Louquética

Incontinência verbal

quarta-feira, 13 de julho de 2011

À sombra do Pai


Uma vez, quando eu tinha uns 07 anos, foi logo após a morte de minha avó paterna, ouvi o meu Pai dizendo, em referência a mim: “E eu tenho esta cruz para carregar...”.
A cruz é o sacrifício e o calvário, mas é também o peso. E o peso ( e não a leveza) é o que nos mantém com os pés no chão, presos à realidade, com senso de realidade.
Ilmara comentava comigo, numa certa vez, em contestação à minha decisão de não ter filhos: “Eles me dão senso de existência. Eu não viveria sem eles, eu não existiria sem eles. Antes, se você me chamasse para ir para o meio do mar, sem qualquer certeza de sair de lá viva, eu iria”.
Eu não quis o peso deliberado de sustentar outras existências e de ser responsável por elas: sei que a existência, mais do que um calvário, é já um peso. Nem todos suportam carregar o peso e nem todos têm a alternativa de se dar à leveza, tipo eu, que posso ir para onde eu quiser, que não deixarei órfãos caso eu morra antes do que espero, que vivo a minha vida para mim.
Numa sessão de análise completei o raciocínio da cruz para carregar: eram as minhas lembranças de quando a minha avó se exasperava, gritando pela casa, que se o meu Pai ia para o pecado do adultério com a minha posterior madrasta, que retirasse o crucifixo do pescoço, que não levasse Nosso Senhor consigo para o pecado. No simbólico, vi que o meu Pai me carregava junto (a cruz) para o pecado.
Na verdade, logo percebi que a minha avó tinha medo de que o marido de minha madrasta flagrasse os adúlteros e agisse com a violência típica e legalmente compreensível dos traídos. E vivi esta apreensão por muito tempo, até que o marido de minha madrasta morreu e aquela relação saiu da clandestinidade que o deixava suscetível a ser morto.
Não obstante, demorei muito a matar meu Pai no simbólico. E aquela velha paredinha, aqueles tijolinhos ínfimos, restantes do muro a derrubar dentro de mim continuam, mesmo que quase insignificante.
Meu Pai passou o sábado atrás de mim.
Como eu estivesse na estrada, preferi não atender ao telefone, até porque o sinal iria cair mesmo...
Finalmente ele me encontrou e falou comigo como se eu fosse a maior especialistas em dramas existenciais de todo o planeta.
Ele se queixou de que não conseguia ter alegrias, que ficava contemplando a vida como se não vivesse, que não tinha reações às coisas que outrora o deixavam feliz, falou de tantas coisas, de tal maneira que parecia uma pessoa de carne e osso.
O caso é que eu, de fato, diagnostiquei a crise e concordei que ele procurasse um psicanalista – embora eu saiba que a relação será infrutífera...mas, vai que eu me surpreenda?
Então, me vi na cara do meu Pai.
Se há uma coisa que eu não tenho é esta imbecil curiosidade genética acerca de “como seria a cara de um filho” e daí que me ver na cara do meu Pai foi bem esquisito.
Mas me vi nisso que eu sei e que ele admite: nossa relação com a morte.
Para ele é um pouco mais difícil, porque o meu avô sempre deixou claro que só vale a pena existir enquanto somos jovens. E ele (meu avô) morreu bastante jovem, já se sentindo velho e dizendo, lá nas palavras do Dr. Domingos, o meu avô outrora todo poderoso dono das Minas Gerais, a morrer sem posses: “É preferível ser um jovem pobre a ser rico e velho!”.
Daí que meu Pai se relaciona mal com os sinais do tempo: com o coração, que ele estranha tanto, com algumas varizes e dores na perna, com a corrida matinal e com o futebol que já começaram a ser abolidos... e sente como se aquele corpo não fosse o dele. E olha que ele entrou nos sessenta anos agora!
Às vezes multiplica as preocupações estendendo-as a mim, na insistência para que eu faça um exame de glaucoma, que acompanhe minha pressão... e pouco acredita que estes exames, em meu caso, apontem normalidade.
A diferença nesta nossa relação com a morte está no fato de que penso nela desde cedo e já vi a morte de alguns parentes próximos, de modo a saber, sem a menor preocupação ou pavor, que vou morrer de aneurisma, como minha tia e meu primo.
Manoela conversava sobre isso lá no Rio, dizendo que ela já perdeu dois irmãos, todos de aneurisma...a vez dela chegaria e isso nos coloca muito a par da presença da morte. Embora não haja data certa, entrar nos trinta anos indica esta proximidade - os irmão dela, entre os 33 e os 36 anos. A partir daí, qualquer hora é hora, se o cronograma atávico da morte se cumprir à risca.
Mas nós naturalizamos isso. Temos pena dos colegas que nos vêem discutindo isso e, covardemente, tentam mudar o assunto.
Para meu Pai, ela, a morte, se afigura nos sinais biológicos da degradação dos anos: aquele coração, que já não é o dele; aquelas pernas...onde foram parar as dele? E um estranhamento monstruoso com este corpo que não é mais aquele com o qual ele conviveu tanto tempo e que respondia tão bem aos seus propósitos.
Não quero morrer de acidente de carro e se há um medo, em relação à morte, é o de definhar: de ficar em coma, de não ter como me comunicar...faço pactos absurdos com os meus amigos e parentes e desde os 16 anos, quando votei pela primeira vez e tive que refazer minha carteira de identidade justamente para votar, me declarei doadora de tudo.
Quando eu morrer, levem tudo e aproveitem que é liquidação: sou doadora de órgãos.
Como não morri ainda e não sou mal humorada, até lá, espero que alguns homens interessantes também destinem certos órgãos de meu interesse para o meu deleite em vida. E como a ideia aqui é da reciprocidade, também me doarei plenamente.
Nos meus pactos absurdos, eu que sou a favor da eutanásia, já disse: gente, não delonguem o meu sofrimento, nem cansem as máquinas! Ao menor descuido dos médicos facilitem a minha morte porque existir é um pouco mais do que respirar com a ajuda de aparelhos.
Para quê tanto medo de "andar pelo vale da sombra da morte"?
Sei que o meu pai sofre. Hoje, quando já matei o meu pai no simbólico, percebo-o além do homem de valores questionáveis, senão da ausência total de valores, mas que sofre e estranha a si mesmo, não se reconhece neste que ele está se tornando.
Eu nunca tive medo real da morte,acho que o meu pai também não tem em certos aspectos: tenho medo de sofrimentos mas estes a existência já me deu demais.
Por isso sou teimosa, procuro ser feliz e não discuto isso agora por estar infeliz, não. Pelo contrário, estou num bom momento – tanto que falo do Pai tranquilamente.
E da vida, fico como Caetano: " Eu digo que ela é gostosa!", apesar de tantas vezes ter os seus amargores e suas amarguras - tempero do meu jeito sempre que posso.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Outros sabores


Nosso amor é uma vereda onde a lua se derrama.
Somos lenha e labareda, uma paixão em plena chama.
Sei que a vida tá brabeira, tanto amor na corda bamba,
Que a aleria é passageira, frágil como porcelana
É, as vezes tudo é lindo, às vezes tudo engana...mas
Basta um beijo teu e eu...
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai.
É, às vezes tudo é lindo, às vezes tudo engana.....mas
Basta um beijo teu e eu...
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai .
Pudera! Você é o grande amor da minha vida.
Pudera! Você é o grande amor da minha vida.
Baile, fiesta ou domingueira, saca a banda, vem me chama
Pra essa salsa brasileira, meio Rio, meio Havana.
Dança,roda e serpenteia ou me leva então pra cama
Ao som do Guantanamera, Noches de Copacabana.
É, às vezes tudo é lindo, às vezes tudo engana...mas
Basta um beijo teu e eu...
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai.
É as vezes tudo é lindo ás vezes tudo engana...mas
Basta um beijo teu e eu...
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai.

(Ai, ai, ai, ai, ai - Ivan Lins)

Coisas bem gostosas


Tive bons sonhos e isso me ajudou a ter um bom dia, talvez mais otimista, porque quando a gente começa a se sentir feliz de graça é porque está enxergando graça na vida.
Aí fiquei feliz por uma grande realização. Eu disse grande, não grandiosa, porque , afinal, não tem nada de extraordinário nisso: finalmente eu consegui fazer um risoto.
Não foi um arroz empapado, sem graça, foi um grande risoto, com especiarias boas, com a escolha do parmesão adequado, com o cuidado do creme de leite certo e com a escolha minuciosa de tudo.
Além disso, falei com o meu amigo Júlio e conversei com os meus próprios preconceitos internalizados e, para arrematar o efeito do bom sonho, a pessoa dos meus sonhos escreveu para mim.
E como há dias iluminados, estou feliz com todos os meus poros, com todos os meus sentidos, comigo mesma.
Fiquei como Zeca Baleiro em Telegrama. E como os meus dois ex-namorados estivessem no MSN, fui cortês, cordial e amiga, de forma que fiquei bem comigo mesma - sei que pode parecer a eles que a naturalidade em minhas respostas fosse típica da indiferença total, mas não era não. Há dias de reconciliar, no sentido de seguir em frente e não ficar machucando os calos dos passado, porque se há marcas de hematomas, a verdade é que devemos ver que acabou e tratar das cicatrizes.
Mas, voltando ao meu risoto, da maneira mais exibicionista do mundo, se eu pudesse teria chamado os meus amigos aqui em casa, porque se há algo em que sou convencida é nos pratos que sei fazer.
Esse eu não sabia. Por saber que eu não sabia, nunca havia feito até hoje.
Tudo partiu d euma inveja gastronômica:fui numa destas quinta-feiras jantar com Tella no Rizzo do Ville Gourmet.
O risoto de parmesão chegava a ser erótico e imoral, de tão gostoso.
Pensei: eu nunca faria um desses.
A conta foi astronômica - não fosse assim e eu teria ido lá, como um viciado qualquer.
Não gosto de comer a comida que eu faço e também não é todo dia que quero cozinhar, por isso almoço fora.
Esse não gostar de comer é que quando eu cozinho eu gosto de partilhar - deve fazer parte do meu exibicionismo culinário, porque sei que faço o melhor pudim de leite e o melhor feijão deste nosso Continente. Daí que o elogio deve vir de sobremesa.
Mas hoje eu estava a fim de um risoto daquele e aí pus o bloco na rua, o arroz na panela a cozinhar e parti para a internet em busca de receitas.
Não vi nada de acordo com o que eu procurava, mas vi o que deveria fazer para que ele saísse bom. Apostei e venci: comi a panela inteira de risoto, feliz da vida, desafiando os efeitos calóricos do prazer gastronômico.
E uma coisa eu aprendi com uma amiga minha que admirava minha louça:comida precisa de enfeite, porque a beleza, além do cheiro, aumenta o apetite.
Essa amiga dizia que minha louça parecia de casa de boneca e que jamais deixaria de usar aquelas guarnições, se fosse ela, porque comer no prato certo, com a louça bonita torna tudo mais gostoso.
De fato, hoje eu penso que minha louça parece lá daquele chá da Alice no País das maravilhas, na versão da Disney. E com ela eu tomei muito chá e um certo café da tarde, que era servido às 17 horas, por mim, quando trabalhávamos num mesmo lugar e ganhávamos uma nota preta que gastávamos inconsequentemente em coisas supérfluas, sem pensar no amanhã.
Será que tem disso, de riso e de risoto? onde uma coisa gerou a outra? deixa para lá.

Zeca Baleiro - Telegrama

Eu tava triste,tristinho!
Mais sem graça
Que a top-model magrela
Na passarela.
Eu tava só,
Sozinho!
Mais solitário
Que um paulistano,
Que um canastrão
Na hora que cai o pano.
Tava mais bobo
Que banda de rock,
Que um palhaço
Do circo Vostok...
Mas ontem
Eu recebi um Telegrama:
Era você de Aracaju
Ou do Alabama,
Dizendo,
Nêgo, sinta-se feliz
Porque no mundo
Tem alguém que diz:
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito muito te ama,
que tanto te ama!...
Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado,
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia,
De beijar o português
Da padaria...
Mama, Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu,
Quero ser seu,
Quero ser seu,
Quero ser seu papa!...
Eu tava triste,tristinho!
Mais sem graça
Que a top-model magrela
Na passarela.
Eu tava só,
Sozinho!
Mais solitário
Que um paulistano
Que um vilão
De filme mexicano
Tava mais bobo
Que banda de rock,
E um palhaço
Do circo Vostok...
Mas ontem
Eu recebi um Telegrama
Era você de Aracaju
Ou do Alabama,
Dizendo:
Nego, sinta-se feliz
Porque no mundo
Tem alguém que diz:
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito te ama!
Que tanto, tanto te ama!...
Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado,
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia,
De beijar o português
Da padaria...
Me dê a mão, vamos sair
Prá ver o sol!
Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu,
Quero ser seu,
Quero ser seu,
Quero ser seu papa!...

domingo, 10 de julho de 2011

Assim falou Belchior


Eu sei que dizer isso é ir contra a corrente das opiniões convenientes em sentido político, mas não é qualquer Zé Mané que é cantor, não, gente boa! e aí, para quem quer promover a inclusão, favor não me incluir entre os chamados ecléticos - a orgia brega musical supostamente em favor dos menos favorecidos pela escolaridade e pelos ganhos materiais.
Eu não espero que um Belchior vá ter o mesmo espaço na mídia que têm os grandes nomes da música atual, como Restart, Fiuk, Calcinha Preta. Nem se compara!
Mas, pensando em quanto eu gosto do Belchior, faz muito tempo que eu fico tomando de empréstimo as palavras dele, porque "Eu não estou interessada em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem em romances astrais"...não sou da auto-ajuda, não sou esotérica e não acredito em cartomantes: tenho a mais honesta orfandade espiritual que alguém pode ter.
E de mim, também: "longe o profeta do terror", porque eu não estou nem aí para o fim do mundo. O fim está próximo? pois, que seja próspero!
E assim como Belchior, "Meu delírio é a experiência com coisas reais": tem alucinógeno pior do que a realidade? tem horas em que a gente vê cada coisa que chega a questionar se vê mesmo aquilo ali ou se está delirando.
E das imagens da vida urbana, olhe que o cara, o Belchior, já se espantava com o Rio e com São Paulo na década de 70. Que diríamos de hoje? "Um preto pobre,um estudante, uma mulher sozinha,Blue jeans e motocicletas, Pessoas cinzas normais, /Garotas dentro da noite,
Revólver: cheira cachorro! /Os humilhados do parque /Com os seus jornais..."
Será que assim como falou um certo humorista há uns anos, "Ainda somos os mesmos e vivemos/como Belchior?".
O que é mesmo estarrecedor são essas "pessoas cinzas normais": as pestes das pessoas normais são cinzentas como o cimento, não têm cor, não são nada, se confundem com a paisagem arquitetônica da cidade. Eu é que não quero ser cinza, não quero ser normal. E não quero ser cinza porque não quero ser cremada: deixe que os vermes se alimentem, me deixem barro, me deixem voltar à terra - eis quem vai me comer, porque por enquanto quem anda me comendo, quem anda me dando uns pegas é o tempo. E eu já disse antes: como sou heterossexual, deixem o chão me comer, porque ele é substantivo masculino. E heterossexual que se preza gosta do sexo oposto até debaixo d'água...ou melhor, da terra!
E a solidão das pessoas nessas capitais é mais que óbvia - e já não falo disso porque passei meu mestrado escrevendo sobre. Basta!

Belchior - Alucinação

Mas, eu não estou interessado
Em nenhuma teoria,
Em nenhuma fantasia,
Nem no algo mais.
Nem em tinta pro meu rosto,
Ou oba oba, ou melodia,
Para acompanhar bocejos,
Sonhos matinais...
Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria,
Nem nessas coisas do Oriente,
Romances astrais.
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais...
Um preto, um pobre,
Um estudante,
Uma mulher sozinha;
Blue jeans e motocicletas,
Pessoas cinzas normais,
Garotas dentro da noite,
Revólver: cheira cachorro!
Os humilhados do parque
Com os seus jornais...
Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai
Do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Nssas capitais.
A violência da noite,
O movimento do tráfego,
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!
Cravos, espinhas no rosto,baby
Rock, Hot Dog
"Play it cool, Baby"
Doces jovens coloridos,
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossas vidas;
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida...
Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria,
Em nenhuma fantasia,
Nem no algo mais.
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia.
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais...

De volta


A greve acabou e o trabalho me pegou em cheio nestes dias, em que tenho um intensivão pela frente, pelo menos para duas semanas deste mês.
Aí meus queixumes pessoais se repetem, já que é tão difícil fazer com que entendam minha necessidade de solidão quando volto para casa – mas se eu já moro sozinha, não seria, então, o bastante para notarem que eu gosto de ficar só?
Daquela solidão deletéria e destruidora eu não gosto. Também não sou misantropa: mas sou forçada ao convívio coletivo no trabalho e isso não quer dizer que eu não goste de meus colegas e da companhia deles, mas quer dizer que ali é o meu trabalho, aquela casa que alugamos para nossa estada é circunstância do trabalho e, portanto, a minha casa é esta de onde agora escrevo.
Quando eu estava em Sergipe também arquei com os custos de uma morada apenas para mim: definitivamente, eu não tenho o menor saco para morar com ninguém. Só imagino como seria se eu tivesse casado (casamento é a queda da privacidade, da individualidade Enfim, para mim, seria como viver em família de novo, sem vida própria e sob o jugo de um pater famílias), eu aposto que eu passaria a ficar mais tempo fora.
Tenho uma viagem longa para fazer e sigo adiando, deixando para depois, edificando pretextos, postergando...mas como parte do doutorado, sei que uma hora terei que ir. Mais uma vez o que me prende é a minha casa. Pode ser em São Paulo ou New York, se eu for demorar num lugar, sofro por não voltar para a minha casa e procuro constituir uma outra casa. Convívio coletivo, pensões, repúblicas, casa dos outros, Deus me livre!
Hoje estou aqui em casa e numa hora qualquer desligarei todos os meus telefones: preciso ler, preciso dormir (é que resolvi sair um pouquinho ontem à noite e aí voltei 3 da manhã para casa), preciso não ter que me explicar, preciso não argumentar, preciso não me preocupar em mostrar que eu me preocupo com alguns e que eu não estou nem aí para as ciladas de outros. Bem, minha vida anda me dando trabalho o suficiente, ultimamente.
Ainda assim, melhor do que ficar como as minhas amigas que parecem que tomam chá alucinógeno para agüentar o convívio coletivo forçado ou voluntário, para suportar suas crianças gritalhonas, seus maridos insípidos, seus sonhos que ficaram do lado de fora da casa e da vida, as coisas que elas julgavam encantadoras, mas que eram enfadonhas, os ouros de tolo, como diria Raul Seixas.
Não gosto dos ladrões do tempo: prefiro perder tempo a permitir que me roubem o tempo. E a estrada rouba o meu tempo. Aliás, sempre detestei viagens longas, odeio demoras, sou impaciente profissional. Da próxima vez em que perguntarem minha profissão eu vou dizer: Professora Impaciente.
Ah, saudades do meu sofá, do aconchego do meu edredom, do vaso de cerâmica semi-quebrado onde eu deixo umas flores...
Saudades do cheiro de minha casa e do meu quarto, saudades dos meus quadros, dos meus livros, dos meus perfumes, dos meus sapatos e do bicho de pelúcia encardido que eu gosto de abraçar para dormir.
Saudades dos ruídos, dos defeitos da minha rua, das cores, dos sons , dos sabores, dos hábitos, de acordar só e em paz, sem ninguém a me forçar um bom-dia ou um cumprimento qualquer; sem ninguém de quem esconder minha olheira e meu cabelo assanhado;sem ninguém a observar que meu travesseiro é alto e que eu durmo esparramada. Eis a paz! estar em casa é estar em paz (até que o telefone toque).
Para quem não lida comigo, isso é bastante contraditório. Para quem me conhece e ainda não consegue entender que eu gosto de ficar sozinha, que Deus me dê a paciência necessária que eu ainda não tenho.

Uma parte de mim é todo mundo
outra parte é ninguém.
Fundo sem fundo.

Uma parte de mim é multidão,
outra parte, estranheza e solidão.

Uma parte de mim pesa, pondera,
outra parte delira.

Uma parte de mim almoça e janta.
outra parte se espanta.

Uma parte de mim é permanente,
outra parte se sabe derrepente.

Uma parte de mim é só vertigem,
outra parte é linguagem.

Traduzir uma parte noutra parte
que é uma questão de vida ou morte.

Será Arte?

(Traduzir-Se. Ferreira Gular)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tem a ver...


A minha pele de ébano é
A minha alma nua,
Espalhando a luz do sol,
Espelhando a luz da lua.
Tem a plumagem da noite,
E a liberdade da rua
Minha pele é linguagem
E a leitura é toda sua.
Será que você não viu?
Não entendeu o meu toque?
No coração da América eu sou o jazz, sou o rock.
Eu sou parte de você, mesmo que você me negue:
Na beleza do afoxé, ou no balanço no reggae.
Eu sou o sol da Jamaica,
Sou a cor da Bahia.
Eu sou você, sou você e você não sabia.
Liberdade, Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto, Malê.
Nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto.
Apesar de tanto não,
Tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade
Apesar de tanto não,Tanta marginalidade,
Somos nós a alegria da cidade
(Margareth Menezes - Alegria da Cidade)

É que esse negócio de falar de pele me remeteu logo a esta música de Margareth Menezes - e faço minha velha advertência sobre o fato de que nem todo baiano faz música baiana, nos conhecidos termos midiáticos que isso significa.
Mas também vou ao outro extremo da conversa, quando ele, C., olhou a minha pele como se eu fosse um animal exótico.
Isso costuma me ofender profundamente - tanto quanto me ofende ser chamada e tratada como a mulata-clara no Rio de Janeiro, que alguns têm a petulância de ainda dizer em minha cara: "Tipo-exportação": comentário de homens e mulheres, brancos e também afrodescendentes como eu.
Mas eu não me ofendi com ele. Entendi. Entendi o entorno cultural e o deslumbramento daquela hora em que ele reparou na minha pele e na minha constituição inteira.
Leitura em braille.
Aí a música foi outra, não porque eu sempre escolho uma trilha sonora para as coisas, mas porque ele mesmo falou da Tigresa, de Caetano Veloso

Uma tigresa de unhas negras
e íris cor de mel.
Uma mulher, uma beleza,
Que me aconteceu.
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu,
Me falou que o mal é bom e o bem cruel.
Enquanto os pelos dessa Deusa
tremem ao vento ateu,
ela me conta, sem certeza,
tudo o que viveu:
Que gostava de política em mil
Novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin Days.
Ela me conta que era atriz
E trabalhou no Hair,
Com alguns homens foi feliz,
Com outros foi mulher.
Que tem muito ódio no coração,
Que tem dado muito amor,
Espalhado muito prazer e muita dor.
Mas ela ao mesmo tempo diz
Que tudo vai mudar,
Porque ela vai ser o que quis
Inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz,
Vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão.
As garras da felina
Me marcaram o coração,
Mas as besteiras de menina
Que ela disse, não.
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul.
Como é bom poder tocar um instrumento.

Na minha pele


Eu tirei esta foto em Guarajuba, em março do ano passado.
A esta altura a dermatologista já havia me dito bem claramente, com o seu melhor humor: “Praia? Você na praia? Só se for de burca!”
Eu, que não consigo renunciar ao sol, vou à praia, teimosa que sou, coloco meu protetor fator 60 e volto para casa feliz com a marquinha de biquíne.
Penso que os deuses protegem a pele dos afrodescendentes (dos quais, eu e minha pele) como compensação pelo sofrimento e torturas sofridas na pele dos meus antepassados. Tudo ilusão!
No dia seguinte, meus braços se enchem de manchas brancas, meu colo fica vermelho e meu rosto é uma profusão de manchas escuras...
Há uns lugares comuns que, sinceramente, me fazem rir. Um deles é a expressão “uma coisa de pele” que as pessoas falam quando querem dizer que tiveram uma sintonia corporal, uma atração física fora do comum por alguém. Se alguém me diz que entre nós rolou “uma coisa de pele”, penso logo em micoses. E se eu puder, ah, eu rio!
Mais pesadamente dizem “sentir na própria pele”, outro grande clichê que me deixa meio à beira do riso. Ouvi muito isso dos poetas que me iludiram. Mas aí vai: estou aqui com quatro curativos por conta de coisas que senti na pele literalmente, ao retirar quatro sinais na dermatologista, hoje de manhã.
Eu não quis desperdiçar a oportunidade de brincar com ela e aproveitei para dizer, após minhas piores interjeições (ais e uis saem como um uivo, mas mentalmente creio que digo palavrões assombrosos): “Deixo uma parte de mim nesta clínica!”. E ela, rindo, inventou de me mostrar o maior dos meus sinais, já retirado.
Está aí uma curiosidade que eu não tenho: não gosto de ver cortes, feridas, cartilagens, ossaturas, cadáveres e afins. Minha experiência no IML foi horrível, em termos existenciais: fiquei imaginando a vida pregressa de todos os três cadáveres de que assisti à autópsia e sai com um peso horrível na alma.
Há pouco mais de quinze dias, saímos em turma para Salvador, para fazer não sei o quê lá no Shopping Salvador. Respondo por mim que fui passear, procurar livros, me empanturrar de café gelado e lembrar que ali eu passeei com o energúmeno 01, em 2009 – não sem motivos eu participo ativamente da comunidade do Orkut cujo nome é “Eu já amei um idiota”. Por questões de honestidade, eu deveria admitir que ao amar um idiota, mais idiota fui eu... e parece que a idiotice perdurou até hoje.
Os meus outros três companheiros de aventura foram ver aquela exposição chamada “O corpo humano”, pagaram para isso e já tinham ido lá três dias antes, sem êxito, porque chegaram perto do horário limite.
Ah, eu bati o pé que não entraria. Não fui e não iria... Olhar cadáveres e partes do corpo conservadas num sistema cujo nome é algo perto de plastificação... Grande coisa!
Eles saíram com uma conversa esquisita de que não comeriam galinha, que eu nem falasse em galinha. Mas só recentemente admitiram o mal-estar de ver cadáveres.
Então, não gosto disso e não trabalho para o CSI Miami.
Mas, voltando ao assunto, minha questão de pele era, para mim, interessante, porque eu me queixava de que tudo em mim ficava roxo, mediante qualquer pancada. Se cruzo as pernas, ao descruzar ficam marcas vermelhas da própria pressão de uma perna sobre a outra; tudo dói intensamente em mim, tenho a pele fina ( nada resistente ao sol, morro de frio com facilidade) e com facilidade minhas extremidades congelam e à menor pancada, é uma dor estridente.
Então, coitada da dermatologista, que está há mais de um ano me ajudando a “salvar minha pele”: somente agora ela pode dar nome aos bois e claramente diagnosticar meu dermografismo. Sim, é o que parece: a pele é tão sensível que você pode escrever sobre ela com qualquer material, com a ponta das unhas, com qualquer objeto que não tenha tinta, porque aí já seria pichação – kkk!!.
Agora eu sei o quê e por quê sinto em minha própria pele. Tem um fundo emocional nesse negócio, também – não vão pensar que eu sou como a neurótica interpretada pela Natalie Portman no Cisne Negro: é outra coisa, é da predisposição emocional o que eu falo.
Eu gosto tanto do sol, de praia principalmente – e ando com uma bruta saudade de um bom dia de verão quente como deve ser.
E enquanto não vem o sol, fico aqui, hibernando na escrita, antes que minha orientadora me arranque o couro.