vida toda, exceto se você tem esquizofrenia.
Tristeza não é depressão e depressão não cura com remédio: o  remédio é localizar a causa da tristeza e procurar solução.
Ninguém quer lembrar que foi estuprada pelo tio, nem que teve família negligente, nem que admitir que tem vergonha por ter achado gostosa a carícia sexual feita pelo primo; também ninguém quer admitir que tem inveja da irmã e da amiga; que detesta a própria família; que se acha feia; que se sente inferior; que se acha burra; que tem mágoa dos pais; que odiou a primeira vez no sexo; que fez coisas de que se arrependeu; que se acha fracassada; que se sente preterida por não ter provas vivas do amor de alguém por si; que quis ser rainha da festa junina da escola; que odeia o próprio corpo, que tem vergonhas, dores, ciúmes. Ninguém quer falar disso. Isso, no geral, está sob as crises psíquicas das pessoas, ao lado de coisas positivas como a conquista de um cargo, de um título, de um bem, porque sabe que será cobrada pelo sucesso. Diz o ditado: "Prego que se destaca, leva martelada". Que ninguém pense que a vida de quem tem sucesso é fácil.
Mesmo gente cuja beleza é invejável, tem conflitos - sabe que a acharão metida, que se aproximarão por causa da beleza, mas não por amor verdadeiro...
Tem os que só sabem ser felizes se casados e os que pensam que felicidade só mediante maternidade. Ou seja, todo mundo tem conflito. todo mundo tem problema. Apenas varia.
Qual o pior deles? Todos.
Dor é dor, não importa a natureza: o tamanho da dor é o mesmo. E aí, Vai tomar um Rivotril ou uma providência?
O citado moço não aguenta passar pela dor e pela angústia da perda.
Escondo meu poeta dele. Escondo, no geral, minha vida toda, por menos que possa parecer. Ontem, mesmo, um povo de meu ex-trabalho no mundo militar, teve a cara de pau de perguntar onde estou, o que faço e quanto ganho. Assim mesmo. E eu dei respostas claras e indiretas ainda mais claras, porque não admito uma coisa dessas: é gente demais especulando meus passos. Sei que virão calúnias pesadas depois que eu me desvencilhar do moço dramático.
Hoje foi demais: repeti que a gente estava há meses afastados, que eu não sentia amor, que eu não queria ele...Não tem jeito: ele sempre volta, ignorando a conversa e o término. Penso em ir embora de minha casa e de minha cidade. Já dei passos para isso. Quando um não quer, mas o outro insiste, é preciso ir embora. Uma pena.
Eu gosto dele, mas não para relacionamento de homem e mulher.
Ele não sabe passar pela dor. A gente evita, eu sei. A gente desvia. Mas como um homem pode querer a presença de uma mulher que declara seu desamor? Como a gente pode forçar o outro a nos amar? Como pode ter ódio por coisas que não dependem da vontade?Mas não adianta: ele nega a realidade e não vê que o sonho acabou e é hora de despertar.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Termos reais da liberdade de ser


É preciso saber sobreviver ao caos. Fácil não é. O que nos cabe é ver que a vida da gente pertence à gente e é preciso tomar conta, cuidar, tomar a responsabilidade pela direção das coisas. Viver dá o maior trabalho.
Tive que dar um fora formal em alguém que não quero que saia da minha vida. Está aí uma coisa que os homens, em especial, não entendem: terminar uma relação ou um relacionamento que o outro acredita que existe é praticamente uma causa perdida quando a gente quer continuar sendo amiga da pessoa, quando lhe denota carinho, afeição e cuidado.
Sou fraca: não fico bem ao perceber que causei mágoa. Juro: até com ex-amigos e ex-amigas, eu realmente não lhe desejo o mal, oro sinceramente por boa parte deles, reconheço meus erros e pisadas de bola, quando os cometo e se as coisas redundam em término de amizade, de amores, de contato, é sempre por uma justa causa da qual conclui que insistir na manutenção da relação seria abrir as portas para novos conflitos, novas contendas, novas decepções. Acho que isso me fez ser rancorosa, não no mal sentido, mas no sentido de não esquecer do que a pessoa foi capaz de fazer a mim e, portanto, procurar não lhe dar novas chances de cometer o mesmo ou o pior. No fundo, a recorrência de alguns episódios deixa claro que a gente perdoou outras vezes...E olha no que deu?
Então, terminar não quer dizer o fim dos bons afetos, mas a mudança do tipo de afeição. Sim, eu admito: tem gente que eu gosto e gosto bem longe de mim, pois a proximidade seria inútil, cansativa, seria uma porta aberta a dissabores porque ninguém muda por nós. Desta forma, é a gente quem tem que mudar.
E não me refiro a mudar de personalidade, alterar o que se é, mas mudar de atitude no trato para conosco.
Aquele relacionamento - amor, amizade, companhia- teve suas coisas boas que o geraram e o sustentaram. Postas na balança, se essas coisas decrescem e são menos importantes que acontecimentos graves e desagradáveis está na hora de dizer tchau e encerrar o assunto.
Andei me livrando de relacionamentos paralelos. Uns eram até irreais, era gente com quem eu falava, mas que eu não via, não pegava, não estava...
Este a que me refiro, não: tenho um extremo bem querer pelo sujeito, que eu não via há mais de três meses.
Gosto dele. Temos bom companheirismo. Mas não é namoro nem coisa parecida e não quero mesmo que pareça, porque eu gosto (apesar de gostar pouco, eu sei) do poeta. Não foi por fidelidade ou por pactos similares que eu me desliguei de todos os outros: foi por mim. Eram apêndices, inúteis emocionalmente...
Depois do sonho com o meu marido de outra encarnação, acordei pior ainda no tocante a fazer a varredura desses resíduos de relacionamentos.
Mas o cara a quem me refiro, eu gosto. Gosto, tenho cuidado, carinho, um tipo de amor especial,  que os homens odeiam, que é amor de amigo, amor de irmão.
Não queria nunca ele longe de mim. Mas ele não aceita o fim e não aceita ser relocado em áreas, para ele, subalternas. Às vezes acho que é o velho sentimento de castração, por se saber desejado mas não de forma sexual.
Para mim, todo bom sentimento é válido.
Já fui mais revoltada e rebelde, mas hoje em dia eu, sinceramente, não quero causar mal-estar, mágoas, desconfortos. Mas não gosto de ver minha liberdade ameaçada...
Amo minha solidão: estar em casa sozinha, sair quando quero, não temer olhares, fofocas, mal-entendidos...
Só namoro quem me pede em namoro. Se isso não ocorrer, não assumo relacionamento nenhum. E qualquer um de nós dois poderá alegar sem ofensas que não tem nada um com o outro. Namoro só é namoro quando se formaliza. Ponto final.
Bem, a vida, neste ínterim, vai um caos. No resto, nem sei como, mas tenho dado conta do trabalho e das leituras profissionais, assim como as da vida espírita. Graças a Deus!
Também me resolvi direitinho com sentimentos por Vinícius (sim, já passou), com rolos besta com F., com essas pendências idiotas que nunca me levaram a nada. Faxina de relacionamentos mesmo.
Tenho visto, com alguma tristeza, porém, o pouco caso que os homens fazem das mulheres, talvez por acharem que quantitativamente somos muitas: ao invés de valorizar as bonitas, inteligentes, independentes, companheiras, criativas e sexualmente dispostas, preferem o velho rodízio que lhes garanta a diversidade, de modo a espantar o tédio e o compromisso. Mas não posso criticar tanto, porque no fundo eu não tenho estabilidade a oferecer; eu sou uma pessoa desconfiada, do tipo que acha que o preço da liberdade é a atenção contínua. Então, melhor todo mundo ser livre a ter que ser hipócrita.
Também decidi que nunca mais vou insistir em palavras com quem me deixa no vácuo. Ora, se não me responde, não quer falar comigo; se não me procura, não quer me ver. E se há uma lição que aprendi e repasso, rezando para o cara de quem falo um dia pensar assim também, é que quem não nos corresponde não tem culpa por isso.
Eu condeno, sim, o jogo besta; as esperas, isso de você alimentar coisas, contatos e fantasias e nunca realizar; marcar e não aparecer...Eu também fiz isso, em certo grau, mas me arrependi e vi que mantive a ideia para não magoar o sujeito. Mas não pratico nem alimento mais isso. Cada um com sua realidade e comigo, todos na real.

sábado, 2 de julho de 2016

Sob o leite derramado


Uma pergunta que a gente deveria se fazer sempre que detectasse estar enrolado numa situação ruim, seja ela um trabalho, um relacionamento, um posicionamento na família ou algo do gênero, era "afinal, o que ganho com isso?", ou seja, "qual é o meu ganho secundário?".Esse é um grande recurso para dissolver ilusões.
Não vale a pena mentir para si mesmo.
Por que reclamo de meu namorado e continuo com ele? Por que reclamo do meu emprego e continuo nele? Por que reclamo da forma como sou tratada em família, e acato os disparates que ouço?Qual substância alimenta meus relacionamento deletério, ruins, impróprios ao meu bem-estar?
Dessas perguntas, virão as respostas mentirosas, porque gostamos de nos iludir. Então as respostas serão coisas que justificam a autoflagelação, como: "eu preciso", "eu tenho necessidade material", "melhor do que estar sozinha", "eu não sei viver sem esse alguém ou sem essa coisa", "sempre foi assim", "não posso fazer nada", "todos são iguais" e daí por diante a elaboração vai variar conforme o gosto do freguês e a vontade de esconder de si mesmo qual é o seu ganho secundário,
Ganho secundário é terrível: ele arranca nossas vestes de mártires e coitadinhos e mostra que se a gente se submete a certas coisas, é porque temos algum interesse sendo saciado ali.
Mostra que se você reclama de seu companheiro ou companheira, mas não o/a larga, alguma vantagem você está levando. Pode ser vantagem sexual, vantagem social, para mostrar aos outros que não está sozinho/a; vantagem material também e isso se estende a vários tipos de ganhos não declarados.
É, parece sonegação.
Esconder dos outros, vá lá, é normal.
Esconder de si, ajuda a alimentar a dependência.
Gente, se tem uma coisa que separa pessoas é a distância cultural ou incompatibilidade intelectual. Não dá. Não tem acordo nem tem conversa. Aliás, conversa é o que não poderá ter mesmo. Como?
Já vivi isso. Não tem jeito: sou professora, acho que fico avaliando até involuntariamente. Acontece...
Normal um conhecer coisas que o outro não conhece; um gostar de coisas que destoam do outro...Normal. Mas chega a um ponto em que nada se faz em sintonia e aí não dá.
Hoje eu estava falando com uma amiga sobre um caso que eu tive.
Mas vamos pegar do específico para o genérico: num exemplo, eu arrastei um relacionamento doentio porque via no cara um esteio. Era de minha confiança, caso a casa caísse, porque não considero minha família confiável. Então, tínhamos um pacto, com senhas e procurações válidos até hoje.
Eu odeio álcool, mas ele se tornou dependente. Éramos compatíveis no começo do namoro, mas fomos nos distanciando a tal ponto que ele ficou no sertanejo e eu segui no rock; ele ficou na vida militar e eu acabei meu doutorado...E de fator em fator nos separamos.
Passemos a uns casos genérico: quem quer companhia vai ter que apostar na sorte. Gente boa não está no Tinder, não está fácil e não está de graça...Mas para quem não liga para compatibilidades, vai encontrar lá de tudo.
Conversando, ainda, com essa amiga, notamos os perfis que nos aparecem nesses tempos de tão poucos heterossexuais: os homens não fazem nada pela mulher, sexualmente falando. Tratam a gente como serviçal, querem ganhar mesmo agrados e receber sexo oral, chamarem e serem atendidos, bem tratados, com pouca ou nenhuma despesa para o encontro, e não dar nada em troca. O preço, nesse caso, poderia gerar um ganho secundário, do tipo: satisfação sexual para a mulher; acolhimento, sentimento de segurança, seja sexual, seja afetiva...Olha, é aquela questão do bem tratar: às vezes, um bombom, uma rosa, um gesto de carinho, uma plantinha, um livro, algo que um homem possa dizer: "trouxe essas balas porque passei na padaria e me lembrei de você e achei que você ia gostar"...Esses pequenos gestos que dizem: "eu agradeço pelo que você me dá, eu tenho carinho e respeito por você"...esses pequenos gestos, nós não vemos.
Essa relação tensa de egoísmo extremo gera uma multidão de gente carente e infeliz e de mulheres descrentes de relacionamentos.
Hoje em dia, então, que a mulher pega o próprio carro, vai ao encontro do homem, aprendeu técnicas e coisas do amor e do sexo para agradar ao parceiro (como eu sempre digo, mulher compra lingerie, aprende dança do ventre, lê sobre assuntos do sexo, conversa com as amigas, busca mudar, aperfeiçoar para agradar ao homem), tem postura independente, tem educação e respeito à privacidade do cara, se dispõe a experimentar sexualmente as coisas que as bases da educação repressora solidificaram nas gerações precedentes e na nossa formação, depois de tudo isso, ainda os homens se portam como se estivessem fazendo um favor ao ficarem com tal mulher.
Já aconteceu coisa similar comigo e com muitas amigas. Virou algo geral, mesmo. E o que acontece? sem reciprocidade e sem ganho secundário, corajosamente a maioria de nós opta por estar só.
Há coisas que só os homens podem nos dar, mas não darão. Aí a gente recorre ao vibrador e outros artifícios, porque dão o mesmo que eles nos dão, por um custo menor e sem perdas secundárias também. Você comprou, é seu. Usa quando quiser. Desde que saiba manusear, o resultado é garantido.
Gosto de homens, gosto do homem com que estou, mas se os ganhos vão diminuindo ou desaparecendo, perde-se o interesse, o sabor se esvai, acaba a doçura do chiclete...E aí? acabou-se o que era doce, acabou-se a relação, as razões para mantê-la. Alguns vão chorar o leite derramado.
Coragem também é isso: se desfazer daquilo que gera a falsa sensação de saciedade, completude, satisfação...Um bom termômetro é ficar longe do outro. Se"o que essa ausência tua me causou" for alívio e descanso, pode jogar fora a relação e assinar o bilhetinho azul do fim; se a ausência trouxe saudades, parabéns: ainda tem remédio - se vai curar, não se sabe. Mas vale a pena tentar fazer viver.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Os visitantes


Não tenho invocações bestas com sonhos. Quando o sonho tem algum significado extra, a pessoa sempre sabe.
Também não sou afeita a cartomantes, especialmente porque quando o dom é verdadeiro, elas não podem cobrar. Trocando em miúdos: isso é mediunidade. Ateu pode ter, espírita, crente, agnóstico, budista, tanto faz...só muda que os mais radicais vão atribuir a vidência ao Capeta, outros à parapsicologia e uns tantos irão formular respostas que transitam do sagrado ao mental.
Nesta noite passada, veio até mim, em sonho claramente mediúnico, um senhor de aparentes 56 anos. Lembrei que diante de um espírito preciso ter clareza e não medo. Daí perguntei quem ele era. Ele disse ter sido meu marido. Eu quis confirmar se de fato, foi na encarnação anterior, coisas assim (ora, pois, eu tinha sido mulher...pasmei!) e perguntei em que eu poderia ajudar.
Ele disse que a gente se conheceu no trabalho, que a gente se casou e que o que eu passava hoje em dia era culpa dele.
Deixei bem claro que não lembrava de nada disso e disse que fosse o que fosse, eu o perdoava, que ele seguisse em frente, pois eu, de fato, estava cuidando da minha vida e que aceitava os percalços de que estou imbuída de formas, poderes para resolver.
Nossa! esse sonho se desenrolou numa tensão absurda, com outros desdobramentos, dos quais o suposto pai de santo me negando uma psicografia; e um pequeno, mais para anão do que para criança, a me dizer para eu não ter medo de crianças. Foram duas horas e meia de sonho em semiconsciência e eu acordei sem a menor energia, mas entendi que ele, o marido de outrora, queria e precisava ficar em paz, precisava da comunicação. Pronto! Em nome de Jesus, realmente, perdoei.
Bem dizem que quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Sim, apesar do medo, eu estava relativamente pronta para o contato.
Dormi de luz acesa, porque sou humana e nunca vivi algo nesta intensidade, com todos os S, R, e protocolos da situação. Entendi que cada encarnação é apenas um capítulo no livro que é a vida. Quero me sentir em paz e que quem me rodeia, morto ou vivo, tenha paz também.
Dá medo, é esquisito, desafia minha cabeça, mas foi por isso que passei a estudar e a ir ao centro espírita.
Não ignoro a sapiência de Shakespeare: "Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia". Ao que, complementa Caetano Veloso: "Vida: doce mistério!"

domingo, 26 de junho de 2016

"É segredo, é sagrado"


Há uma razão simples para que todo mundo tenha segredo: o senso de autopreservação, seja ele moral, psíquico ou da individualidade.
Se não é caso de preservação é da reserva mesmo, porque todos nós temos o direito de escolher quais de nossas experiências precisam, podem ou devem ser compartilhadas.
Somente hoje me dei conta da ocultação de um segredo meu frente a um grande amigo. Ora, dois outros amigos meus, igualmente grandes e confidentes, estavam comigo na ocasião geradora do segredo. Meus amigos também têm segredos, porque todo mundo tem mesmo.
Um, quando começou um namoro com um aluno, ocultou de mim. Não fossem as bandeiras, próprias aos apaixonados, eu nunca ficaria sabendo por declaração dele que, aliás, só veio a declarar em 2014/15, quando já havia acabado o romance.
Meu amigo da citada questão, o que compactuou comigo, ocultou de mim o fim do relacionamento dele, com um cara que eu adoro. Ah, sim, falando nos meus amigos, é isso mesmo: todo mundo gay. As exceções não passam de quatro.
Então, todo mundo tem segredo mesmo. Não significa que a gente matou alguém, roubou, fez misérias...Segredo é segredo. Hoje eu pedi ao amigo para levar para o túmulo o meu segredo. Sei que assim será.
Vou fazer uma advertência aqui: se você tem segredos e precisa do silêncio alheio, não o divida com ninguém, não escreva, não deixe pista. No máximo, confie a um analista. Nem padre, nem pastor, nem amigos.
Amigo confidente, somente aquele que vive de boca calada. Se a pessoa já e contou segredos de outrem, ela passará o seu adiante também.
E mais: se for amiga, a chance de ela vir a se tornar ex-amiga é muito grande, quando há alguns indícios. Isso indica que não se deve compartilhar segredos com tal pessoa. Desabafe com Jesus, ore, ou coloque uma cadeira vazia à sua frente e simule um interlocutor e conte tudo a esse ser inexistente e imaginário, mas não conte a ninguém. São indícios de que você poderá se dar mal:
a)    Amizade que teve idas e vindas, desavenças e reconciliações muito recorrentes;
b)    Compartilhamento de segredos alheios com você;
c)    Ocultação, dissimulação ou mentira sobre dados que essa pessoa tenha vindo a cometer e que você percebeu;
d)    Instabilidade emocional ou psíquica por parte do amigo ou amiga;
e)    Recorrência de situações de conflito, em que o amigo ou amiga usa fatos de sua vida para lhe subestimar, magoar, diminuir;
f)     Julgamento constante de seus atos e pouca indulgência;
g)    Imposição do próprio ponto de vista do amigo ou amiga, como sendo o certo, o modelo, o exemplo;
h)   Hipocrisia visível ou perceptível;
i)     Competitividade com você, seja ela explícita ou disfarçada, pois, neste caso, seus segredos serão usados para proveito próprio do amigo ou amiga, para se sobrepor ou parecer superior.

Lembre-se que nem a gente da família se deve confiar segredos de certo teor e importância. Entretanto, os segredos da família devem permanecer na família.
Tenho pessoas de confiança. Pessoas que têm minhas senhas, acesso à minha casa, aos meus outros segredos e sempre as terei, porque essas formam um time.
Guardo um segredo de uma amiga muito especial, que é trágico e lindo. É a encarnação real da história de Hamlet. Adoraria compartilhar, devido ao conteúdo fantástico. Não o faço. Prometi. Essa mesma amiga me confiou um segredo de vida íntima. Não conto. Ela sabe. Nunca contaria.
Meu orientador de mestrado, até dois meses atrás, não sabia do parentesco de um colega de trabalho dele, com um outro professor poeta sobre o qual eu escrevi. Nenhum dos dois sabiam o segredo que sei sobre um suicídio de um dos parentes dele. Nem era segredo. Mas preferi calar. Só falei agora, dez anos depois, para esclarecer umas coisas.
Não tenho segredo por eu ser a pior pessoa do mundo.
Na minha dissertação, não agradeci a Deus na página de agradecimentos: era a Deus que eu queria agradecer, não exibir socialmente gratidões. Isso seria feio. Mas uma idiota desconhecida, da plateia, reclamou de minha postura. Tenho segredos de meu contato com Deus, porque é coisa minha e dele.
Há coisas lindas que escondo, para não parecer exibida, Não vou, contar vantagens, felicidades que podem incomodar, coisas que parecerão megalomania...Conto, claro, coisas de  amor que me surpreendem, espantos de narrativas amorosas... E neste ponto, estou tranquila. Gosto do meu fofinho, gosto do que se constrói.
Até minha atividade profissional eu não atualizo no Lattes: nem sempre precisam saber em que temos trabalhado, Há momentos em que certas informações não cabem.

Estando, pois, felizes, dá vontade de colocar o outdoor e contar tudo, mas a felicidade silenciosa dura mais e sabe qual é o segredo? Ter segredos.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Tecnologias dispersivas


Chamo de tecnologias dispersivas a todos os aparelhos e recursos que cooptam nossa atenção, levando a que declinemos de obrigações, metas e compromissos, a fim de nos dedicarmos a eles.
Lógico, especialmente o Facebook, o What´s app e a Netflix – em que caiba acrescentar todas as nossas fugas pela internet e no smartphone.
Não é possível estudar ou concluir (quiçá começar) um texto dividindo a atenção com as tecnologias dispersivas.
Elas são feitas para dispersar nossa atenção, porque as notificações, as mensagens e os conteúdos se sobrepõem uns aos outros, chegam aos bandos e, no caso das séries, escravizam pela ansiedade do próximo episódio, do desfecho de coisas até mesmo já vistas.
Interessante é ver tudo isso e assistir ao crescente emprego da Ritalina entre as pessoas. Como se pode ter atenção e foco se fomos e somos estimulados a zapear em tudo?
Dose. Quem sabe estabelecer a dose, não se embriaga. Eis uma saída.
Em minha vida não há nenhuma perspectiva de grandes surpresas, coisas inadiáveis ou recados que vão mudar os rumos de meu destino. Desta forma, se não acho que as mensagens que virão, por qualquer meio, sejam elementos transformadores, posso determinar ver depois ou que horas ver/ler.
Isso ajuda a controlar à ansiedade. E também ajudam a focalizar o que realmente é importante para mim, entre a tecnologia dispersiva e o que quer que seja.
Fico dias sem Facebook, mas não fico sem consultar meu e-mail.
Gosto de sumir, também.
Há capítulos da minha vida que eu não discuto em lugar algum, há fotos que eu nunca publico, lugares a que fui e que não divulgo, gente e trabalhos que fiz e faço e que omito de todos...Isso me diz que tenho controle sobre aquilo que quero que apareça.
Isso também me diz o que esperar dos outros e que eu não devo perder tempo com a vida de gente que não me interessa, pois aí, sim, estarei dispersando minha atenção, voltando-a a eventos fúteis.
Diferente disso tudo é o uso lúdico e útil dos recursos tecnológicos: se eu estiver com sono, abro o Facebook e o sono passa, para eu voltar à atividade; se a leitura me enche, vou ao Facebook espairecer com bobagens, uso o videogame, faço algo assim e o mesmo se aplica a todo o resto.
Mas também me disperso. A vigilância ao fato é que me faz retroagir, me policiar e me corrigir.
Da mesma forma que eu não faço questão de joias, não faço questão de tecnologia de ponta: quero um telefone que me permita telefonar, que tenha recursos úteis e que dure. Pronto. Juro que não estou nem aí para o S11, se houvesse, ou para os modelos milionários. Na minha vida real, não me acrescentam nada, exceto parcelas a pagar.
Não tenho e não terei microondas. Para quê? Inútil em meu caso.
Decerto, não tenho condições de ter um carrão, mas não quero um que seja um problema pagar o IPVA, o seguro, as peças, a manutenção...E que me torne alvo preferido de ladrão. Como não posso, procuro a opção possível que atenda minhas necessidades.
Não sei viver sem telefone fixo. Acho uma pobreza absoluta, acho que é estar abaixo da linha senão da miséria, da avareza, você não ter: é que celular não serve para tudo, não tem créditos sempre e traz uma série de limitações que, na hora do vamos ver, deixam você na mão.
Ainda falando de tecnologia e inutilidades práticas, vi umas fotos de amigas minhas, cuja imagem estava perfeita demais. Outras dessas imagens, estavam bem artificiais: a moça ficou parecendo um palhacinho plastificado; em outra foto, estava uma bonequinha...E estranhei  que no Facebook, de repente, todas estivessem maquiadas do mesmo modo. Ninguém confessa a tecnologia.
Por acaso, mexendo no smartphone, vi e baixei o IsntaBeauty: este foi o segredo da duvidosa beleza do povo do Facebook.
Experimentei: uma tragédia. O recurso é bom, sim, é um photoshop poderoso e setorizado...Mas os resultados são bem artificiais.
Bem, este texto também é uma forma de dispersão, porque acabei há pouco o meu trabalho, que me cobra muita atenção...E quis espairecer, porque vou precisar criar um texto científico daqui a pouco, para um evento.
Aos que se interessam pela minha semana, eis o boletim: mandei o crush de Seabra se catar; mandei o ex-Grande Amor da Minha Vida se emendar, não quero mais flertes bestas (ele já fez a escolha dele e eu não gosto mesmo dele...então, vamos deixar de complicação). Isso também é uma forma de dispersão: pulverizar a atenção afetiva e libidinal entre os flertes, para não se dar a ninguém, em especial. Cancelei o flerte com Vinícius e quem ainda não recebeu meu bilhete azul foi por conta de eu respeitar o momento das pessoas ou estar mesmo com pena. E o resto é pura poesia no corpo, nestas noites frias do sertão em quem habito – como não sou hipócrita, ratifico: “quando bate, fica”. Ficou. Não tenho vergonha de gostar de sexo...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Amor "aOmar" , parte I (trilha sonora do amor que dormiu)


Todo amor
Todo amor dorme
Numa caixa, numa gaveta, numa sala escura
Que às vezes visito
Como hoje num sonho
Como deneuve entre os pombos
A abençoar seus queridos
E o tempo, senhor dos enganos
Apaga os momentos sofridos
E aqui te traz vez por outra
A passar umas horas comigo
Ficamos nós dois entre sonhos
De amores novos e antigos
Te beijo no escuro silêncio da sala
Que às vezes visito
O amor dorme - música dos Paralamas do Sucesso)