
Tomar decisões sempre levanta nossas suspeitas acerca do que estamos perdendo, do que poderá acontecer, sobre que preços pagaremos, do que iremos ganhar... eu preferia tomar um copo de conhaque a ter que tomar umas decisões mais sérias, mas já que eu não bebo mesmo, foi a seco e sobriamente que me decidi.
Acho terrível quem esfrega na cara dos outros alguma decisão, mas volta atrás em poucos minutos. Por isso cozinho um pouco tudo que tenho a decidir – claro, também lamento que optar por um é perder o outro. Mas, está feito e eu não estava me referindo a relacionamentos, não.
E por falar em relacionamento, estavam me perguntando uma dessas verdades construídas pela banalidade, mas que nem por isso são menos valiosas, e assim enunciaram diante desta minha cara de louca: “Se as coisas são feitas para serem usadas e as pessoas para serem amadas, por que será que amamos as coisas e usamos as pessoas?”.
Não economizei na objetividade e respondi: “Por que somos vaidosos e escrotos!”
Para quê eu iria procurar filosofia se a resposta mais crua e grossa era também a mais verdadeira?
Todo dia eu estou aqui falando naqueles que usam os outros como instrumentos de sua vaidade, como adereço para o seu ego, criando correntes de dependência emocional, lançando suas chantagens, oferecendo suas preciosas migalhas, deixando as pessoas em stand by, fazendo o jogo da vaidade...ainda não entendi porque não se pode falar sobre coisas que todo mundo sabe que existe.
Também hoje à tarde Tati me informou da decisão dela: para mim, uma pena! É que havíamos combinado fazer um concurso juntas. Ela estava desanimada – e eu, então, não quero conta com o concurso em termos reais – mas eu fiquei incentivando porque acredito que é bom ter opção.
À medida que você é aprovado, eis uma alternativa. Depois de aprovado em alguns concursos, podemos fazer escolhas e não estarmos na posição de reféns.
Mas é extremamente desgastante um concurso no Magistério Superior: na inscrição tem que ter currículo pronto e atualizado, com a comprovação de todas as xérox de certificados e etc. devidamente autenticados, na ordem determinada pela "X " instituição, além de memorial e do pagamento de taxas absurdas, em torno dos 150 reais.
Aí vêm as provas: prova escrita chatésima; aula pública cansativa; defesa de memorial enfadonha e muita, muita paciência para vencer cada uma dessas etapas ao longo de uma semana de mergulho nessa rotina.
O concurso que eu quero, no lugar em que eu quero, na disciplina em que eu quero,eu já passei. Mas quem faz concurso sabe que não tem a mínima garantia: friso bem a parte dos editais que dizem que a aprovação no concurso gera apenas a expectativa de preenchimento da vaga.
Pior é na convocação: mil exames, mil comprovantes – dos quais estar em dia com o erário público – mil documentos, mil exigências e muita, muita espera porque aí são outras etapas: homologação dos resultados; publicação no Diário Oficial da União; Convocação, nomeação e posse. Quem não se desgastaria? Por isso Tati me disse: “Não! Não vou. Sinto muito!”.
Como nem sempre faço o que eu quero, mas o que eu preciso, sublimei o meu querer.
E quanto à tese, escrevi dois parágrafos no final desta tarde e me dou por muito feliz: cheguei em casa às cinco da manhã, após meu último dia de aula na UNEB, dormi pouco porque a igreja de crentes que fica no fundo de minha casa estava em ensaio da banda; comi sem apetite, apesar do almoço estar delicioso e fiquei num infinito blábláblá ao telefone com a minha amiga Tati, por um bom tempo. Diante disso tudo, eu nem esperava ter raciocínio para nada, muito menos para escrever.
Remoí as minhas decisões – elas, que não têm nada de novo, mas eu esperava de mim mesma uma outra opinião, uma mudança, sei lá... mas, sim, confirmei hoje a decisão de dois anos atrás – e acho que vou ficar ruminando o preço a pagar, ou melhor, o que deixarei de ganhar... de fato, não perco. Perdida eu estaria se não soubesse que rumo tomar nas tantas estradas que se bifurcam à minha frente.