Louquética

Incontinência verbal

sábado, 16 de setembro de 2017

Em falta


Não é porque as pessoas têm tudo que não lhes falta nada.
Sempre invejei quem teve condições favoráveis a si, tipo uma família amiga, com gente educada, letrada, harmoniosa; ou mesmo quem teve uma família pobre, de pais analfabetos, mas educógena, que valorizasse o estudar e a cultura letrada...Quem nasceu bonito, rico, inteligente...Mas nem assim se tem tudo. Mesmo quando essas coisas existem, em todo ser humano há uma falta.
Tem gente que pensa que essa falta se completa com um filho; outros pensam que a falta se compensa com casamento, com um amor a qualquer custo...ou com dinheiro...
A única coisa que nunca nos faltará é essa falta. Universal.
Tem muitos conhecidos meus (e até ex-amores) preenchendo a vida com seus vícios – em sexo, cocaína, álcool, manias de grandeza e outras drogas.
No momento minha falta também está bem evidente: é que um ex-namorado veio me fazer cobranças afetivas de uma década atrás.
Ele guardou o ódio. Ódio conservado em barril de carvalho, curtido e nunca envelhecido. Jogou na minha cara. Ódio 100% puro, concentrado. E o efeito foi corrosivo, porque nem o amor por outro, responsável por nossa separação real, existe mais. O ódio do ex, sim, existe intacto.
Jogou em minha cara as lágrimas e as dores.
Eu amava aquele a quem chamo de Ex-Grande Amor da Minha Vida. Não foi escolha. Acho que foi a Florbela Espanca quem disse algo como: “Ama-se a quem se ama e não a quem se quer amar.” Ele não entende isso.
Aconteceu com uma aluna minha também: o marido foi embora. Ficou quatro anos em outro Estado. Casou com outra. Ela deduziu que ele seguiu em frente, tudo acabado, vida que segue...Constituiu outro relacionamento. Ele soube. Veio cobrar a conta como quem cobra a anuidade de título de dívida contraída e foi violento.
Em verdade, vos digo que uma briga de palavrões e ofensas trocados fere menos que essa vazante de ódio.
Um xinga, o outro xinga e pronto. Cada um se recolhe com seu desagravo.
Mas esses exercícios de ódio doem mais.
Penso que, de tudo que vivemos, ele só conservou a memória afetiva do sofrimento quando eu me apaixonei por outro. Das incontáveis desfeitas, humilhações, traições que eu sofri, até chegar a este ponto de me apaixonar por outro homem, ele não lembra.
Mesmo quando ele casou com outra e eu inventei de seguir em frente, num novo affair, ele achou que eu pertencia a ele, que traí. Fui fiel e burramente fiel durante o relacionamento da gente e por muito tempo. Traí em outras ocasiões, por puro chumbo trocado.
Geralmente as pessoas não perdoam o fato de não mais as amarmos.
Juro: até Vini, nessa semana, gravou dois áudios para mim, a fim de dizer que estava com saudades.
Não eram saudades como nunca fora amor: é saudades de ser amado e paparicado por mim. Esse povo tem ego sensível. Eu também tenho ego.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Das batalhas e das escolhas


Nem sei se isso é preguiça ou acomodação, mas em maioria, nós somos bastante afeitos à lei do menor esforço. Nem há novidades, é o de sempre: as pessoas querem emagrecer sem deixar de comer à vontade; ter um corpo bonito sem fazer exercício; passar em concursos sem ter que estudar; ganhar sem ter que lutar, enfim, que Deus provenha as coisas, os prêmios, as conquistas...
No fundo, sabemos a receita: para mudar o que está ruim, não tem jeito, é a gente que tem que planejar e mudar.
O emprego ruim vai ser eternamente ruim. Para sair dele, só ficando nele e ir, em paralelo, se preparando, com cursos e concursos, a longo prazo, para fazer uma troca melhor; para sair de um relacionamento ruim, não basta parar e esperar outra pessoa que venha substituir a atual, é necessário ir trabalhando o distanciamento emocional e ir se melhorando para fazer jus e causar interesse em gente interessante...Enfim, nada se faz sem nossa participação.
Às vezes, o fato de sermos planejados, metódicos ou calculistas, é muito mal interpretado. Porém, sem organização e método, não se faz nem um bolo. Improviso é coisa de falta de profissionalismo, é uma aposta cega e um recurso ao que se deve dar vazão apenas se todas as alterativas possíveis forem esgotadas.
Só se conserta uma quebradeira financeira através de dinheiro. Para ter dinheiro é preciso ganhar e guardar uma parte.
Para poupar, comece guardando quantias insignificantes. Aqueles 20, 50 ou 100 reais por mês, que não lhe farão falta. Que seja pouco, mas que seja continuo.
Largue lá, na poupança. Não faça conta. Considere como sendo uma prestação.
Apenda a deixar seu dinheiro quieto. Consulte seu saldo apenas a cada quatro meses, para evitar ansiedades.
Só se permita sacar a partir do décimo mês.
Pronto! Agora você tem dinheiro. Aos poucos, vá aumentando o valor de seus depósitos.
Não se deixe vencer por gente invejosa: tem pessoas que acham que guardar dinheiro só vale se previamente se tem uma meta. Não: a gente guarda para ter tranquilidade. Você pode até dar um nome à sua poupança, mas aprenda a guardar dinheiro à toa.
Quando bem entender, use. Mas nunca deixe sua conta zerada.
Se puder, aplique em títulos da dívida pública ou em dólar, sem medo. Seu dinheiro não vai desaparecer se você o aplicar em fundos confiáveis. Nunca esqueça que capitalização não é poupança e é uma roubada, uma fria, uma cilada. Não vá nessa.
Se vai comprar carro, saiba esperar. Dá para comprar à vista ou, pelo menos, financiar o mínimo possível.
São apenas conselhos. Eu diria o mesmo para quem quer emagrecer: siga comendo o que você gosta. Diminua a quantidade de modo que não afete seu prazer de comer. Diminua 100gramas, um bombom, uma guloseima, um pão... apenas diminua.
Espere um mês. Vá diminuindo e substituindo gradativamente por alimentos menos calóricos e igualmente nutritivos. Consulte seu peso mensalmente, Se valer, prossiga com ajuda profissional e reoriente a sua dieta.
Ande 500 metros num passo mais acelerado de caminhada. 500 metros qualquer um pode caminhar.
Aumente gradativamente, contanto que não lhe cause desconforto e se você não tive impedimentos cardíacos ou restrições de saúde para atividades físicas.
Escolha sua forma de atividade física e veja o resultado.

Nesses breves conselhos, meu recado clichê para quem quer mudanças: dê o primeiro passo. Traga para si a responsabilidade de mudar. Ninguém faz isso por nós. Faça a diferença. Faça diferente.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sobre os teus ombros


Gosto tanto dos ombros dele quanto ele gosta das minhas costas. Gosto daquelas imperfeições minúsculas, que são as espinhas, que dão uma textura suave de açúcar cristal à pele doce que ele tem...doce e branca, que fica marcada pelo batom.
Ontem ele me disse que eu o feria com meu carinho, com minha doçura e que nem percebia. É que andamos brigando...Brigar com ele detona meu dia...Ele se calou, se controlando, para não me dizer coisas que iriam me deixar irada.
Fez a parte dele para a gente não terminar.
Eu achei que eu tinha razão.
Depois, vi que a razão era dele, toda dele...Cobrei o que nem eu pagaria, joguei alto e blefei absurdamente...A consciência me aconselhou a pedir desculpas... Ele não disse que me desculpava...Depois foi que ele demonstrou que me desculpava. Mas me disse tudo que extrapolei, onde errei, onde exagerei e eu prefiro assim mesmo.
Eu disse que briga a gente deixa para travar com os inimigos, não com quem a gente gosta. Antes de mim, ele soube que não valeria o desgaste. Assim, fez-se a paz...O amor também, porque os corpos comemoram a paz de uma outra forma.
Cheguei bem perto das dores dele. Temi a intimidade. Queria que nunca passasse disso, desse namoro eterno não-reconhecido legalmente, mas praticado e exercido na lisura do nosso recíproco querer.
Ele canta feliz, ao tomar banho, sempre que a gente fica bem: acordes que acordam para a vida, para a cumplicidade...Sabemos que não é amor, mas é intenso e saboroso.

domingo, 13 de agosto de 2017

Filhos do pai


Alegria pura, sem gelo e açúcar. Nunca fui de misturar alegria e álcool. Não gosto de álcool e nada em minha vida combina com ele, por mais que eu ache vinho e champanhe coisas deveras elegantes de se degustar.
Ratifico: não é por moralismo, mas por sabores e efeitos. Gosto da vida pura. Nas tristezas e angústias, também. Se muito misturo, é um chá. Gosto de café para pensar. Minha droga é café, uma xícara de manhã e outra à noite – raramente coisas que ultrapassem 160 ml. em cada turno.
Hoje é dia dos pais. Também não coloco aditivos onde não há e, verdade seja dita, cumpri meu ritual hipócrita: telefonei para o meu pai e felicitei pela passagem da data comemorativa.
Amo meu pai, mas é um amor com mágoas – o coração, cheio de manchas roxas. A distância emocional, uns 34455km.
Meu pai não foi provedor de forma alguma: nem material nem emocionalmente. Ele não se enxerga. Não digo isso no sentido usual da palavra, mas literal: ele não olha para si, ele não sabe que é negligente e monstruoso comigo, ele se acha uma das melhores pessoas da Terra e o melhor pai que alguém poderia ter.
Meu pai me rendeu muita terapia.
Hoje, rende muita introspecção espiritual, no difícil exercício do perdão, da admissão da coerência da lei de causa e efeito.
Há famílias felizes. Há pais que são bons, porque se não proveem materialmente, são afetuosos, divertidos, interessados, presentes. Posso dizer que a pior orfandade é essa, de saber que se tem um pai vivo, geograficamente próximo, saudável e lúcido, que não dá a mínima à prole. Em meu caso, então, que sou filha única, isso pesa mais. Antes, quando eu entendia pouco das coisas, achava que meu pai não tinha obrigação de me amar e ponto final, porque as pessoas são como são e talvez ele simplesmente não soubesse amar.
Com o tempo, vi o amor imenso que ele tem pelas filhas de minha madrasta, pelos filhos delas, seus netos afetivos mas não consanguíneos.
Mas eu sou assim: tomo os venenos da vida sem anestesia. Acho que é uma covardia atroz alguém transferir para os neurotransmissores, isto é, jogar sobre um Rivotril e seus congêneres a responsabilidade de causar alegrias, de bloquear as dores...exceto quando se pode enlouquecer, perder o rumo, toda dor deve ser processada, sentida, admitida, para que passe. O ex-Grande-Amor-da-Minha-Vida, ainda que não seja dado a remédios, é extremamente covarde com as dores e com a realidade. Está sempre colorindo tudo de ilusão e fantasias de satisfação. Juro que tenho piedade – por sinal, contei que não escrevia mais para ele, como outrora, porque, de fato, aquele amor passou e hoje eu gosto de outra pessoa. Ele não digeriu bem, enciumou-se e fez um silêncio de sepulcro. Eu já tinha enterrado essa história há tempos. 

domingo, 6 de agosto de 2017

Amigos, pero no mucho...


Está tudo bem. Não deixo de escrever porque estou feliz, nem sou de ter as frescuras dos escritores profissionais que alegam só saberem escrever nos momentos de dor. Não: andei ocupada.
Também notei que não fico à vontade sem privacidade.
Não sei escrever com pessoas olhando em cima dos meus ombros.
Hoje eu resolvi escrever para expurgar meu desconforto com um povo desequilibrado que pensa que me ama ou que, declaradamente, me deseja sexualmente.
No primeiro caso, o ex-Grande Amor da Minha Vida, que não se toca que acabou e acabou há muito tempo. Ele escreve (se ligar, não atendo) para reclamar da escassez de e-mails, de notícias, a choramingar poemas e atenções de outrora.
Os casos a seguir são piores: 1) O amigo de outro ex, que se tornou marido de uma conhecida, depois de deixar declarações afetivas claras no Facebook para mim (excluí, para evitar problemas), abriu um bar temático na cidade e todo dia me chama para ir lá, de modo que já usou de todos os meios possíveis para isso. Cola e stalkeia minha vida, meus perfis, meus passos, meu status...
Da primeira vez que o excluí, no minutos posterior ele mandou novo convite. Ou seja, estava de olho em mim naquele momento.
Vive tentando forçar as coincidência. Sabe onde moro – se era amigo de meu namorado de outrora... – e me conhece há uns 20 anos. Caso perdido: mesmo eu demonstrando interesse em outro amigo em comum, numa situação social em que nos encontramos, ele volta ao mesmo ponto, declara com as mais bonitas e bem escolhidas palavras, o quanto quer ficar comigo.
Acho a esposa dele linda. O meu poeta também acha, mas ele nunca saberá dessa história. Até porque, sou feliz com quem estou, apesar de toda lisonja que eu pudesse obter da situação.
2) O outro caso é muito sintomático, também de gente que está na tocaia há uns anos, também dono de casa noturna.
Ele fez duas perguntas que, para mim, devolvem a resposta sem necessidade de minhas palavras: “Por que você nunca ficou comigo?” (e eu só disse ‘não sei’ porque fiquei constrangida); “Por que você nunca telefonou para mim?”. Bom, nunca fiquei por não querer ficar; nunca telefonei porque não tive o menor interesse. Nesse mesmo dia das perguntas, às cinco da manhã, ele me ligou. E como obteve o meu número? forçando a barra. 
3) Ex-aluno, ex-cunhado e ex-pretendente: esses se seguram em público, mas rastreiam fotos, meus passos, minha vida, perdem os olhos em cima de mim; terceirizam perguntas, examinam minha fisionomia, catam meus relacionamentos.
Não me orgulho de nada disso. Tenho pavor desse povo que quer a gente custe o que custar. Esses, que fariam qualquer coisa para ficar com a gente, me fazem ficar apavorada.
Demoram a ler ou não aceitam a interpretação de meu desinteresse. Costumo dizer ‘sim’ quando quero e ‘não’ ao que não quero. Decerto, hesito se houver situação em que caiba dúvida, mas não é esse o caso. Se eu quisesse, não adiaria o prazer de realizar o desejo. Mas, agora, desejo é paz.
Não vejo isso como vitórias para o ego. Vejo como problemas, como impeditivos para boas amizades. Só.


sábado, 8 de julho de 2017

Delitos do Corpo


Atendendo a pedidos, vou esclarecer duas coisas:
1)    Eu continuo admirando o corpo dos homens. Gosto deles. Gosto da anatomia e do cheiro, das texturas, das cores, das impressões táteis...Só não trato mais disso aqui no blog porque há outras pautas que tomam minha atenção. E acho que fiquei meio besta com um corpo, em particular, que me ocupa os olhos e os sentidos, apesar do belo vizinho que tenho, que corrompe minha imaginação.
2)    Eu não deixei de discutir questões femininas na vida real. É que me volto mais ao microcosmos imediato e às vezes ele me basta. Vou até fazer um adendo, porque é um caso particular bem vinculado ao geral: tenho uma amiga sexólatra. Ela não é sexólatra por falta de anteparo moral, mas porque é o meio de alívio das tensões e angústias. Tudo para ela é sexo. O maior remédio é sexo, para ela. Não obstante os infinitos parceiros, ela não sabe diferir o que é a lubrificação incolor, da excitação feminina, do muco cervical esbranquiçado, normal e comum da flora vaginal?
Achava eu que era uma questão baiana, porque na Bahia, qualquer coisa é considerada corrimento. Mas me espantou o fato de alguém tão experiente no sexo ter tamanha dúvida e se confundir no óbvio.
Por fim, nunca escondi eu preconceito linguístico, não de modo a subestimar ninguém nem depreciar as pessoas por isso, mas com vistas àqueles a quem eu pretensamente pegaria para namoro. Assim sendo, se um homem fala CLÍTORIS ao invés de CLITÓRIS, está clara a ignorância, não apenas pela falta de habilidade com a língua (no meu caso, sem trocadilho, porque não tenho essa preferência íntima), mas pelo despreparo com o corpo feminino.
Boa parte dos homens também não sabem suas próprias preferências e deixam que a indústria pornográfica molde seus gostos. Logo, não são naturais e confundem a quantificação e a alta rotatividade sexual em suas vidas, com experiência. Aí a coisa fica péssima, porque tomam por verdade o que é apenas fantasia massificada.
Deveriam gostar do corpo das mulheres, né? Não só das partes onde introduzem, mas dos cabelos, da pele, dos seios, dos cheiros, dos olhos, das cores...Incrível como a pessoa pode passar fome até diante de um banquete, se não sabe usar os talheres nem combinar os sabores...Felizes os que sabem degustar.

Sobre os lobos da vida real


Das coisas de que me arrependo nesta vida, foi de sido lerda, distraída, desavisada com o monte de gente falsa que trabalhou comigo.
Depois de um tempo, uma lembrança, um reencontro, uma reavaliação, um fio solto de uma situação passada finalmente encontrado, e as coisas começam a fazer sentido.
O comentário fora do ambiente do trabalho, a opinião dada durante o trajeto, a resposta dada com sinceridade com relação a um chefe, a um colega, a uma situação, tudo se mostra cooptado por gente cínica, interessada em contar um conto. Isso, fora os mentirosos e os que curtem distorcer o que foi dito para causar celeuma. Inocentes, pedem segredo a quem ouvir seus venenos...
Foi assim em Santo Estêvão, foi assim na UNEB, foi assim onde trabalhei depois, foi assim até mesmo com a amiga falsa que me ofereceu abrigo no começo de meu doutorado, apesar daquela voz interior me avisar para que eu não fosse lá, que eu não aceitasse.
Aproveito e lanço meu conselho: não se envolva, não chegue perto desse povo que se diz sensível ou deprimido. As coisas existem por uma razão de ser. Esses que se dizem sensíveis, são sensíveis no ego e na vaidade. Querem paparicos, vivem de seduzir pela ‘dor que deveras sentem’, são egoístas e invejosos, carregam as mágoas por suas disputas perdidas contra irmãos e familiares e não hesitam em usar sua pele de cordeiro para sair destruindo os outros. Para mim, esse é um negócio difícil de entender: como alguém faz o inferno alheio simplesmente por não gostar de outro alguém? Não gostar, ter antipatia...Ok, mas daí a inventar coisas, a puxar o tapete dos outros...Aff!
As falsidades provenientes das preferências entre amigos também me surpreendem: em disputas recentes no mundo do trabalho, uma outra amiga ocultou uma vaga, porque temia que sua preferida não passasse no pleito caso eu lá estivesse. Não fiz. Não sabia. A preferida dela passou.
Anteriormente, disputamos uma vaga como professora. Ambas perdemos. Na ocasião, ela, a amiga, me rechaçou, preferiu abrigar sua preferida. Não somos menos amigas por isso. Aprendi a não pedir nem partilhar nada de minha vida com ela, por reconhecer as limitações desse afeto e dessa amizade. Entendi que alguns amigos acham que dentre seus amigos, uns precisam mais de emprego do que o outro. Ela fez a escolha dela. Não vou ser falsa: a amizade continua, meu afeto também, mas não quero proximidade, intimidade real. Não pela preferência dela, pois que temos amigos mais amados mesmo: é que vi que superestimei a idoneidade moral dela. Mesmo agora, eu acho que se há uma vaga de concorrência pública, ela deve ser aberta mesmo. Quem quiser que concorra. Abafar para favorecer a pouca concorrência é tornar a disputa ilegal.
Da minha amizade desfeita, com uma outrora grande amiga, muito lamento também. Lamento os papéis que fiz, aceitando o inaceitável, e lamento meus olhos fechados para tanto egoísmo...
Cada vez que penso nas mediocridades com o carro dela, na falta de solicitude nos momentos em que a necessidade era minha, na parcialidade das opiniões, nas humilhações engolidas a bem da amizade, eu só falto cravar um punhal enferrujado contra meu coração, de arrependimento...E o que se tornou engraçado, mediante a distância, foi a percepção mais clara sobre a tendência que ela tinha em impor seus gostos, suas versões, suas preferências, nunca negociando nada! Nunca sendo concessiva. Fora a imagem de boa leitora, edificada sobre a falácia dos rodapés. Na verdade, a moça não leria nada, nem deve ter lido nada nos últimos 17 anos, porque não tem disposição para isso.
Tem a decepção, tem. Mas tem o alívio de não ter mais o convívio com esse tipo de gente. Posso morrer de fome, a pão e água; ou me refastelar em banquetes num castelo: esse povo aí não retorna à minha vida. Se souberem algo de mim, será mediante especulação e pesquisa, mas Deus me guarde e a distância se imponha, aleluia!
Eu não costumo ter filtro. O que eu acho, eu falo. Se eu tenho um problema com A, pergunto a A, resolvo com A, não passo a B ou C. Eis uma coisa que nenhum deles faria. Por que? Pra não correr o risco de ser ‘desamado’. Precisam parecer simpáticos e bons, justos e perfeitos, sensíveis e carentes, inofensivos e benevolentes...
Hoje em dia enxergo melhor. Aprendi a fechar as portas, a fechar a boca, a não ter a ilusão de que ninguém quer me fazer mal e que, se eu não mexo com ninguém, a recíproca é verdadeira.
Não. Eu sei que a cada dia tem uma torcida inteira de olhos bem abertos, querendo ver minha queda, procurando vestígios de hematomas pregressos, que há inveja e soberba e também me arrependo de não ter ouvido um outro poeta a esse respeito.

Não acho que devemos manter os inimigos por perto. Quero distância deles. Acho que os piores inimigos são esses aí, os ex-amigos, os ‘amigos pero no mucho”, aquelas pessoas a quem a gente dá a segunda chance e a reaproximação faz ver que são o que são (chatas, eternamente vítimas, coitadinhas de terceira classe, perseguidas, desprivilegiadas e injustiçadas). Deus me livre desse povo! Volto a lamentar o tempo que perdi sendo cega...