Louquética

Incontinência verbal

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Vencer na vida

 



Sou filha única. Não vivi certas competições entre irmãos, mas testemunhei muitas e vivi as minhas próprias, ainda que eu não me dispusesse a isso.

Prevalecem competições que dizem respeito à disputa pelo amor do pais – por sinal, a mais inválida e estúpida, porque os pais têm preferências mesmo. Hoje em dia, pais e mães já podem assumir com palavras o desamor que, outrora era desconfiado mediante atitudes – e as disputas internas, entre irmãos, para provar quem é o melhor, quem está melhor, quem tem mais, quem ganha mais são regra. O exemplo bíblico de Caim e Abel é mera ilustração.

Um colega meu de curso de graduação assumiu que na mesa da ceia do Natal, a pauta era sempre essa, a de quem tinha o melhor emprego.

Meus ex-namorados viveram a mesma disputa, inclusive com a participação ativa do pai, que não tinha postura apassivadora. Ao contrário, exercia tirânica função comparativa, parcial, tendenciosa, injusta.

Não há a menor necessidade disso. Eles já se invejam, já concorrem, já disputam. Fora da família a gente já faz nossa parte: faz comparações, presume as relações, criticando como pode uma irmã ser tão bonita em detrimento da outra; ou de um irmão ser exemplar, bem-sucedido em relação a outro; de quem fez bom casamento e quem se deu mal. E toda família tem seus desníveis.

Acho tudo muito cruel. Já basta o mundo, a ensinar que todos somos concorrentes ou adversários – é uma desleitura malévola da irmandade, da fraternidade, dos princípios básicos da afabilidade. Talvez, por eu ser professora, vejo com concessão a concorrência por notas, porque joga os alunos para frente, para além, tem efeito construtivo. Enquanto crianças, pelo menos e até à adolescência. Já para adultos de universidade, fica uma coisa estranha e arrogante – decerto, acho bom que os alunos se cuidem para manter respaldo de bons estudantes.

Fora dessas circunstâncias, a gente sabe que vencer na vida é, às vezes, vencer à própria família, às toxicidades de convívios ruins...Se eu for, por exemplo, colocar isso em minha situação particular, vou concluir que para meu pai, não venci na vida, porque não quis continuar a ser militar. O critério de triunfo, para ele, é esse: ser militar, ter poder de polícia. Para mim, que pude prescindir e exercer uma escolha consciente, sou vencedora porque fiz à minha própria vontade – e venci por ter feito meus cursos, lido meus livros, feito minhas viagens; ter feito minha vontade e não me dobrar às determinações coletivas de ser mãe (eu nunca desejei); às tantas imposições...E terá quem ache o contrário. Na minha concepção, vencer a si mesmo, vencer medos e desafios interiores; pagar preços por uma escolha, é vencer na vida.

Mas, vencer é vencer quem? Quem é o adversário? Na acepção comum, vencer na vida é ter dinheiro, poder e fama; é ter carro e casa; emprego fixo bem remunerado; coisas similares entram neste rol...Ora, que desafio é maior do que o de não se prontificar a entrar neste embate? Que venham troféus, medalhas, prêmios, porque é preciso ter certas coisas para sobreviver com dignidade, mas o que define vencer na vida não são essas coisas externas que, aliás, são consequência. Se, entretanto, a unidade de medida de nossos valores, das nossas batalhas, forem contabilizados de maneira distorcida, seremos sempre desqualificados e desclassificados por quem não sabe o que está em disputa e qual o ganho que nos interessa. Vence na vida quem larga o casamento estável mas infeliz; quem abre mão de algum dinheiro em troca da paz; quem opta pelo menos e pelo menor, para priorizar ganhos secundários que lhe sejam mais importantes...São julgamentos particulares, questões particulares e específicas. Cada um que avalie melhor o que deseja para si.

Bem disseram Los Hermanos, em O vencedor:

"Eu que já não quero mais
Ser um vencedor
Levo a vida devagar
Pra não faltar amor..."

 


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Lar e vidas

 


Conversávamos sobre organização e limpeza da casa; e do quanto, ainda que chateadas, gostávamos de deixar a pia limpa antes de dormir, quando a minha amiga disse, como quem discute tipos de xampú: “olha, eu nunca deixo pratos sujo na pia antes de dormir! Nunca! Lembro de que minha tia e eu tivemos que lavar os pratos na cozinha cheia de sangue, de manhã, com a Polícia Civil entrando e saindo, porque o marido de minha outra tia assassinou ela. Os pratos ficaram lá; e a gente tendo que lavar prato no meio do sangue, no outro dia. Depois disso, nunca mais deixo pratos sujos para o outro dia”.

É preciso entender que ela não banalizou o drama: a cabeça da então garota de 09 anos só conseguiu registrar isso como associação, isto é, a tragédia e a sujeira no lar.

O sangue derramado da mulher no lar, literalmente, foi metaforizado para driblar o trauma. É o que a mente pode fazer para se proteger. Dá muita piedade ver o que há sob a narrativa dela, que parece conto de Rubem Fonseca, mas não foi ficção.

São formas, também, de reduzir o impacto do trauma. A lembrança que fica é uma forma de desviar da causa maior, das dores, de um contexto extremamente pesado e violento. Imaginem isso para uma criança.

Aprendemos formas de falar, eufemismos para desviar de dramas. Para alguns, por exemplo, estupro é apenas quando há violência física e penetração. Por outro lado, vejo certa inadequação em expressões como abuso sexual e molestar sexualmente alguém. Acho pouco para o tamanho da violência. Todavia, numa sociedade de base patriarcal, como a nossa, em que sexo foi concebido como ‘obrigação matrimonial’ da mulher, não é de se estranhar.

Vamos ao segundo ato do mesmo drama: minha costureira é uma mulher ímpar. Primeiro, porque ela é rica, tem dinheiro e é dinheiro dela, do trabalho dela – tem um filho igualmente rico, que a cobre de mimos absurdos do mundo da ostentação, tipo uma televisão maior do que a parede. Ela continua sendo costureira porque quer e gosta.

Dentro dessa ‘imparidade’, acrescento que ela mora num condomínio luxuoso, ricamente decorado, mas vem para o ateliê simples (simples é sem luxos ou nada equivalente), que fica perto de minha casa. Geralmente, ela faz reparos e consertos, não necessariamente todo o processo de corte e costura de roupas.

Em conversas nossas de muito tempo descobri que o ateliê é um pretexto para não estar em casa, não somente em vida ociosa, mas à disposição de um marido que viu nela uma serviçal a quem pode requisitar pratos, dar ordens e controlar. Dito assim nem parece nada demais. Porém, ela (agora mais que antes) falou comigo sobre o quanto se sente anulada, menosprezada, ferida por ele. Queixou-se do desdém, da má vontade, da falta de mínimo carinho que se tem até por bichos domésticos e, se aqui poupo palavras é para encurtar a profusão de dores descritas e sofridas por ela.

É com o ateliê, desaprovado por ele, que ela consegue escapar parcialmente do duro convívio e do script de vida que seria ditado por ele.

Há pessoas que não têm a mínima ideia do que seja ser mulher, do que seja existir...há os que não sabem nada sobre a vida no lar; e há muitos e muitas que julgam que em determinada idade e tempo, as mulheres só aspiram à morte, não querem nada de seus casamentos, não sonham além das paredes do lar – e lar com dinheiro é tudo para muitos.

Admito que me solidarizo tristemente com ambas e com as muitas que aqui não citei – os meus relatos biográficos de coisas similares estão aí, em outros textos deste blog.

Onde terá sido fácil ser mulher?

 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

José e outras paixões

 




Precisei atender à generosa convocação para uma publicação de artigo. Devido à exiguidade do prazo, achei que deveria me valer de algo já escrito e nunca publicado, a fim de poupar tempo e esforços.

Eis-me diante da criticidade que o tempo impõe: abri o velho artigo escrito. Gostei do que li, mas entendi que o romance que dava corpo à minha análise não trazia substrato para despertar interesses. Era um bom livro, de conhecido autor latino-americano, mas um tanto quanto restritivo, daquelas leituras para poucos, para públicos específicos, com tema desgastado, apesar de continuar na moda. Então, desisti e resolvi começar do zero.

Começar do zero, para mim, significou ler novamente um outro livro. Li com muito gosto. Adorei ler. Foi trabalhoso e consumiu tempo, mas me deu um extremo prazer, porque amo Rubem Fonseca.

O romance José, escrito por Rubem Fonseca em 2011, compõe-se de um exercício de memória articulado na ficcionalização da narrativa. Desta forma, há um pretenso relato biográfico, que mescla fatos históricos, pessoais e culturais, às multiplicidades de artimanhas da verossimilhança, traçando um instigante jogo no plano das fronteiras entre estas partes.

Olha, a quem acha que deve trabalhar com aquilo que gosta, eu só posso dizer: se você puder, faça isso mesmo. Nada melhor. Até o sacrifício de começar tudo de novo e o gasto de compor cada parte, cada análise, de sair catando referências, de formatar páginas, etc., tudo vale a pena.

Se fosse em um outro contexto, em que eu precisasse seguir cartilhas para conquistar uma vaga, um lugar, eu poderia ceder ao meu objetivo e ‘casar por interesse’, mas se posso me valer da espontaneidade de minhas escolhas, lá vou eu, recomeçando a escrita, recalculando a rota. Acho que eu me devia isso: escrever sobre o livro de Rubem Fonseca e, depois, escrever sobre A insustentável leveza do ser, que é o livro da minha vida, o livro primeiro dentre todos os livros, aquele que é paixão de leitura e deslumbramento narrativo. Mas, deste último, sempre começo a escrever e largo, porque sou instada a fazer coisas obrigatórias que me tiram da rota.

Devo dizer que o livro de Rubem Fonseca, José (2011), foi o livro mais bonito que eu li em uma década. Não sei traduzir minha impressão com outro adjetivo, porque todos seriam pouco. Um livro apaixonante, lindo, surpreendente para quem já leu muito as obras de Fonseca...Para mim, valeu o trabalhoso retorno à elaboração do artigo. Fica a minha dica: escreva sobre obras que tenham respaldo afetivo para você. Livro é boa companhia, precisa ser um livro amigo, amado.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Outros ritmos

 


Faz um tempo que deixei de escrever no blog com os ranços de minha profissão e de minha área principal de formação. Continuo com o mesmo encantamento – tão óbvio, se escrevo aqui, se vivo entre livros, se persigo narrativas alheias, com os ouvidos mais atentos deste planeta!

Mas, andei me cansando do meio, dos egos-pequeno-inflado de conhecidos e desconhecidos mais próximos, em seus alvoroços descuidados de poemas que não acabam na hora certa e se esticam cansativos, pondo a perder seu melhor aspecto. Vá você dizer a tais pessoas que Camões  era Camões e que a ele foi dada a licença para exercer sua competente criação de épico! É muito ego e muitas letras em jogo...

Às vezes passo pano, às vezes faço um silêncio decepcionado, porque sou instada a me manifestar e não dá para explicar certas coisas quando o interlocutor é míope para enxergar a si mesmo. Eu sei que humanamente somos assim, mas quem vive das palavras precisa fazer duros exercícios de olhares distanciados, críticas, adaptações, observações de imagem, tempo, sentido, sonoridade....

Lembrei de uns parentes ignorantes, estúpidos e toscos, que falavam acerca dos sotaques baianos, com menosprezo e pretensa superioridade análogos aos que testemunho em posturas e pareceres das pessoas anteriormente referidas, que escrevem longamente loucuras que rimam, mas querem ser louvadas e idolatradas. Para ambos os grupos, parece não haver a compreensão do que seja ritmo – sim, a fala, toda fala é musicada, é ritmo...todo mundo tem sotaque, que é a musicalidade da fala; as palavras têm ritmo, têm e são musicadas; e um criador de conteúdo literário que desconhece o ritmo, põe a perder as palavras. 

Agindo como professora, rogo a uma afirmação de Octavio Paz (2006, p.11):


O ritmo não só é o elemento mais antigo e permanente da linguagem, como ainda não é difícil que seja anterior à própria fala.

Em certo sentido, pode-se dizer que a linguagem nasce do ritmo ou, pelo menos, que todo ritmo implica ou prefigura uma linguagem. Assim, todas as expressões verbais são ritmos, sem exclusão das formas mais abstratas ou didáticas da prosa. (PAZ, 2006, p.11) .


                                                                                                                                            


sábado, 1 de maio de 2021

Sob controle

 


As pautas sobre o corpo geralmente giram em torno do direito pleno do indivíduo a ele. Isso significa o controle que recai majoritariamente sobre o corpo das mulheres, desde a reprodução até às formas de apresentação pessoal, nas várias culturas, determinando as vestes, o tamanho das unhas e a cor com que pintá-las, o tamanho e a forma dos cabelos e até os bem intencionados do Youtube gastam seu tempo para criar vídeos sobre o que usar aos 40, 50, 60...

E, sim, há plateias para tudo isso. E sabe por que? Porque as mulheres não querem se sentir ridículas, anacrônicas, sem noção...E, de fato, se propõem a aprender a como se comportar e a o que usar, que estejam em conformidade com aquilo que se espera delas. Isso também significa que não sabemos ter as idades que temos e que teremos, porque a verdade é apenas que o tempo passa, prossegue...E daqui a pouco a gente se toca sobre a idade que tem, embora o corpo não corresponda aos estereótipos etários. Era para aos 30, sermos balzaquianas (lembram da obra de H. Balzac, “A mulher de 30 anos”?).

Dá para entender: nossas avós e muitas de nossas tias, casavam até os 15 anos. Com 20, já tinham uns 3 filhos...os desgastes com a vida doméstica e familiar, o contexto social diferente e ainda mais endurecido moralmente, os poucos recursos da indústria da estética e tantos fatores que não caberia enumerar agora, faziam as mulheres se transformarem em senhoras muito cedo. A expectativa de vida também, sob essas questões, ajudava a firmar o citado estereótipo (isso inclui uma pluralidade de aspectos positivos e negativos, como os de ordem sanitária, as políticas de saúde pública, os avanços na Medicina, índices de violência contra as mulheres, etc.).

Uma mulher pode se sentir bem consigo mesmo em roupas de qualquer tipo, tamanho, cor...se essa for a escolha dela. Como sociedade, passamos muito por cima das liberdades individuais. Roupa certa é aquela com que você se sente bem. Nos casos determinados, em que há formalidade, roupa certa é a que esteja condizente com a ocasião, porque os ritos sociais têm esse precedente – biquíni para a praia; vestido para o casamento; traje a rigor em contexto específico...

Mas, o que mais me afeta é mesmo o controle sobre os nossos cabelos. Poxa, não se pode envelhecer e querer usar franja; não se pode ser negra e ter cabelos loiros; não se pode querer ter o cabelo em conformidade com a vontade da dona, jamais. A vigilância social exige e decreta o permitido e o vetado. E ninguém quer se sentir ridículo. Vigio muito a minha tia, de 76 anos, que tem lindos cabelos loiro médio, longos: hoje ela se sente muito bem por poder ter o cabelo de acordo com a vontade própria, com a escolha própria, valendo-se de versatilidade nas escolhas de penteados e apresentação pessoal.

Cabelo bonito é cabelo bem cuidado. Pontas duplas, manchas de tintura, ressecamento, aspecto sujo, é tudo que se pode evitar. O resto é censura.

Até uns 10 a 12 anos, essa mesma tia minha, só usava calça, para esconder as varizes. Descobriu, depois de muito tempo, que os vestidos são confortáveis e podem servir ao mesmo propósito de ocultar as varizes que tanto a entristecem...Criativamente, combina peças e acessórios e, o que é melhor, parece bem feliz hoje em dia, como se tivesse alcançado a independência.

Tem isso também de vigiar o que as mulheres calçam...esqueci completamente, mas sei que rende outra pauta.

Eu, por exemplo, não uso sapatos crock, porque acho feio, horrendo. Não visto body nem macacão: em mim, acho horrível, ridículo...em mim! Acho que não combina comigo, não necessariamente pelo corpo, mas pela pessoa. Já calça sarouel, eu não gosto mesmo, do pleno direito de não gostar e achar feio, pois me passa a impressão de que a pessoa está de fraldas ou sofrendo de varicocele. São minhas escolhas, minhas impressões, voltadas à minha vida. 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Com as vestes que viestes


 

Muitas são as identidades que nos atravessam, por isso não me prendo à postura glamourizante de minha formação acadêmica.

Acho que posso ficar discutindo coisas e temas que realmente gosto, diretamente ligados à minha formação, como a representação literária e narrativa; e também brincar com os temas de meu tempo.

Em meu tempo de formação e mesmo agora, já consolidada minha experiência no Ensino Superior, as pessoas esperam certos estereótipos. Já se foi o tempo em que o intelectual respeitado precisava ser básico ou desleixado, porque o cuidar da aparência era futilidade, era marca de aburguesamento.

Nos cursos de pós-graduação, sim, segue valendo: quem pesquisa cultura popular precisa adotar um visual mais Bráulio Bessa, algo mais Mercado de Arte Popular, sem dispensar chapéus ou sandálias de couro, que é para dar mais credibilidade a si mesmo; quem pesquisa África ou temas étnicos ou correlatos, precisa usar batas, uns dreadlocks, uns cabelos temáticos (sim, é ironia minha, mas acontece com frequência), assim como o público de Bacharelados Interdisciplinares em Humanas precisam ostentar tatuagens e indumentárias de religiosidade identificável, tanto quanto os de Direito precisam de ternos; e os de Saúde, de roupas branca.

É claro que eu estou rindo, bem mais da realidade palpável do que de minha ironia. Isto porque acho engraçado as pessoas estranharem que professor possa, queira ou goste de andar arrumado. O tema voltou aqui porque exatamente um colega professor, de Direito, brincou com um meme que trazia um gato todo desgrenhado na hora da aula quando a transmissão era apenas por áudio; e todo penteadinho e arrumado, quando a aula era com vídeo e áudio. Ele retrucou, disse que eu era constantemente arrumadinha; e depois admitiu que ele também era. A gente riu muito porque, no fim das contas, é claro que a aparência é um texto lido pelos outros em conformidade com parâmetros determinados; mas como as pessoas depositam nisso suas leituras sobre quem é humilde, quem é metido, quem é convencido e etc.

Diminui a credibilidade intelectual se você é arrumado, se é bem-humorado, se esboça simplicidade em alguns outros gostos – fica aquilo, do preconceito, de que intelectual não tem tempo para cuidar do exterior; que a aparência é algo supérfluo; que mulher bonita ou arrumada só pode ser fútil...

Prossigo achando engraçado. E, mal comparado, até no supermercado, eu não escolheria uma embalagem amassada, danificada. Escolheria um item simples e higiênico, desde que qualificado, mas antes de tudo, escolheria por rótulo, conteúdo e qualidade. 

Analogia desproporcional? Talvez, mas não injusta.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Todos os tempos do ser

 


E vamos nós ao quarto mês do ano, abril, mês de meu aniversário e, por isso, bastante especial para mim.

Creio que quando a gente ama a si mesmo tende a ser percebido como um ser humano convencido ou arrogante, mas me importo pouco com isso. Aceito o tempo, apesar de saber que nunca mais seremos os mesmos, embora, por outro lado, tudo seguirá sendo igual, porque numa pandemia não há muitas variações, a vida segue plana. As chances das boas coincidências diminuem, porque saímos pouco, não desfrutamos das festas, das recreações ou situações coletivas que favorecem contatos, trocas ou descobertas.

Ano passado, meu aniversário foi no domingo de Páscoa e a pandemia era uma novidade assustadora e desconhecida. Assim, foi muito triste, sem bolo e sem abraços o meu domingo de aniversário. 

Já estou em festa. Por dentro, o coração sente o júbilo de ter sobrevivido até aqui, ter escapado a muitos abismos, a algumas tristezas, a algumas hesitações...

O tempo ajuda a julgar as coisas e a localizar as águas que nunca mais beberemos e os lugares onde jamais voltaremos e, entre nunca e jamais, a certeza que o correr dos anos nos dá de que "o passado é uma roupa que já não nos serve mais", conforme Belchior cantava.

Tudo que foi bom, virou saudade. Junto a ela, traumas, dores, alegrias, descobertas, vitórias, escolhas...E sigamos a novos capítulos. 

Há uma música de Ivan Lins que remete muito ao perfil das arianas, a música Dandara:

Ela tem nome de mulher guerreira
E se veste de um jeito que só ela
Ela vive entre o aqui e o alheio
As meninas não gostam muito dela

Ela tem um tribal no tornozelo
E na nuca adormece uma serpente
O que faz ela ser quase um segredo
É ser ela assim, tão transparente

Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar
Dandara

Ela faz mechas claras no cabelo
E caminha na areia pelo raso
Eu procuro saber os seus roteiros
Pra fingir que a encontro por acaso

Ela fala num celular vermelho
Com amigos e com seu namorado
Ela tem perto dela o mundo inteiro
E à volta outro mundo, admirado

Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar
Dandara