Louquética

Incontinência verbal

domingo, 9 de janeiro de 2022

Reeducação de financeira não é mágica

 


Vamos falar desse calo moral pessoal que é a Economia.

Você não precisa entender Teoria Econômica, nem saber sobre indexadores, nem sobre mais nada: economia, a gente ‘nasce sabendo’.

Podemos nos confundir com preço e com valor, com capital e com dinheiro, mas desde cedo a gente sabe o que é comprar e tem uma vaga ideia do que seja gasto, pagamento e dinheiro.

Saindo dessas abstrações de infância, vamos lá: desde que você possua alguma renda, mesmo que flutuante (ou seja, sem recebimentos fixos de um salário, um provento qualquer), ao colocar a mão em dinheiro é necessário ter o domínio sobre ele.

Difícil fazer as despesas caberem no dinheiro que se tem? Dificuldade que todo mundo tem.

Um grande amigo meu, que ganha bem, estava se queixando dolorosamente, isto é, sofrendo de verdade, por ter prestações de um empréstimo consignado, no valor de R$ 2.300,00 mensais, a serem pagos em 60 meses!

Se o empréstimo foi algo emergencial, imprescindível, necessário, não importa. Antes de contrair o empréstimo, deve-se avaliar o impacto financeiro da prestação. Este, entretanto, é um calabouço, porque a pessoa que divide tudo em prestações minúsculas e parcela no cartão, se afunda sem sentir, iludida pelo baixo impacto da prestação irrelevante. Mas, voltando ao meu amigo: propus a ele que se fosse conveniente quitar antecipadamente a dívida, ele deveria parar onde está. O exemplo que eu dou serve para qualquer ser humano atolado em dívidas – exceto com agiota, que aí, nem sua vida lhe pertence mais e essa, sim, é uma operação financeira de alto risco. Vamos lá: para parar o circuito do endividamento, primeiramente é necessário ter uma ideia sobre os gastos fixos.

A seguir, observar os gastos paralelos - que passam a não ter prioridade.

Os supérfluos todos precisam ser eliminados.

As coisas, os preços, aumentam mais que os seus ganhos. Logo, se você gasta 500 reais no supermercado mensalmente; no mês seguinte, com a inflação real, vai gastar de 550 a 600 para os mesmos itens. Portanto, não faça a loucura de substituir produtos: se você confia numa marca, sabe da qualidade e da rentabilidade da mercadoria, compre menos, compre um volume menor, mas saiba que de nada adianta usar um sabão em pó barato e que não lava; nem a comida barata que é sem sabor...isso vai levar não somente à insatisfação, como também a um gasto de mais produto ruim a fim de que ele dê o resultado do bom produto. Portanto, a Economia pode ir por aí.

Você tem carro? Ótimo! Você precisa mesmo usar seu carro para se deslocar por um quilômetro ou dois? Pense em desgaste de peças, estacionamento e trânsito e, se puder, vá a pé.

Não corte seu lazer. É tipo dieta: não precisa cortar, eliminar alimentos, basta diminuir a porção.

Há outros cuidados com a vida que podem ser adaptados, dosados. Cada um pense em suas respectivas realidades – isso inclui a parte fixa, tipo contas da casa.

O que sobrar, seja um real ou um milhão, deverá ser deixado sob reserva. Não precisa ser tudo: no primeiro mês, guarde aquilo que uma vez reservado não será sacado de modo algum. Pode não ser o melhor investimento, mas a poupança inicialmente ajuda muito. Depositou lá, esqueça!

Nos meses seguintes, force a barra e aumente o valor do depósito, seja quanto for.

Se lhe sobrar tempo, faça hora extra, serviço extra, seja o que for também. Inclusive, seu dinheiro de férias deve ser depositado, em pelo menos setenta e cinco por cento do valor líquido, em suas reservas.

A ideia é gastar menos e guardar mais, a longo prazo.

Não tire os prazeres de sua vida, mas tenha responsabilidade com seus ganhos e com seus gastos.

Vamos à outra parte da conversa com meu amigo, que também serve para qualquer um: depois de muita planilha com a vida, cálculos inclusive com os aumentos de salário que virão, caso ele realmente antecipe o pagamento do empréstimo, quitando tudo, dei aquele banho de água fria nele. Propus: se você pode pagar, ainda que sofrendo, uma prestação de R$ 2.300,00, agora você vai guardar R$ 1500,00 todo mês, no mínimo, por 36 meses. Aqui abriu-se o precedente para investir em ações mesmo, em lances pequenos. Meu amigo entendeu, mas ficou irado comigo, achando que não iria conseguir, que eu propunha um absurdo.

Conclusão: é preciso que cada um de nós tenha compromisso financeiro consigo mesmo. Se você paga uma instituição bancária, aprenda a pagar a si mesmo, guardando. No caso de meu amigo, a meta é ter o suficiente para dar entrada numa casa própria. Vejam bem: a pessoa se compromete por cinco anos com um banco, mas não se compromete consigo mesmo em guardar...

É treinamento, condicionamento, a recuperação financeira e a poupança. Ninguém reclama de existir reeducação alimentar, mas berra contra reeducação financeira.

Deixe seu dinheiro ganhar musculatura, não se meta em altos riscos; não gaste tudo o que tem e veja a diferença: ao incorporar o hábito de poupar, a gente fica mais seguro e mais tranquilo. Fica a dica!


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O tempo e o anteontem

 


Algumas pessoas têm pautado suas percepções de tempo em função da pandemia. Desta forma, não há um ano novo, um tempo diferente porque estamos mudando os dias no calendário sem, efetivamente, voltarmos à vida de sempre, à vida normal.

Faz muito tempo que a gente experimenta coisas assim, tipo quando nos sentimos na rotina com um relacionamento longo; ou quando enjoamos do trabalho, das repetições do cotidiano, das mesmices. Particularmente, já defendi e defendo de novo, a ideia de que o “Cotidiano” (música de Chico Buarque) reporta mais ao quanto a gente se sente seguro com a rotina do que, necessariamente, concebe a rotina como chatice. Mas, é claro que a gente não aguentaria um caminho reto o tempo inteiro, mesmo reclamando dos perigos das curvas, de aclives e declives que a estrada da vida precisa ter.

Eu me irmano totalmente com quem acha que estamos, neste momento, nesta data (04/01/2022) vivendo a Terceira Temporada, episódios iniciais, de 2020. O cronograma subjetivo parou logo após os dois primeiros meses de 2020 e, sendo bastante sincera, desde 31/12/2019 eu acho que sequer o tempo passou. Mundialmente foram muitas as tragédias. Isso as coletivas! As individuais não caberiam aqui.

Não durmo como antigamente, não me comporto socialmente como antigamente, não me desloco pela cidade como antigamente e esse antigamente significa: há dois anos.

As coisas boas que aconteceram ficaram tal como escreveu Clarice Lispector no conto sobre a Senhora Raposo, “mudos fogos de artifício”. Não dá para estar bem em um mundo que não está bem.

Pior seria sem vacinação, mas mesmo com a erradicação do vírus, eu digo que precisaríamos de uma ressocialização – para todo mundo: sãos, imunes, ex-contaminados, negacionistas, terraplanistas, delirantes, extremistas, crentes, ateus, agnósticos, todo mundo mesmo, do melhor aos pior indivíduo do planeta, porque teremos que repensar a forma de viver coletivamente, reaprender a relação com o outro e com o planeta – vi amigos meus que moravam sozinhos, em outro Estado, passarem a viver novamente em família, fazendo o percurso oposto ao da maioria, após anos de distanciamento familiar (ele morava em Pernambuco, a esposa e os filhos pequenos moravam aqui em Feira de Santana, na Bahia), passando a morar juntos, num caos em que as individualidades se chocam; a privacidade passa a ser questionável e o amor pautado pela saudade vem a enfrentar o desgaste da permanência das presenças.

Vi a relação com animais domésticos começar ou melhorar; vi gente se aproximando e se afastando; vi a vida sexual dos amigos (e a minha própria) mudar; vi o comportamento religioso mudar e também vi o desconforto de quem alegava falta de tempo para qualquer coisa, agora com tempo de sobra, se perder em anacronismos e ambivalências.

Para mim, foi um alívio o pretexto do distanciamento, para a esfera familiar. Confesso que não gosto de família exceto como visita esporádica, com data e hora para ir embora. No mais, cumpro rituais e invento mil desculpas para ficar sozinha, sem fazer nem receber visitas.

Saí poucas vezes a lazer. Não me sinto tranquila, não obstante a pandemia, porque não vejo gente alegre: vejo irresponsáveis, gente mal-educada ou depressivos querendo forçar a normalidade que não temos. O que eu quero dizer é que não há naturalidade, nem espontaneidade naqueles risos, naquelas festas, naquele cinema – e isso independe de protocolos sanitários.

A gente se deixa afetar porque o entorno social implica muito em nosso bem-estar, em nossa identidade, nas subjetividades – nas formas de amar, desejar, querer, ser, sentir, etc. E como não vi graça em sair no réveillon, não sairia de forma alguma, todavia cogito ir à praia num quinta-feira, fora dos dias de aglomeração presumível, para, pelo menos, me reconciliar com um lazer de que gosto: água e sol. Sei que vai demorar para minha paisagem interior mudar, sair do clima atual que nem é tão atual: como uma página de anteontem no livro da minha vida ou nos calendários de fim de mundo. Talvez eu viva, agora, o paradoxo da Legião Urbana: "Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou, mas tenho um outro tempo" e igualmente, "Não temos tempo a perder" e mesmo com todos esses versos, a música se chama Tempo perdido.

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Aquela breve visita

 


Não tenho frescuras existenciais de autoria. Logo, não escrevo melhor, nem escrevo mais quando atravesso processos de dor. Em contrapartida, se deixo de escrever é por falta de tempo mesmo.

Já escrevi de forma corrida, claro, mas era alguma ideia previamente amadurecida ou urgente demais. Mas, enfim, hoje vim escrever por estar feliz. A melhor felicidade que se pode ter: aquela que é gratuita, sem motivo aparente, que não se deve ao que se ganhou ou a nenhum tipo de compensação objetiva. Abraço a visita da felicidade, deixo que ela sente em minha sala e desejo que ela durma comigo – se ela veio, sabe do meu cansaço, do tempo em que levei a vida por demais a sério e, devo dizer, tive três semanas de trabalho intensivo; precisei pôr os pés em Salvador, após 23 meses sem ir lá; o que significou um estado de tensão, enfrentar a BR 324, dirigindo sob as condições já esperada, sozinha, no fim da madrugada. E assim o fiz, por duas vezes. Missão cumprida.

Encerrei minhas aulas e minhas cadernetas há pouco e finalmente acabou o semestre. Hora de arrumar a casa, poder ler um livro gratuitamente, no sentido de ler pelo lazer e pelo prazer.

Termino esse ano sem namorado. Tentamos e não deu: meu Rei de Espadas era muito infantil (a ponto de esconder a idade, quando não havia como ocultar seus cinquenta e tantos anos presumíveis pela cara e pelo currículo). Foi muito bom estar com ele, mas a estabilidade durou pouco. Ele precisava de uma mãe, tinha um Édipo ali que me cobrava coisas que eu não devia. Por um tempo, as neuroses dele eram amparadas pelos meus desejos, porque funcionavam, para mim, como um ganho secundário. Nossas conversas eram boas, nossas trocas eram boas...até que as trocas começaram a resultar em prejuízos, porque eu dava bem mais do que recebia...e um dia, vi a inadimplência afetiva e, então, terminei.

Terminei e nem acreditei que terminei porque, se tem algo que me surpreendeu em mim, em 2021, foi minha capacidade de encerrar, fechar portas, terminar e dizer ‘não’. E foi um terminar tão contundente, que deixei na casa do Rei de Espadas um livro imenso, importante, amado e caro e jamais voltaria atrás do livro, para não gerar qualquer pretexto de contato com a Majestade.

Excepcionalmente, desfiz minhas inscrições nos canais dele no youtube; desfiz a amizade no Facebook; bloqueei no whatsApp e se virtualmente a gente se esbarra mudamente, é por conta de um grupo de discussões políticas. Nunca fiz isso na vida. Nunca cortei ninguém assim. Contudo, dali não poderia sobrevir amizades, nem se reconstituir o contato, porque nosso contexto de término foi de extremo desrespeito dele por mim.

Até tal momento, eu não sabia qual era o meu limite. Sempre me achei emocionalmente frágil, parcimoniosa, aberta à negociação...Mas, quando me vi desrespeitada, concluí que nenhuma palavra promoveria a reparação moral a que eu faria jus; e instantaneamente, como num trauma imediato ou algo assim, houve um corte profundo em meus sentimentos. Foi um acabar sem lágrimas, embora não sem sofrimentos. Até que passou rápido, porque a elaboração e o processo de um luto é looping de altos e baixos constantes...mas, passou.

E, cito novamente, outro encerramento igualmente maravilhoso foi sair da Revista Científica onde Yves me explorava num serviço não-remunerado, em troca de supostos títulos acadêmicos que nunca viera. Trabalho de normatização e normalização (colocar a revista nas normas da ABNT), revisão ortográfica e textual; e emissão de eventuais pareceres. Tenho um currículo robusto, mas nossas atuações perdem validade nos baremas de universidades após transcorridos cinco anos. Então, isso explica certas escolhas. Na vida real, meu nome não é o que aparece no blog. Sou Mara, mas tenho um nome completo de que o Google e o Lattes se encarrega de mostrar ocorrências. Acho que aqui é um espaço gostoso por causa do relativo anonimato, porque quem vem cá, vem voluntariamente e minha censura interior é menor por isso. Eu seria uma Youtuber fracassada, porque não vejo graça em convocar seguidores. Aliás, falar para desconhecidos é até mais confortável, porque o tipo de julgamento é outro.

Bem, vou aproveitar o dia feliz, porque a felicidade é andarilha, passa rápido por onde anda – preciso recebe-la bem, porque desejo que ela volte sempre.

 


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

O que há de novo no ano que vem?

 


A vida nunca foi fácil e, desde sempre, enquanto seres humanos, tivemos problemas com o tempo. O tempo problemático e impreciso da duração de nossas vidas (Lembram de Fagner cantando Canteiros, com inserção do verso de Cecília Meireles: “E deixemos de coisa, e cuidemos da vida, pois se não chega a morte ou coisa parecida; e nos arrasta moço, sem ter visto a vida”?); o tempo enquanto o futuro, que desconhecemos completamente e apelamos a oráculos que, pelo menos nos sinalizem de modo genérico o que vem pela frente; apelamos às causa e efeitos, escolhendo a semente que plantamos, temendo a colheita e, pobres de nós, semeadores! Não sabemos se haverá temporal, seca ou pragas de gafanhotos; não sabemos se a semente vai vingar... Esses somos nós! E quando dominamos o tempo, vivendo, vivendo e sobrevivemos, ficamos tristes porque estamos velhos – e estar velho é o sintoma de muito viver.

Queremos também, que o tempo passe e as coisas se renovem. Fazemos rituais de passagem. A passagem temporal de 2020 para 2021 se fez acompanhar de um elemento novo e relativamente desconhecido, que foi a pandemia de COVID-19, que forçou a gente a questionar em todos os níveis, camadas, formatos e configurações, o tempo e a vida.

Eis que 2022 está logo ali. Não nos iludamos: no virar dos calendários, a vida seguirá sendo o que é, apenas agravada pela inflação e consequente miséria. Estaremos, talvez, vivos, se formos prudentes.

Em 2016, quando firmei minha relação com o Poeta, brinquei meu último carnaval, com a certeza de que ali acabava a festa para mim; que meu gosto mudou e minha procura também; que carnaval melhor que estar em paz com quem eu gosto ou curtindo outros prazeres é bem mais relevante que a festa. Brinquei muitos carnavais. O último foi maravilhoso, o melhor da década. O Carnaval ganhou outro sentido para mim, porque a ideia sempre foi me divertir com meus amigos, beijar gente, curtir praia e piscina, quebrar a rigidez da rotina bastante reta que eu tinha...

Na virada de 2020 para 2021, já era uma decisão minha não passar o réveillon na Praia do Forte, nem procurar badalações fora de casa. Eu já tinha isso em mente antes e a pandemia só precipitou as coisas.

Fácil dizer isso hoje, com tantos réveillons badalados no currículo. Mas, a verdade é que é muito esforço para pouco lucro: estradas cheias, praias cheias, restaurantes cheios e tudo caro; festas caras e nada divertidas – quando há festas, todas no mesmo padrão, com as chatices do axé baiano, alguma pérola do funk  e os desagradáveis chororôs sertanejo (universitário, pós-graduado ou analfabeto). Gosto muito da viagem posterior, as que acontecem depois do dia 02/01...aí, sim: liquidação e possibilidades de sol, hospedagens baratas, muitas rotas boas para seguir.

Dia primeiro de janeiro, as estradas estão cheias, as ruas estão vazias e fica difícil comprar comida...é a cara da ressaca!

Quero estar sozinha, em casa, no meu réveillon. Isso não precisa ser triste. Ano passado, chamei uma amiga para cá: péssima decisão. Ela chegou com sono, me fez sair para a farmácia 20 h e às 21h30, após comer sonolentamente a ceia especial e farta que fiz, dormiu e impediu que eu fizesse a festa, já com tudo arrumado e instalado no deck de minha casa – era uma festa para 03 pessoas, mas era uma festa.

Neste ano, a festa há de ser para dois. E não mais!

E para a manhã de primeiro de janeiro, vou ouvir o que ouço com alguma frequência: o U2, cantando New year's day



 

 


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Ajuda duvidosa

 


É com muito esforço psicológico que declaro o quanto me sinto idiota por ter trabalhado de graça para um amigo explorador. Explico e espero que a explicação possa servir de alerta a muitas pessoas que, eventualmente, coloquem os pés em coisas análogas.

No ofício de professora, dada à circularidade entre departamento, campus e situações peculiares ao exercício do magistério, constituímos grupos. São grupo com gente oriunda de toda parte (outras cidades, outros departamentos, outros colegiados de uma mesma universidade, que é multicampi). No meio do caminho, muita conversa e algumas identificações. Simpatias, paridades, amigos.

Depois de algum tempo e uma boa dose de intimidade profissional, uma dessas pessoas, Yves, tentou dividir disciplina comigo, sob o argumento de me ajudar, já que ele tem um nome conhecido e a parceria poderia se converter em ganho simbólico, renome; ainda bem que não deu certo...

Outros capítulos da vida e, novamente, para ‘me ajudar", me incluiu na comissão editorial de uma revista da Universidade, em outro campus. De cara, muitos artigos para ler, normalizar (isto é, colocar tudo conforme as regras da ABNT), corrigir texto e gramática e emitir pareceres.

Serviço gratuito, com retorno apenas simbólico, para fins de engorda do currículo.

Semana passada, após dois anos de exploração, Yves exigiu acintosamente que eu desse conta dos processos anteriormente citados (ler, normalizar, corrigir), para dois textos que totalizavam 80 páginas, para concluir em 48 horas. Era noite de sexta. Meu prazo era segunda-feira.

A exigência foi feita em grupo, com vistas a me coagir, me constranger. Respondi que não o faria naquele tempo. Ele deu respostas abusivas, em grupo, escamoteando e tergiversando com elogios e gracejos duvidosos, aos quais rebati com clareza e uma coragem atípicas. Falei que dava aula, que tinha defesa de TCC, que tinha vida pessoal.

Devolvi os textos na quarta-feira, igualmente em grupo, com um breve aviso: “Yves, os textos estão revisados. Verifique sue e-mail”. Ele respondeu no grupo, um ‘ok’ meio surpreso.

Deixei o grupo três horas depois.

Antes, porém, no mesmo e-mail que constavam os artigos, escrevi tudo que somente ali percebi: que ele fazia exigências, se portando de forma desrespeitosa, como se eu não tivesse o que fazer; como seu eu tivesse que parar meu dia e priorizar um serviço cansativo, que requer atenção e disponibilidade e, por fim, esfreguei na cara o jogo sujo dele. Por isso, fica a advertência: seja porque a pessoa precise do título para concurso; seja porque a pessoa não tem experiência, é preciso dar limites ao trabalho não remunerado. É trabalho, é esforço, é responsabilidade.

Por uma única página revisada, se cobra de 06 a 08 reais. Assim, a revista dele, com o nome dele no comando, utiliza mão-de-obra qualificada e gratuita, com a desculpa de ajudar os outros.

Não se deixe explorar por orientadores, colegas, parceiros. Eu demorei para ver que obedecia a um tirano explorador, sem ganhar sequer gratidão.

Na lógica do explorador-manipulador, é ele quem está lhe fazendo um favor. Ele subverte à realidade.

E me pergunto como fui tão imbecil, sacrificando meu tempo, meu bem-estar...para ser útil a sonhos estranhos a mim. O pior: a revista científica é numa área totalmente alheia à minha área de atuação. O problema não foi estar ali, mas não sair dali antes.

Terei prejuízos morais, porque Yves, “Evil”, “é vil” e vingativo. Ao contrário do que as atitudes dele demonstram, ele é o tipo de pessoa que luta por justiça social, igualdade, oportunidades...Na teoria. Na vida real, explora mesmo; e ainda comete abusos e assédio moral, bem disfarçado.

 Então, deve me difamar por aí. Espero que as demais pessoas também acordem do pesadelo. Não se deixem explorar! Se te dá trabalho, é trabalho e tem um preço.


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A inflação real



Breve adendo da vida real para os curiosos: sim, estou viva, namorando de novo (felicidades, angústias, inseguranças, amor, desentendimentos, tudo junto!); cortando teias de relacionamentos passados, vivendo tristezas pela morte de minha amiga-mais-que-irmã; ocupada demais com trabalho e coisas correlatas e, sim, muito perplexa com o Brasil.

O preço da gasolina me atingiu em cheio:

O preço da conta de luz, me abateu cruelmente;

A inflação entrou em meu armário, bagunçou minha geladeira.

O custo de vida humilhou minhas economias, riu da minha cara, me desafiou e me ameaçou.

Aqui em Feira de Santana, aqui em minha vida, a manteiga vai a 22 reais meio quilo; o arroz está na casa dos 4 reais e quase cinco, o quilo; leite em pó, latinha de 400 gramas,
batendo 17 a 20 reais...ração de gato, 17 reais o quilo; produtos de limpeza e de higiene pessoal, nem falo os absurdos.

Não interessa o que o IBGE diga. Não interessa qual o instituto de estatística irá gritar os índices de inflação, como quem sorteia número nos bingos: inflação quem sabe o que é somos nós, gente de carne e osso que vai ao supermercado e que paga conta. Posso dizer que é tipo temperatura: o termômetro da estatística pode marcar 5 graus, mas a sensação térmica, que é o que interessa, está em 33 graus. Sendo bem sincera, a inflação na minha casa vai mesmo a 35%.

Então, em linhas gerais, eis a vida: o poder de compra caiu, a inflação devora meu dinheiro e a uma vida meio caótica, se soma um país que só está bom para quem anda levando alguma vantagem...ou para quem encontrou alguma bebida que evita o contato com a realidade. Por aqui, crise pura!

 Dizem que a marchinha de carnaval abaixo foi composta em 1937 e que Gal Costa interpretou nos anos 1980...o problema é que ela volta a ter validade nos dias hoje...

Onde está o dinheiro?

O gato comeu, o gato comeu
Que ninguém viu
O gato fugiu, o gato fugiu
E seu paradeiro está no estrangeiro
Onde está o dinheiro?
Onde está o dinheiro?
O gato comeu, o gato comeu
Que ninguém viu
O gato fugiu, o gato fugiu
E seu paradeiro está no estrangeiro
Onde está o dinheiro?
Eu vou procurar e hei de encontrar
E com o dinheiro na mão
Eu compro um vagão
Eu compro a nação
Eu compro até seu coração
Onde está o dinheiro?
O gato comeu, o gato comeu
Que ninguém viu
O gato fugiu, o gato fugiu
E seu paradeiro está no estrangeiro
Onde está o dinheiro?
Onde está o dinheiro?
O gato comeu, o gato comeu
Que ninguém viu
O gato fugiu, o gato fugiu
E seu paradeiro está no estrangeiro
Onde está o dinheiro?
No norte não está
No sul estará
Tem gente que sabe e não diz
Está tudo por um triz
E aí está o "X"
E não se pode ser feliz
Onde está o dinheiro?
O gato comeu, o gato comeu
Que ninguém viu
O gato fugiu, o gato fugiu
E seu paradeiro está no estrangeiro
Onde está o dinheiro?
Onde está o dinheiro?
O gato comeu, o gato comeu
Que ninguém viu
O gato fugiu, o gato fugiu
E seu paradeiro está no estrangeiro
Onde está o dinheiro?
Eu vou procurar e hei de encontrar
E com o dinheiro na mão
Eu compro um vagão
Eu compro a nação
Eu compro até seu coração

Aquela parte que se foi...

 


Não escrevi nestes últimos dias devido ao fluxo de coisas que ocorreram em minha vida. Umas coisas graves; outras coisas, importantes.

A começar pelas graves, a maior delas: minha amiga quase irmã morreu. Morreu de câncer, pesando 37 quilos.

Na verdade, ela já havia morrido antes de falecer: terceirizou a vida, passou à mãe sua existência. O câncer foi só o súbito pretexto de saúde que apareceu.

Há uns quatro anos ela se queixava de gastrite, diagnosticada desde então. Corrigiu a alimentação, perdeu o prazer do sabor das comidas. Para agradar à mãe, voltou a ser adventista, porque estava muito infeliz e precisava de galhos subjetivos em que se segurar. Passou a procuração da vida à mãe, porque se sentia culpada por ter dado trabalho, ao delegar a ela a criação das duas filhas agora adolescentes.

Minha amiga, neste ano, passou mal em abril. Detectaram o câncer (eu nunca acreditei e também nunca vi laudos). Em junho prescreveram quimioterapia. Em outubro ela morreu, por falência múltipla dos órgãos. Morreu consciente, dizendo à empregada da família que estava no hospital: “Lourdes, eu estou indo. Não vou criar minhas filhas”.

Como ocorreu com o Bruno Covas, jovem se foi, de mesma causa; de mesmo tratamento.

Eu e os meus mais íntimos comungamos de um mesmo pensamento e decisão: se pintar para nós a mesma enfermidade, vamos encarar na paz, ao natural, sem tratamentos. Há batalhas inúteis e há guerreiros indispostos. Nós (meus amigos e eu) somos desse exército.

Minha amiga viveu tudo o que podia comigo.

Foi uma companheira verdadeira, de angústias, alegrias, conquistas, aventuras...Uma amizade de quase trinta anos.

Apenas em 2003, quando ela decidiu ser mãe, assumidamente como recurso para prender o homem que ela amava, a gente se afastou.

Ela me disse, então, que via a vida da gente como o capítulo final de uma novela, onde todo mundo estava se casando ou formando par e que, então, era a hora dela.

Ele foi meu colega de curso na universidade. Ele passou 11 anos na graduação, era maconheiro de verdade, nunca trabalhou e era sustentado e paparicado pelos pais, ali, aos 33 anos.

Ao morar com ela, foi violento com a segunda filha deles, que, novamente assumido por ela, ‘veio para dar noção de responsabilidade a ele’. Não funcionou e se separaram porque a família dela interveio para proteger à criança.

Ele se tornou o grande amor frustrado dela.

A mãe de minha amiga devorou cada centavo dela em vida. Usurpou de quem não ofereceu resistência e de quem, sem consumar o suicídio, se deixou morrer.

Há um ano a gente se encontrou. Eu amava muito minha amiga-mais-que-irmã! Pude dizer isso a ela e limpar a roupa suja com a mãe dela, em educada sinceridade.

No sábado do velório, fui ver para crer. Eu nunca conseguiria ir ao sepultamento. Nunca!

Foi uma luta dormir da sexta para o sábado, antes do velório. Foi outra luta conseguir sair do velório e dirigir...eu fiquei desnorteada. Chorei infinitamente e meus dias não foram fáceis.

Não sei como tem gente que acha a dor um elemento de criatividade para a escrita. Eu fico muda. Eu fico perplexa e calada. Não escrevo, apenas executo coisas mecânicas do cotidiano.

Eu e ela vivemos muitas coisas e quase sempre ela é a protagonista ou coadjuvante de todas as histórias que relatei e que se passaram ou se referiram aos melhores ou mais fortes momentos de minha vida, até 2003. Mas, depois disso houve episódio esporádico e até em 2014, quando fui ver Giovanni, um idiota que eu pegava para fins sexuais avulsos (idiota tipo Jonny Bravo), ela me deu uma força, me emprestou um dinheiro de reforço, para o caso de eu precisar, já que eu ficava com ele em outra cidade.

Férias, festas, amores...Rio Vermelho, Aracaju, carnavais, micaretas, praias e verões que vivemos intensamente...

E lembro da gente comentando que éramos Thelma and Louise, do filme homônimo, antigo, cujas protagonistas eram tão amigas e tão unidas que, até no fim do filme, encurraladas, antevendo que ninguém acreditaria na inocência delas, optam por se suicidar, acelerando com o carro em direção ao precipício, em direção oposta ao cerco da polícia. Éramos assim: cúmplices e corajosas.

Ela ajudava todo mundo a se entender no amor, formava casais, dos quais um está junto até hoje.

Das outras coisas falarei depois. De minha amiga, sei que não falei o bastante...mas, vivi muito.

Resquiscat in pace, grande amiga!