Louquética

Incontinência verbal

quinta-feira, 3 de março de 2022

Dando as cartas

 



Vejo algumas pessoas que se queixam de que a clientela do tarô se zanga e se revolta quando a leitura das cartas contradiz seus sonhos, seus planos, seus interesses. Entendo isso. Acho que quem recorre a oráculos está em busca de respostas e de clareza, mas que no fundo pagam para obter boas notícias e confirmações de suas premissas. Nem sempre isso vai ocorrer, aqui considerando crentes, charlatães e profissionais sérios do ramo – porque não me referi às cartomantes clássicas que agiam e agem mais por intuição e performance teatral, do que pelo poder intuitivo ou mediúnico. Mas, o preâmbulo não é para tratar de cartas, tarôs ou cartomantes e, sim, para os que reagem mal e de forma histriônica a conclusões, ilações e previsões que contrariam seus próprios interesses. É tipo essa gente que se revolta contra resultado de pesquisa eleitoral: desqualificam o instituto de pesquisa, caso o resultado não favoreça o candidato que ela profere. Pois, bem: a corrida eleitoral aqui no Estado da Bahia, seja por estatística, seja por leitura de contexto, desenha um cenário favorável à vitória de ACM Neto nas urnas. Eu não fico nem um pouco feliz por isso, todavia preciso encarar que a realidade projetada será essa, independentemente de meu gosto pessoal.

Ao colocar a análise na mesa, inclusive sublinhando que ACM Neto tem a seu favor o império das comunicações – herança de família, bem gerida, reprodutora da Globo, além de aparatos variados de marketing, dinheiro, estratégica e influência – as pessoas enlouquecem de revolta. Um aluno meu ficou estupefato. E eu achando engraçada a forma como as pessoas tratam o tema, como se fosse questão de torcida. E não é... Do outro lado, os bobos de sempre, defendendo que o resultado de eleições são sempre culpa das elites...Como se nós tivéssemos mesmo uma elite tão cheia de gente, uma parcela tão grande da sociedade tão cheia de dinheiro. Não: o povo vota com a elite porque se identifica com ela, com seus ideais, com seus sonhos.

Vendedores de lojas de grife se sentem ricos como seus próprios clientes; empregada doméstica de casa de profissional liberal, de empresário, se sente privilegiada, dá razão ao patrão, vota como ele vota porque é dali que vem seu emprego. Portanto, o pobre mesmo, o pobre raiz, louva o empresariado, porque acredita que um empresariado forte que tenha lucros pesados é o suficiente para garantir empregos e salários para as classes mais baixas. Posso apostar que pobre nem sabe que é pobre; da mesma forma que negros e pardos nem sabem que o são.

Pobre tem outros valores, ainda mais quando são vinculados a alguma instituição religiosa: querem mais é agenda moral, com vigilância de comportamentos sexuais e todo rigor da palavra bíblica. Isso importa mais que o pão ou o preço da gasolina! Acho que sociólogos de outrora devem ficar desolados com o perfil do povo brasileiro atual.

Em um ano sem carnaval, mas com futebol e eleição em lide, a cara que o Brasil vai mostrar em 2022, com ou sem pandemia, será uma máscara para  nunca mais a gente esquecer.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Hipnoses

 


Não sei como as pessoas, hoje em dia, não têm o menor escrúpulo de pegar o título “neurociência” para meter nas propostas mais abjetas, descabidas ou incongruentes. Há um processo de hipnose coletiva em curso, de que já tivemos exemplo paralelo quando se multiplicaram os empregos aleatórios de 'psico' qualquer coisa; ou o qualquer coisa "Quântico/Quântica". Certamente, isso concorre para atrair credibilidade, agregar valor científico a modas e picaretagens discursivas em geral.

Onde iremos parar com um rebanho de pretensos preparadores, que lançam mão de artimanhas de convencimento falsamente enaltecedoras de fracos, inseguros e de portadores de autoestima minúsculas? Esse povo que vende terreno na lua quer convencer às massas de que basta pensar da forma certa, que o Bem vem. O pensamento positivo, é aquele pensamento irresponsável que dá a entender que se você souber pedir, mentalizar, as coisas vão tomar corpo e se materializar em sua frente, e isso basta. Aí, quem não foi avisado acredita que há milagres e mágicas, que bons deuses se compadecem de quem pede com afinco. Seria bom se nossa vida se resolvesse somente com atitudes mentais. Não teríamos nenhuma responsabilidade e tudo estaria definitivamente resolvido sem o menor esforço. Assim são as propostas.

Por termos ego e precisarmos de reforços positivos, afagos, elogios, acreditamos que o autoconvencimento resolverá a vida. Não há processo que seja assim, porque tudo precisar ser bem elaborado. Logo, o domínio sobre uma situação (qualificação para o trabalho; coragem para encerrar um relacionamento; impetuosidade para aceitar propostas novas, etc.) passa pela lenta conscientização a respeito dela, como se fôssemos conhecer o objeto. Conhecer, pegar, medir, ver, pensar a respeito para distinguir e identificar, como se fôssemos crianças de cinco anos diante de uma caixa fechada. Às vezes, a caixa é a gente.

Então, conquistar coisas, alcançar metas, não é uma linha reta, não tem mapa, não tem receita, não tem tempo determinado. Tantas vezes, com planejamento e cronograma na cabeça, a gente se sente perdido? Quantas vezes o tempo nos faz duvidar da pertinência da decisão de outrora? Se nessas horas a gente lembrar que pode fazer as coisas diferentes, ótimo. Se a pessoa pode tomar outras decisões, ainda que não anulem as anteriores, eis um retrocesso que vale a pena.

Se seu casamento funcionou por 25 anos, mas ultimamente é puro tédio, não adianta aprender dança do ventre, nem tentar colar o que rasgou. Mas, se houver amor, ainda se pode negociar (negociar pode ser cada um morar em uma casa ou separar afeto e sexo, de modo a que cada um possa ter parceiros paralelos, se assim quiserem – há várias formas de amor e várias formas de amar); se seu emprego lhe causa náuseas, mas você fica ali porque acha que é o preço da estabilidade, você pode engolir os sapos e esperar a aposentadoria; mas você pode ir fazer outros concursos e cursos. Tem gente que diz: “imagine! Eu já vou fazer 40 anos! Se eu for começar algo agora, só me estabilizo com 50!’ – e perde de vista que terá 50 anos um dia, de todo modo, com o sem cursos novos, com ou sem concursos novos.

Dois momentos em que os seres humanos são frágeis: ao começar algo e para encerrar/concluir algo. É clássico, praticamente ninguém escapa. Porém, concluir é mais difícil que começar – quantos livros começados, que ficaram por ler? E os regimes? E os planos? E as decisões? “Deixa como está para ver como é que fica!”

Entre começos e fins, o fim das férias me traz uma melancolia diferente: não é porque interrompe meu relativo ócio, mas porque já sobrecarrega minha mente, que antecipa o peso das ocupações.

Trabalho porque preciso, mas nunca é apenas uma questão de sustento. Tem sempre mais. Tem sempre aquele peso do bem-estar, dos relacionamentos interpessoais, mesmo que essas pessoas não sejam tão ‘inter’ assim... Tem uma má relação com o tempo, que parece tomar o calendário todo, em semanas e meses. Porém, se tem algo que o trabalho faz é segurar questões existenciais mais densas – porque, afinal, não dá nem tempo para sofrer; e quando a gente quer mergulhar em si, para elaborar aquela questão profundamente, nunca consegue ficar sozinha, porque sempre aparece alguém grudando na gente. Em meu caso, tenho a dor adicional de precisar me meter num ônibus, viajar por três horas e ficar em contato com as vulnerabilidades e dissabores da trilha pelas rodovias; e a hospedagem, que seja como for, é um foco de perigos no meio de uma pandemia. Mas, é como se o ano estivesse começando agora, para mim: ajustado pelo calendário letivo; pelas imposições da vida prática, em um período que eu ainda não soube o que são férias no sentido lúdico. Trabalhar, então, passa a ter outro peso, diante do contexto em que estamos – não, não consigo achar normal; nem acredito em novo normal...e  será que ainda existe gente normal?


sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Doa a quem doer

 



 

Se você acha que comportamento abusivo dentro de um relacionamento  diz respeito apenas a situações injuriosas, humilhações, subestima, dominância psicológica, controle e retirada da autonomia financeira e outras situações mais explícitas, por favor, acrescente mais um item, porque quando uma pessoa coloca o sofrimento do Outro sob o rótulo de drama ou ridiculariza a dor de que esse Outro se queixa, manifesta, sim, uma conduta abusiva.

A dor de cada pessoa é a maior dor do mundo. Não interessa as causas. Dor não se mede por critérios objetivos. Costumamos até perguntar a alguém, por exemplo, se ‘depilação com cera, dói?” e obter como resposta que: “Sim, mas é uma dor suportável” ou dar dimensões metafóricas sobre dores. Faz parte da conduta humana dizer que dores de perdas, de lutos, são dores maiores que outras. Isso se volta ao critério de que há dores temporárias e outras que são reversíveis, especialmente as de cunho material. Em contrapartida, as dores existenciais ou a dor pela perda de um parente, tanto não têm cura, quanto não têm tamanho. Porém, são formas de falar. Qualquer dor é legítima se é reconhecida enquanto tal. Não se pode subestimar a dor do fim do primeiro amor de um adolescente; nem dizer que a dor de uma mulher é um drama.

Há quem grite de dor, assim como há quem silencie e viva sua dor calado, num canto. Há até quem transforme dor em canto (em poesia, em arte)...Mas, nem todo mundo é Fernando Pessoa; e cada pessoa precisa ser respeitada em sua dor.

Os amigos dizem logo: “Não sofra por uma pessoa dessas!” – já ouvi tanto isso! – e sabemos que esse imperativo, essa ordem, esse conselho, é um gesto de amor e solidariedade de quem gosta da gente.

Assim como não se pode determinar a quem iremos amar ou não, não podemos escolher que algo não vá doer. A dor não é opcional. A maneira de encarar a dor, sim. Gente madura emocionalmente sabe disso: quem não quer anestesia ou analgésico na hora da dor? Quem não reza para uma dor passar? A gente quer se livrar, mas sabe que a dor passará...E outras dores virão e também passarão.

E se a gente aprende o que faz doer e onde dói, estaremos prevenidos de despertar certas dores.

As falácias mais absurdas são tomadas como grandes verdades – citei essa aqui, sobre ‘a dor ser opcional’ e reitero o absurdo da outra, amplamente aceita, a de que ‘não se deve criar expectativas’. Ora, sem imaginação, sem expectativa; sem expectativa, sem esperança. Não dá para viver sem sonhos, sem transcender, sem ultrapassar o presente. A vida não é um filme de ação e aventura que a cada cena traz grandes novidades. A vida tem é muita repetição e tédio. E se a gente não puder nem sonhar, não ter sequer expectativas de que haja diferenças no amanhã, que a dor de hoje passe; que o amor de agora melhore; que ao estudo se sucedam boas oportunidades de emprego; que a cura venha, que algo melhore, como será viver? Não falo da positividade tóxica, que ignora a realidade ou coloca elementos mágicos em coisas que dependem de nossa condição de agente e coisas do tipo. Falo do crer, do querer, do esperar...


Onde é que dói na minha vida,

para que eu me sinta tão mal?

quem foi que me deixou ferida

de ferimento tão mortal? 

(Fragmento do poema de Cecília Meireles, "Rimance"


domingo, 9 de janeiro de 2022

Reeducação de financeira não é mágica

 


Vamos falar desse calo moral pessoal que é a Economia.

Você não precisa entender Teoria Econômica, nem saber sobre indexadores, nem sobre mais nada: economia, a gente ‘nasce sabendo’.

Podemos nos confundir com preço e com valor, com capital e com dinheiro, mas desde cedo a gente sabe o que é comprar e tem uma vaga ideia do que seja gasto, pagamento e dinheiro.

Saindo dessas abstrações de infância, vamos lá: desde que você possua alguma renda, mesmo que flutuante (ou seja, sem recebimentos fixos de um salário, um provento qualquer), ao colocar a mão em dinheiro é necessário ter o domínio sobre ele.

Difícil fazer as despesas caberem no dinheiro que se tem? Dificuldade que todo mundo tem.

Um grande amigo meu, que ganha bem, estava se queixando dolorosamente, isto é, sofrendo de verdade, por ter prestações de um empréstimo consignado, no valor de R$ 2.300,00 mensais, a serem pagos em 60 meses!

Se o empréstimo foi algo emergencial, imprescindível, necessário, não importa. Antes de contrair o empréstimo, deve-se avaliar o impacto financeiro da prestação. Este, entretanto, é um calabouço, porque a pessoa que divide tudo em prestações minúsculas e parcela no cartão, se afunda sem sentir, iludida pelo baixo impacto da prestação irrelevante. Mas, voltando ao meu amigo: propus a ele que se fosse conveniente quitar antecipadamente a dívida, ele deveria parar onde está. O exemplo que eu dou serve para qualquer ser humano atolado em dívidas – exceto com agiota, que aí, nem sua vida lhe pertence mais e essa, sim, é uma operação financeira de alto risco. Vamos lá: para parar o circuito do endividamento, primeiramente é necessário ter uma ideia sobre os gastos fixos.

A seguir, observar os gastos paralelos - que passam a não ter prioridade.

Os supérfluos todos precisam ser eliminados.

As coisas, os preços, aumentam mais que os seus ganhos. Logo, se você gasta 500 reais no supermercado mensalmente; no mês seguinte, com a inflação real, vai gastar de 550 a 600 para os mesmos itens. Portanto, não faça a loucura de substituir produtos: se você confia numa marca, sabe da qualidade e da rentabilidade da mercadoria, compre menos, compre um volume menor, mas saiba que de nada adianta usar um sabão em pó barato e que não lava; nem a comida barata que é sem sabor...isso vai levar não somente à insatisfação, como também a um gasto de mais produto ruim a fim de que ele dê o resultado do bom produto. Portanto, a Economia pode ir por aí.

Você tem carro? Ótimo! Você precisa mesmo usar seu carro para se deslocar por um quilômetro ou dois? Pense em desgaste de peças, estacionamento e trânsito e, se puder, vá a pé.

Não corte seu lazer. É tipo dieta: não precisa cortar, eliminar alimentos, basta diminuir a porção.

Há outros cuidados com a vida que podem ser adaptados, dosados. Cada um pense em suas respectivas realidades – isso inclui a parte fixa, tipo contas da casa.

O que sobrar, seja um real ou um milhão, deverá ser deixado sob reserva. Não precisa ser tudo: no primeiro mês, guarde aquilo que uma vez reservado não será sacado de modo algum. Pode não ser o melhor investimento, mas a poupança inicialmente ajuda muito. Depositou lá, esqueça!

Nos meses seguintes, force a barra e aumente o valor do depósito, seja quanto for.

Se lhe sobrar tempo, faça hora extra, serviço extra, seja o que for também. Inclusive, seu dinheiro de férias deve ser depositado, em pelo menos setenta e cinco por cento do valor líquido, em suas reservas.

A ideia é gastar menos e guardar mais, a longo prazo.

Não tire os prazeres de sua vida, mas tenha responsabilidade com seus ganhos e com seus gastos.

Vamos à outra parte da conversa com meu amigo, que também serve para qualquer um: depois de muita planilha com a vida, cálculos inclusive com os aumentos de salário que virão, caso ele realmente antecipe o pagamento do empréstimo, quitando tudo, dei aquele banho de água fria nele. Propus: se você pode pagar, ainda que sofrendo, uma prestação de R$ 2.300,00, agora você vai guardar R$ 1500,00 todo mês, no mínimo, por 36 meses. Aqui abriu-se o precedente para investir em ações mesmo, em lances pequenos. Meu amigo entendeu, mas ficou irado comigo, achando que não iria conseguir, que eu propunha um absurdo.

Conclusão: é preciso que cada um de nós tenha compromisso financeiro consigo mesmo. Se você paga uma instituição bancária, aprenda a pagar a si mesmo, guardando. No caso de meu amigo, a meta é ter o suficiente para dar entrada numa casa própria. Vejam bem: a pessoa se compromete por cinco anos com um banco, mas não se compromete consigo mesmo em guardar...

É treinamento, condicionamento, a recuperação financeira e a poupança. Ninguém reclama de existir reeducação alimentar, mas berra contra reeducação financeira.

Deixe seu dinheiro ganhar musculatura, não se meta em altos riscos; não gaste tudo o que tem e veja a diferença: ao incorporar o hábito de poupar, a gente fica mais seguro e mais tranquilo. Fica a dica!


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O tempo e o anteontem

 


Algumas pessoas têm pautado suas percepções de tempo em função da pandemia. Desta forma, não há um ano novo, um tempo diferente porque estamos mudando os dias no calendário sem, efetivamente, voltarmos à vida de sempre, à vida normal.

Faz muito tempo que a gente experimenta coisas assim, tipo quando nos sentimos na rotina com um relacionamento longo; ou quando enjoamos do trabalho, das repetições do cotidiano, das mesmices. Particularmente, já defendi e defendo de novo, a ideia de que o “Cotidiano” (música de Chico Buarque) reporta mais ao quanto a gente se sente seguro com a rotina do que, necessariamente, concebe a rotina como chatice. Mas, é claro que a gente não aguentaria um caminho reto o tempo inteiro, mesmo reclamando dos perigos das curvas, de aclives e declives que a estrada da vida precisa ter.

Eu me irmano totalmente com quem acha que estamos, neste momento, nesta data (04/01/2022) vivendo a Terceira Temporada, episódios iniciais, de 2020. O cronograma subjetivo parou logo após os dois primeiros meses de 2020 e, sendo bastante sincera, desde 31/12/2019 eu acho que sequer o tempo passou. Mundialmente foram muitas as tragédias. Isso as coletivas! As individuais não caberiam aqui.

Não durmo como antigamente, não me comporto socialmente como antigamente, não me desloco pela cidade como antigamente e esse antigamente significa: há dois anos.

As coisas boas que aconteceram ficaram tal como escreveu Clarice Lispector no conto sobre a Senhora Raposo, “mudos fogos de artifício”. Não dá para estar bem em um mundo que não está bem.

Pior seria sem vacinação, mas mesmo com a erradicação do vírus, eu digo que precisaríamos de uma ressocialização – para todo mundo: sãos, imunes, ex-contaminados, negacionistas, terraplanistas, delirantes, extremistas, crentes, ateus, agnósticos, todo mundo mesmo, do melhor aos pior indivíduo do planeta, porque teremos que repensar a forma de viver coletivamente, reaprender a relação com o outro e com o planeta – vi amigos meus que moravam sozinhos, em outro Estado, passarem a viver novamente em família, fazendo o percurso oposto ao da maioria, após anos de distanciamento familiar (ele morava em Pernambuco, a esposa e os filhos pequenos moravam aqui em Feira de Santana, na Bahia), passando a morar juntos, num caos em que as individualidades se chocam; a privacidade passa a ser questionável e o amor pautado pela saudade vem a enfrentar o desgaste da permanência das presenças.

Vi a relação com animais domésticos começar ou melhorar; vi gente se aproximando e se afastando; vi a vida sexual dos amigos (e a minha própria) mudar; vi o comportamento religioso mudar e também vi o desconforto de quem alegava falta de tempo para qualquer coisa, agora com tempo de sobra, se perder em anacronismos e ambivalências.

Para mim, foi um alívio o pretexto do distanciamento, para a esfera familiar. Confesso que não gosto de família exceto como visita esporádica, com data e hora para ir embora. No mais, cumpro rituais e invento mil desculpas para ficar sozinha, sem fazer nem receber visitas.

Saí poucas vezes a lazer. Não me sinto tranquila, não obstante a pandemia, porque não vejo gente alegre: vejo irresponsáveis, gente mal-educada ou depressivos querendo forçar a normalidade que não temos. O que eu quero dizer é que não há naturalidade, nem espontaneidade naqueles risos, naquelas festas, naquele cinema – e isso independe de protocolos sanitários.

A gente se deixa afetar porque o entorno social implica muito em nosso bem-estar, em nossa identidade, nas subjetividades – nas formas de amar, desejar, querer, ser, sentir, etc. E como não vi graça em sair no réveillon, não sairia de forma alguma, todavia cogito ir à praia num quinta-feira, fora dos dias de aglomeração presumível, para, pelo menos, me reconciliar com um lazer de que gosto: água e sol. Sei que vai demorar para minha paisagem interior mudar, sair do clima atual que nem é tão atual: como uma página de anteontem no livro da minha vida ou nos calendários de fim de mundo. Talvez eu viva, agora, o paradoxo da Legião Urbana: "Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou, mas tenho um outro tempo" e igualmente, "Não temos tempo a perder" e mesmo com todos esses versos, a música se chama Tempo perdido.

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Aquela breve visita

 


Não tenho frescuras existenciais de autoria. Logo, não escrevo melhor, nem escrevo mais quando atravesso processos de dor. Em contrapartida, se deixo de escrever é por falta de tempo mesmo.

Já escrevi de forma corrida, claro, mas era alguma ideia previamente amadurecida ou urgente demais. Mas, enfim, hoje vim escrever por estar feliz. A melhor felicidade que se pode ter: aquela que é gratuita, sem motivo aparente, que não se deve ao que se ganhou ou a nenhum tipo de compensação objetiva. Abraço a visita da felicidade, deixo que ela sente em minha sala e desejo que ela durma comigo – se ela veio, sabe do meu cansaço, do tempo em que levei a vida por demais a sério e, devo dizer, tive três semanas de trabalho intensivo; precisei pôr os pés em Salvador, após 23 meses sem ir lá; o que significou um estado de tensão, enfrentar a BR 324, dirigindo sob as condições já esperada, sozinha, no fim da madrugada. E assim o fiz, por duas vezes. Missão cumprida.

Encerrei minhas aulas e minhas cadernetas há pouco e finalmente acabou o semestre. Hora de arrumar a casa, poder ler um livro gratuitamente, no sentido de ler pelo lazer e pelo prazer.

Termino esse ano sem namorado. Tentamos e não deu: meu Rei de Espadas era muito infantil (a ponto de esconder a idade, quando não havia como ocultar seus cinquenta e tantos anos presumíveis pela cara e pelo currículo). Foi muito bom estar com ele, mas a estabilidade durou pouco. Ele precisava de uma mãe, tinha um Édipo ali que me cobrava coisas que eu não devia. Por um tempo, as neuroses dele eram amparadas pelos meus desejos, porque funcionavam, para mim, como um ganho secundário. Nossas conversas eram boas, nossas trocas eram boas...até que as trocas começaram a resultar em prejuízos, porque eu dava bem mais do que recebia...e um dia, vi a inadimplência afetiva e, então, terminei.

Terminei e nem acreditei que terminei porque, se tem algo que me surpreendeu em mim, em 2021, foi minha capacidade de encerrar, fechar portas, terminar e dizer ‘não’. E foi um terminar tão contundente, que deixei na casa do Rei de Espadas um livro imenso, importante, amado e caro e jamais voltaria atrás do livro, para não gerar qualquer pretexto de contato com a Majestade.

Excepcionalmente, desfiz minhas inscrições nos canais dele no youtube; desfiz a amizade no Facebook; bloqueei no whatsApp e se virtualmente a gente se esbarra mudamente, é por conta de um grupo de discussões políticas. Nunca fiz isso na vida. Nunca cortei ninguém assim. Contudo, dali não poderia sobrevir amizades, nem se reconstituir o contato, porque nosso contexto de término foi de extremo desrespeito dele por mim.

Até tal momento, eu não sabia qual era o meu limite. Sempre me achei emocionalmente frágil, parcimoniosa, aberta à negociação...Mas, quando me vi desrespeitada, concluí que nenhuma palavra promoveria a reparação moral a que eu faria jus; e instantaneamente, como num trauma imediato ou algo assim, houve um corte profundo em meus sentimentos. Foi um acabar sem lágrimas, embora não sem sofrimentos. Até que passou rápido, porque a elaboração e o processo de um luto é looping de altos e baixos constantes...mas, passou.

E, cito novamente, outro encerramento igualmente maravilhoso foi sair da Revista Científica onde Yves me explorava num serviço não-remunerado, em troca de supostos títulos acadêmicos que nunca viera. Trabalho de normatização e normalização (colocar a revista nas normas da ABNT), revisão ortográfica e textual; e emissão de eventuais pareceres. Tenho um currículo robusto, mas nossas atuações perdem validade nos baremas de universidades após transcorridos cinco anos. Então, isso explica certas escolhas. Na vida real, meu nome não é o que aparece no blog. Sou Mara, mas tenho um nome completo de que o Google e o Lattes se encarrega de mostrar ocorrências. Acho que aqui é um espaço gostoso por causa do relativo anonimato, porque quem vem cá, vem voluntariamente e minha censura interior é menor por isso. Eu seria uma Youtuber fracassada, porque não vejo graça em convocar seguidores. Aliás, falar para desconhecidos é até mais confortável, porque o tipo de julgamento é outro.

Bem, vou aproveitar o dia feliz, porque a felicidade é andarilha, passa rápido por onde anda – preciso recebe-la bem, porque desejo que ela volte sempre.

 


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

O que há de novo no ano que vem?

 


A vida nunca foi fácil e, desde sempre, enquanto seres humanos, tivemos problemas com o tempo. O tempo problemático e impreciso da duração de nossas vidas (Lembram de Fagner cantando Canteiros, com inserção do verso de Cecília Meireles: “E deixemos de coisa, e cuidemos da vida, pois se não chega a morte ou coisa parecida; e nos arrasta moço, sem ter visto a vida”?); o tempo enquanto o futuro, que desconhecemos completamente e apelamos a oráculos que, pelo menos nos sinalizem de modo genérico o que vem pela frente; apelamos às causa e efeitos, escolhendo a semente que plantamos, temendo a colheita e, pobres de nós, semeadores! Não sabemos se haverá temporal, seca ou pragas de gafanhotos; não sabemos se a semente vai vingar... Esses somos nós! E quando dominamos o tempo, vivendo, vivendo e sobrevivemos, ficamos tristes porque estamos velhos – e estar velho é o sintoma de muito viver.

Queremos também, que o tempo passe e as coisas se renovem. Fazemos rituais de passagem. A passagem temporal de 2020 para 2021 se fez acompanhar de um elemento novo e relativamente desconhecido, que foi a pandemia de COVID-19, que forçou a gente a questionar em todos os níveis, camadas, formatos e configurações, o tempo e a vida.

Eis que 2022 está logo ali. Não nos iludamos: no virar dos calendários, a vida seguirá sendo o que é, apenas agravada pela inflação e consequente miséria. Estaremos, talvez, vivos, se formos prudentes.

Em 2016, quando firmei minha relação com o Poeta, brinquei meu último carnaval, com a certeza de que ali acabava a festa para mim; que meu gosto mudou e minha procura também; que carnaval melhor que estar em paz com quem eu gosto ou curtindo outros prazeres é bem mais relevante que a festa. Brinquei muitos carnavais. O último foi maravilhoso, o melhor da década. O Carnaval ganhou outro sentido para mim, porque a ideia sempre foi me divertir com meus amigos, beijar gente, curtir praia e piscina, quebrar a rigidez da rotina bastante reta que eu tinha...

Na virada de 2020 para 2021, já era uma decisão minha não passar o réveillon na Praia do Forte, nem procurar badalações fora de casa. Eu já tinha isso em mente antes e a pandemia só precipitou as coisas.

Fácil dizer isso hoje, com tantos réveillons badalados no currículo. Mas, a verdade é que é muito esforço para pouco lucro: estradas cheias, praias cheias, restaurantes cheios e tudo caro; festas caras e nada divertidas – quando há festas, todas no mesmo padrão, com as chatices do axé baiano, alguma pérola do funk  e os desagradáveis chororôs sertanejo (universitário, pós-graduado ou analfabeto). Gosto muito da viagem posterior, as que acontecem depois do dia 02/01...aí, sim: liquidação e possibilidades de sol, hospedagens baratas, muitas rotas boas para seguir.

Dia primeiro de janeiro, as estradas estão cheias, as ruas estão vazias e fica difícil comprar comida...é a cara da ressaca!

Quero estar sozinha, em casa, no meu réveillon. Isso não precisa ser triste. Ano passado, chamei uma amiga para cá: péssima decisão. Ela chegou com sono, me fez sair para a farmácia 20 h e às 21h30, após comer sonolentamente a ceia especial e farta que fiz, dormiu e impediu que eu fizesse a festa, já com tudo arrumado e instalado no deck de minha casa – era uma festa para 03 pessoas, mas era uma festa.

Neste ano, a festa há de ser para dois. E não mais!

E para a manhã de primeiro de janeiro, vou ouvir o que ouço com alguma frequência: o U2, cantando New year's day